Renesmee não perdeu tempo fazendo perguntas desnecessárias depois que mencionei Bree. Ela conhecia bem demais o mundo em que vivíamos para entender o que aquilo significava. Se alguém havia conseguido chegar até nossa ilha, então existia a possibilidade de outros chegarem também. Nessie não entrou em desespero, não chorou e nem deixou o medo controlar seus movimentos. Durante anos eu a treinei justamente para aquilo, controlar emoções antes que elas controlassem ela. Ainda assim, eu conhecia os pequenos sinais. A forma como seus olhos ficaram mais atentos. O jeito silencioso com que começou a observar as janelas da casa enquanto arrumava as mochilas. Renesmee sentia medo, raiva e preocupação como qualquer pessoa, a diferença era que ela sabia esconder melhor do que a maioria dos agentes que conheci na vida.

As mochilas começaram a se acumular sobre o sofá da sala rapidamente. A maior parte delas carregava roupas pequenas de Charlie, casacos infantis, remédios e brinquedos que nossa filha insistia em levar mesmo sem entender completamente o que estava acontecendo. Renesmee dobrava as roupas com movimentos rápidos enquanto eu pegava dinheiro escondido, documentos falsos e algumas armas guardadas pela casa. Charlie permanecia sentada no tapete abraçada à boneca nova que havia ganhado horas antes, completamente alheia ao peso real daquela fuga.

— Mamãe… a gente vai passear? — ela perguntou olhando para Renesmee.

Nessie ergueu os olhos na minha direção antes de responder. Aquela pequena troca silenciosa entre nós dois dizia mais do que qualquer conversa.

Sorri para Charlie e me aproximei dela, me abaixando até ficar na altura dos seus olhos.

— Vamos sim, princesa. Vamos conhecer outro lugar e alguns amigos do papai.

Os olhos dela brilharam imediatamente.

— Amigos de verdade?

— Alguns são legais — respondi arrancando uma pequena risada de Renesmee.

Charlie comemorou abraçando a boneca contra o peito como se aquilo fosse a melhor notícia possível. Ver a inocência dela diante daquela situação me atingia de um jeito estranho. Nossa filha nunca tinha saído da ilha de verdade. O máximo que conhecia do mundo exterior era o pequeno vilarejo ribeirinho próximo dali, as pessoas simples da praça, os pescadores do porto e as músicas de carimbó que ela adorava ouvir quando íamos escondidos até a cidade. Para Charlie, qualquer coisa além da floresta e do rio ainda parecia uma grande aventura.

Talvez fosse melhor assim.

Talvez eu ainda estivesse tentando preservar um pedaço de infância que o mundo inevitavelmente arrancaria dela mais cedo ou mais tarde.

Enquanto fechava uma das mochilas, senti Renesmee se aproximar silenciosamente. Olhei para ela e encontrei seus olhos fixos em mim. Não havia pânico ali. Apenas aquela calma intensa que sempre me desarmava. Segurei seu rosto entre as mãos e a beijei devagar, tentando transmitir uma segurança que eu mesmo precisava sentir naquele momento.

— Vai ficar tudo bem — murmurei contra os lábios dela.

Nessie assentiu sem hesitar.

Ela confiava em mim.

E aquela confiança às vezes parecia pesada demais para carregar.

Poucos minutos depois deixamos a cabana. A chuva continuava caindo sobre a ilha enquanto o vento balançava as árvores ao redor da praia. Levei as mochilas até a lancha primeiro, organizando rapidamente tudo no compartimento de carga enquanto observava constantemente a floresta ao redor. Minha mente trabalhava sem parar calculando possibilidades, rotas de fuga e cenários ruins. Bree podia ter vindo sozinha, mas eu não apostaria a vida da minha família nisso.

Quando voltei até a areia, Renesmee caminhava segurando Charlie no colo sob uma capa de chuva amarela que fazia nossa filha parecer ainda menor. Charlie apontava animada para o rio escuro enquanto falava alguma coisa sobre peixes noturnos que provavelmente existiam apenas na imaginação dela.

Abri a pequena porta da cabine protegida da lancha e olhei para Nessie.

— Melhor você e Charlie irem aqui embaixo. A chuva vai piorar quando entrarmos no canal principal.

Ela concordou imediatamente.

Renesmee desceu com Charlie para a cabine mais confortável da embarcação enquanto eu soltava as amarras da lancha e verificava o combustível mais uma vez. Assim que ouvi a voz da nossa filha perguntando à mãe se os amigos do papai moravam “em castelos”, liguei o motor.

O ronco da embarcação cortou o silêncio da madrugada.

Observei a ilha apenas por alguns segundos antes de acelerar. A pequena casa de madeira começou a desaparecer lentamente atrás da cortina de chuva enquanto a lancha avançava pelo rio escuro cercado pela floresta.

