BlackSwan
7 O comboio
A noite não terminou quando saí daquela mansão. Ela apenas mudou de forma. Voltei para o apartamento com a sensação de que cada resposta que eu havia recebido abria espaço para perguntas ainda mais perigosas, como se alguém tivesse puxado um fio invisível e, agora, toda a estrutura que eu acreditava conhecer estivesse começando a desmoronar. Não havia espaço para descanso, e meu corpo parecia compreender isso melhor do que minha mente. Assim que entrei, nem mesmo considerei dormir. Fui direto para o notebook, sentando-me diante da tela com uma determinação que misturava urgência e necessidade.
As buscas começaram de forma objetiva.
KGB.
Os primeiros resultados foram exatamente o que qualquer pessoa encontraria. Informações históricas, arquivos antigos, relatos oficiais sobre sua dissolução após escândalos internos, agentes corrompidos, operações expostas. Uma organização poderosa que teria sido desmembrada, fragmentada até deixar de existir. Ou, ao menos, era isso que a narrativa dizia.
Mas nada ali me satisfazia.
Aprofundei o acesso, rompendo camadas de segurança com facilidade, mergulhando em arquivos mais restritos, dados que não estavam disponíveis ao público comum. Foi ali que o padrão começou a mudar. Registros incompletos. Operações sem conclusão. Referências indiretas. O nome aparecia, mas nunca de forma direta. Nunca assumido.
A KGB não havia desaparecido.
Ela havia se escondido.
Uma sombra.
Uma estrutura que continuava existindo fora do alcance oficial, enquanto a CIA tentava, sem sucesso aparente, apagar qualquer vestígio de sua permanência.
O ar pareceu mais pesado enquanto eu recostava na cadeira, os olhos fixos na tela. Aquilo já era suficiente para levantar dúvidas, mas ainda não explicava o que Jacob havia dito.
Então fui além.
Acessei os arquivos internos da própria CIA.
Minha mente trabalhou rápido, seguindo caminhos que já conhecia, utilizando credenciais que sempre funcionaram, abrindo portas que nunca haviam se fechado para mim. Até aquele momento.
Procurei pelo meu nome.
Renesmee Swan.
Esperei encontrar registros extensos, relatórios, histórico de missões, avaliações. Tudo aquilo que construía a carreira que eu acreditava ter.
Não havia nada.
Nenhuma ficha.
Nenhum arquivo.
Nenhuma prova de que eu existia dentro daquele sistema.
O vazio na tela foi mais perturbador do que qualquer informação que eu havia encontrado até então. Permaneci imóvel por alguns segundos, tentando repetir a busca, alterando parâmetros, utilizando diferentes acessos, mas o resultado era sempre o mesmo.
Nada.
Senti a respiração pesar levemente, não por medo, mas pela quebra completa de uma certeza que sempre esteve ali.
Se eu não estava nos registros da CIA…
Então Jacob estava certo.
A confusão tomou forma de maneira inevitável, preenchendo cada espaço da minha mente com perguntas que não tinham respostas imediatas. Eu havia sido treinada. Recebido ordens. Executado missões. Tudo aquilo era real.
Mas para quem?
De que lado eu estava?
Fechei os olhos por um instante, levando a mão à testa como se aquilo pudesse organizar o caos que se formava. E, no meio de tudo, uma imagem surgiu com clareza absoluta.
Bella.
Amarrada. Assustada. Nas mãos de Jacob Black.
Apertei o maxilar, afastando qualquer possibilidade de hesitação. Independentemente das respostas que eu ainda não tinha, havia uma coisa que permanecia inalterada.
Eu precisava trazê-la de volta.
O celular tocou.
O som cortou o silêncio do apartamento de forma abrupta, me fazendo abrir os olhos imediatamente. Peguei o aparelho sem hesitar, atendendo antes mesmo do segundo toque.
— Fale.
A voz do outro lado não se apresentou.
Nunca apresentava.
— Novo endereço — disse, direto. — Você tem outra missão.
O tom era neutro, como se nada tivesse mudado, como se tudo ainda estivesse dentro de um controle que eu já não reconhecia.
— Entregar uma mercadoria em segurança.
Olhei para a tela assim que a chamada foi encerrada. O endereço apareceu logo em seguida, enviado de forma automática, preciso, objetivo.
Fiquei alguns segundos observando aquelas informações, sentindo o peso da decisão se formar mais uma vez. Não havia escolha. Não naquele momento.
Levantei-me.
Caminhei até o quarto com passos firmes, já retirando o vestido enquanto minha mente trabalhava nos próximos movimentos. Abri o guarda-roupa e escolhi roupas mais adequadas, práticas, ajustadas ao que viria a seguir. Cada gesto era automático, mas a intenção por trás deles nunca esteve tão clara.
Se havia um lugar onde eu poderia encontrar respostas…
Era na própria KGB.
Segui pelas ruas de Nova York com a mente focada no endereço que ainda brilhava na tela do celular, cada curva sendo feita com precisão enquanto o vento frio cortava o rosto. A cidade voltava a pulsar ao meu redor, luzes refletindo no asfalto, sons distantes de sirenes e trânsito compondo um cenário que, em qualquer outra noite, seria apenas rotina. Mas não daquela vez.
