BlackSwan
13 Revelações
Jacob não disse nada no primeiro instante. O choque ficou evidente na forma como ele permaneceu imóvel à porta, o olhar fixo no porta-retrato em minhas mãos, como se tivesse sido arrancado de um pensamento que vinha evitando há muito tempo. Em seguida, ele respirou fundo e atravessou o quarto em passos controlados, não na minha direção, mas na direção de Charlie, como se a prioridade dele ainda fosse protegê-la, mesmo diante daquilo.
Rachel apareceu logo atrás dele, e não precisei de muito para perceber que ela também estava tensa. O olhar rápido que trocou com Jacob dizia mais do que qualquer palavra. Havia algo ali que todos sabiam… menos eu.
— Rachel — disse Jacob, com firmeza contida — leva a Charlie para o quarto.
Charlie não se moveu de imediato. Ela permaneceu ali, voltada na direção dele, como se estivesse tentando compreender algo que ia além do momento.
— Eu só estou tentando curar o machucado da mente da mamãe — disse a menina, com uma sinceridade que me atingiu de forma inesperada.
Senti o corpo enrijecer.
Jacob se abaixou levemente diante dela, a voz suavizando de imediato, completamente diferente do tom que havia usado comigo segundos antes.
— Eu sei, pequena — disse ele, com carinho. — E eu entendo. O papai não está bravo com você.
Houve um breve silêncio antes que ele continuasse, ainda mais calmo.
— Vai com a tia Rachel, está bem? Depois eu vou te ver.
Charlie assentiu, sem resistência dessa vez. Rachel se aproximou, a pegou no colo com cuidado e, antes de sair, lançou mais um olhar para mim. Não era hostil. Era… cauteloso. Como se soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer.
A porta se fechou.
Jacob a girou.
O som da chave na fechadura ecoou no quarto.
Aquilo me fez voltar à realidade.
Segurei o porta-retrato com mais firmeza, levantando-o levemente na direção dele, ainda incapaz de processar completamente o que estava vendo.
— O que significa isso? — perguntei, a voz mais firme do que eu me sentia.
Jacob passou a mão pelo rosto, como se organizasse os próprios pensamentos antes de responder.
— Eu posso explicar.
Soltei uma pequena risada, sem humor, balançando a cabeça.
— Claro que pode — retruquei. — Você sempre pode.
Apertei os dedos ao redor do objeto.
— Então explica.
Houve um breve silêncio antes que ele falasse novamente.
— Não era o momento de você saber disso.
Aquilo foi suficiente para reacender a irritação.
— Saber o quê? — insisti, dando um passo à frente, ignorando a dor no pé. — O que exatamente eu preciso saber?
Jacob me encarou.
E, dessa vez, não houve hesitação.
— Você é a mulher da foto.
O ar pareceu desaparecer.
Por um segundo, fiquei apenas olhando para ele, esperando que aquela frase se encaixasse em algum lugar lógico.
Não encaixou.
Soltei uma risada mais clara, incrédula, desviando o olhar enquanto colocava o porta-retrato de volta sobre a mesa de cabeceira, exatamente onde estava antes.
— Isso é ridículo — disse, começando a andar pelo quarto, mancando levemente, tentando me afastar daquela absurda tentativa de explicação. — Eu não sei o que você pretende com isso, Jacob, mas—
— Você é minha esposa.
Parei.
— E a Charlie… — ele continuou, a voz agora mais baixa, mas firme — é nossa filha.
Virei-me lentamente, sentindo a confusão tomar forma de maneira mais intensa.
— Isso não faz sentido — murmurei.
Jacob deu um passo à frente, mas não tentou me tocar.
— Eu sabia que, em algum momento, teria que te contar — disse ele. — Mas não assim.
Passei a mão pelo cabelo, tentando organizar os pensamentos que já não seguiam uma linha lógica.
— Isso é impossível.
— Não para uma menina de seis anos que passou os último dias ao lado da própria mãe… — ele fez uma breve pausa — e não pode dizer isso em voz alta.
A reação veio antes mesmo de qualquer pensamento organizado. Dei um passo na direção da porta, a intenção clara de sair daquele quarto, de me afastar daquela conversa absurda que já ultrapassava qualquer limite de lógica. Minha mão alcançou a maçaneta, mas não tive tempo de girá-la.
Jacob foi mais rápido.
Ele se colocou à minha frente, bloqueando o caminho sem me tocar, mas firme o suficiente para deixar claro que eu não sairia dali naquele momento.
— Sai da frente, Jacob — disse, tentando manter o controle.
— Você precisa ouvir — respondeu ele, a voz mais baixa, mas carregada de urgência.
Balancei a cabeça, já irritada.
— Eu já ouvi o suficiente.
Tentei contornar, mas ele não recuou. Em vez disso, começou a falar. Não com suposições. Não com teorias, mas com detalhes.
— Você tem uma cicatriz logo abaixo do umbigo.
A afirmação dele me parou lentamente, levei a mão até o local, instintivamente.
— Foi em uma missão — respondi.
Jacob não desviou o olhar.
— Qual missão?
Abri a boca para responder, mas eu não consegui lembrar, não havia memória, nem imagem, nenhum contexto, apenas um vazio.
