BlackSwan

27 Seguindo os rastros


Notas iniciais
Esperando a opinião de vocês. Tenho postado pouco porque ando doente, mas esse final de semana teremos mais capítulos.

Capítulo Especial: Narrado por Bree Tanner


Durante anos eu dividi a cama, o corpo e os segredos de Jacob Black acreditando que aquilo significava alguma coisa para ele.

Talvez esse tenha sido meu maior erro.

Nosso relacionamento nunca foi comum. Nada dentro da KGB era comum. Pessoas normais não sobreviveriam naquele lugar. Nós éramos treinados para mentir, manipular, desaparecer e matar antes mesmo de aprendermos a confiar em alguém. Ainda assim, Jacob conseguiu atravessar todas as barreiras que passei anos construindo dentro de mim.

Ele sabia exatamente como fazer isso.

Jacob tinha aquele jeito perigoso de olhar para uma pessoa como se ela fosse a única coisa importante no ambiente. Fazia perguntas, escutava de verdade e criava a ilusão de que se importava. Depois de um tempo comecei a passar mais noites no apartamento dele do que no meu próprio. Entre missões, relatórios secretos e operações clandestinas, existia uma vida silenciosa que parecia quase real.

Lembro das madrugadas em Manhattan. Jacob largado no sofá apenas de moletom lendo arquivos secretos como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo enquanto eu reclamava do gosto horrível do café americano. Lembro dele chegando machucado de missões e me irritando profundamente porque nunca aceitava ajuda médica sem antes ironizar a própria situação. Lembro das mãos dele na minha cintura enquanto eu preparava comida às três da manhã depois de operações que terminavam em sangue.

E lembro principalmente da forma como ele me fazia acreditar que havia futuro.

Esse foi o problema.

Enquanto eu construía sentimentos reais, Jacob provavelmente apenas sobrevivia mais um dia interpretando um papel.

Porque agora olhando para trás, percebo que nunca soube onde terminava o homem e começava o agente infiltrado.

Mesmo depois de descobrir que ele espionava a KGB, uma parte minha ainda quis protegê-lo. Isso me humilha até hoje. Eu deveria ter odiado Jacob imediatamente, mas amor não desaparece na velocidade que deveria. Continuei ajudando ele mesmo sabendo que estava traindo a organização. Passei informações, escondi rastros, desviei suspeitas.

Tudo porque achei que aquilo significava alguma coisa entre nós.

Então um dia ele simplesmente terminou.

Sem drama. Sem explicações profundas. Sem lutar por nós.

Jacob olhou para mim como quem encerra uma missão fracassada e disse que havia acabado. Como se anos juntos coubessem numa conversa fria dentro de um apartamento escuro. Como se eu fosse apenas mais uma bagagem inconveniente que ele precisava abandonar antes de fugir.

A pior parte não foi o término.

Foi perceber que ele realmente conseguiria ir embora sem olhar para trás.

Enquanto eu desmoronava tentando entender o que ainda era verdadeiro entre nós, Jacob já estava pensando nos próximos passos, nas próximas rotas de fuga, nos próximos planos secretos dos quais eu nunca fiz parte de verdade.

Aquilo destruiu algo dentro de mim.

Porque eu o amava de uma forma humilhante.

E ele sabia disso.

Quando a KGB descobriu que Jacob era um agente duplo, senti raiva pela primeira vez maior do que o amor que ainda carregava. Não foi apenas a traição profissional. Foi pessoal. Eu havia entregue minha vida emocional nas mãos dele enquanto ele escondia uma identidade inteira de mim.

Então fiz o que pessoas feridas fazem.

Entreguei Jacob Black.

Contei tudo o que sabia. Os hábitos. Os contatos. Os lugares. As falhas.

Parte de mim queria que ele sentisse medo pela primeira vez. Queria que ele entendesse o que fez comigo. Queria destruir aquele controle irritante que ele parecia ter sobre tudo.

Mas a KGB não queria justiça.

Queria limpeza.

Depois que Jacob desapareceu, os interrogatórios começaram. Agentes sumiam. Operações eram apagadas dos arquivos. Pessoas associadas a ele começavam a desaparecer silenciosamente. E eu percebi tarde demais que entregar Jacob não me salvaria.

Porque eu continuava sendo um risco.

Eu sabia demais sobre ele. Sobre a agência. Sobre operações clandestinas.

E pior.