Reduzi a velocidade ao me aproximar do destino.
Um armazém antigo em Red Hook, Brooklyn.
A estrutura era larga, baixa, com paredes de concreto desgastado pelo tempo e iluminação irregular, criando sombras profundas ao redor. O tipo de lugar escolhido para operações que não deveriam existir. Desliguei a moto a uma distância segura, observando o ambiente por alguns segundos antes de descer. O silêncio ali era diferente, carregado, como se escondesse mais do que revelava.
Foi então que o celular vibrou.
Olhei para a tela.
Número desconhecido.
Atendi.
— Fale.
Houve um breve silêncio antes da voz surgir.
— Você sempre chega cedo.
Reconheci no mesmo instante a voz de Jacob.
Meu olhar percorreu o ambiente ao redor, atento a qualquer sinal dele, ainda que soubesse que não estaria visível.
— Chegou atrasado, Lobo Mau — respondi, firme, mantendo o tom controlado. — A Chapeuzinho já está no local.
Do outro lado, ele soltou um leve som que parecia um riso contido.
— Então te colocaram na missão.
Não era uma pergunta.
— Parece que sim — retruquei, sem dar mais do que o necessário.
Houve uma pausa breve.
— E o apoio? — perguntei, direta.
— Está a caminho — respondeu ele, sem hesitação.
A forma como disse aquilo não me tranquilizou.
Encerrei a ligação sem prolongar a conversa, guardando o celular com um movimento rápido. O silêncio voltou a dominar o espaço ao redor, interrompido apenas pelo som distante do mar batendo contra as estruturas do porto próximo.
Levei a mão até a cintura, puxando a arma com cuidado e o carreguei.
O clique seco do mecanismo se encaixando soou alto demais no vazio ao redor, mas necessário. Verifiquei o carregador, ajustei a empunhadura e mantive a arma baixa, pronta.
Respirei fundo.
Faltava uma hora.
_ Aguenta firme Bella.
O som dos motores surgiu antes mesmo das luzes aparecerem, grave e contínuo, quebrando o silêncio do armazém como um aviso inevitável. Permaneci imóvel por alguns segundos, a arma baixa ao lado do corpo, enquanto observava a entrada do comboio. Caminhões alinhados, pesados, avançando com precisão militar, acompanhados por uma escolta grande demais para algo que, à primeira vista, deveria ser apenas mais uma entrega comum.
Aquilo não era comum.
Minha atenção percorreu cada detalhe enquanto os veículos se posicionavam no pátio. Homens armados, comunicação constante, movimentação coordenada. Segurança em excesso sempre indicava uma única coisa.
O Millennium estava ali.
Mas em qual deles?
Dei alguns passos à frente, guardando a arma discretamente enquanto assumia a postura que já esperavam de mim. Um dos responsáveis pelo transporte se aproximou, o olhar direto, avaliativo, como se já soubesse exatamente quem eu era.
— Cisne Negro — disse ele, sem hesitação.
Assenti de leve, mantendo a expressão neutra.
— Qual o destino da mercadoria? — perguntou, direto ao ponto.
— Mesmo protocolo de sempre — respondi, com segurança suficiente para não levantar dúvidas. — Entrega segura, sem desvios.
Ele me observou por um segundo a mais, como se confirmasse algo internamente, antes de assentir.
— Tudo está pronto — afirmou. — A carga será transferida em breve.
A conversa terminou ali. Sem questionamentos. Sem necessidade de mais explicações.
Afastei-me dele com calma, caminhando em direção aos caminhões, os olhos analisando cada um com atenção. Eram praticamente idênticos. Nenhuma marcação evidente. Nenhuma diferença externa que indicasse qual carregava o que eu procurava.
Levei a mão ao comunicador, ativando o canal.
— Temos um problema — disse, em tom baixo, mantendo o olhar fixo na fileira de veículos. — Eu não sei em qual caminhão está a mercadoria.
O silêncio do outro lado durou menos de um segundo.
— Terceiro caminhão — a voz de Jacob veio direta.
Parei.
— Como você pode ter certeza? — perguntei, desviando levemente o olhar para o veículo indicado.
Houve uma pequena pausa.
Então, a resposta.
— Confie em mim, ruiva.
O apelido soou quase deslocado naquele momento, mas o que realmente pesou foi a forma como ele disse aquilo. Não havia dúvida. Não havia hesitação.
Apenas certeza.
Respirei fundo, mantendo os olhos no terceiro caminhão enquanto minha mente avaliava as possibilidades. Eu não tinha provas. Não tinha confirmação.
Mas também não tinha tempo.
E, no jogo que estávamos jogando…
Hesitar podia custar tudo.
Subi na moto assim que o comboio voltou a se mover, mantendo uma distância segura enquanto os caminhões deixavam o armazém e ganhavam as ruas mais largas de Brooklyn. As luzes vermelhas dos freios se alinhavam à minha frente como um rastro a ser seguido, constante, previsível, mas cercado por escolta suficiente para transformar qualquer aproximação em um risco calculado. O motor vibrava sob minhas mãos, e eu ajustava a velocidade com precisão, misturando-me ao fluxo da cidade sem perder o alvo de vista.
