O silêncio que ficou depois que Rachel subiu com Charlie parecia mais pesado do que qualquer confronto que tivemos até ali. Cruzei os braços sem perceber, ainda olhando na direção da escada, como se tentasse encaixar aquela cena dentro de tudo o que eu sabia sobre ele.

— Você tem uma filha… — disse, mais para confirmar do que para perguntar.

Jacob assentiu, sem desviar o olhar de mim.

— Tenho.

Havia algo diferente no jeito como ele respondeu. Não era defesa. Não era orgulho exagerado. Era apenas… verdade.

Respirei fundo, ainda processando.

— É por causa dela que eu preciso dele — Explicou ele.

Franzi o cenho, dando um passo à frente, a confusão crescendo mais uma vez.

— Como assim… por causa da Charlie?

Jacob passou a mão pelo rosto, como se organizasse os próprios pensamentos antes de falar. Caminhou alguns passos pela sala, mas não havia mais aquele ar de provocação. Agora havia peso.

— O Millennium não é só uma tecnologia avançada — começou, a voz mais baixa. — Ele foi desenvolvido pelo Seth Clearwater… quando a KGB ainda operava junto com a CIA.

Aquilo fez algo dentro de mim travar por um segundo.

— Uma fórmula única — continuou. — Não é código comum, não é algo que se replica. Não se copia.

Mantive o olhar fixo nele, absorvendo cada palavra.

— O Millennium pode reprogramar qualquer biologia — disse, agora com mais firmeza. — Inclusive regenerar células.

Senti o impacto daquela informação se instalar de forma imediata.

— Quando o Seth criou isso, ele pensou em cura — continuou Jacob. — Doenças que não têm solução. Condições que ninguém consegue tratar.

Houve uma pausa breve.

— Mas a KGB… tinha outros planos.

O tom dele mudou, agora era mais frio

— Mandaram eliminar o Seth e tomaram a fórmula.

Apertei levemente os dedos contra o braço, sentindo a tensão voltar.

— Nos últimos dois anos — ele seguiu — eles tentaram recriar o Millennium. Fazer cópias. Controlar o que ele faz.

Ele balançou a cabeça de leve.

— Não conseguiram.

O silêncio caiu por um instante.

Olhei para ele com mais atenção, juntando cada peça lentamente, até que a conclusão se formou sozinha.

— Você quer o Millennium… — comecei, devagar — para curar a sua filha.

Jacob não hesitou.

— Sim.

A resposta veio simples.

Direta e completamente diferente de tudo que eu esperava.

Soltei o ar devagar, ainda olhando para ele como se estivesse tentando encontrar alguma contradição.

— Eu achei que você queria vender isso… ou destruir o mundo com ele — confessei, sem esconder a surpresa.

Jacob me encarou por um segundo.

E então riu.

Uma gargalhada leve, quase incrédula, que quebrou completamente o peso da conversa.

— Destruir o mundo? — repetiu, ainda rindo. — Por que eu destruiria o mundo… com a minha filha dentro dele?


Observei-o em silêncio por alguns instantes após a risada, mas algo dentro de mim já não estava mais no mesmo lugar. A imagem dele havia mudado, não como um alvo a ser eliminado, mas como alguém cuja história não havia sido contada por inteiro. Meu olhar percorreu a sala com mais atenção, como se buscasse respostas nos detalhes, antes de retornar para ele com uma pergunta que agora parecia inevitável.

— E a mãe da Charlie?

A pergunta fez com que sua expressão se alterasse de forma sutil, mas perceptível. Jacob não respondeu de imediato. Em vez disso, indicou o sofá com um gesto contido, como quem compreende que aquela conversa exigia mais do que respostas rápidas.

— Senta.

Houve um breve momento de hesitação, mas acabei cedendo. Sentei-me mantendo a postura ereta, atenta a cada gesto dele, enquanto Jacob se posicionava à minha frente. Sua respiração mudou levemente antes de começar, como se estivesse acessando uma parte de si que raramente permitia ser exposta.

— Eu conheci a mãe da Charlie dentro da KGB — disse, com a voz mais baixa, carregada de memória. — Eu a treinei.

A forma como ele falava não deixava margem para dúvida. Aquilo não era uma história ensaiada.

— Ela era excepcional — continuou. — Rápida, inteligente… e extremamente determinada.

Um leve sorriso surgiu, mas desapareceu quase no mesmo instante.

— Nós nos apaixonamos.

Permanecei em silêncio, permitindo que ele conduzisse o relato.

— Quando ela engravidou, nós decidimos sair — prosseguiu. — Cortamos qualquer vínculo. Desaparecemos completamente.

Franzi levemente o cenho, absorvendo a informação.

— E eles permitiram isso?

Jacob soltou um riso curto, sem humor.

— Eles nunca permitem nada — respondeu. — Mas, por um tempo, nós conseguimos nos manter fora do alcance.

Houve uma pausa mais longa dessa vez, carregada de tensão.

— Eu sabia demais — acrescentou. — Protocolos internos, códigos, operações. Eu me tornei um risco que não podia ser ignorado.

Meu olhar permaneceu fixo nele, atento a cada palavra.

— Ainda assim, tivemos algum tempo — continuou. — Eu, ela e a Charlie. Uma vida… quase normal.

A forma como disse aquilo fez com que o peso da perda se tornasse ainda mais evidente.

— Até que ela cometeu um erro.

Meu corpo se enrijeceu levemente.

— Que erro?

Jacob levou a mão ao rosto por um instante antes de responder.

