BlackSwan

8 Interrogatório


A escuridão não vinha apenas do ambiente.

O capuz pesado cobria completamente meu rosto, abafando a respiração e limitando qualquer referência de espaço. Eu caminhava sem direção, sendo conduzida com força, passos descompassados, tropeçando mais de uma vez nos próprios pés enquanto mãos firmes me empurravam para frente sem qualquer cuidado. O chão mudava sob meus pés, às vezes irregular, às vezes liso demais, mas eu não tinha tempo de me adaptar. Cada tentativa de recuperar o equilíbrio era interrompida por outro puxão, outro empurrão.

Não havia palavras.

Apenas o som dos passos, da respiração contida e do tecido roçando contra minha pele.

Até que pararam.

Fui empurrada para baixo, o corpo sendo forçado contra uma cadeira. As mãos, já presas para trás, foram ajustadas com mais firmeza, garantindo que eu não tivesse qualquer margem de movimento. Senti o peso do ambiente ao redor, o silêncio denso que indicava um espaço fechado.

Então, a porta.

O som seco ao se fechar ecoou de forma clara.

Fiquei ali, imóvel, respirando com dificuldade sob o capuz, contando o tempo sem saber exatamente quanto passava. Segundos… minutos. Era impossível dizer.

Até ouvir novamente.

Passos.

Alguém entrando.

O tecido foi puxado de forma brusca, arrancando o capuz do meu rosto.

A luz veio como um choque.

Fechei os olhos por reflexo, sentindo o clarão atravessar as pálpebras antes de, lentamente, me obrigar a encarar o ambiente. Pisquei algumas vezes até a visão se ajustar, e foi então que percebi.

Espelhos.

Por todos os lados.

As paredes refletiam minha imagem de ângulos diferentes, multiplicando minha presença naquele espaço de forma desconcertante. Não havia para onde olhar sem me ver.

Sem me encarar.

— Boa noite, Cisne Negro.

A voz surgiu atrás de mim, calma, controlada, carregando uma autoridade que não precisava se impor.

— Confesso que estou decepcionado.

Mantive a postura firme, mesmo com as mãos presas, o olhar buscando o reflexo dele em meio aos espelhos até encontrá-lo. Um homem bem vestido, expressão contida, olhos frios o suficiente para não deixar dúvidas sobre o tipo de poder que exercia.

— A melhor agente… — continuou ele, aproximando-se lentamente — traindo sua própria organização.

— Eu não traí ninguém — respondi, a voz firme apesar da situação.

Ele ignorou a resposta.

— Onde está o Lobo?

A pergunta veio direta.

— Eu não sei — retruquei, sem hesitar.

O silêncio que se seguiu não foi de dúvida.

Foi de avaliação.

Ele caminhou mais alguns passos, observando-me como se tentasse identificar algo além das palavras.

— É lamentável — disse por fim. — O Lobo conseguiu corromper você.

Apertei levemente as mãos, sentindo a tensão subir.

— Eu fui chantageada — corrigi, mantendo o olhar fixo no dele.

Por um breve instante, algo mudou na expressão dele. Não o suficiente para demonstrar empatia, mas o suficiente para indicar que aquela informação seria considerada.

— Isso será resolvido — afirmou, com tranquilidade perturbadora. — Em breve, você estará obedecendo ordens novamente.

A forma como disse aquilo fez um frio percorrer minha espinha.

— E o que vão fazer comigo? — perguntei, direta.

Ele não respondeu.

Apenas me observou por mais alguns segundos antes de se afastar, como se aquela pergunta não merecesse uma resposta imediata.

Foi então que senti um cheiro, sutil no início, quase imperceptível, mas rapidamente se tornando mais forte. Um odor estranho, químico, preenchendo o ambiente de forma gradual.

Minha respiração falhou por um instante.

Tentei puxar o ar com mais força, mas o efeito foi imediato. Levei as mãos presas para trás ao limite, tentando forçar qualquer tipo de movimento, qualquer chance de me soltar.

Nada.

A cadeira não cedia e as amarras não falhavam.

O ar parecia mais pesado a cada segundo.

Minha visão começou a oscilar, os reflexos nos espelhos se distorcendo, multiplicando uma imagem que já não parecia totalmente minha. Respirei mais uma vez, mais forte, mas o efeito foi pior.

Meu corpo começava a ceder.

Lutei contra isso, forçando a consciência a se manter presente, mas era como tentar segurar algo que já estava escapando.