A noite parecia mais densa agora.
Cada curva, cada semáforo, cada mudança de faixa era acompanhada com atenção absoluta. Não havia espaço para distrações. O terceiro caminhão seguia no centro do comboio, protegido por dois veículos à frente e outros dois atrás. Formação fechada. Profissional.
Eles sabiam o valor do que estavam transportando.
O comunicador chiou levemente.
— Continue seguindo — a voz de Jacob surgiu, baixa, direta.
Não respondi de imediato. Mantive os olhos na estrada, acompanhando o deslocamento dos veículos enquanto ajustava a posição da moto entre dois carros comuns, escondendo minha presença.
— Estou atrás do terceiro — disse, por fim, sem tirar o foco.
— Bom — respondeu ele. — Na esquina da West 34th Street com a 10th Avenue… haverá uma distração.
A informação veio clara.
Antecipei mentalmente o trajeto, reconhecendo o ponto. Área movimentada. Trânsito intenso. Iluminação suficiente para esconder movimento no caos.
— E quando isso acontecer? — perguntei.
— Você pega o Millennium.
Simples assim.
Apertei levemente o guidão, sentindo o peso da ordem se instalar mais uma vez.
— Só isso?
Do outro lado, um breve silêncio.
— Só isso — confirmou ele. — Não pense demais. Apenas execute.
O comboio avançava agora em direção à região indicada, os prédios ficando mais altos, o fluxo mais intenso. A cidade começava a se adensar ao redor, criando exatamente o cenário ideal para o que ele havia descrito.
Uma distração.
Olhei novamente para o terceiro caminhão.
Se Jacob estivesse certo…
Aquela seria minha única chance.
Mantive a moto alinhada ao fluxo, os olhos fixos no terceiro caminhão enquanto o comboio se aproximava da West 34th Street com a 10th Avenue. O movimento aumentava, buzinas ecoavam, luzes refletiam no asfalto úmido, e por um instante tudo parecia apenas mais uma noite comum em Nova York. Até deixar de ser.
O terceiro caminhão atravessava a avenida quando um veículo maior surgiu lateralmente, avançando sem respeitar o fluxo e cortando a formação com precisão cirúrgica. O impacto visual foi imediato. O comboio se dividiu.
— Agora — a voz de Jacob soou no comunicador, firme.
Dois homens em motos surgiram como sombras, entrando no espaço aberto com velocidade agressiva. Os seguranças reagiram no mesmo instante, disparos cortando o ar, luzes piscando, caos instalado em segundos. As motos avançaram sobre o terceiro caminhão, forçando sua saída da formação principal. O veículo se isolou.
Era a abertura.
Acelerei sem hesitar, colando na traseira do caminhão enquanto ele ganhava distância do restante do comboio. O barulho dos tiros ficava para trás, substituído pelo rugido do motor e pelo vento cortando ao redor.
— Recuar — Jacob disse, de repente.
Franzi o cenho, ajustando a posição na pista.
— O quê?
— Recuar, agora.
Houve uma pausa mínima, e então ele falou novamente.
— Nessie.
O nome soou diferente vindo dele, mais próximo e íntimo.
— Abortar a missão.
O comando veio claro.
Mas sem explicação.
Meus olhos permaneceram no caminhão à frente.
— Qual o motivo? — perguntei, sem reduzir a velocidade.
Silêncio.
Por um segundo longo demais.
E então, pela primeira vez desde que tudo começou, a voz dele mudou.
Havia tensão.
— Recua, Ness, é .....
A forma como disse meu nome não era mais provocação, era diferente, ele parecia estar com problemas na comunicação.
Apertei o maxilar, sentindo a decisão se formar antes mesmo de terminar o raciocínio. Bella surgiu na minha mente com força suficiente para anular qualquer dúvida.
Eu não podia recuar.
Ignorei a fala cortada de Jacob e acelerei, a distância diminuiu rapidamente, o caminhão agora a poucos metros. Ajustei o corpo, preparando o salto enquanto a mente calculava o tempo exato.
— Nessie, abordar ....tem....no caminhão — Jacob disse, mais baixo agora e com mais cortes.
Mas eu já tinha decidido.
Levantei da moto e salteio impacto contra o topo do caminhão foi forte, mas controlado. Me segurei com firmeza, deslizando alguns centímetros antes de estabilizar o corpo. Sem perder tempo, avancei até a abertura superior e a forcei e entrei.
A queda foi curta.
E o mundo parou por um segundo, quando meus pés tocaram o chão interno do compartimento, o som do motor foi abafado por algo muito mais imediato.
Levantei o olhar e as armas estavam apontadas diretamente para mim.
Homens posicionados ao redor, imóveis, preparados.
O ar ficou pesado.
E, naquele instante, a única coisa que fez sentido foi a percepção clara e fria que atravessou minha mente.
Era uma armadilha.
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