BlackSwan
6 Jantar a dois
Passei o restante do dia mergulhada em buscas que não levavam a lugar algum. Sistemas, câmeras, registros de embarque, movimentações financeiras. Cada pista que eu encontrava parecia promissora por alguns minutos, apenas para se dissolver em inconsistências logo depois. Ainda assim, uma informação se manteve sólida.
Bella e Edward haviam embarcado.
Destino: Ilhas Cayman.
Revisei as imagens mais de uma vez, observando cada detalhe, cada gesto, cada expressão. Nada indicava ameaça naquele momento. Nenhum sinal de coação. Nenhuma anormalidade visível. Era como se tivessem simplesmente seguido viagem.
Mas eu sabia melhor.
Apertei os lábios, soltando o ar lentamente enquanto me recostava na cadeira. Aquilo não fazia sentido. Nada daquilo fazia. Jacob não era impulsivo. Não agia sem motivo. E, ainda assim, Bella estava nas mãos dele.
Ou de alguém ligado a ele.
Fechei os olhos por um breve instante, tentando organizar as ideias, quando o som da campainha cortou o silêncio do apartamento de forma abrupta.
Meu corpo reagiu na mesma hora.
Levantei-me com rapidez, alcançando o coldre sobre a mesa e ajustando a arma na cintura, escondendo-a sob a roupa com movimentos precisos. Caminhei até a porta com passos silenciosos, posicionando-me ao lado antes de girar a maçaneta.
Abri a porta e um homem estava do outro lado, vestindo o uniforme de entregador, segurando uma caixa grande apoiada contra o corpo.
— Entrega para Renesmee Swan — disse ele, em tom neutro.
Franzi levemente o cenho, mantendo a postura firme.
— Não estou esperando nada.
Ele olhou para um pequeno dispositivo em mãos antes de erguer o olhar novamente.
— A senhorita é Renesmee Swan?
— Sou — respondi, sem desviar o olhar.
Ele assentiu, como se aquilo fosse suficiente, e estendeu o aparelho na minha direção.
— Preciso de uma assinatura.
Assinei rapidamente, sem tirar a atenção dele, e recebi a caixa logo em seguida. O peso era leve demais para o tamanho.
— Tenha uma boa noite — disse ele, já se afastando.
Fechei a porta com cuidado, girando a chave antes de me virar lentamente, a caixa ainda em minhas mãos. Caminhei até a sala e me sentei no sofá, apoiando o objeto à minha frente enquanto analisava cada detalhe do exterior.
Nenhuma identificação ou origem.
Apenas o tamanho… e o momento.
Suspirei baixo, já sabendo que aquilo não era coincidência.
Abri a caixa e dentro havia um vestido verde, elegante, perfeitamente dobrado, acompanhado por um par de sapatos que combinavam com precisão. Passei os dedos pelo tecido por um segundo, sentindo a qualidade, o cuidado na escolha.
Aquilo não era aleatório.
Havia intenção.
Debaixo das peças, um cartão, o abri e li :
“ Para combinar com seus olhos hoje à noite.
J.B. ”
Fechei os olhos por um segundo, deixando o cartão cair de volta na caixa enquanto soltava o ar de forma mais pesada.
— Esse cara é doente… — murmurei, balançando levemente a cabeça.
Parei diante do espelho por alguns segundos a mais do que o necessário, analisando cada detalhe com atenção quase clínica. O vestido verde se ajustava ao corpo com precisão, o tecido marcando as curvas de forma elegante, com o comprimento abaixo dos joelhos mantendo a sobriedade que a situação exigia. Os cabelos soltos caíam sobre os ombros de forma natural, contrastando com a maquiagem mais marcada, pensada não para impressionar, mas para controlar. Cada escolha ali tinha um propósito.
Inclinei levemente a cabeça, observando o reflexo como se estivesse avaliando outra pessoa.
— Certo… — murmurei, em voz baixa.
Se ele queria um jogo, então teria.