A última coisa que vi foi meu próprio reflexo perdendo o foco.

E então…

Escuridão.


A consciência não voltou de forma limpa.

Vieram fragmentos.

Imagens quebradas, desconexas, como se minha mente tentasse reconstruir algo que não queria ser lembrado por inteiro. Primeiro, movimento. Sombras se chocando. Homens lutando em um espaço apertado, corpos colidindo com força, respirações pesadas misturadas ao impacto seco dos golpes. Tentei focar, entender, mas tudo escorria entre os dedos da memória.

Depois, os tiros.

Curtos. Próximos. Ecoando como estilhaços dentro da minha cabeça. O som vibrava, repetia, distorcido pela névoa que ainda me envolvia. Meu corpo parecia pesado demais para reagir, preso a algo que eu não conseguia controlar.

E então…

Um rosto.

Familiar.

Jacob.

A imagem dele se aproximava, não como ameaça, mas como algo mais… próximo. Mais real. Os traços firmes, o olhar diferente de qualquer outro momento que eu havia visto.

— Você vai ficar bem — disse ele.

A voz não carregava ironia.

Nem provocação.

Era baixa.

Quase… terna.

Senti o corpo ser erguido, braços firmes me sustentando com facilidade. Tentei reagir, mas não havia força suficiente. Apenas a sensação de estar sendo carregada, o movimento constante, o som ao redor diminuindo até desaparecer completamente.

E então, novamente…

Escuridão.

Quando despertei, foi diferente.

Sem impacto e nem pressa.

A respiração voltou primeiro, lenta, profunda, seguida pela consciência se ajustando pouco a pouco. Abri os olhos com dificuldade, piscando algumas vezes até que a luz deixasse de incomodar.

O ambiente era… calmo.

Demais.

Estava deitada em uma cama ampla, lençóis brancos impecáveis, o tecido suave sob minhas mãos contrastando completamente com a última lembrança que eu tinha. Permaneci imóvel por alguns segundos, apenas observando o teto, deixando que o corpo entendesse que, pelo menos naquele momento, não havia dor imediata.

Sentei-me devagar.

A cabeça ainda pesava, mas a visão já estava estável o suficiente para analisar o espaço ao redor. O quarto era claro, bem decorado, organizado com um cuidado que não combinava com qualquer tipo de cativeiro improvisado. Aquilo parecia… confortável.

Demais.

Levantei-me com cautela, os pés tocando o chão frio enquanto caminhava até a janela. Afastei levemente a cortina e parei.

O mar.

A vista se estendia até onde a visão alcançava, azul profundo, quebrado apenas pelo movimento constante das ondas. O som chegava suave, distante, mas real o suficiente para confirmar.

Eu não estava mais em Nova York.

Franzi o cenho, tentando calcular quanto tempo havia passado, para onde haviam me levado, mas não havia dados suficientes. Apenas a certeza de que aquilo fazia parte de algo maior.

Afastei-me da janela e caminhei até a porta, abrindo-a com cuidado. O corredor era amplo, silencioso, iluminado de forma natural. Dei alguns passos, mantendo o corpo atento, mesmo que o ambiente não demonstrasse ameaça imediata.

Foi então que ouvi

Vozes, vindas do andar inferior.

Segui até a escada, parando no topo enquanto observava o que acontecia abaixo. Jacob estava ali, reunido com dois homens e uma mulher. A postura deles indicava conversa séria, estratégica. Não era casual.

— Sua hóspede acordou — disse a mulher, com um leve sorriso ao perceber minha presença.

Os dois homens trocaram olhares rápidos com Jacob, como se aquela informação mudasse algo no que estavam discutindo.

A raiva me cegou.

Desci as escadas sem hesitar, cada passo firme, ignorando completamente qualquer tentativa de análise racional naquele momento. Quando alcancei o último degrau, caminhei diretamente até ele.

Jacob me olhou.

E começou a falar.

— Oi…

El não terminou, meu punho chegou primeiro.

O impacto foi limpo, direto, fazendo-o perder o equilíbrio e cair para trás antes mesmo de reagir.

O som do corpo dele contra o chão ecoou pelo ambiente.


O impacto ainda ecoava quando um dos homens ao fundo soltou uma risada baixa, claramente divertido com a cena. O outro apenas balançou a cabeça, lançando um olhar rápido para Jacob enquanto se afastava alguns passos.

— Bem, é melhor nós irmos — comentou, com um tom leve demais para o que estava acontecendo.