A KGB sabia que eu ainda tinha sentimentos por Jacob Black.

Hoje entendo que talvez tenha sido isso que realmente assinou minha sentença. Não minhas informações. Não minhas falhas.

Meu amor por ele.

Agora eu também fugia.

Dormindo em hotéis baratos, usando documentos falsos e olhando constantemente por cima do ombro como um animal caçado. A cada semana ficava mais claro que eu não sobreviveria sozinha por muito tempo.

E no meio daquele medo constante, uma verdade continuava me perseguindo como uma doença.

Mesmo depois de tudo… Mesmo depois de ter sido descartada… Mesmo depois de entregá-lo…

Parte de mim ainda queria encontrar Jacob Black antes de todo mundo.


Encontrar Jacob Black se transformou em uma obsessão silenciosa.

No começo achei que seria simples. Jacob era cuidadoso, paranoico até, mas ninguém desaparecia completamente depois de tantos anos dentro da KGB. Todo agente deixava rastros. Contas paralelas. Contatos antigos. Casas seguras. Mulheres. Informantes. Alguma coisa sempre permanecia.

Com Jacob… não havia nada.

Nenhuma movimentação bancária suspeita. Nenhum documento reaparecendo. Nenhuma imagem em câmeras. Nenhum corpo. Nenhuma missão.

Era como caçar um fantasma treinado para apagar a própria existência.

Passei meses vivendo entre arquivos clandestinos e contatos antigos da KGB tentando reconstruir os últimos passos dele. Dormia pouco, mudava constantemente de cidade e carregava armas até para comprar café. A organização ainda me procurava, então cada investigação precisava ser silenciosa.

Comecei por Moscou.

Se Jacob havia planejado o próprio desaparecimento, tudo precisava ter começado ali. Moscou era o coração da KGB. O lugar onde ele construiu a reputação dele, os contatos e as identidades falsas. Passei semanas frequentando bares usados por agentes aposentados, subornando funcionários antigos e revendo registros internos que consegui roubar antes de fugir.

Foi ali que descobri a primeira coisa importante.

Jacob havia começado a agir estranho meses antes de desaparecer.

Operações canceladas sem justificativa. Entradas não registradas em setores restritos. Missões paralelas que ninguém conseguia explicar completamente.

E então apareceu um nome nos relatórios apagados.

Charlie Swan.

Aquilo imediatamente chamou minha atenção.

Charlie Swan havia sido uma figura importante dentro da KGB anos atrás. Inteligente, respeitado e perigosamente brilhante. Depois simplesmente desapareceu da linha de comando quase da noite para o dia. Oficialmente alegaram desgaste psicológico após a morte da filha mais velha, Elizabeth Swan.

Mas ninguém realmente acreditava nisso.

Na KGB ninguém se afastava apenas por tristeza.

Continuei puxando fios soltos até descobrir outra informação interessante. Pouco antes de Jacob desaparecer, ele havia deixado Moscou usando uma das identidades falsas ligadas a operações francesas.

Paris.

Aquela cidade parecia surgir constantemente ao redor dele.

Fui para lá poucas semanas depois.

Paris era completamente diferente de Moscou. Mais barulhenta. Mais viva. Mas Jacob ainda estava presente nos detalhes pequenos. Em hotéis pagos em dinheiro vivo. Em câmeras de trânsito apagadas misteriosamente. Em nomes falsos usados apenas uma vez.

Segui migalhas durante semanas até finalmente encontrar alguém útil.

Um antigo contato do submundo que trabalhava falsificando documentos para agentes clandestinos reconheceu a foto de Jacob imediatamente. Não soube dizer onde ele estava, mas confirmou algo importante.

Jacob havia retornado para Nova York antes de desaparecer completamente.

Aquilo mudou tudo.

Porque Nova York não fazia sentido.

Se Jacob estivesse fugindo da KGB, deveria evitar justamente os lugares mais monitorados pela CIA e pelas organizações internacionais. Voltar para Nova York significava que ele precisava resolver alguma coisa antes de sumir.

E novamente o nome apareceu.

Charlie Swan.

Comecei a cruzar datas, operações e registros clandestinos até perceber algo que fez meu sangue gelar.

Jacob Black provavelmente foi a última pessoa conhecida a encontrar Charlie Swan antes do velho desaparecer também.

Naquele momento tudo deixou de parecer apenas uma fuga comum.