Eu sabia exatamente para onde estava indo.

Não para um aeroporto. Não para uma cidade. Nem para qualquer lugar registrado oficialmente.

Anos antes, ainda paranoico com a possibilidade de precisar desaparecer rápido demais, preparei um ponto clandestino no meio da Amazônia. Um pequeno hangar escondido entre árvores gigantescas e canais isolados onde mantinha um avião abastecido e pronto para fuga.

Na época não achei que precisaria utiliza-lo, mas eu estava enganado.


A viagem pelo rio durou horas.

A chuva diminuiu em alguns momentos, mas a floresta continuava escura e sufocante ao redor da lancha enquanto eu seguia pelos canais mais isolados da região. Renesmee permaneceu boa parte do trajeto em silêncio dentro da cabine ao lado de Charlie, apenas observando tudo através das pequenas janelas molhadas. Eu sabia que ela estava pensando. Nessie fazia isso quando precisava organizar emoções demais ao mesmo tempo. Não surtava, não perdia o controle e nem deixava o medo dominar suas ações, mas eu conseguia perceber quando sua mente começava a trabalhar rápido demais.

E havia motivos suficientes para isso.

Bree aparecendo na ilha mudava tudo.

Quando finalmente alcancei o canal estreito escondido entre árvores gigantescas, reduzi a velocidade da embarcação até quase parar. O lugar era tão fechado pela vegetação que parecia impossível existir qualquer coisa ali dentro. Passei por duas curvas apertadas até o pequeno hangar começar a surgir no meio da floresta como uma estrutura abandonada.

Desliguei o motor e pulei primeiro na pequena plataforma de madeira molhada antes de ajudar Renesmee a sair com Charlie no colo.

Assim que os olhos dela encontraram o enorme galpão escondido entre as árvores, Nessie arqueou levemente as sobrancelhas.

— Você tinha um hangar secreto na floresta Amazônica esse tempo inteiro?

Soltei uma pequena risada enquanto pegava as mochilas.

— Você já deveria saber que eu sempre tenho uma carta na manga.

Renesmee cruzou os braços me olhando com aquele ar desconfiado divertido que eu adorava.

— Às vezes eu acho preocupante o quanto você planeja fugas.

— Isso se chama experiência profissional.

Charlie interrompeu antes que Nessie respondesse qualquer coisa. A pequena praticamente saltou dos braços da mãe assim que viu o avião parado dentro do hangar.

— Nós vamos andar de avião?!

A animação instantânea dela conseguiu deixar o ambiente mais leve por alguns segundos. Sorri automaticamente ao vê-la correr desajeitada pelo piso de concreto observando a aeronave como se tivesse encontrado um brinquedo gigante.

Me aproximei dela e beijei seus cabelos cacheados ainda úmidos da chuva.

— Vamos sim, princesa.

Charlie abriu um sorriso tão grande que por um instante parecia impossível existir qualquer ameaça no mundo.

Enquanto organizava as mochilas próximas ao avião, ouvi Renesmee falar atrás de mim em um tom muito mais frio:

— Nós deveríamos ter eliminado Bree quando tivemos chance. Teria sido mais fácil.

Olhei para ela imediatamente.

A forma calma como Nessie falava coisas assim ainda me surpreendia às vezes. Não porque fosse cruel. Pelo contrário. Renesmee apenas enxergava situações perigosas de maneira objetiva demais quando se tratava da nossa família.

Fechei o compartimento de bagagens antes de responder:

— Mesmo que fizéssemos isso, não seria garantia de que Bree não contou sobre mim para a KGB antes.

Nessie me encarou por alguns segundos em silêncio.

— É só por isso mesmo?

Ah.

Então era aquilo.

Observei ela deixar Charlie no chão enquanto nossa filha caminhava lentamente ao redor do avião fascinada com cada detalhe da aeronave. Só então percebi a expressão discreta no rosto de Renesmee.

Ela estava com ciúmes e aquilo quase me fez rir.

Aproximei-me devagar e puxei ela pela cintura até seu corpo colar no meu.

— Isso é ciúmes? — perguntei baixo perto do ouvido dela.

Nessie estreitou os olhos tentando manter a expressão séria, mas eu percebi o pequeno desconforto imediatamente.

— Eu não gosto dela.

— Você nem conhece a Bree.

— Conheço o suficiente.

Sorri sem conseguir evitar.

— Nessie…

Ela suspirou irritada antes de apoiar as mãos no meu peito.

— Ela olhou para você como se…

A frase morreu no instante em que uma voz feminina ecoou atrás de nós.

— Você continua previsível, Jacob.

