BlackSwan
12 Porta retrato
A água me envolveu por completo no instante em que mergulhei, fria, densa, abafando qualquer som que viesse de fora. Por um segundo, tudo se reduziu àquele silêncio submerso, ao peso do corpo reagindo ao impacto, à dor aguda que subia pelo meu pé, insistente, pulsante. Ignorei. Não havia espaço para isso.
Abri os olhos debaixo d’água, forçando a visão a se ajustar enquanto procurava por ela. O tempo parecia distorcido, lento demais para uma situação que exigia urgência. Então vi. O corpo pequeno, afundando sem resistência, os cabelos se movendo na água como se não houvesse gravidade. A imagem me atingiu com força.
Nadei na direção dela com tudo o que tinha, ignorando o desconforto, a pressão nos pulmões, a dor que começava a cobrar seu preço. Alcancei Charlie e a segurei com cuidado, trazendo-a contra mim enquanto impulsionava o corpo para cima. Quando emergi, puxei o ar com dificuldade, mantendo-a firme, tentando estabilizar o pouco de controle que ainda tinha.
Mal tive tempo de reagir.
Braços fortes surgiram, puxando a menina dos meus braços com urgência. Ouvi a voz de Jacob, tensa, desesperada, chamando por ela, mas não consegui responder. Meu corpo já não respondia da mesma forma.
Tentei me apoiar na borda da piscina.
Mas o pé falhou.
A dor veio mais forte, mais precisa, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio. Minha mão escorregou, e senti o corpo ceder novamente. A água voltou a me engolir, agora mais pesada, mais difícil de combater.
Tentei reagir, mas o ar falhou e as minhas forças diminuíam.
Acabei afundando.
Por um instante, tudo ficou distante, confuso, como se o corpo estivesse desistindo antes da mente. Foi quando senti mãos firmes segurando minha cintura.
Fui puxada para cima com rapidez, rompendo a superfície novamente antes que o corpo cedesse por completo. Não tive controle sobre o que veio depois, apenas a sensação de ser arrastada, apoiada, retirada da água, e então novamente eu senti o ar, mas de uma maneira totalmente errada.
Tossi com força, sentindo a água queimar ao sair dos pulmões, o corpo reagindo de forma desordenada enquanto tentava se estabilizar. O mundo girava, desfocado, mas aos poucos comecei a reconhecer o que estava ao meu redor.
A borda da piscina, o chão frio sob minhas costas e acima de mim…
Jacob.
O rosto dele estava diferente de tudo o que eu já havia visto. Não havia controle. Não havia estratégia, havia apenas aflição.
— Ei… ei, olha pra mim — disse ele, a voz mais baixa, mas carregada de urgência.
Tossi novamente, virando levemente o rosto enquanto tentava recuperar o ar.
E então senti os braços dele ao meu redor me puxando e segurando com força, como se precisasse ter certeza de que eu ainda estava ali.
Eu não resisti, apenas respirei e deixei que ele me segurasse.
Acordei com uma sensação estranha, como se tivesse sido puxada de volta à consciência sem aviso. O corpo estava aquecido, envolto por cobertores pesados, e o toque macio do moletom contra a pele me trouxe uma breve sensação de conforto. Ainda assim, havia algo fora do lugar. Levei alguns segundos para abrir os olhos completamente e entender onde estava.
Sentei-me na cama com cuidado.
Foi então que a vi.
Charlie estava sentada na poltrona à frente, pequena, quieta, as mãos apoiadas no colo como se estivesse esperando. O rosto voltado na minha direção, mesmo sem realmente me enxergar.
— Charlie… — chamei, a voz ainda baixa.
Ela reagiu imediatamente.
— Você acordou — disse, com um alívio que não tentou esconder.
Afastei os cobertores e coloquei os pés no chão. No instante em que tentei apoiar o peso, a dor veio, clara, direta. Meu olhar desceu automaticamente, encontrando a bota ortopédica envolvendo meu pé. Respirei fundo, ignorando o incômodo, e me levantei mesmo mancando estava em pé.
Caminhei até ela com cuidado, cada passo exigindo mais atenção do que eu gostaria.
— Você está bem? — perguntei, assim que me aproximei.
Charlie assentiu, movendo a cabeça com firmeza.