Peguei o coldre sobre a mesa e o ajustei sob o vestido com cuidado, testando o acesso à arma uma última vez antes de me afastar do espelho. Não havia espaço para erro. Não naquela noite.
O celular vibrou, olhei para a tela e havia uma nova mensagem.
“ O carro está à sua espera. ”
Respirei fundo, sentindo o peso da decisão se instalar de forma definitiva, e então saí.
O ar da noite estava mais frio, cortando levemente a pele exposta enquanto eu atravessava o pequeno caminho até o portão do prédio. Assim que passei por ele, o carro já estava ali.
Preto. Discreto. Imponente o suficiente para não passar despercebido, mas comum o bastante para não levantar suspeitas imediatas.
Antes mesmo que eu pudesse parar completamente, a porta traseira se abriu.
Entrei sem hesitar.
O interior era escuro, silencioso, isolando completamente o mundo exterior. A porta se fechou atrás de mim com um som abafado, e o veículo começou a se mover quase imediatamente. Olhei na direção do banco dianteiro, tentando identificar o motorista, mas a iluminação era baixa demais. Havia apenas a silhueta.
Cruzei as pernas, mantendo a postura firme enquanto observava a cidade passar pela janela, as luzes se distorcendo conforme o carro ganhava velocidade. Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma tentativa de interação.
Apenas silêncio e tempo.
Uma hora se passou e o veículo desacelerou de forma gradual até parar completamente. A porta foi aberta do lado de fora, permitindo que o ar frio entrasse novamente, trazendo junto um ambiente completamente diferente do que eu havia deixado para trás.
Saí do carro e a minha frente havia uma mansão. Imponente, isolada, cercada por sombras e iluminação estrategicamente posicionada. Não havia sinais claros de onde exatamente eu estava, apenas a certeza de que não era um lugar acessível a qualquer um.
Fechei a porta do carro sem olhar para trás e segui em direção à entrada, cada passo calculado, cada movimento consciente. A porta principal estava entreaberta, entreibe vi o interior que era tão luxuoso quanto o exterior sugeria. A sala ampla, decorada com extremo cuidado, refletia poder e controle em cada detalhe. Ao centro, uma mesa de jantar perfeitamente posta, como se estivesse à espera de convidados que ainda não haviam chegado.
Parei por um instante.
O silêncio se prolongou.
Até que a voz surgiu.
— Boa noite, Swan.
Grave. Controlada. Familiar.
— Está linda.
Girei o corpo lentamente.
E o vi Jacob Black descendo as escadas.
Ele estava diferente.
Não pela presença, que continuava a mesma, firme e dominante, mas pela forma como havia escolhido se apresentar. Jacob vestia um terno escuro, ajustado ao corpo com precisão, a camisa levemente aberta no colarinho dispensando qualquer formalidade excessiva. As mangas do paletó acompanhavam a linha dos ombros largos, e cada detalhe parecia calculado para transmitir controle sem esforço. Não havia descuido, não havia improviso.
Ele não estava ali por acaso.
— Você realmente gosta de exagerar — disse, mantendo a voz firme enquanto cruzava os braços. — Vestido, jantar, carro… isso tudo é desnecessário.
Jacob inclinou levemente a cabeça, o sorriso surgindo de forma quase preguiçosa.
— Ansiosa — comentou, como se aquela fosse a conclusão mais óbvia do mundo.
Ele se afastou alguns passos, caminhando até a mesa lateral onde duas taças já estavam posicionadas. Pegou uma delas e a ergueu levemente.
— Aceita uma bebida?
Observei o líquido no copo sem me mover.
— Eu não bebo álcool.
— Não é álcool — respondeu, com naturalidade. — Suco de laranja.
Houve uma pausa breve.
Mantive o olhar fixo nele, avaliando cada gesto, cada palavra, antes de ignorar completamente a oferta.
— Onde está a Bella?
A mudança no tom foi imediata.
Jacob levou a taça aos lábios, bebendo um pequeno gole antes de responder, sem demonstrar qualquer pressa.
