BlackSwan
10 Um outro lado do Lobo
A água ainda escorria lentamente pelos meus cabelos quando saí do banho, envolvendo o corpo na toalha com um movimento automático. O quarto permanecia silencioso, iluminado apenas pela luz suave que entrava pela janela, misturada ao som distante do mar. Por um instante, fiquei parada, absorvendo aquele ambiente que ainda não parecia meu.
Caminhei até o guarda-roupa.
Abri.
E parei.
Havia roupas demais.
Organizadas com precisão, alinhadas por cor, estilo, tamanho. Passei a mão por algumas peças, sentindo o tecido, analisando com um olhar mais atento. Todas… serviriam perfeitamente em mim. Não era coincidência.
Era planejamento.
Soltei um suspiro leve, afastando o pensamento por enquanto, e escolhi algo mais simples. Um short jeans, uma blusa leve. Nada que chamasse atenção. Algo funcional. Vesti-me com rapidez, calcei as sandálias e prendi o cabelo de forma mais solta, deixando alguns fios escaparem.
Sem mais demora, saí do quarto.
O som de vozes veio da sala antes mesmo de eu descer completamente a escada. O grupo estava reunido, o clima diferente do que eu esperava. Menos tensão. Mais… leveza.
Embry foi o primeiro a me notar.
— Olha só — disse, com um sorriso animado. — Já tá pronta pra sair.
Franzi levemente o cenho, descendo os últimos degraus.
— Sair?
— A gente vai dar uma passada na vila de pescadores — explicou ele. — Quer ir com a gente?
Parei no último degrau, cruzando os braços de forma quase instintiva.
— Vocês não deveriam estar organizando como vamos pegar o Millennium?
Houve um breve silêncio antes de Leah responder, encostada na mesa com um ar despreocupado.
— O Black deu folga pra gente.
Arqueei uma sobrancelha, claramente incomodada.
— Folga?
— Uma semana — completou ela.
Aquilo não fez sentido.
Pelo contrário.
Só piorava a situação.
Desviei o olhar por um instante, absorvendo a informação, sentindo a irritação crescer de forma sutil.
Uma semana significava tempo demais.
Tempo naquele lugar.
Uma ilha que eu nem sabia onde ficava.
— Ótimo — murmurei, mais para mim mesma do que para eles.
Seth, que estava sentado próximo ao computador, levantou o olhar.
— Você não vem?
Balancei a cabeça de leve.
— Não.
A resposta foi simples.
Sem espaço para negociação.
Foi então que Paul surgiu vindo do corredor, acompanhado por Rachel. Ela parecia mais tranquila agora, mas ainda havia um traço de atenção no olhar.
— A gente tá indo — disse Paul, pegando algo sobre a mesa.
Rachel olhou para mim por um breve instante antes de falar.
— Hoje o Jacob vai ficar com a Charlie.
Assenti de leve, sem comentar.
Um a um, eles começaram a sair, se despedindo com gestos rápidos, como se aquela rotina fosse comum. A porta se fechou, e o silêncio voltou a tomar conta da casa.
Suspirei e passei a mão pelo braço, pensativa por um instante, antes de virar na direção da escada.
Se havia alguém que precisava me explicar o que estava acontecendo, esse alguém era ele.
Subi as escadas e segui pelo corredor em silêncio, ainda incomodada com aquela sensação estranha que a casa me causava. Tudo ali parecia longe demais da guerra que eu imaginava encontrar. Foi então que ouvi a voz de Jacob. Grave, baixa, rouca de um jeito quase íntimo, como se ele não cantasse para ser ouvido, mas apenas porque naquele instante precisava daquilo.
Ele cantava Always, do Bon Jovi.
— And I will love you, baby, always… — a voz saiu baixa, suave, carregada de uma ternura que eu jamais esperaria ouvir dele.
Meus passos diminuíram até cessarem por completo. Segui o som com cuidado, quase sem perceber, como se aquela voz me puxasse corredor adentro. Quando cheguei à porta de um dos quartos, parei. A madeira estava entreaberta, e bastou um pequeno movimento para que eu pudesse enxergar o interior.
Jacob estava sentado em uma poltrona diante da janela do quarto infantil, com Charlie adormecida em seus braços. A luz suave do abajur desenhava os contornos do rosto dela e criava sombras calmas no ambiente, tornando tudo ainda mais silencioso, mais delicado. Havia brinquedos organizados em uma prateleira, livros empilhados com cuidado e pequenos detalhes que transformavam aquele espaço em um refúgio. Eu permaneci imóvel à porta, observando a cena como se não devesse estar ali.
