BlackSwan
18 O despertar
Notas iniciais
Mantive Sam preso contra a parede, sentindo a respiração dele bater contra o meu braço enquanto eu tentava controlar a força. Mas não consegui. Algo dentro de mim estava fora do lugar, mais agudo, mais instintivo, como se cada sentido tivesse sido ampliado de forma perigosa.
Leah se aproximava, tensa, tentando intervir.
— Nessie, solta ele — disse, a voz firme, mas cuidadosa. — A gente precisa entender o que aconteceu.
Sam, no entanto… sorriu.
Um sorriso torto, deslocado demais para aquele momento.
— Eu fiz isso por todos nós — disse ele, mesmo preso.
A frase fez Leah congelar.
— O que você fez? — perguntou ela, agora sem conseguir esconder o choque.
Sam respirou fundo, como se finalmente tivesse chegado ao ponto que queria.
— A gente não pode continuar vivendo em torno das escolhas do Jacob — disse, a voz carregada de convicção. — Esse ciclo… esse loop… está nos prendendo.
Balancei a cabeça, sentindo a raiva subir de novo.
— Eu vou te matar — disse, sem hesitar.
Sam não recuou.
— Se você fizer isso… nunca vai encontrar a Charlie.
O mundo pareceu parar por um segundo.
Leah deu um passo para trás, completamente abalada.
— Não… — murmurou ela. — Você não fez isso.
O olhar dela se fixou nele, incrédulo.
— Você não entregou uma criança.
Sam sustentou o olhar dela.
— Eles só querem a menina.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe.
O ar faltou.
Minha mão apertou ainda mais a camisa dele, puxando-o com força.
— A KGB… — murmurei, sentindo o desespero crescer — pegou a minha filha?
Sam não respondeu de imediato.
E foi nesse silêncio que algo mudou.
Algo mais profundo.
Mais instintivo.
Aproximei o rosto dele lentamente, inspirando de forma quase imperceptível.
E então senti.
Um cheiro.
Familiar.
Errado.
Minha expressão mudou.
— Eu estou sentindo você… — disse, mais baixo agora.
Sam tentou desviar o olhar.
Tarde demais.
— Você esteve em La Push — continuei, a voz firme, quase sussurrada. — Não foi só aqui.
Leah franziu o cenho, olhando entre nós dois.
— Do que você está falando?
Ignorei.
Aproximei ainda mais, sentindo o cheiro com mais clareza.
— Talco… — murmurei. — Talco infantil.
Sam arregalou os olhos.
Foi sutil.
Mas suficiente.
Meu coração disparou de forma diferente agora.
Não era só raiva.
Era percepção.
— Me diz uma coisa, Sam… — falei, encarando-o diretamente. — É seu filho… ou sua filha?
O silêncio que veio depois…
Foi pior que qualquer resposta.
O medo apareceu no rosto dele de forma nítida, sem espaço para disfarce. Não era o medo de quem estava ferido ou cercado. Era mais profundo. Instintivo. Eu vi no olhar dele o momento exato em que percebeu que eu tinha entendido.
Minha mão ainda segurava a camisa dele com força, mas agora não era só raiva. Era controle.
— Se alguma coisa acontecer com a minha filha… — comecei, a voz baixa, firme, cada palavra medida — eu vou encontrar o seu filho.
Sam tentou sustentar o olhar, mas falhou por um segundo.
— Você não faria isso — disse ele, quase como um desafio, mas havia dúvida ali.
Inclinei levemente a cabeça, analisando-o, deixando o silêncio pesar entre nós antes de responder.
— Eu vou deixar você vivo — disse, soltando a camisa dele de repente.
O corpo dele bateu levemente contra a parede, sem o apoio que eu estava mantendo.
Dei um passo para trás, mantendo os olhos fixos nele.
— E você vai viver com isso — continuei. — Vai acordar todos os dias pensando se eu já estou perto… se eu já encontrei… se eu já sei o nome, o rosto, o lugar.
Leah permaneceu em silêncio ao meu lado, sem tentar interromper dessa vez.
