Narrado por Jacob.


Há 6 anos atrás...


O barulho constante das hélices preenchia o ar enquanto eu mantinha o controle do helicóptero, os olhos alternando entre o painel e o horizonte escuro que se estendia à minha frente. O mar abaixo parecia infinito, uma massa densa e silenciosa que refletia apenas fragmentos da luz da lua. Eu já havia feito voos longos antes, mas aquele… aquele tinha um peso diferente. Não era só a distância de Nova York até ali. Era o motivo.

Charlie Swan não era o tipo de homem que chamava alguém como eu sem uma razão muito boa.

E, definitivamente, não era o tipo de homem que pedia urgência.

Quando a ilha finalmente surgiu no campo de visão, isolada no meio de tudo, cercada apenas por mar e silêncio, eu soube que não era um encontro comum. Era discreta demais. Escondida demais. Exatamente o tipo de lugar onde ninguém faria perguntas… porque ninguém saberia que deveria perguntar.

Reduzi a altitude com cuidado, preparando o pouso enquanto observava o terreno abaixo. Havia uma clareira aberta o suficiente para acomodar o helicóptero, próxima a uma casa simples, mas bem estruturada. Luzes acesas. Movimento mínimo. Nada que chamasse atenção.

As hélices ainda giravam quando abri a porta e desci, sentindo o vento forte bater contra o corpo. O cheiro do mar era mais intenso ali, misturado com o aroma úmido da vegetação ao redor. Tirei os óculos escuros e os prendi na gola da camisa, já olhando ao redor, atento.

Foi então que vi Charlie.

Ele vinha em minha direção acompanhado por uma mulher. Renee.

Ela mantinha a postura elegante, mas havia algo no olhar dela… preocupação. Ainda assim, quando se aproximou, sorriu de forma gentil.

— Jacob — disse ela, estendendo a mão. — É um prazer finalmente te conhecer.

Apertei a mão dela, firme, mas respeitoso.

— O prazer é meu.

Voltei o olhar para Charlie, que já me observava com aquela expressão séria que eu conhecia bem.

— Espero que isso seja realmente uma emergência — falei, direto, sem rodeios. — Porque você acabou de me fazer pilotar de Nova York até uma ilha isolada na costa de Washington.

Renee soltou um leve suspiro, como se aquela tensão fosse esperada.

— Eu vou preparar um café — disse ela, olhando para Charlie antes de se afastar. — Vocês precisam conversar.

Observei enquanto ela se afastava em direção à casa, deixando-nos a sós.

Charlie não perdeu tempo.

— Vem comigo — disse, virando-se na direção da porta. — Precisamos falar em particular.

Segui sem questionar.

Entramos na casa, e o contraste com o exterior foi imediato. O ambiente era organizado, silencioso demais, como se cada detalhe tivesse sido pensado para não chamar atenção. Charlie caminhou direto por um corredor até chegar a uma porta no fundo.

Ele a abriu a porta, o espaço era simples, mas carregado de informações. Mapas, arquivos, documentos organizados com precisão quase obsessiva. Nada ali parecia aleatório. Nada ali era por acaso.

Charlie fechou a porta atrás de nós e o clique soou mais alto do que deveria, em seguida se virou para mim.

E, naquele instante, eu soube que aquilo não era apenas uma conversa.

Era o começo de algo muito maior.



Charlie permaneceu em silêncio por alguns segundos depois que fechou a porta, como se estivesse medindo o peso exato das palavras que estava prestes a dizer, e isso por si só já era um sinal de que aquilo não seria uma conversa comum. Ele caminhou até a mesa, apoiando as mãos sobre a superfície por um instante antes de me encarar diretamente, e havia algo no olhar dele que eu raramente via, uma mistura de cautela e urgência que não combinava com o homem que sempre parecia ter tudo sob controle. Quando finalmente falou, a voz veio baixa, controlada, mas carregada de intenção, como se cada palavra precisasse ser escolhida com precisão para não ultrapassar um limite invisível.

— O que eu vou te mostrar… — começou ele, respirando fundo antes de continuar — pode te colocar em uma situação complicada com a KGB.

A frase ficou no ar por um segundo, pesada, esperando uma reação que eu não dei de imediato. Eu apenas o observei, cruzando os braços, deixando claro que aquela não era uma advertência suficiente para me fazer recuar.

— Você ainda pode desistir — completou ele.

Soltei um leve riso, sem humor, balançando a cabeça de forma quase automática. Aquilo não fazia sentido, não vindo dele, não depois de tudo que eu havia feito para chegar até aquele ponto.

