Blackbirds - Interativa

2 Helena Galian, Castiel Dezessete e Daniel Larsson


Notas iniciais
Desculpem a demora, eu estive doente mas escrevi um capítulo (bem) comprido, então espero que esteja perdoada. Bem, aqui vamos mostrar os personagens da Cupcake, Monarca e Chosokabe. Os próximos são Mariah Helena Blackmoon, Destiny Ashford e Nathan Volkov. Até lá embaixo.

– Helena, vamos de uma vez, preciso te levar para a escola. – Ágata chamou a filha.

Helena, mais conhecida como Nutella, apenas suspirou. Tecnicamente ela poderia ir a pé para a escola, mas a mãe insistia em levá-la, muitas vezes a deixando sem graça.

– Eu posso ir sozinha mãe. – Ela disse.

– Nós já conversamos sobre isso, filha. – Ágata apareceu na porta do quarto da filha.

– Não, não conversamos. Você disse e eu tive que aceitar. – Helena respondeu, colocando um caderno na mochila. – Quando é que eu vou viver minha vida? Mãe, eu vou fazer 20 anos. Eu quero ter minha própria casa, fazer a faculdade que eu quero e trabalhar direito.

Ela não virou para trás enquanto falava, mas se virasse veria a mãe com pesar nos olhos. Tudo que Ágata queria era que a filha ficasse em segurança, e ela sabia que chegaria o dia em que Helena iria querer fazer suas próprias escolhas. Tentando ignorar isso, ela simplesmente disse:

– Só vamos de uma vez, sim?

Ágata colocou a mochila nas costas e saiu do quarto, passando pela mãe sem dizer uma palavra. Ágata tentou entender o lado da filha para não se magoar. Mas Helena tinha razão. Já fazia muito tempo que elas fugiam de algo que nem Ágata conhecia muito bem. A única coisa que sabia era que perdera o marido e o filho mais velho para quem quer que fosse. Naquela época foi tomada por uma tristeza que se tornou obsessão por querer a filha segura depois de ler o diário do marido onde contava suas aventuras com o grupo “Blackbirds”. Ágata ficara apavorada, pegara a filha e começou a fugir. De acordo com o diário, eles tentavam proteger alguma coisa de pessoas que queriam matá-los, e parecia tudo tão sério e horrível que Ágata tinha certeza absoluta que foi por causa deles que seu marido e filho estavam mortos.

Assim que a filha deixou o apartamento, Ágata pegou a bolsa e sentiu um estranho calafrio. Ela olhou para o cenário familiar do pequeno apartamento no Brooklyn e sentiu como se estivesse sendo observada. Ela andou até a janela e olhou para a rua lá embaixo. Algo lhe chamou a atenção. Um homem de aproximadamente 40 anos com um tapa-olho e cabelos loiros bagunçados estava estranhamente usando um enorme casaco parado em um beco. Ele segurava uma bolsa definitivamente grande e pontuda, como se o que estivesse lá dentro fosse um violino. Ágata pensou que poderia não ser nada, mas assim que o homem desceu o olhar para o carro de Ágata em que Helena estava entrando, ela percebeu que havia chegado a hora. Quando o homem se preparava para atravessar a rua em direção a Helena, Ágata se recuperou do choque e correu como nunca. Desceu a escadaria até o hall e dali foi o mais rápido que podia até o carro. Felizmente, Helena estava sentada no banco do passageiro esperando a mãe enquanto mexia no celular. Ágata sentiu o alívio, mas logo isso mudou quando o homem que estava observando bateu no vidro do carro do lado do motorista, chamando a atenção de Helena que já estava abrindo o vidro.

– O senhor pode fazer o favor de deixar a minha filha? – Ágata chegou, se intrometendo entre o homem e Helena.

– Mãe! – Helena ficou perplexa com a atitude de Ágata.

– Quer ir embora, senhor? – Ágata ignorou a filha. O homem deu um sorriso, o que deixou seu rosto ainda pior, a enorme cicatriz se curvando.

– Claro, senhora Galian. – Ele disse. O jeito que ele pronunciou o nome dela dizia tudo. Então era ele mesmo. Era dele que seu marido Artur falava no diário. O traidor.

– Nicholas Peters. – Ela murmurou.

– E você é a esposa do velho Artur. – Nicholas sussurrou. – Seu nome foi a última coisa que ele disse, sabia?