Sam engoliu em seco, claramente abalado.
Aproximei-me mais uma vez, apenas o suficiente para que ele não tivesse como desviar.
— Então é melhor você começar a rezar — falei, em um tom ainda mais baixo — para que a KGB não encoste um dedo na Charlie.
Houve uma breve pausa.
Curta.
Pesada.
— Porque, se encostar… — completei, sem desviar o olhar — eu vou fazer exatamente a mesma coisa com o seu filho.
Me afastei.
Dessa vez de verdade.
E não olhei para trás.
Leah me seguiu sem hesitar, o som dos passos dela ecoando no mesmo ritmo que os meus pelo corredor ainda marcado pelo confronto recente. O silêncio que se instalou entre nós não era confortável, mas carregado de tensão, de perguntas que ela claramente não estava mais conseguindo segurar.
— O que a gente vai fazer agora? — perguntou ela, a voz firme, mas com um fundo de urgência que não tentou esconder. — Todo mundo sumiu, Nessie. O Jacob… o Sam… a comunicação caiu… a gente está sozinha aqui dentro.
Continuei andando, sem diminuir o ritmo, os olhos fixos à frente, como se já soubesse exatamente para onde estava indo.
— Eu vou encontrar a Charlie — respondi, sem olhar para ela. — Depois eu vou atrás do Jacob.
Leah soltou um riso curto, incrédulo.
— “Eu vou”…? — repetiu ela. — Como exatamente você pretende fazer isso? Porque, até onde eu estou vendo, a gente está no meio da base da KGB, sem suporte, sem mapa confiável e com meio mundo atrás da gente.
Não respondi de imediato.
Deixei que a pergunta pairasse no ar enquanto continuava avançando, até que diminuí o passo. O corredor à frente se dividia, e uma das portas laterais estava entreaberta, como se tivesse sido deixada assim de propósito.
Foi então que parei.
Virei-me lentamente para Leah, encontrando o olhar dela pela primeira vez desde que saímos do confronto com Sam. Havia algo diferente em mim, eu sabia. Não era só raiva. Era clareza.
— Você quer saber como? — perguntei, a voz mais calma do que o momento permitia.
Leah franziu o cenho, desconfiada.
— Eu quero saber qual é o plano, porque até agora parece que você está improvisando.
Antes que eu pudesse responder, atravessamos o limite da porta.
E o mundo mudou.
O som metálico de armas sendo erguidas ecoou ao nosso redor quase ao mesmo tempo em que entramos no espaço. Homens surgiram de todos os lados, posicionados de forma estratégica, formando um círculo perfeito ao nosso redor. Armas apontadas. Olhares frios. Nenhuma dúvida.
Leah reagiu imediatamente, o corpo enrijecendo, pronta para avançar.
Mas eu não, eu ergui as mãos. Devagar.
Sem resistência.
— Nessie, o que você está fazendo? — sussurrou Leah, a incredulidade tomando conta da voz dela.
Mantive os braços erguidos, completamente exposta, como se aquilo já estivesse decidido muito antes de chegarmos ali.
— Esse é o plano — respondi.
Leah virou o rosto na minha direção, claramente indignada.
— O plano é… o quê? — perguntou, sem acreditar. — Sermos capturadas?
Foi então que sorri.
Não um sorriso leve.
Mas um daqueles que não combinam com a situação.
— Sim — disse, simplesmente.
Leah balançou a cabeça, dando um passo mais próximo de mim.
— Você enlouqueceu — murmurou. — Isso não é estratégia, isso é suicídio.
Inclinei levemente a cabeça, ainda observando os homens ao nosso redor, sentindo o peso das armas apontadas, mas sem recuar.
— Não — respondi, em tom baixo. — Isso é atalho.
Ela me encarou, sem entender.
Aproximei-me um pouco mais dela, o suficiente para que apenas ela ouvisse.
— A gente pode passar horas procurando caminhos… — comecei, mantendo a voz controlada — ou pode deixar que eles nos levem direto até onde precisamos estar.
Leah ficou em silêncio por um segundo.
