BlackSwan
11 Incidente
Acordei apenas na manhã seguinte, depois de algumas horas de um sono tardio e pesado. A madrugada havia sido consumida por treino, um confronto que começou como provocação e terminou em algo muito mais intenso do que eu esperava. Ainda sentia o corpo responder aos movimentos repetidos, à força aplicada, ao esforço constante de acompanhar o ritmo dele. Jacob era, de fato, excepcional no combate corporal. Preciso, rápido, eficiente. E, embora tivesse negado, eu tinha a impressão clara de que ele não havia utilizado tudo o que podia contra mim.
Levantei-me com calma, permitindo que o corpo despertasse por completo antes de seguir para o banheiro. Após minha higiene pessoal, vesti-me de forma simples e saí do quarto, guiada pelo aroma de café que se espalhava pela casa. Ao descer as escadas, encontrei Rachel e Charlie já sentadas à mesa, em um cenário que, por um momento, parecia completamente deslocado da realidade que eu conhecia.
A casa, naquela hora, lembrava uma residência comum.
Tranquila.
Acolhedora.
Distante demais de qualquer esconderijo de agentes foragidos.
— Bom dia — disse, ao me aproximar.
Rachel ergueu o olhar e sorriu com naturalidade.
— Bom dia, Nessie.
Parei por um instante.
— Nessie? — repeti, levemente surpresa. — Por que vocês me chamam assim?
Rachel desviou o olhar por um segundo, como se buscasse uma resposta rápida, mas não se aprofundou.
— Depois eu te explico — disse, mudando o foco. — Vem tomar café.
Observei-a por um instante a mais, percebendo a tentativa clara de desconversar, mas não insisti naquele momento. Voltei minha atenção para Charlie.
— Bom dia — falei, direcionando a ela.
A menina não respondeu de imediato. Em vez disso, levou a xícara ao nariz, inspirando profundamente.
— O café está ótimo — disse, com um leve sorriso. — Tem um cheiro muito bom.
Não pude evitar um sorriso discreto diante da forma como ela percebia o mundo ao seu redor. Sentei-me ao lado dela, observando-a com um cuidado que surgiu de forma natural, quase involuntária.
— Fico feliz que esteja gostando — respondi, com um tom mais suave.
— Você vai querer? — perguntou Rachel, já se levantando para servir.
Assenti de leve.
— Sim, obrigada.
Enquanto ela organizava a mesa, voltei o olhar para Charlie, que falava com entusiasmo contido sobre a praia, descrevendo o som das ondas, a textura da areia, a sensação do vento. Havia uma leveza na forma como ela se expressava que contrastava completamente com tudo o que cercava aquela casa.
— A gente pode ir depois — disse ela, animada. — O mar está diferente hoje.
Sorri, apenas ouvindo.
Por um instante, era fácil esquecer.
Peguei a xícara de café, levando-a aos lábios e sentindo o calor se espalhar enquanto dava um pequeno gole. Foi então que perguntei, quase por hábito.
— Onde está o Jacob?
Rachel voltou a se sentar, mantendo a calma habitual.
— Está em uma reunião com a Leah — respondeu. — Se trancaram no escritório.
Assenti, absorvendo a informação sem dar muita importância naquele momento.
Continuei ouvindo Charlie falar sobre a praia, sua voz preenchendo o espaço com uma leveza quase desconcertante, quando passos surgiram no corredor. Levantei o olhar automaticamente.
Jacob entrou na cozinha ao lado de Leah.
Ambos estavam… diferentes.
Havia algo na expressão dos dois. Um leve entusiasmo, um sorriso contido que parecia indicar que haviam chegado a alguma conclusão importante.
Meu olhar alternou entre eles por um breve instante.
A proximidade.
A sintonia.
Por um segundo, considerei a possibilidade de haver algo entre os dois, algo além do profissional. A ideia surgiu de forma rápida, quase automática, mas não disse nada. Apenas observei, em silêncio.
Jacob entrou na cozinha com naturalidade, como se aquela casa fosse apenas um lar comum e não o centro de algo muito maior.
— Bom dia — disse ele, a voz ainda levemente rouca.