Aquele realmente era o Lobo?
O homem descrito nos arquivos como um agente frio, letal, imprevisível. O nome que a KGB tratava com medo e ódio. Nada naquela imagem correspondia ao retrato que fizeram dele. Não havia ameaça naquela poltrona. Havia apenas um pai segurando a filha no colo, embalando seu sono com uma canção antiga.
Eu estava conhecendo um Jacob Black completamente diferente do homem sobre o qual li relatórios, ouvi ordens e recebi instruções para eliminar.
A música cessou, e ele falou sem sequer se virar.
— Eu fico tímido quando tenho plateia.
O comentário me arrancou da espécie de transe em que eu havia entrado, mas ainda assim não consegui responder de imediato. Permaneci em silêncio, os olhos presos nele, acompanhando cada movimento.
Jacob se levantou da poltrona com cuidado, sustentando Charlie contra o peito como se ela fosse feita de vidro. Caminhou até a cama em passos lentos, calculados, e a deitou sobre os lençóis com uma delicadeza que me pareceu desconcertante. Eu continuava ali, sem dizer uma palavra, apenas observando. Havia algo profundamente estranho em ver aquele homem, o mesmo que enfrentou tiros, explosões e perseguições, agir com tamanha suavidade.
Ele puxou o cobertor até os ombros da menina, afastou um cacho do rosto dela e então se inclinou para depositar um beijo em seus cabelos. Depois, ligou o abajur ao lado da cama, deixando o quarto ainda mais acolhedor, e só então se afastou.
Jacob caminhou até a porta e parou bem diante de mim.
Por um instante, nenhum de nós falou e aquilo me afetou mais do que deveria.
A proximidade me atingiu de forma inesperada.
Por um instante, fiquei presa ali, encarando-o, sentindo o peso daquele silêncio entre nós, diferente de qualquer outro que já havíamos compartilhado. Não havia tensão de combate, nem provocação. Havia algo mais direto. Mais perigoso.
Desviei primeiro.
Afastei um passo, criando distância, como se precisasse recuperar o controle que havia escapado por um segundo.
— Eu preciso conversar com você — disse, firme, retomando o tom que me era familiar.
Jacob não respondeu imediatamente. Apenas me observou.
E havia algo naquele olhar.
Intenso demais.
Como se estivesse me analisando… ou algo pior.
Como se fosse me devorar.
Sustentei por um segundo, mas não por muito tempo. Cruzei os braços de leve, impondo uma barreira que só existia na superfície.
— Agora — completei.
Ele soltou um leve ar pelo nariz, quase um sorriso contido, antes de finalmente falar.
— Claro.
A resposta veio baixa, mas sem resistência.
— Vamos comer alguma coisa.
A naturalidade com que ele disse aquilo me incomodou, mas, ao mesmo tempo, havia lógica. Eu não havia comido. Assenti com um movimento breve.
— Tudo bem.
Ele se afastou primeiro, abrindo espaço para que eu passasse, mas mantive a posição por um segundo, observando-o dar o primeiro passo pelo corredor. Então o segui.
Caminhamos lado a lado, em silêncio, descendo a escada e atravessando a casa que, agora, parecia ainda mais estranha. Não pelo lugar em si, mas pela forma como eu começava a me encaixar nele.
A cozinha era ampla, bem iluminada, com um contraste claro em relação ao restante da casa. Havia movimento ali antes, vida. Agora, apenas nós dois.
Jacob seguiu até a bancada com familiaridade, abrindo a geladeira e analisando o que havia dentro como se estivesse completamente à vontade naquele momento.
Eu parei do outro lado, apoiando levemente as mãos na superfície fria do mármore, observando-o em silêncio.
Aquilo parecia errado, mas não parecia ser falso, e isso era o que mais me incomodava.
Encostei-me no balcão, mantendo uma postura que tentava parecer casual, mas que estava longe de ser relaxada. O sanduíche que Jacob havia preparado estava em minhas mãos, e, apesar de simples, era a primeira coisa normal que eu fazia desde que tudo havia começado a sair do controle. Dei mais uma mordida, mastigando lentamente, enquanto o suco de laranja ao lado ajudava a quebrar o silêncio que se instalava entre nós.