Processando.
— Você tem certeza disso? — perguntou, agora mais baixa.
Voltei a olhar para frente, para os homens, para o caminho que, de forma indireta, eles mesmos iriam nos abrir.
— Eles acham que estão nos capturando — disse.
Deixei uma breve pausa.
E completei, com um tom que carregava mais do que apenas palavras:
— Mas, na verdade… são eles que vão nos levar até o fim.
O capuz abafava tudo.
Não era apenas a visão que desaparecia, mas parte do mundo ao redor parecia se dissolver junto com ela. O som vinha distante, os passos ecoavam de forma irregular, e o único ponto de ancoragem que eu tinha era… o cheiro.
Eu respirei fundo, uma vez, duas e comecei a guardar as informações que captava.
Metal. Óleo. Um leve traço de desinfetante. Couro. Pessoas diferentes passando perto, cada uma com uma assinatura própria, distinta. Eu não sabia exatamente para onde estava sendo levada, mas sabia que, de algum modo, poderia refazer aquele caminho depois.
Se eu saísse dali.
Os passos pararam e minhas mãos ainda estavam presas, o corpo guiado com firmeza até que fui forçada a sentar. Ouvi o som de uma porta se fechando atrás de mim, pesada, isolando o ambiente.
Então, silêncio.
Por alguns segundos… nada.
Até que o capuz foi arrancado e a luz forte, obrigou meus olhos a se ajustarem rapidamente. Pisquei algumas vezes, forçando o foco, até que a sala tomou forma. Era simples, fria, com paredes claras demais, quase clínicas. Eu estava algemada a uma cadeira no centro, completamente exposta.
Sozinha.
Respirei fundo novamente, contando o tempo, ouvi passos que aos poucos foram ficando mais altos, a porta foi aberta e um homem entrou.
Alto, loiro, postura impecável, vestido com um terno que parecia deslocado demais para aquele ambiente. Ele não tinha pressa. Caminhava como se aquele lugar fosse completamente dele, como se tudo ali estivesse exatamente onde deveria estar.
Ele parou à minha frente me observando por alguns segundos antes de finalmente quebrar o silêncio.
— Você se lembra de mim?
Franzi o cenho, mantendo o olhar firme.
— Não.
Ele assentiu levemente, como se já esperasse por aquilo. Puxou uma cadeira e a posicionou diante de mim, sentando-se com calma, cruzando uma perna sobre a outra. O gesto era elegante, controlado… irritantemente tranquilo.
— Cisne Negro — disse ele, como se saboreasse o nome. — Você continua perfeita.
Meu corpo se tensionou, mas mantive a postura.
— Quem é você?
O sorriso dele foi mínimo.
— Alec Volturi.
O nome não me trouxe nenhuma lembrança, mas trouxe… desconforto.
— Sou o responsável por tudo isso — continuou ele, apoiando as mãos sobre o joelho. — E, finalmente, estamos no ponto certo.
Minha respiração desacelerou de propósito.
— Que ponto?
Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando o quanto eu realmente entendia.
— O ponto onde tudo volta ao normal.
A frase não fez sentido.
— Eu não sei do que você está falando.
O olhar dele mudou, não perdeu a calma, mas ganhou intensidade.
— Agora que temos Jacob Black… — começou — e a pequena Charlie…
Meu coração falhou por um instante.
— Você poderá ter suas memórias de volta.
A confusão me dominou.
— O quê?
— Só assim podemos seguir — continuou ele, ignorando minha reação. — Só assim você poderá ativar o Millennium.
Balancei a cabeça, sentindo a confusão crescer.
— Eu não preciso ativar nada — retruquei. — E eu não vou deixar vocês encostarem na—
Antes que eu completasse a frase, a porta se abriu novamente e um grupo de pessoas usando roupas brancas e máscaras cirúrgicas entraram com maletas nas mãos.
O tipo de branco que não trazia conforto, trazia controle.
Meu corpo reagiu antes da mente, puxei as algemas, tentando me soltar, a cadeira raspando no chão.
— Não — disse, mais firme. — Não de novo.
