BlackSwan
5 O jogo
Mantive a arma firme enquanto nossos olhares se encontravam, o silêncio entre nós sendo preenchido apenas pelos ecos distantes do tiroteio que ainda ressoava pelo porto. Jacob não demonstrava qualquer pressa, qualquer tensão visível, como se aquele cenário inteiro tivesse sido planejado com antecedência.
— Fico feliz em revê-la — disse ele, com um sorriso tranquilo demais para alguém naquela posição.
Ignorei o tom leve. Abaixei-me rapidamente ao lado de um agente desacordado próximo dali, retirando o comunicador preso ao colete dele e encaixando-o no ouvido com movimentos precisos. Mantive os olhos em Jacob enquanto ativava o canal.
— Cisne Negro na linha — falei, firme. — Estou com o Lobo à minha frente.
Houve um breve ruído estático antes da resposta surgir, masculina, direta.
— Prioridade alterada. Você precisa recuperar o Millennium. O objeto está com Jacob Black.
Franzi levemente o cenho, sem desviar o olhar dele.
— Confirme — pedi, ainda que já soubesse que não haveria explicações adicionais.
— Recupere o Millennium — repetiu a voz. — A missão depende disso.
A transmissão foi encerrada.
Por um segundo, permaneci imóvel, absorvendo a informação. Eu não sabia o que era aquele tal de Millennium, mas sabia o suficiente para entender o peso daquela ordem.
— Positivo — respondi, mesmo sem retorno.
E então avancei.
Corri na direção dele sem hesitar, reduzindo a distância em poucos passos e lançando o primeiro golpe com precisão. Jacob reagiu instantaneamente, bloqueando com firmeza e desviando o corpo com uma agilidade ainda mais evidente do que antes. Não havia mais espaço para aquela falsa leveza que ele havia demonstrado no hotel.
Dessa vez, ele não estava facilitando.
Troquei golpes rápidos, alternando direção e altura, buscando qualquer abertura. Ele respondia com a mesma intensidade, antecipando movimentos, quebrando minha base, obrigando-me a reajustar a postura a cada segundo. A diferença era clara.
Ele estava lutando de verdade.
— Agora eu entendo — disse, entre um golpe e outro, recuando meio passo para evitar um contra-ataque. — Você se entregou.
Jacob girou o corpo, desviando de um chute e respondendo com um movimento rápido que me obrigou a recuar.
— Eu só vim buscar algo que é meu — respondeu, com a voz mais séria dessa vez.
Avancei novamente, forçando-o para trás, pressionando com uma sequência de ataques que o fez perder terreno por um breve instante. Foi nesse momento que notei.
Algo caiu.
Um pequeno objeto deslizou para longe, atingindo o chão de concreto e parando a alguns metros de nós. Tinha o tamanho de um chip, discreto, quase insignificante à primeira vista.
Mas a reação dele disse tudo.
Pela primeira vez desde que o confronto começou, Jacob hesitou.
A tensão apareceu no olhar.
E isso foi suficiente.
Nos movemos ao mesmo tempo.
Corri na direção do objeto, sentindo o ar cortar ao redor enquanto ele fazia o mesmo. Nossos corpos colidiram antes de alcançar o destino, e a luta recomeçou com ainda mais intensidade, mais urgente, mais agressiva. Cada golpe agora carregava um objetivo claro.
O chip.
Desviei de um ataque, girei o corpo e usei o impulso para derrubá-lo, conduzindo-o ao chão com força suficiente para ganhar os segundos que precisava. Me inclinei e alcancei o objeto, fechando os dedos ao redor dele antes de me afastar.
Eu tinha conseguido.
Mas não por muito tempo.
Jacob reagiu com uma velocidade brutal, avançando e me atingindo com um movimento preciso que me fez perder o equilíbrio. O impacto foi suficiente para arrancar o objeto da minha mão. Ele caiu no chão, quicando uma vez antes de se partir com um estalo seco.
O som ecoou mais alto do que qualquer disparo.
Por um segundo, tudo parou.