Ágata se encolheu. Ela colocou a mão na bolsa lentamente para que o homem não percebesse. Ela tirou dali uma pequena arma, nada comparada a que Nicholas carregava. Ela pegou o revólver e apontou para Nicholas, que pareceu surpreso. As pessoas ao redor ao verem a arma em sua mão começaram a gritar e a fugir. Helena dentro do carro ficou paralisada.

Aproveitando a distração momentânea, ela entrou no carro e deu a partida rapidamente.

– Mãe, isso é uma arma? – Helena perguntou, em choque.

– Não tenho tempo para explicar. – Ágata disse. – Precisamos despistar Nicholas antes que...

Ela não pôde terminar a frase. Algo explodiu o porta-malas, lançando o carro de ponta cabeça. O teto do carro deslizou pela estrada criando fagulhas e levando qualquer outro carro que estivesse na rodovia. Helena que estava com o cinto de segurança sentiu a cabeça rodando e o cérebro deu uma guinada. Ela apagou na mesma hora. Quando acordou poucos minutos haviam passado. Ela sentiu o rosto cortado pelos cacos do vidro e seu corpo inteiro doía. Sua audição estava péssima e com grande dificuldade ela pôde erguer a cabeça. As cores pareciam ter se fundido. Pés passavam ao lado do carro, em caos. A traseira de um carro era o que ela podia ver se olhasse para frente. A única saída era a janela ao seu lado.

– Mãe? – Ela chamou. Ágata não respondeu. – Mãe!

Com ainda mais dificuldade ela virou a cabeça para a mãe e no mesmo momento começou a chorar. Ágata estava em uma posição estranha, com o rosto inteiramente coberto de vidro e os olhos abertos em dor.

– Mãe? – Ela choramingou. Ágata soltou um gemido. Helena suspirou, cheia de esperanças. Ágata parecia péssima, mas conseguiu mover a mão para o bolso da calça. Ela entregou, tremendo, um papel para a filha.

– Não confie em ninguém. – Disse, com a voz rouca e dolorida. Então ela revirou os olhos e morreu. Helena começou a chorar ainda mais. Ela apertou o papel, o amassando e desmaiou.

~~☆★~~

– Não deveríamos estar aqui. – Gustavo comentou. Castiel apenas deu risada.

– Ah, por favor, não me diga que está com medo. – Ele ergueu a sobrancelha.

– Não. – Gustavo tentou disfarçar, mas fez uma careta ao ver a altura que estavam.

Liverpool era uma cidade maravilhosa. À noite então, três vezes mais linda. Poderia ser famosa porque os Beatles vieram dali, mas quem a visitava não a esquecia tão fácil.

Castiel gostava de ir até o topo do edifício Royal Liver Building para ver as estátuas. Era aberto ao público, mas não tão tarde da madrugada.

Castiel era um garoto alto e tinha um sorriso que fazia os professores ligarem o alerta dizendo “cuidado”. Ninguém nunca mexia com ele na escola porque ele realmente não apenas parecia um delinquente, ele era um. Até a sétima série ele era tratado com clemência porque, oh tadinho, a mãe dele foi assassinada. Mas assim que roubou pela primeira vez um celular que pertencia à professora de geografia ele passou a ser tratado com olho clínico pelos professores. Gustavo era seu único amigo. Bem, o único que ele não afastara. Gustavo pensava que podia salvar as pessoas e era um ano mais novo que Castiel.

– Não deveríamos estar aqui mesmo. Logo vai amanhecer e temos aula amanhã. – Gustavo tentou persuadi-lo. Castiel suspirou. Bem, Gustavo estava certo. Não sobre a escola porque Castiel nem ligava, mas sim porque já estava amanhecendo. O brilho de Liverpool estava justamente na noite. Assim que amanhecesse perderia a graça e ele estava ficando com frio.

– Acho que você está certo. – Castiel pulou para trás, saindo do parapeito do prédio. Com uma última olhada para trás ele e Gustavo entraram no elevador.

Teoricamente era para ter um ou dois seguranças por ali, mas eles frequentemente dormiam então não era surpresa Castiel entrar e sair dali sem nem ser visto.