Charlie Swan desaparecido. Jacob Black desaparecido. Arquivos apagados. Operações secretas. Queima de agentes da KGB.

Algo muito maior estava escondido naquela história.

Porque se Jacob arriscou destruir a própria vida por causa de Charlie Swan… então o velho devia estar escondendo algo grande o suficiente para fazer a KGB entrar em colapso.

Agora encontrar Jacob não era mais apenas pessoal.

Era sobrevivência.

E quanto mais eu descobria, mais tinha certeza de uma coisa.

Jacob Black não estava apenas fugindo.

Ele estava protegendo alguma coisa.





Voltar ao apartamento de Jacob em Nova York foi a coisa mais estúpida que fiz em meses.

E provavelmente a mais perigosa também.

O prédio continuava exatamente igual ao que eu lembrava. Frio, elegante e silencioso demais para Manhattan. Enquanto atravessava o saguão usando um boné escuro e documentos falsos, tive a sensação estranha de estar entrando em um pedaço da minha vida que deveria permanecer morto.

Cada segundo ali era um risco.

A KGB poderia estar monitorando o local. A CIA também. Talvez ambos.

Mas eu precisava tentar.

O elevador pareceu lento demais enquanto subia até o andar de Jacob. Mantive a mão próxima da arma escondida sob a jaqueta durante todo o trajeto. Meu coração batia rápido, não apenas pelo perigo, mas porque parte de mim ainda esperava abrir aquela porta e encontrar Jacob sentado no sofá como acontecia anos atrás.

Irritado. Sarcastico. Vivo.

Mas o apartamento estava vazio.

O silêncio me atingiu imediatamente assim que entrei.

Nenhum cheiro recente de café. Nenhuma música baixa. Nenhuma garrafa pela metade sobre o balcão.

Nada.

Jacob havia realmente abandonado aquele lugar.

Fechei a porta atrás de mim e comecei a vasculhar o apartamento metodicamente. Gavetas. Compartimentos falsos. Livros ocos. Jacob era paranoico demais para deixar algo importante exposto, então eu precisava pensar como ele.

O problema era que eu conhecia Jacob bem demais.

Passei quase duas horas revirando o apartamento inteiro até finalmente encontrar algo interessante dentro de uma pasta escondida atrás do painel falso do escritório.

Documentos de uma lancha.

Parei imediatamente observando os papéis.

O nome no registro não era Jacob Black. Claro que não. Jacob provavelmente tinha mais identidades falsas do que cicatrizes. Ainda assim, reconheci o padrão. Era uma documentação construída por alguém treinado pela KGB. Limpa demais. Precisa demais.

Passei os olhos pelas informações até parar no local do registro marítimo.

Brasil.

Meu estômago se apertou levemente.

Então lembrei de uma conversa antiga.

Jacob estava sentado no sofá naquela noite enquanto eu reclamava do inverno russo pela milionésima vez. Ele apenas riu e comentou que existiam lugares no mundo onde o frio nunca alcançava as pessoas.

“Amazônia”, ele disse. “Lá o ar parece vivo.”

Na época achei apenas uma conversa aleatória.

Agora não parecia mais.

Continuei procurando no escritório sentindo a adrenalina crescer lentamente. Jacob nunca deixava pontas soltas sem motivo. Se havia documentos ali, então existia algo maior escondido naquele apartamento.

Foi quando encontrei a folha.

Ela estava guardada sozinha dentro de uma gaveta estreita da escrivaninha. Apenas uma folha branca comum. Sem texto. Sem marcas. Sem nada.

E justamente por isso chamou minha atenção.

Peguei o papel lentamente entre os dedos enquanto uma memória antiga surgia na minha cabeça.

Tinta invisível.

Sorri sem perceber.

— Você é paranoico filho da mãe…

Peguei o celular no bolso e liguei a lanterna aproximando a luz da folha.

Nada aconteceu no começo.

Então lentamente linhas começaram a surgir no papel.

Primeiro sombras quase invisíveis. Depois coordenadas. Marcas. Rotas marítimas.

E finalmente um mapa.

Meu sorriso cresceu sozinho enquanto observava o desenho escondido surgir completamente diante dos meus olhos.

Amazônia.

Ilhas. Rotas fluviais. Pontos marcados manualmente.

Jacob Black realmente acreditou que conseguiria desaparecer do mundo para sempre.

Passei os dedos lentamente pelo mapa sentindo algo perigoso crescer dentro de mim.