Jacob estava à minha frente, apoiado do outro lado da bancada, comendo o próprio sanduíche com a mesma tranquilidade de quem não tinha uma organização inteira à sua caça.
Observei-o por um instante antes de falar.
— Quando vamos atrás do Millennium?
A pergunta saiu direta.
Ele levantou o olhar, ainda mastigando, sem pressa alguma em responder. Aquilo já começava a me irritar.
— Não é o momento — disse, por fim.
Franzi o cenho.
— Como assim não é o momento?
Jacob terminou de mastigar antes de continuar, apoiando o copo sobre o balcão.
— A KGB está esperando exatamente isso — explicou. — Eles sabem que alguém vai tentar recuperar o Millennium. Se formos agora, entramos direto na armadilha.
Cruzei os braços de leve, apoiando o quadril na bancada.
— A KGB deve estar atrás de mim.
A constatação parecia óbvia.
Jacob assentiu sem hesitar.
— Eles sabem que você está comigo.
O peso daquela frase caiu imediatamente.
Desviei o olhar por um segundo, processando.
— Isso me coloca numa situação ainda pior com eles — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.
Jacob me observou com mais atenção dessa vez, como se avaliasse até onde eu já havia entendido.
— Você não vai voltar para a KGB — disse, firme.
Voltei o olhar para ele.
— E por que não?
— Porque eles já colocaram outro agente atrás de mim.
A afirmação me fez endireitar a postura.
— Como você sabe disso?
Jacob não respondeu de imediato. Apenas deu mais um gole no suco, mantendo a calma irritante que parecia nunca abandoná-lo.
— Eu sei como eles operam — disse, por fim.
Apertei o maxilar, sentindo a tensão voltar.
— Se isso for verdade — continuei — você está colocando a vida da sua filha em risco estando aqui.
Aquela parte não era estratégia, era preocupação.
Jacob não demonstrou dúvida alguma.
— Não se preocupe com isso — respondeu, direto. — A ilha é o lugar mais seguro do mundo para a Charlie.
Franzi o cenho novamente, sem aceitar a resposta com facilidade.
— E como você pode ter tanta certeza?
Ele sustentou meu olhar por um segundo antes de responder.
— Porque essa ilha não pode ser rastreada.
A noite se arrastava sem qualquer sinal de descanso.
Rolei na cama inúmeras vezes, tentando encontrar uma posição confortável, mas o problema não estava no corpo. Estava na mente. Cada informação, cada revelação, cada escolha feita nas últimas horas se repetia como um ciclo impossível de interromper. A imagem de Charlie, o olhar de Jacob, o Millennium, a KGB. Tudo se misturava de forma inquieta, impedindo qualquer tentativa de repouso.
Suspirei fundo e me levantei.
Caminhei até a varanda, afastando levemente a porta de vidro, permitindo que o ar noturno tocasse meu rosto. Foi então que ouvi.
O som seco de punhos contra algo sólido.
Olhei para baixo e vi
Jacob, ele estava no jardim, sob uma iluminação baixa, socando um saco de boxe com intensidade controlada. Cada golpe era preciso, carregado de força, mas não desordenado. Havia técnica. Disciplina. E algo mais… tensão.
Observei por alguns segundos, em silêncio.
Sem perceber, já estava saindo do quarto.
Desci as escadas com passos leves e atravessei a área externa até me aproximar dele. O som dos golpes diminuiu levemente antes de cessar por completo.
Ele já sabia que eu estava ali.
— Veio me observar? — disse, sem se virar. — Tá virando minha stalker, Swan?
Cruzei os braços, sustentando o olhar nele quando finalmente se virou.
— Você é sempre assim irritante ou só quando está tentando impressionar?
O canto da boca dele se curvou levemente.
Jacob pegou uma garrafa de água ao lado, abriu e bebeu com calma, como se aquela troca fosse apenas mais um detalhe da noite. Em seguida, sem dizer nada, pegou um par de luvas e caminhou na minha direção.
Parou diante de mim.
Estendeu as luvas.
— Coloca — disse, simples. — Quero ver o quanto o Cisne Negro é boa nisso.
Soltei uma breve risada, aceitando o desafio sem hesitar.
Coloquei as luvas, ajustando o encaixe com movimentos firmes enquanto mantinha o olhar nele.
— Você tem certeza disso? — perguntei, arqueando levemente a sobrancelha. — Está pronto pra apanhar?
Jacob apenas sorriu.
E aquele sorriso…
Não era de quem estava brincando.
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