Meu corpo inteiro ficou rígido imediatamente.

Virei devagar enquanto Renesmee também se afastava de mim automaticamente.

Bree estava parada na entrada do hangar segurando uma arma. Alta, elegante e completamente seca apesar da chuva do lado de fora, como se tivesse chegado ali há tempo suficiente para se acomodar. O sorriso dela carregava aquela arrogância típica de agentes veteranos da KGB.

Mas então aconteceu.

Bree finalmente desviou os olhos de mim e encarou Renesmee, a expressão dela mudou instantaneamente.

O sorriso desapareceu. A arma abaixou alguns centímetros. E pela primeira vez desde que conheci Bree... ela pareceu assustada.

Não. Assustada não.

Chocada.

Como alguém que acabava de ver um fantasma sair dos mortos.

Bree deu um pequeno passo involuntário para trás enquanto observava Renesmee sem conseguir esconder o espanto.

Então murmurou quase sem voz:

— Não… isso é impossível.

Meu corpo inteiro ficou tenso no instante em que Bree ergueu a arma novamente. O hangar parecia pequeno demais de repente. O som distante da chuva batendo na estrutura metálica misturado ao motor ainda quente da lancha criava um silêncio sufocante entre nós.

Bree continuava encarando Renesmee como se estivesse diante de algo impossível.

Ou proibido.

Os olhos dela percorriam Nessie lentamente, absorvendo cada detalhe. O rosto. Os cabelos. A aparência quase idêntica às antigas fotografias de Elizabeth Swan que circulavam pelos arquivos secretos da KGB como uma lenda enterrada.

Então Bree começou a rir baixo.

Um riso desacreditado.

— Meu Deus… os boatos eram reais.

Renesmee automaticamente puxou Charlie para mais perto do corpo dela enquanto me observava atentamente. Não havia pânico no rosto de Nessie. Apenas cálculo. Ela avaliava distância, reação e ameaça exatamente como eu a treinei para fazer.

Mas Charlie…

Nossa filha sentia o ambiente mudar mesmo sem entender completamente.

A pequena correu rapidamente até Renesmee e se agarrou nela imediatamente.

— Mamãe… — murmurou assustada antes de olhar para mim. — Papai… eu tô com medo.

Ouvir aquilo fez algo dentro de mim ficar perigosamente frio.

Bree então percebeu outro detalhe.

Os olhos dela desceram lentamente até Charlie.

Depois voltaram para mim.

E eu vi o momento exato em que tudo piorou.

— Não… — ela sussurrou quase sem acreditar. — Você teve uma filha com ela?

A voz saiu carregada de choque e algo muito próximo de ódio.

Charlie escondeu o rosto no pescoço de Renesmee enquanto Nessie acariciava os cabelos dela tentando mantê-la calma.

— Bree — falei baixo. — Abaixa a arma.

Ela ignorou completamente minha ordem.

Os olhos dela continuavam presos em Renesmee agora.

— Então era isso. Todo esse tempo… você estava escondendo ela.

Nessie sustentou o olhar de Bree sem recuar nem um centímetro.

— Jacob… — Bree murmurou lentamente. — Você fazia ideia do que ela é?

Não respondi.

Porque a resposta era óbvia.

Bree apertou a arma com mais força.

— A KGB vai destruir o mundo inteiro atrás dela.

— Abaixa a arma — repeti mais firme.

Ela finalmente me olhou.

E naquele instante percebi que Bree Tanner estava completamente quebrada emocionalmente. Talvez estivesse há muito tempo.

— Você escolheu ela — disse com a voz falhando minimamente. — Depois de tudo que eu fiz por você… você escolheu ela.

— Isso não é sobre você.

— Claro que é! — ela explodiu finalmente. — Eu destruí minha vida por sua causa!

Charlie começou a chorar baixinho assustada com o tom da voz dela. Renesmee imediatamente abraçou nossa filha contra o peito enquanto seus olhos começavam a escurecer lentamente daquele jeito perigoso que eu conhecia bem demais.

Nessie estava ficando com raiva.

E aquilo podia acabar muito mal.

Dei um passo à frente.

— Bree. Última chance.

Mas ela já não estava ouvindo mais.

A arma lentamente mudou de direção.

Apontando diretamente para Renesmee.

E para Charlie.

O mundo inteiro pareceu desacelerar naquele segundo.

Charlie escondida nos braços da mãe. Renesmee imóvel. A chuva batendo no telhado. Meu coração desacelerando ao invés de acelerar.

Porque existiam momentos em que o medo simplesmente desaparecia.

E aquilo era um deles.

Olhei diretamente para Bree enquanto minha voz saiu fria o suficiente para assustar até a mim mesmo.

— Você acabou de cometer o último grande erro da sua vida.