Assim que puseram os pés na calçada uma bala atravessou o estômago de Gustavo. Castiel deu um pulo para trás enquanto o amigo caía de cabeça no chão. O garoto arregalou os olhos, respirando pesado. Ele se ajoelhou ao lado do corpo do amigo e procurou pulso. Não achou nada. Colocou a mão na cabeça sem saber o que fazer. Olhou de onde deveria ter vindo o tiro e encontrou um homem vestindo um sobretudo, os cabelos ruivos cobertos por um chapéu. Ele apontou de novo a arma e Castiel teve a certeza que agora quem ele mataria seria ele, então começou a correr como nunca na vida. Ele não conseguiu ir muito longe. Seus pulmões não eram exatamente perfeitos, depois de anos fumando. Por sorte uma senhora ia entrando em um carro na hora que ele estava passando.

– Parada! – Ele berrou, tentando parecer ameaçador. – Me passa as chaves do carro!

A senhora, tremendo, lhe entregou as chaves e então ele entrou no carro e deu a partida. Dirigiu como um louco para casa. Quando estacionou o carro percebeu as luzes acesas. Seu pai estava acordado. Bufando de raiva, ele entrou em casa e encontrou o pai desmaiado encima da mesa. Com certo nojo ele cutucou o homem.

– Acorda. – Ele mandou. O pai não levantou, apenas resmungou alguma coisa e voltou a babar. – Ah, ótimo.

Ele foi até o quarto. Pegou uma mochila e começou a socar roupas lá. Frequentemente verificava a janela, temendo que quem quer que tivesse matado Gustavo tivesse o seguido. Em determinado momento uma luz passou pela janela e ele se abaixou, mas foi apenas o carro do vizinho. O carro. Ele havia acabado de roubar um carro. Castiel colocou as mãos na cabeça sem saber o que fazer. Tudo bem que ele nunca fora o perfeito individuo que anda na linha, mas ele nunca tinha roubado um carro. Então a ficha caiu. Gustavo estava morto. Tinha um assassino de sobretudo atrás dele e ele tinha roubado um carro. Não havia como as coisas piorarem. Continuou colocando as roupas mais limpas que tinha dentro da mochila. Pegou outra mochila e foi até a cozinha. Se teve coragem o bastante para roubar um carro teria para assaltar a geladeira do pai. Ele começou a colocar tudo que podia sobreviver sem gelo dentro da mochila, se perguntando para onde iria e porque teriam vindo atrás dele. Será que haviam descoberto o estoque de maconha que mantinha no armário do colégio? Pouco provável. Quando estava colocando um pacote de cereal dentro da mochila o pai acordou. Sim, a vida poderia piorar.

– Aonde você pensa que vai garoto? – Ele perguntou com a voz arrastada.

– Ir embora. – Castiel continuou parado na frente da geladeira. – Não é a primeira vez que faço isso.

– Isso, vá embora. – Guilherme pegou uma embalagem de hambúrguer e tentou jogar no filho, o errando por cinco metros. Castiel fechou a porta da geladeira e soltou um suspiro.

– Levanta essa bunda gorda dessa cadeira. – Ele mandou. O garoto andou até o pai que se levantou rapidamente, mas que acabou tropeçando nos próprios pés e caindo de volta na cadeira. Castiel não sabia se ria ou chorava, mas conseguiu manter a expressão inalterada. Ele caminhou até o pai e o ajudou a se levantar da cadeira e o guiou até o quarto onde ele caiu de bruços no colchão. Quase parecia uma ida para casa normal se ele não tivesse presenciado a morte do melhor amigo.

– Pra onde está indo? – Guilherme perguntou de novo.

– Embora. – Castiel respondeu novamente, guiando o pai para o quarto.

– Vai fazer igual a sua mãe e me deixar aqui sozinho? – Guilherme indagou. Tinha a voz um pouco trêmula, mas ainda tinha fúria ali.

– Mamãe morreu. – Castiel disse. Já tivera essa conversa milhares de vezes. Ele mesmo vira sua mãe levar um tiro na cabeça na sua frente.

– Ela te disse por que estava naquela casa de madeira? – Guilherme perguntou com voz de deboche. – Eu já não era um bom marido naquela época. Ela disse que recebeu um chamado. Iria lá para ver. Arrumou a mala e levou você junto. Disse que era melhor eu esquecê-la.

Castiel nunca soubera essa parte da história. Talvez porque antes de Guilherme contá-la ele dava uma resposta sarcástica e tudo acabava em uma surra.