— Bom dia — completou Leah, com um sorriso discreto.
Observei em silêncio enquanto ele se aproximava de Charlie. A mudança era imediata. Jacob se inclinou, afastou delicadamente um cacho do rosto da filha e beijou seus cabelos com cuidado, como se aquele gesto fosse parte essencial do início do dia. Em seguida, aproximou-se ainda mais e sussurrou algo em seu ouvido.
Charlie ouviu com atenção.
E assentiu.
— Eu consigo — disse ela, com convicção, estendendo a mão pequena.
Jacob sorriu.
E apertou a mão dela como se estivesse firmando um acordo sério.
Aquilo me fez prender a respiração por um segundo.
Leah observava a cena com um sorriso divertido.
— Olha só — comentou, provocando. — Já está treinando a próxima agente?
Ela deu um leve empurrão no ombro de Jacob, em tom de brincadeira.
Ele não se incomodou.
Apenas retribuiu com um olhar breve.
Mas algo naquela interação… me incomodou.
Foi sutil.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
Levantei-me sem fazer barulho.
— Com licença — disse, com um tom controlado, já pegando minha caneca de café.
Ninguém me impediu.
Saí da cozinha e caminhei até a varanda da sala, deixando o ar fresco da manhã tocar o rosto enquanto levava a xícara aos lábios. O mar estava calmo, o som das ondas constante, como se nada naquele lugar tivesse pressa.
Ao contrário de mim.
Segundos depois, ouvi passos atrás.
Não precisei me virar para saber quem era.
— Está tudo bem? — perguntou Jacob, parando a uma distância confortável.
Voltei o olhar para ele.
— Sim — respondi tentando soar convincente.
Ele me observou por um instante, como se não aceitasse a resposta.
— Então por que você saiu da cozinha?
A pergunta veio direta.
Sustentei o olhar dele por um segundo antes de responder.
Jacob manteve o olhar fixo em mim por alguns segundos, como se ainda buscasse entender o que havia me levado a sair daquela forma. O silêncio entre nós não era confortável, mas também não era vazio. Havia perguntas demais ali.
— Por que você saiu da cozinha? — insistiu ele, a voz mais baixa, mas firme.
Levei a caneca aos lábios antes de responder, usando o gesto para ganhar um segundo a mais.
— Porque o clima era… bastante íntimo — disse, com cuidado. — E eu não quis atrapalhar.
A reação foi imediata.
— Íntimo? — repetiu ele, claramente surpreso. — Eu e a Leah só…
— Não precisa explicar — interrompi, antes que ele concluísse.
A mudança no meu tom foi perceptível. Coloquei a caneca sobre o parapeito da varanda e me voltei completamente para ele, deixando claro que aquilo não era apenas um comentário passageiro.
— Se você quer a minha ajuda — continuei — está na hora de ser honesto comigo. Porque, até agora, tudo o que eu vejo nesta casa são segredos.
Jacob franziu levemente o cenho.
— Não há segredos.
Sustentei o olhar dele, sem recuar.
— Então me diga — retruquei. — Quando vamos pegar o Millennium?
Dei um pequeno passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
— Eu não posso ficar aqui para sempre, Jacob. Eu preciso voltar à ativa.
A resposta dele veio sem hesitação.
— A KGB não vai te aceitar de volta.
As palavras caíram diretas.
— E, se aceitarem… será apenas para te eliminar.
O impacto foi imediato, mas não o suficiente para me fazer recuar.
— Então agora — continuou ele — nós dois estamos na mesma situação.
Apertei levemente os dedos contra a caneca antes de soltá-la por completo.
— Não — corrigi, com firmeza. — Eu estou nessa situação porque você me colocou nela.
A tensão subiu rapidamente.
Jacob deu um passo à frente, aproximando-se ainda mais.
— Eu te dei uma escolha.
— Não — rebati, sem hesitar. — Você me manipulou.
O silêncio se quebrou em algo mais intenso.
— Por que você está tão irritada? — perguntou ele, agora com um tom mais direto.
Aquilo foi o suficiente.
Endireitei a postura, sentindo a irritação finalmente transbordar.