— No aniversário de três anos da Charlie, ela convidou alguém — disse, com a voz agora mais firme. — O melhor amigo dela.

O silêncio se instalou de forma inevitável.

— Ele nos traiu.

Fechei os olhos por um breve instante, antecipando o que viria a seguir.

— A KGB invadiu a festa — continuou. — Foi rápido demais. Não houve tempo para reagir.

Sua respiração pesou levemente.

— Houve uma explosão.

Senti o impacto daquelas palavras de forma imediata.

— A Charlie foi atingida.

A dor contida na voz dele não precisava de mais explicações.

— A minha esposa… — ele pausou, controlando o tom — pediu que eu levasse a nossa filha.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Para salvá-la.

Inclinei levemente a cabeça, compreendendo o que ele não precisava dizer.

— E ela ficou — completei, em tom baixo.

Jacob apenas assentiu.

Respirei fundo, sentindo o peso daquilo se instalar dentro de mim.

— Eu sinto muito.

Ele aceitou a frase com um leve movimento de cabeça, sem prolongar o momento. Em seguida, voltou a me encarar com firmeza.

— Eu preciso da sua ajuda, Renesmee.

A forma como pronunciou meu nome foi diferente. Não havia provocação. Apenas necessidade.

— Só existe uma dose agora — continuou. — Uma única chance para a Charlie.

Desviei o olhar por um breve instante, lembrando da menina no andar superior, da forma como se movia, da confiança com que se apoiava nele. Em seguida, voltei a encará-lo.

— E você quer que eu te ajude a roubar o Millennium da organização para a qual eu trabalho.

— Da organização que você acredita que trabalha — corrigiu ele, com firmeza.

O silêncio se instalou novamente, mas agora não havia dúvida, apenas decisão.

Respirei fundo, organizando os pensamentos, e então falei com clareza.

— Eu vou te ajudar.

Jacob permaneceu imóvel por um segundo, como se avaliasse a veracidade da minha decisão. Em seguida, estendeu a mão.

Observei o gesto por um breve instante.

E aceitei.

O aperto foi firme, direto, selando uma escolha que não permitia retorno.


Caminhei ao lado de Jacob ainda absorvendo o peso da decisão que havia acabado de tomar, quando ele indicou uma porta discreta no fim do corredor. Sua postura voltava a ser firme, estratégica, mas agora havia algo diferente na forma como me incluía naquele espaço.

— Se você vai me ajudar… precisa conhecer a equipe — disse, sem desacelerar.

Assenti, acompanhando-o enquanto atravessávamos a porta e seguíamos por uma escada que descia para um nível inferior da casa. O ambiente mudava gradualmente. Menos decoração, mais estrutura. O ar parecia mais frio, mais técnico. Ao final da escada, ele abriu outra porta.

O espaço que surgiu à frente era amplo, bem iluminado, repleto de telas, equipamentos e mapas digitais projetados em diferentes superfícies. Não era apenas um esconderijo.

Era um centro de operações completo.

Jacob avançou alguns passos e, com um leve gesto de mão, apresentou o ambiente.

— Bem-vinda ao centro de comando.

Um dos homens que havia visto anteriormente levantou o olhar de imediato, claramente surpreso com a minha presença ali.

— Achei que ela fosse… — começou, mas parou ao perceber o olhar de Jacob.

— Agora ela faz parte — respondeu ele, de forma simples, encerrando qualquer dúvida.

Em seguida, voltou-se para mim.

— Renesmee, essa é a equipe.

Apontou primeiro para o homem mais próximo, de postura firme e olhar atento.

— Embry Call, mestre das armas.

Embry assentiu com um leve aceno, avaliando-me com curiosidade contida.

— Paul Lahote — continuou Jacob, indicando o outro homem. — Especialista em planos de fuga.

Paul deu um sorriso de canto, cruzando os braços como quem já imaginava que aquele encontro aconteceria.

— Leah Clearwater — disse, agora voltando-se para a mulher que nos observava com intensidade. — Uma das melhores ex-agentes da KGB.

Leah manteve o olhar firme, analisando cada detalhe meu como se tentasse medir até onde poderia confiar.

— E… — Jacob fez uma pequena pausa, como se aquele nome tivesse um peso diferente — Seth Clearwater. O nosso cérebro.

Meu olhar se voltou imediatamente para o último deles.

Mais jovem. Silencioso. Mas com uma presença que não passava despercebida.

Arregalei levemente os olhos.

— Foi você… que criou o Millennium?

A pergunta saiu antes que eu pudesse conter.

Seth não respondeu de imediato. Apenas desviou o olhar rapidamente para Jacob.

— Foi — confirmou Jacob.

O impacto daquela informação foi imediato.

Minha mente voltou às imagens, aos relatórios, às ordens que recebi. Lembrei claramente dos arquivos da KGB, das fotos exibidas como prova.

— A KGB disse que vocês estavam mortos — declarei, ainda olhando para cada um deles. — Que o Jacob tinha eliminado todos.

Por um segundo, houve silêncio.

Então, risos.

Embry balançou a cabeça. Paul soltou uma risada mais aberta. Até Seth deixou escapar um leve sorriso.

Leah foi a única que respondeu.

— O Jacob só elimina um prato de comida — disse, com ironia.

O grupo riu novamente.

Olhei para Jacob, baixei a cabeça e ri, não pelo momento em si, mas pela cena improvável à minha frente. O homem mais perigoso que me mandaram capturar… completamente desmoralizado pela própria equipe.

E, de alguma forma estranha eu me senti parte dela.