Excitação.

Porque depois de anos caçando um fantasma… Eu finalmente tinha encontrado o caminho até ele.



A Amazônia parecia outro planeta.

Essa foi a primeira coisa que pensei quando o pequeno avião pousou na pista improvisada cercada por floresta dos dois lados. O ar era pesado, úmido e quente de uma forma sufocante. Tudo ali parecia vivo demais. O cheiro de terra molhada, rio e vegetação entrava pelos pulmões como se a própria floresta tentasse invadir o corpo.

Jacob odiava lugares apertados e frios.

Claro que teria escolhido se esconder ali.

Passei as primeiras horas em um hotel pequeno no coração do povoado tentando organizar as informações que tinha conseguido até aquele momento. O quarto era simples, ventilador barulhento no teto e paredes finas o suficiente para ouvir a televisão do quarto ao lado. Ainda assim, depois de tantos meses fugindo, aquilo parecia luxuoso.

Abri novamente o mapa escondido que encontrei no apartamento de Jacob e observei os pontos marcados à mão. Ele havia tomado cuidado para não indicar diretamente a localização exata, mas eu já o conhecia bem demais. Jacob sempre deixava caminhos de fuga alternativos. Rotas pelos rios. Pequenos pontos de parada. Lugares seguros.

O lobo sempre pensava alguns passos à frente.

Sorri sozinha ao pensar nisso enquanto guardava o papel novamente dentro da mochila. Depois peguei a foto de Jacob no bolso interno da jaqueta e saí do hotel.

O povoado parecia pequeno o suficiente para que qualquer rosto desconhecido chamasse atenção imediatamente. Casas coloridas de madeira, crianças correndo descalças perto da praia e pequenos bares onde homens observavam o rio como se o tempo passasse mais devagar ali.

E talvez passasse mesmo.

Segui até o porto tentando ignorar os olhares curiosos na minha direção. Eu claramente não pertencia àquele lugar. Meu português era horrível e meu sotaque tornava tudo ainda pior, mas precisava tentar.

Mostrei a foto de Jacob para dois pescadores primeiro.

Nenhum reconheceu.

Depois para um homem sentado perto de caixas de peixe.

Nada.

Comecei a achar que talvez estivesse seguindo uma pista errada quando um senhor moreno de barba grisalha parou de fumar lentamente ao olhar a fotografia.

Os olhos dele estreitaram imediatamente.

— Ah… americano.

Meu coração acelerou.

Aproximei a foto rapidamente.

— Você conhece ele?

O homem apontou para a imagem.

— Sim. Homem grande. Mora na ilha.

Por alguns segundos fiquei imóvel apenas absorvendo aquilo.

Ilha.

Então eu realmente estava certa.

— Qual ilha?

O homem levantou devagar e apontou para longe, na direção do rio aberto e das dezenas de pequenas formações cobertas pela floresta.

Falou rápido demais em português para eu entender tudo, mas consegui captar referências sobre tempo de viagem e uma região mais afastada perto de canais estreitos do rio.

Sorri imediatamente.

Finalmente.

— Você tem uma lancha?

O homem pareceu desconfiado na mesma hora. Me observou da cabeça aos pés antes de citar um valor absurdo em português lento o suficiente para eu entender.

Normalmente eu teria discutido.

Naquele momento apenas peguei o dinheiro.

Os olhos dele se arregalaram ligeiramente quando entreguei as notas sem hesitar.

Minutos depois eu já estava na pequena lancha cortando as águas escuras do rio enquanto o céu começava a ficar laranja com o início do entardecer. A Amazônia ao redor parecia infinita. Árvores gigantescas mergulhando dentro da água, sons desconhecidos vindo da mata fechada e pássaros atravessando o céu como sombras rápidas.

Durante horas naveguei seguindo as marcações do mapa e as orientações do homem do porto. Quanto mais avançava, mais isolado tudo ficava.

Jacob realmente tinha escolhido desaparecer do mundo.

E então eu vi.

A ilha surgiu lentamente entre a vegetação enquanto o motor da lancha diminuía de velocidade. Pequena, escondida e invisível para qualquer pessoa que não soubesse exatamente onde procurar.

Observei a praia silenciosa à frente enquanto um sorriso lento surgia nos meus lábios.

Depois sussurrei sozinha olhando para a ilha escondida no coração da floresta:

— Encontrei a toca do lobo.