Olhei para o chão e o chip estava quebrado.
Levantei o olhar imediatamente para Jacob, a expressão dele havia mudado completamente.
A calma havia desaparecido, no lugar, havia algo mais cru.
Frustração. Raiva.
— Não… — ele murmurou, dando um passo na direção dos pedaços, como se ainda houvesse algo a ser salvo.
Aproveitei o instante.
Avancei novamente, pronta para atingi-lo enquanto ainda estava desestabilizado, mas antes que pudesse completar o movimento, o som de novos disparos cortou o ar, muito mais próximos desta vez, seguidos pelo barulho inconfundível de hélices girando acima de nós.
Um helicóptero.
Me abaixei instintivamente, buscando cobertura enquanto a luz forte da aeronave varria o espaço entre os contêineres. Homens surgiam ao redor, o caos retornando com intensidade total.
Quando voltei o olhar para ele, Jacob já estava em movimento.
Correu em direção a uma escada que descia do helicóptero, agarrando-se a ela com precisão enquanto começava a subir. Levantei-me imediatamente e disparei em sua direção, correndo para alcançá-lo, ignorando o perigo ao redor.
Mas não foi suficiente.
A escada começou a subir antes que eu pudesse chegar.
Parei, observando enquanto ele se afastava, sendo puxado para cima, para fora do meu alcance.
Por um instante, nossos olhares se encontraram novamente.
Sem palavras.
Sem provocação.
Apenas entendimento.
E então ele se foi.
O helicóptero se afastou, desaparecendo na escuridão, deixando para trás apenas o som distante das hélices e os restos de um confronto que ainda não havia terminado.
Apertei o maxilar, o olhar fixo no ponto onde ele havia desaparecido.
Aquilo não era o fim.
Era apenas o começo.
A porta do apartamento se fechou atrás de mim com um clique seco, abafando o som distante da cidade e deixando apenas o silêncio preenchendo o espaço. Caminhei alguns passos sem pressa, sentindo o cansaço finalmente começar a pesar nos músculos, não como fraqueza, mas como consequência inevitável de cada decisão tomada nas últimas horas. Retirei a arma da lateral do corpo e a deixei sobre a mesa com cuidado, o metal frio tocando a superfície de madeira com um som discreto que ecoou mais do que deveria naquele ambiente vazio.
A comunicação havia sido interrompida no exato momento em que Jacob escapou. Sem instruções, sem explicações. Apenas o protocolo sendo executado, agentes chegando, isolando a área, limpando qualquer vestígio como se nada tivesse acontecido. Como sempre.
Abri a mão devagar.
Os fragmentos do microchip ainda estavam ali.
Aproximei-me da mesa e os observei com mais atenção, girando levemente os pedaços entre os dedos. Não era um dispositivo comum. A estrutura interna não seguia nenhum padrão que eu reconhecesse de imediato, e havia algo mais. Um resíduo.
Um líquido.
Quase imperceptível, mas ainda presente.
Inclinei a mão, analisando a forma como ele se espalhava de maneira irregular sobre a superfície quebrada, refletindo a luz de forma diferente, mais densa, como se não pertencesse àquele tipo de tecnologia. Não era apenas armazenamento de dados. Aquilo carregava outra função.
Algo que eu ainda não compreendia.
Soltei um suspiro baixo e deixei os fragmentos sobre a mesa, afastando-os de mim como se precisasse de distância para pensar com clareza. Meus olhos desviaram para o celular, ainda largado ao lado, a tela apagada escondendo o que eu já sabia que encontraria.
Peguei o aparelho.
A tela acendeu imediatamente.
Diversas notificações.
Chamadas perdidas.
Mensagens.
Todas de Bella.
O nome dela repetido tantas vezes trouxe de volta, de forma quase abrupta, a outra parte da minha vida. Aquela que não envolvia armas, perseguições ou decisões que precisavam ser tomadas em segundos. Aquela onde eu ainda era apenas a irmã que prometeu estar presente.