A mulher permaneceu imóvel por um instante, alternando o olhar entre mim e Jacob no chão, avaliando a situação como se aquilo fosse apenas mais um detalhe previsível.

— Eu que não me meto em briga de casal — disse, por fim, antes de virar as costas e acompanhar os outros dois.

O som dos passos deles se afastando deixou o ambiente mais silencioso, mais íntimo, e, ao mesmo tempo, mais tenso.

Jacob apoiou as mãos no chão e se levantou com calma, como se tivesse levado um golpe comum, sem qualquer surpresa. Levou a mão ao lábio, limpando o pequeno vestígio de sangue enquanto me observava com um olhar que misturava curiosidade e algo mais difícil de definir.

— Posso saber por que você me socou? — perguntou, a voz controlada.

Cruzei os braços, a irritação ainda evidente em cada gesto.

— Isso tudo é culpa sua — respondi, sem hesitar. — Onde está a Bella?

A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia, carregada de uma tensão que já não fazia questão de esconder.

Jacob suspirou de leve, como se aquela parte da conversa fosse inevitável.

— Sua irmã está nas Ilhas Cayman — disse, direto. — Com o marido. Em lua de mel.

Franzi o cenho imediatamente, a resposta não se encaixando com o que eu havia visto.

— Você a libertou?

O canto dos lábios dele se curvou em um sorriso discreto, quase incrédulo.

— Eu nunca sequestrarei a Bella.

A afirmação veio com uma convicção que me irritou ainda mais.

— Eu vi o vídeo — retruquei, dando um passo à frente. — Ela estava amarrada, assustada…

— Aquilo foi feito por inteligência artificial — interrompeu ele, sem elevar o tom, mas firme o suficiente para cortar minha fala.

Parei.

Por um segundo, apenas o encarei.

A possibilidade se encaixava rápido demais.

E isso só tornava tudo pior.

— Então você me chantageou com uma mentira — disse, a voz mais baixa agora, mas ainda carregada de raiva.

Jacob levantou levemente as mãos, em um gesto contido, como se tentasse reduzir a tensão.

— Eu precisava da sua ajuda — respondeu.

— Você tem ideia da situação que me colocou? Eles acham que sou hma traidora.

— Eu te salvei.

Isso não muda as coisas e onde exatamente eu estou? — perguntei, olhando ao meu redor.

Ele hesitou por um breve instante antes de responder.

— Na minha casa.

Aquilo não ajudava e a irritação cresceu novamente, mais intensa, mais difícil de conter.

— Você acha mesmo que eu vou ficar aqui? — comecei, dando mais um passo, pronta para continuar a confrontá-lo.

Mas a voz surgiu antes que eu pudesse, era suave e infantil.

— Papai…

O som cortou o ambiente de forma inesperada.

Meu corpo reagiu antes mesmo da mente, o olhar se voltando imediatamente na direção de onde vinha a voz. A menina surgiu no topo da escada, caminhando com passos pequenos, mas inseguros. Havia algo no modo como ela se movia que não parecia natural. O pé encontrou o degrau seguinte com um leve atraso, o corpo vacilou por um instante, e ela precisou tatear o ar à frente, como se buscasse uma referência invisível.

Foi ali que percebi.

Ela não estava olhando para nós.

Ela não via.

Meu olhar se fixou nela, atento a cada detalhe, enquanto ela descia mais um degrau e quase tropeçava. Antes que isso acontecesse, Jacob já estava em movimento. Ele cruzou o espaço entre nós com rapidez, esquecendo completamente qualquer tensão anterior, e parou diante dela no exato momento em que seu equilíbrio ameaçou falhar.

— Ei… cuidado princesa — disse, a voz mudando completamente.

Não havia mais ironia e nem provocação, apenas cuidado.

Ele segurou o braço da menina com firmeza, mas sem brusquidão, guiando-a com precisão até o último degrau. Assim que ela alcançou o chão, seus dedos se fecharam automaticamente na camisa dele, buscando segurança, como se aquele gesto fosse algo habitual.

Jacob se abaixou levemente, ajustando uma mecha de cabelo atrás da orelha dela com um cuidado que não combinava com o homem que eu havia enfrentado até aquele momento.

— Eu estou aqui filha— murmurou.

A menina relaxou quase imediatamente ao ouvir a voz dele, aproximando-se mais, apoiando-se nele com confiança absoluta.

Permaneci imóvel.

O Lobo tinha uma filha.