— Primeiro — disse, com clareza — o meu nome é Renesmee.
A forma como falei fez com que ele parasse.
— Não é Nessie.
Mantive o olhar firme, sem desviar.
— E nós não somos íntimos o suficiente para você me chamar por apelidos.
Jacob estreitou levemente os olhos, analisando cada detalhe da minha reação como se estivesse tentando decifrar algo que eu mesma ainda não compreendia por completo. Houve um breve silêncio antes que ele falasse novamente, mas dessa vez o tom era diferente, mais direto, quase provocativo.
— Toda essa irritação é por causa da Leah?
A pergunta veio como um golpe inesperado.
Soltei um riso curto, carregado de deboche, cruzando os braços com firmeza enquanto sustentava o olhar dele sem hesitar.
— Eu não estou nem aí para você e a Leah — respondi, com frieza.
Jacob inclinou levemente a cabeça, como se não acreditasse em uma única palavra.
— Claro — disse ele, com um sorriso que beirava a provocação. — Você está com ciúmes.
Aquela palavra ecoou de forma irritante.
— Ciúmes? — repeti, deixando escapar uma risada mais alta, incrédula. — Você é extremamente convencido.
Minha resposta saiu rápida, afiada, mas, no fundo, havia algo que não se encaixava. A irritação estava ali, real, intensa… e eu não conseguia justificar completamente o motivo. Aquilo só tornava tudo ainda mais desconfortável.
Desviei o olhar por um segundo, incomodada comigo mesma, antes de pegar novamente a caneca sobre o parapeito.
— Eu tenho mais o que fazer — disse, encerrando a conversa.
Virei-me sem esperar resposta e atravessei a sala com passos firmes, decidida a me afastar dali antes que aquela discussão tomasse um rumo ainda mais pessoal. Subi as escadas sem olhar para trás, ignorando completamente os olhares de Leah e Rachel, que ainda estavam na cozinha.
— Nessie — ouvi Jacob chamar atrás de mim.
Ignorei.
Continuei subindo.
— Renesmee — insistiu ele, agora mais próximo.
Apertei o maxilar, mantendo o ritmo dos passos.
Foi então que ouvi.
Os risos.
Leves, divertidos.
E a voz de Rachel, baixa, mas clara o suficiente.
— O casal voltou…
Leah respondeu algo que não consegui ouvir por completo, mas o tom era igualmente provocador.
Aquilo só piorou tudo.
Entrei no quarto com rapidez, já empurrando a porta com mais força do que o necessário. Estava prestes a fechá-la quando senti resistência. A mão dele impediu o movimento com facilidade.
— Jacob, não — comecei, mas ele já estava entrando.
Empurrou a porta completamente e a fechou atrás de si.
O som da tranca girando ecoou no quarto.
Fiquei parada por um segundo, olhando para ele, sentindo a tensão crescer de forma inevitável.
— Você precisa me escutar.
Não respondi. Apenas desviei o olhar, recusando-me a entrar novamente naquele jogo de provocações e explicações incompletas. Dei as costas a ele e caminhei em direção à varanda, buscando ar, espaço, qualquer coisa que me afastasse daquela tensão crescente.
Ouvi o som dos passos dele atrás de mim, mais rápidos agora, mais impacientes.
— Renesmee — insistiu, já com irritação evidente.
Empurrei a porta da varanda sem responder.
O que vi fez meu corpo travar por um segundo.
Charlie.
Ela estava na beira da piscina, sozinha e muito perto da água.
— Meu Deus… Charlie! — gritei, sem pensar.
Atrás de mim, ouvi o som imediato da reação de Jacob. O nome da filha foi suficiente.
Ele correu, passou por mim sem hesitar, saindo do quarto em direção às escadas.
Mas eu já estava em movimento. Quando o pequeno corpo perdeu o equilíbrio e caiu na piscina, apoiei as mãos no parapeito e saltei da varanda.
O impacto no gramado veio forte, a dor subindo pelas pernas de forma imediata, mas irrelevante. Ignorei completamente e quando percebi já estava correndo antes mesmo de sentir o corpo estabilizar.
Sem reduzir a velocidade, mergulhei na piscina.
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