Passei o polegar sobre a tela, mas não abri nenhuma das mensagens. Ainda não.
Soltei o ar devagar, apoiando o celular novamente sobre a mesa enquanto levava a mão até o cabelo, desfazendo o que restava do penteado com um gesto cansado. A imagem do porto ainda estava viva na minha mente. O olhar dele. A reação ao chip quebrado.
Aquilo não havia sido apenas uma fuga.
Havia algo maior em jogo.
E eu tinha destruído parte disso.
Fechei os olhos por um instante, permitindo que o silêncio ocupasse o espaço que antes era preenchido por tiros e movimento. Precisava organizar os pensamentos. Precisava entender.
Mas, antes disso…
Bella.
Abri os olhos novamente, pegando o celular com mais firmeza, mas sem desbloqueá-lo. A pergunta veio inevitável, simples demais para a realidade que eu vivia.
O que eu diria a ela?
Deixei o aparelho de lado mais uma vez, caminhando em direção ao banheiro enquanto desfazia o zíper do vestido com movimentos lentos. A água seria suficiente para acalmar o corpo, talvez até a mente, ainda que por pouco tempo.
Porque, no fundo, eu já sabia.
Assim que aquela noite terminasse, eu teria que escolher minhas palavras com o mesmo cuidado que escolhia meus alvos.
A água caía em fluxo constante, quente o suficiente para relaxar os músculos, mas incapaz de silenciar completamente a mente. Permaneci sob o chuveiro por alguns minutos, os olhos fechados, deixando que o som abafado preenchesse o espaço enquanto tentava organizar os pensamentos que insistiam em se repetir.
Jacob.
A imagem dele voltava com clareza incômoda. O olhar atento, sempre calculando. O sorriso que parecia carregar mais intenção do que provocação. E o físico… forte, preciso, moldado para o combate de uma forma que não deixava dúvidas sobre quem ele era.
Abri os olhos de repente, irritada comigo mesma.
— Que loucura é essa… — murmurei, passando a mão pelo rosto, afastando a água como se pudesse levar junto aqueles pensamentos.
Não fazia sentido.
Ele era um alvo.
Um traidor.
Nada além disso.
Girei o registro, encerrando o fluxo de água, e saí do box, envolvendo o corpo na toalha com movimentos automáticos. O silêncio do apartamento voltou a se impor enquanto eu caminhava pelo quarto, ainda distraída, a mente insistindo em revisitar cada detalhe do encontro.
Foi então que a tela do celular acendeu.
Uma nova notificação.
Parei imediatamente.
O instinto falou mais alto.
Aproximei-me da mesa e peguei o aparelho, o olhar fixo na tela enquanto desbloqueava com rapidez. Havia uma mensagem de um número desconhecido:
“ Aceite jantar comigo. J.B ”
O ar pareceu desaparecer por um segundo, meu coração bateu mais forte, não por surpresa, mas pela confirmação.
Ele.
Antes que eu pudesse reagir, outra notificação surgiu logo abaixo.
Um vídeo.
Franzi o cenho, sentindo uma tensão imediata percorrer o corpo inteiro. Toquei na tela sem hesitar.
A imagem carregou.
E tudo dentro de mim parou.
Bella.
Ela estava sentada, presa a uma cadeira, as mãos amarradas, o rosto tenso, claramente assustada. O ambiente ao redor era escuro, indefinido, impossível de identificar de imediato.
— Renesmee… — a voz dela saiu baixa, trêmula.
O vídeo cortou.
Fiquei imóvel por um instante, o celular ainda em minha mão, os olhos fixos na tela agora apagada. A respiração travou, o corpo inteiro reagindo com uma mistura de choque e algo muito mais perigoso.
Desespero.
— Não… — sussurrei, a voz falhando pela primeira vez.
A mente tentou acompanhar, conectar os pontos, mas a emoção veio mais rápido. Apertei o celular com força, o coração agora acelerado demais, cada batida ecoando como um aviso.
Aquilo era um jogo.
E ele havia acabado de mudar as regras.
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