O olhar de Alec se manteve calmo.
Quase interessado.
— Relaxe.
— Eu não vou deixar vocês fazerem isso — continuei, tentando me levantar, mesmo presa.
Dois homens se aproximaram e seguraram meus braços com força.
— Alec — disse um deles, aguardando instruções.
Ele se levantou lentamente, ajeitando o paletó como se aquilo fosse apenas mais um detalhe de rotina.
— Devolvam as memórias dela.
Olhei para Alec.
— O quê?
— Ela não pode ativar o Millennium… — completou ele, olhando diretamente para mim — se não lembrar como fazer.
O pânico tomou conta de mim.
— Não — murmurei, tentando me soltar com mais força. — Vocês não vão—
Não tive tempo de reagir , senti agulha entrando em minha pele. O líquido percorreu meu corpo quase instantaneamente, trazendo um calor estranho, seguido por um peso que começou a puxar tudo para baixo.
Minha visão começou a falhar, os rostos ficaram distantes e a voz de Alec ainda ecoava, mas já não fazia sentido.
Tentei resistir.
Mas era como tentar segurar água com as mãos.
E então…
Escuridão.
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A primeira coisa que senti foi o calor, um calor suave e acolhedor que não combinava em nada com o lugar onde eu deveria estar, e quando abri os olhos não vi paredes frias nem luzes artificiais, mas uma sala iluminada por uma luz delicada que atravessava as cortinas, espalhando reflexos dourados pelo chão de madeira, enquanto uma música baixa preenchia o ambiente com um ritmo calmo e quase hipnótico.
Eu estava ali, no centro daquele espaço, segurando um bebê nos braços, pequena, quente, com os dedinhos apertando minha mão de forma instintiva, e o cheiro veio antes de qualquer pensamento, talco infantil, leve, misturado com algo doce, e então com o perfume dele, Jacob, e eu soube que ele estava ali antes mesmo de vê-lo entrar, sem pressa, com um sorriso que eu não via há tempo, leve, inteiro, e quando se aproximou não houve necessidade de palavras.
Sua mão encontrou a minha com naturalidade e ele se inclinou, o beijo foi suave, doce, carregado de algo que parecia antigo e conhecido, como se já tivesse acontecido inúmeras vezes, e talvez tivesse mesmo, e quando ele se afastou levou a mão até a cabeça do bebê, acariciando com cuidado antes de se juntar a mim no movimento, e começamos a dançar lentamente, o corpo dele próximo ao meu, a criança segura entre nós, como se aquele momento fosse completo, como se nada pudesse quebrá-lo, como se aquilo fosse real demais para ser um sonho, até que a música falhou, o calor desapareceu e tudo se rompeu de uma vez.
Meus olhos se abriram abruptamente e o ar voltou pesado aos pulmões, a luz agora era fria, artificial, o cheiro de metal e desinfetante substituía tudo o que havia antes, mas havia sons, passos ao longe, vozes distantes, e então o choro, Charlie, claro, inconfundível, e eu me sentei na cama de uma vez, o coração acelerado enquanto algo dentro de mim se reorganizava com uma violência silenciosa, e então veio tudo, não fragmentado, não aos poucos, mas inteiro, memórias, treinamentos, o laboratório, as missões, Jacob, Charlie, o loop, as mortes, os recomeços, as escolhas, tudo ocupando o lugar que sempre foi deles, e junto com as memórias vieram as sensações, os reflexos, a precisão, cada habilidade que havia sido arrancada de mim e agora retornava como se nunca tivesse ido embora.
Naquele instante eu soube, com uma clareza fria e absoluta, que Alec Volturi havia cometido um erro ao devolver minha mente sem entender o que vinha junto com ela, porque a KGB acreditava que havia recuperado sua arma, mas o que realmente fez foi despertar algo que já não podia mais ser controlado, e enquanto o choro de Charlie ecoava pelos corredores eu me levantei, sentindo o corpo responder com perfeição, sabendo exatamente onde estava, o que precisava fazer e, principalmente, quem eu era de verdade.
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