— Estou.
Houve uma pequena pausa antes que ela completasse, a voz agora mais baixa.
— Me desculpa.
Franzi levemente o cenho, aproximando-me mais e me abaixando um pouco para ficar na altura dela.
— Foi um acidente — respondi com suavidade. — Você não precisa pedir desculpas.
Charlie permaneceu em silêncio por um segundo.
Então negou com a cabeça.
— Não foi um acidente.
A resposta me fez parar.
— Como assim? — perguntei, confusa.
Ela apertou levemente os dedos contra o próprio vestido, como se buscasse coragem para continuar.
— Eu só queria que você ficasse boa.
Senti um leve aperto no peito, sem entender completamente.
— Boa de quê, Charlie?
A voz dela falhou.
E então eu vi.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, silenciosas, contidas, como se ela estivesse tentando não deixar que aquilo acontecesse.
Aproximei-me ainda mais e levei a mão ao rosto dela, enxugando com cuidado.
— Ei… — murmurei. — Você não precisa chorar.
Charlie respirou fundo, tentando se controlar, e então se levantou da poltrona. Por um instante, pensei que ela fosse apenas se afastar, mas, em vez disso, estendeu a mão na minha direção.
Fiquei imóvel por um segundone então aceitei.
Segurei a mão dela, e para minha surpresa, foi ela quem me guiou.
Mesmo sem enxergar, seus passos eram firmes, seguros dentro daquele espaço que claramente conhecia melhor do que qualquer um. Caminhamos juntas para fora do quarto, o silêncio entre nós carregado de algo que eu ainda não conseguia compreender.
Charlie manteve minha mão firme enquanto me guiava pelo corredor. O silêncio ali era quase absoluto, quebrado apenas pelo som leve dos nossos passos e pela minha respiração ainda um pouco irregular. Caminhamos até o final, onde uma única porta se destacava, posicionada de frente para o corredor, diferente das outras.
Parei.
— Esse é o seu quarto? — perguntei, olhando para a porta fechada.
Charlie negou com a cabeça.
— Não… é o quarto do papai.
A resposta me fez hesitar por um instante. Imaginei que ela estivesse apenas me levando até ele, talvez para chamá-lo, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti seus dedos pressionarem levemente minha mão, como um incentivo.
Respirei fundo e girei a maçaneta, a porta se abriu sem resistência.
Entramos juntas.
O quarto era amplo, organizado, com uma sobriedade que contrastava com o restante da casa. Havia poucos elementos decorativos, mas cada um parecia ter sido escolhido com cuidado. A cama era grande, de casal, coberta por lençóis claros e perfeitamente alinhados. Um dos lados parecia mais usado, com um leve desnível no travesseiro. O outro… intacto.
Como se o tempo tivesse parado ali.
A luz suave que entrava pela janela iluminava o ambiente de forma delicada, revelando pequenos detalhes. Um armário fechado, uma cadeira próxima à janela, e, ao lado da cama, uma mesa de cabeceira.
Foi ali que meus olhos pararam em um porta-retrato, algo naquela imagem me puxou antes mesmo que eu pudesse pensar. Dei um passo à frente, soltando a mão de Charlie sem perceber, e me aproximei lentamente. Peguei o objeto com cuidado, mas minhas mãos já começavam a tremer, havia uma fotografia, nela estava Jacob sorrindo e ao lado dele… uma mulher idêntica a mim, ela tinha os mesmos traços que os meus e os mesmos olhos, a mesma estrutura de rosto, era como se eu estivesse olhando para o meu próprio reflexo em outro tempo.
E, nos braços dela havia um bebê.
Senti o ar faltar. Meus dedos apertaram levemente o porta-retrato, incapazes de largá-lo, enquanto a mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica para aquilo.
Mas não havia, nada fazia sentido.
Meu coração começou a acelerar, o corpo reagindo antes mesmo de qualquer pensamento coerente surgir. Virei lentamente o rosto na direção da porta ao ouvir a voz de Jacob.
— Charlie?
O tom dele era normal, até que ele entrou e me viu.
Jacob parou imediatamente, o olhar dele foi direto para o porta-retrato em minhas mãos.
E, Jacob Black simplesmente paralizou.
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