— Ela está bem — disse, simples. — Só é um pouco exigente. Não quis comer a pizza de quatro queijos.
Senti a tensão subir de forma instantânea.
— Ela é alérgica — corrigi, sem esconder a irritação.
Por um segundo, ele apenas me observou.
Então ergueu levemente as sobrancelhas, como se tivesse acabado de receber uma informação interessante. Pegou o celular do bolso do paletó e digitou rapidamente, sem desviar o olhar de mim.
— Evitem queijo para a nossa convidada. Ela é alérgica — murmurou, lendo a mensagem antes de enviá-la.
Aquilo foi o suficiente.
Apertei o maxilar, sentindo a irritação crescer de forma mais intensa.
— Chega — disse, firme. — O que você quer?
Dei um passo à frente, reduzindo a distância entre nós, ignorando completamente o ambiente ao redor.
— Eu não vou participar dessa palhaçada.
Jacob sorriu novamente, mas dessa vez havia algo mais no olhar dele, algo mais atento, mais interessado na minha reação do que nas minhas palavras.
— Impaciente — repetiu, com um leve tom de diversão.
Ele indicou o sofá com um gesto simples, como se estivesse convidando para uma conversa casual.
— Sente-se.
Sentei-me no sofá sem tirar os olhos dele, mantendo a postura firme, as mãos apoiadas de forma controlada, como se qualquer movimento fora do lugar pudesse alterar o equilíbrio daquele ambiente. Jacob permaneceu de pé por alguns segundos, observando-me como se avaliasse não apenas minha reação, mas cada detalhe do que eu ainda não havia dito. Em seguida, caminhou até a mesa, pegou a bebida e levou o copo aos lábios, tomando um gole lento antes de começar a falar.
— Isso tudo poderia ter sido evitado — disse, com a voz baixa, mas carregada de intenção — se você não tivesse quebrado algo importante.
A frase ficou no ar por um instante, e a imagem voltou com clareza imediata à minha mente.
O microchip.
Inclinei levemente o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, mantendo o olhar fixo nele.
— Aquilo… — comecei, escolhendo as palavras com cuidado — o que era?
Jacob soltou uma breve risada, quase desacreditada, balançando a cabeça enquanto se afastava alguns passos, caminhando pela sala como se aquela conversa fosse apenas mais um detalhe em um plano maior.
— Eles não te disseram? — perguntou, com um leve sarcasmo.
Não respondi.
Apenas o encarei.
Ele parou.
O sorriso diminuiu um pouco, substituído por uma expressão mais séria, mais direta. Quando voltou a falar, não havia mais provocação no tom.
— Aquilo é a maior inteligência já criada.
A forma como disse fez o ar parecer mais pesado.
— Se chama Millennium.
O nome ecoou na minha mente, acompanhado de uma sensação crescente de que aquela missão estava muito além do que havia sido apresentado.
— Foi criada por Seth Clearwater — continuou, retomando o movimento lento pela sala. — Um gênio. Discreto o suficiente para nunca chamar atenção… até ser tarde demais.
Mantive o silêncio, absorvendo cada palavra.
— O Millennium não é apenas tecnologia — explicou, agora com mais precisão. — Ele é capaz de redefinir códigos genéticos.
A informação atingiu com força.
Por um breve segundo, minha expressão falhou.
— Redefinir…? — repeti, mais para mim mesma do que para ele.
Jacob assentiu de leve.
— Alterar, reescrever, adaptar — disse, enumerando com calma. — O tipo de ferramenta que muda o conceito de poder no mundo inteiro.
Senti o peso daquilo se instalar de forma imediata.
— Quantos existem? — perguntei, já antecipando a resposta.
Ele olhou diretamente para mim.
— Existiam dois — respondeu. — Até ontem.
O silêncio que se seguiu foi inevitável.
Minha mente voltou ao porto, ao momento exato em que o objeto caiu, ao som seco da quebra.
Agora só existe um.
— Como você sabe? — questionei, cruzando os braços de forma sutil. — Podem ter copiado.