– Aonde? – Castiel perguntou interessado.

– Sua mãe era uma mulher esperta. Muito bonita. Mas viajava tanto... Ela tinha outro, eu tenho certeza disso. – Guilherme contou. – Naquele dia eu bebi e peguei um táxi enquanto ela te levava de carro para algum lugar. Eu vi um homem chegar depois.

Oh. De repente a fuga para algum lugar pudesse esperar. Castiel pegou uma cadeira e se sentou, esperando o pai terminar a história.

– Ele era alto, sabe? – Guilherme disse. – Usava um sobretudo comprido e tinha a pele clara como se morasse em algum lugar frio ou algo assim. Tinha cabelos negros e... Olhos azuis eu acho, eu estava longe demais. Mas... Ele tinha um pedaço da orelha arrancada e estava sangrando. Eu deixei o táxi e fui até lá seguir ela. Eu vi ela pela janela conversando com ele. Pareciam brigar e ele disse que havia acabado de visitar os... Como era? Lud... Ludwig? Acho que é isso. Sua mãe ficou agitada. E então eu resolvi sair dali. Foi quando eu ouvi o tiro e entrei correndo. O cara pulou a janela como um ninja. E quando eu entrei lá sua mãe estava morta.

Castiel estava suando frio e respirava rápido.

– Você viu o assassino da minha mãe? – Ele perguntou tentando manter a voz estável. – E não contou aos policiais?

– Se eu contasse eu teria que explicar o que eu estava fazendo ali, garoto. – Guilherme riu como se o filho fosse um idiota. – Como você queria que eu dissesse que tinha seguido minha esposa porque ela tinha um amante e estava indo embora de casa?

Castiel se segurou muito para não dar um soco na cara do pai e isso foi quase impossível.

– Bem feito é o que eu digo. Menos uma adúltera na humanidade. – Guilherme aplaudiu o nada, completamente bêbado e insano. Castiel deu um murro na mesa que estremeceu.

– Bem, sim, eu estou indo embora. Exatamente como a mamãe fez. – Ele disse afinal. Colocando a mochila nas costas ele rumou para a porta de saída. A raiva o deixava cego.

Ele abriu a porta com violência e encontrou um homem desconhecido parado na porta. Ele imediatamente soube quem era. Grudou a porta no batente, mas o homem a segurou do outro lado e começou a empurrar, sobrepujando a força do garoto. Ele então saiu correndo e pulou por cima da cadeira querendo sair daquela casa pela janela, mas a porta se quebrou ao meio e ele sabia que o homem havia entrado e estava se armando de algum jeito. Ele ouviu um zumbido como se a arma estivesse carregando e virou a cabeça em curiosidade. Sim, ele estava morto. A arma era tão grande quanto um lança granada e parecia muito aterrorizante nas mãos daquele homem ruivo de sobretudo. Ele também tinha algo como espadas nas costas, mas algo o dizia que ele nunca precisara usar aquelas espadas tendo a arma. Quando ele se preparou para atirar em Castiel, uma bola de cabelos e pijama que cheiravam a bebida se jogou no homem e Castiel viu que era o pai. O pai pegou o homem pelos cabelos e o sacudiu, mas o desconhecido logo se recompôs e acertou o pai, que continuou se engalfinhando com ele, lutando pelo controle da arma.

– O colar da sua mãe! – Seu pai berrou. O que? O que o colar de Cassandra tinha a ver com isso? – Pegue! Siga o endereço!

Castiel se perguntou se valia a pena dar meia volta e correr para o quarto e percebeu que sim. O pai estava conseguindo algum tempo, mas logo cairia. O garoto voou para o quarto da mãe e revirou a gaveta. Tudo estava ali ainda, inclusive a caixinha de joias da mãe, mas ele se atrapalhou para pegá-la quando o pai deu um grito. A parte do cérebro de Castiel que não estava tomada pelo pânico tomou as rédeas e assim ele arrancou a gaveta inteira da cômoda e saiu correndo com ela nos braços, pulando a janela do quarto e aterrissando com ela no gramado do vizinho. A gaveta era de uma madeira pesada e ele se perguntava por que raios ele havia arrancado a gaveta inteira sendo que poderia pegar direto a caixinha de joias, mas ele não se importou e continuou correndo para o carro que havia roubado. Quando jogou a gaveta para dentro do carro ele ouviu o tiro. E soube na mesma hora o que era. Seu pai havia se sacrificado por ele. Entrando no carro ele deu a partida acelerando o máximo que podia.