Franzi o cenho, sentindo o desconforto crescer.
— Eu… — comecei, mas não consegui terminar.
— Essa cicatriz não é de missão nenhuma — disse ele com convicção — É da cirurgia que você fez, Charlie estava atravessada e precisou fazer uma cesariana.
Fiquei imóvel, o olhar preso nele, tentando encontrar alguma falha naquela afirmação.
— Isso não faz sentido — murmurei, quase para mim mesma. — Se fosse verdade… a Bella saberia. Meu pai saberia.
Jacob negou com a cabeça.
— A Bella não sabe para proteção dela, íamos contar quando tudo se acalmasse mas não tivemos tempo.
O ar ficou mais pesado e então ele continuou.
— Na ultima vez que o Charlie contou— continuou ele. — Na última vez que você foi enviada para essa missão.
Senti um arrepio subir pela espinha.
— Quantas vezes… — perguntei, a voz mais baixa agora — eu já te cacei?
Jacob não hesitou.
— Cinco.
O número ecoou dentro de mim.
— Nos últimos dois anos.
Minhas pernas cederam, sentei-me na cama, o olhar perdido por um instante enquanto tentava processar aquilo.
— Eu não lembro… — sussurrei olhando para o chão.
Jacob se aproximou alguns passos, mas manteve distância.
— A KGB usou a substância do Seth — explicou. — Para apagar memórias de agentes.
Levantei o olhar lentamente.
— Apagar…?
— Seu pai contou tudo — continuou ele. — Você se rebelou. Foi até eles.
Meu coração acelerou.
— E eles te capturaram de novo.
Respirei fundo, sentindo o corpo reagir àquilo de forma involuntária.
— E então… te reprogramaram.
Repeti a palavra, quase sem voz.
— Reprogramaram?
Jacob assentiu.
— É assim que eles chamam.
Houve um silêncio pesado antes que ele continuasse.
— Existe um programa para isso. Para reconfigurar agentes. Apagar o que não interessa… e inserir o que for necessário.
Passei a mão pelo rosto, tentando manter algum controle.
Nada daquilo parecia real, mas ao mesmo tempo…haviam lacunas na minha vida que eu nao conseguia preencher. Tudo começava a fazer sentido.
— A CIA me deu uma missão — disse ele, retomando o foco. — Encerrar esse programa.
Olhei para ele novamente, ainda tentando acompanhar.
— Em troca… — continuou — Eu e você teremos liberdade.
Meu olhar se fixou no dele.
— E o Seth… poderá usar parte da criação dele para curar a Charlie, e...
Houve uma pausa curta porém carregada de algo mais...
— E… — completei.
Jacob deu mais um passo e ajoelhou diante de mim, essa proximidade me fez prender a respiração.
Ele sustentou meu olhar com uma intensidade que não deixava espaço para dúvida.
— Eu posso recuperar suas memórias.
A proximidade dele tornava tudo mais difícil de organizar. Não era apenas o que ele dizia, mas a forma como dizia, o olhar firme, a certeza que parecia não vacilar em nenhum momento. Eu estava ali, sentada, com o mundo inteiro sendo desmontado diante de mim, e ainda assim havia algo nele que me mantinha presa àquele instante.
Confusa.
Sem saber no que acreditar.
Sem saber em quem acreditar.
Jacob manteve o olhar no meu por mais alguns segundos antes de falar novamente, agora com um tom mais controlado, quase cuidadoso.
— Eu vou responder todas as suas dúvidas — disse ele. — Mas agora você precisa descansar.
Balancei a cabeça levemente, ainda tentando acompanhar tudo aquilo.
— O meu pai… — comecei, a voz mais baixa — ele sabe da KGB? Ele corre risco?
Jacob não desviou o olhar.
— Charlie Swan é intocável.
A resposta veio direta.
Franzi o cenho imediatamente.
— Por quê?
Houve uma pequena pausa.
— No momento certo, você vai saber.
A resposta não me satisfez.
— Eu preciso saber agora — insisti, sentindo a ansiedade crescer novamente.
Jacob respirou fundo antes de responder.
— Confia em mim.
Soltei um riso baixo, sem humor, desviando o olhar por um segundo.
— Eu não estou em condições de confiar nem em mim mesma.
Quando voltei a encará-lo, ele estava sorrindo.
Um sorriso leve.
Diferente.
Jacob se aproximou um pouco mais e, com um gesto simples, levou a mão até o meu rosto, afastando uma mecha de cabelo e colocando-a atrás da minha orelha. O toque foi suave demais para alguém como ele e isso só tornou tudo mais difícil.
— Você não faz ideia do quanto tem sido difícil ter você tão perto… — disse ele, a voz mais baixa agora — e não poder te tocar.
Meu coração acelerou forte e descompassado.
— Eu te amo — continuou ele, sem hesitar. — E senti a sua falta.
As palavras ficaram no ar, carregadas de algo que eu não sabia como processar.
Mas o corpo reagiu antes da mente, aquela proximidade, o calor, a forma como ele me olhava.
Tudo aquilo criou uma tensão que eu não consegui ignorar. Sem pensar, levei a mão até a camisa dele, puxando-o para perto.
E o beijei.
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