Jacob riu novamente, dessa vez com mais convicção.
— Não há como copiar o Millennium — disse, firme. — Ele não é apenas código. É único.
Deu mais um gole na bebida antes de continuar.
— A única pessoa que poderia sequer tentar… — fez uma breve pausa — a KGB mandou eliminar.
Franzi o cenho imediatamente, a lógica daquilo não se encaixando.
— A KGB não existe mais.
A resposta saiu automática.
Jacob me observou por um segundo a mais, o olhar carregado de algo que beirava a ironia.
— Você está enganada.
O tom dele mudou.
Mais baixo.
Mais sério.
— A KGB existe.
As palavras vieram sem hesitação.
— E você faz parte dela.
O impacto foi imediato.
O mundo ao redor pareceu desacelerar por um instante, como se cada som, cada detalhe perdesse importância diante daquela afirmação.
Fiquei imóvel com o olhar fixo nele.
Permaneci em silêncio por alguns segundos, tentando reorganizar as informações que ele havia acabado de lançar como se fossem simples demais para carregar tanto peso. Então me levantei, o movimento mais brusco do que eu pretendia, os olhos fixos nele enquanto a incredulidade finalmente encontrou voz.
— Eu trabalho para a CIA.
A afirmação saiu firme, quase automática, como se repetisse algo que sempre foi verdade incontestável. Jacob não reagiu de imediato. Apenas me observou por um instante, e então negou com a cabeça, um gesto lento, tranquilo demais.
— Não.
A resposta foi simples.
— A CIA não faz a menor ideia de toda essa operação.
Senti o estômago apertar de leve, uma sensação desconfortável que não vinha do medo, mas da dúvida. Dei um passo para o lado, desviando o olhar por um segundo enquanto tentava encontrar lógica no que ele dizia, mas nada se encaixava com clareza.
— Isso não faz sentido — retruquei, voltando a encará-lo. — Eu recebi ordens, tive acesso a dados, fui enviada para capturá-lo.
— Exatamente — respondeu ele, interrompendo sem elevar o tom. — Enviada.
A palavra ficou no ar, carregada de um significado que eu ainda não queria aceitar.
Respirei fundo, passando a mão pelo braço como se aquilo pudesse trazer de volta algum tipo de controle.
— Por que você quer o Millennium?
A pergunta saiu direta dessa vez, sem espaço para desvios.
Jacob apoiou o copo sobre a mesa com cuidado, os dedos ainda repousando sobre o vidro por um segundo a mais antes de se afastar. Ele não respondeu imediatamente. Caminhou alguns passos, como se medisse o ambiente, como se estivesse decidindo até onde poderia ir.
— Porque eu preciso dele — disse por fim, voltando a me encarar.
A resposta era insuficiente.
— E você vai buscá-lo.
Soltei um riso curto, sem humor algum, balançando a cabeça enquanto recuava meio passo.
— Você está louco — declarei, firme. — Eu não faço ideia de onde isso pode estar. E, mesmo que descobrisse, um dispositivo como esse estaria sob proteção máxima.
Jacob não demonstrou qualquer surpresa com a reação. Apenas cruzou os braços, observando-me com a mesma calma irritante de antes.
— Você terá apoio.
A forma como disse aquilo não soou como uma possibilidade. Soou como algo já decidido.
— Amanhã — continuou — você vai receber a localização do Millennium.
Franzi o cenho, sentindo a tensão crescer novamente.
— E assim que trouxer para mim… — ele fez uma pequena pausa, sustentando meu olhar com precisão — Bella estará livre.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer palavra dita até então.
Senti o corpo enrijecer, a mente tentando encontrar uma saída que não envolvesse aceitar aquele jogo. Mas havia apenas uma verdade ali, clara demais para ser ignorada.
Bella.
Apertei o maxilar, sustentando o olhar dele enquanto cada parte de mim lutava contra a decisão que já começava a se formar.
Aquilo não era uma negociação.
Era um ultimato.
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