Enquanto dirigia ele pegou a caixinha de joias. Ali estava a maioria dos colares de ouro da mãe que o pai não vendera. E o colar preferido da mãe, uma pedra de ágata verde. Ela não deixava nem o marido tocá-la, e a única vez que brigara com o filho foi quando ele pegara a pedra para jogar bola de gude embora não tivesse como, porque aquela pedra era uma gema irregular e não lapidada. Mas não era esse colar que ele estava procurando. Era o colar que tinha a foto da família que Cassandra carregava quando morreu. Ele abriu o pingente e de um lado tinha a foto dele e do pai, muitos anos atrás quando eles ainda eram uma família. Do outro lado tinha um endereço. E era para lá que ele iria.

~~☆★~~

“Durante a guerra que houve na França, um general...”.

Aquele dever de história estava bem chato. O tema era fazer uma dissertação, como se você fosse um general da Guerra Civil que fora abatido. Daniel Larsson simplesmente detestava ter que fingir coisas assim. Mesmo sendo o melhor aluno que aquele colégio teria em muito tempo, ele não era obrigado a gostar do trabalho de história.

– Daniel. – Georgia gritou para ele. Ele não gostava quando gritavam com ele, mas Georgia o vira crescer. Era a empregada de Ellen Rosenberg, a mãe adotiva de Daniel. – O jantar está pronto.

Daniel Larsson era o pobre órfão de Andersen e da, como ele chamava, “traidora Alisson”. Andersen ele não poderia culpar, fora assassinado antes mesmo de ele nascer. Já Alisson o abandonou porque precisava “o proteger”. Grande coisa. Ele tinha três anos, não precisava de proteção, precisava da mãe. Era apenas uma desculpa para abandoná-lo ele sabia agora, mas por muito tempo acreditou que a mãe era uma heroína. Do jeito que ela contava suas histórias sobre aquele pássaro mitológico idiota, dava a parecer mesmo. Ele achava melhor que a mãe tivesse o abandonado. Foi adotado por uma mulher muito boa chamada Ellen Rosenberg que acabou sendo uma mãe melhor do que Alisson jamais fora.

Quando percebeu, haviam se passado mais de oito minutos que ele encarava o nada pensando na vida enquanto Imagine Dragons tocava na sua playlist. Ele pegou o celular e o colocou no bolso da calça enquanto se preparava para o jantar daquela quinta feira, percebendo que não comia nada de sustância havia quatro dias e certamente estava fraco.

Ele desceu as escadas à espera de ser recebido por um sermão de Georgia, a empregada. Mas o sermão não veio. Ele até estranhou o fato, mas continuou andando. Ele sentia o cheiro de comida da cozinha e foi até lá. Talvez não estivesse pronto. Quando entrou na cozinha deu um passo para trás. Certo, aquilo era estranho. Georgia estava degolada e dependurada por um cinto no ventilador de teto. Os olhos mortos da empregada estavam aterrorizados e seu pescoço estava roxo por conta do cinto. Ele estava com tanta fome que agora estava vendo coisas? Aquilo deveria ser uma ilusão. Pessoas não eram enforcadas sem fazer nem mesmo um mínimo barulho, não tinha lógica nenhuma nisso.

– Ah certo, Georgia enforcada. Tente outra vez cérebro. – Ele passou pela mulher e se debruçou na geladeira procurando achocolatado. Achou uma caixa e colocou o canudo calmamente enquanto pensava que mais cedo ou mais tarde aquela visão iria embora. Ele sorveu o líquido ruidosamente e saiu da cozinha.

Ele assim que saiu deu um passo para trás. O que era aquilo?

– Daniel. – Ellen chamou. Era o máximo que conseguia com aquele homem segurando uma faca no pescoço dela. Aquilo não era uma alucinação. O que significava que... Georgia estava mesmo morta. Ele deu um suspiro de luto e voltou a tomar seu achocolatado. – Daniel!

– Calma. Eu estou pensando no que fazer. – Daniel bebeu mais um gole enquanto procurava algo no cenário. Parecia que ele estava em apenas mais um dos seus jogos. – Eu não tenho ideia do que fazer agora.

– Você é um garoto interessante. – O homem notou, observando Daniel. – Nem mesmo piscou.

– Eu não fico surpreso com muita frequência, embora não saiba o que você está fazendo aqui. – Daniel desconversou. Talvez se falasse muito o homem largasse Ellen. Ou até uma ideia o ocorresse.

– Bem, eu vim matar você. – O desconhecido respondeu.

– Bem, boa sorte. – Daniel sorriu. Claro que o homem não precisava de boa sorte. Era duas vezes o tamanho e peso de Daniel, a pele claro como papel e careca. Tinha cicatrizes que mostravam que ele esteve em muitas lutas ao longo da vida. A mais nova era uma que cortava seu pescoço como se algo muito mais pesado tivesse o cortado. Algo como o maior barbeador do mundo talvez. E uma tatuagem de algum bicho muito estranho decorava seu pescoço. Tinha o corpo de águia e cabeça de leão. Daniel era extremamente inteligente, mas ele não se lembrava daquele pássaro.

– Não vou te dizer. – O homem disse; seu sotaque estava se tornando mais evidente, mas Daniel não o identificou. Francês? Russo? Não sabia dizer. – Mas como você vai morrer agora acho que mereça saber. Os Nikova, garoto. E quando nosso líder chegar você vai implorar para estar morto.

– Onde foi que eu já vi isso? – Daniel deu um sorriso. – Ah sim, em uma penca de centenas de filmes por aí. Acredite, nunca dá bem.

– Dessa vez não tem ninguém para nos impedir menino. – O careca se gabou. – Os Blackbirds estão mortos. Nicholas matou todos.

– Desculpe, mas você está falando muito. – Daniel pegou uma tesoura que estava encima da mesa e a jogou no homem. Em pânico, Ellen se abaixou e a lâmina se enterrou no ombro esquerdo do desconhecido. – Corre!

Ellen saiu correndo ao lado do filho adotivo, e eles se encaminharam para o carro.

– O que aconteceu com Georgia? – Daniel perguntou enquanto corria para entrar no carro.

– Ele a sufocou até a morte. Eu estava na ponta da escada. Assisti tudo. – Ellen contou com lágrimas nos olhos entrando no banco do passageiro detrás. – Tentei fugir, mas ele me alcançou.

– Quem era ele? – Daniel fez a última pergunta.

– Pela tatuagem que tinha no pescoço ele disse a verdade. Era um dos Nikova. – Ellen respondeu parecendo cansada de repente.

– Quem são esses? – Daniel perguntou calmamente.

– Eles mataram seus pais. – Ellen respondeu com medo da reação de Daniel. O garoto deu uma freada brusca no carro jogando Ellen, que felizmente estava de cinto, para frente. – Por favor, Daniel, ele logo vai nos encontrar, ande.

Daniel assentiu meio perturbado. Era muito raro ele perder o controle e ser surpreendido por algo. Pensou que o achocolatado que ele bebera estava estragado enquanto deu a partida no carro novamente.

– Me conte tudo. – Ele pediu.

– Sim. – Ellen sorriu. Então pegou o GPS e digitou alguma coisa. – Eu te conto no caminho, mas antes vamos para este lugar.

David olhou para o “Rhode Island” no GPS. Ficava a dois dias de viagem e ele não tinha dinheiro. Esperava que Ellen tivesse.

– Então vamos. – Ele acelerou.

Não percebeu Ellen esconder o ferimento que o homem fizera em seu pescoço e que sangrava tanto que a deixava tonta. Ela apenas sorriu para o filho como se dissesse que estava tudo bem e virou a cabeça para o outro lado, sujando o banco. Ela sabia que aquilo logo infeccionaria, mas seu filho precisava de todo o apoio agora. Ela havia prometido para Allison. Prometido que cuidaria dele até o último suspiro, enviá-lo para Jennie. Poderia ter uso nos Blackbirds. Jennie cuidaria dele. Mal sabia que Jennie estava morta há dez anos.

Notas finais
Devo desculpas por matar pessoas neste capítulo? Bem, acho que talvez. Então desculpem, mas é necessário. Nem todos terão a família devastada, mas alguns são mais azarados Filha do Mar, preciso falar com vc, não consegui enviar MP. Até o próximo!