— A CIA não aceita desistências, Charlie — respondi, firme. — E eu não cheguei até aqui para jogar fora anos de infiltração na KGB.

Ele sustentou meu olhar por um instante mais longo do que o necessário, como se avaliasse se eu realmente entendia no que estava me metendo. Então suspirou, aceitando a resposta sem insistir mais. Caminhou até uma gaveta, abriu com cuidado e retirou uma pasta vermelha, segurando-a por um breve momento antes de estendê-la na minha direção.

— Então você precisa ver isso.

Peguei a pasta, sentindo o peso dela nas mãos antes mesmo de abri-la. Na capa, em letras discretas, mas impossíveis de ignorar, estava escrito: Projeto Millennium. Algo no nome já indicava que aquilo não era apenas mais um relatório.

Enquanto eu abria, Charlie começou a falar novamente, dessa vez andando lentamente pelo escritório, como se precisasse se movimentar para organizar o que estava dizendo.

— A KGB vem tentando, há anos, aprimorar seus agentes — explicou ele. — Mas não estamos falando de treinamento comum. Eles ultrapassaram qualquer limite ético que ainda existia.

Folheei os primeiros documentos, e o que vi fez meu estômago se contrair de forma imediata. Relatórios técnicos, imagens, gráficos… e então, de forma clara, inegável, um título que não deixava espaço para interpretação.

Clonagem humana.

Parei por um segundo, o olhar fixo na página.

— Isso é absurdo — disse, levantando os olhos para ele. — Isso não é possível.

Charlie não reagiu com surpresa.

— Eles estão tentando — respondeu, simplesmente.

Voltei a olhar para os documentos, passando as páginas com mais rapidez agora, cada uma revelando detalhes ainda mais perturbadores. Testes, falhas, registros médicos… tentativas atrás de tentativas.

— Todos morreram — continuei, lendo em voz baixa, sem acreditar completamente. — Antes de completar um ano.

Minha voz carregava mais incredulidade do que eu gostaria de admitir.

Charlie parou de andar.

— Quase todos — corrigiu ele.

Levantei o olhar lentamente.

E foi nesse momento que eu entendi que aquilo…

Estava longe de ser a pior parte.




Charlie sustentou meu olhar por alguns segundos depois daquela última frase, como se estivesse avaliando se eu estava pronto para o próximo passo, e então voltou a se mover pelo escritório, mais lento agora, como alguém que revisitava algo que nunca deixou de carregar. Ele passou a mão pelo rosto antes de continuar, e quando falou novamente, a voz veio diferente, menos estratégica, mais pessoal, como se aquilo deixasse de ser apenas um relatório e passasse a ser parte da história dele.

— Há vinte anos… — começou, parando próximo à janela — eu participei de alguns desses testes.

A informação caiu pesada, mas eu não interrompi. Apenas esperei.

— Eu não estava sozinho — continuou ele. — Carlisle Cullen também estava envolvido.

O nome me fez franzir o cenho. Eu já tinha ouvido falar dele. Médico brilhante. Desaparecido. Um dos poucos que ainda acreditavam que dava para salvar o que a KGB estava destruindo.

— A gente não estava ali para criar armas — disse Charlie, olhando para mim de novo. — A gente acreditava que podia salvar aquelas crianças… dar a elas uma chance de viver.

Houve uma pausa breve, carregada de algo que ele não disse em voz alta.

— Mas o Carlisle desapareceu antes de conseguir levar isso até o fim.

Fechei a pasta lentamente, apoiando-a sobre a mesa, ainda processando tudo aquilo.

— Então nada deu certo — falei, mais como conclusão lógica do que pergunta.

Charlie negou com a cabeça.

— O que o Carlisle não chegou a saber… — disse ele, dando um passo na minha direção — é que deu certo.

Meu corpo reagiu antes da mente.

— Como assim?

Ele respirou fundo.

— Ele criou uma substância. Algo experimental. Ainda incompleto, ainda instável… mas diferente de tudo que já tinham testado.

Minha atenção voltou imediatamente.

— E você usou isso?

Charlie assentiu.

— Eu usei.

O silêncio que se seguiu foi denso.

— E funcionou — completou ele.

Levei alguns segundos para formular a pergunta, mas quando ela veio, saiu direta.

— Você está dizendo que um dos clones sobreviveu?

Charlie me encarou, firme.

— Estou dizendo que a criança viveu.

O mundo pareceu se reorganizar em torno daquela frase.

Eu me levantei da cadeira devagar, passando a mão pelo cabelo, tentando acompanhar a dimensão daquilo.

— Isso é impossível — murmurei.

Charlie já estava se movendo em direção à porta.

— Vem comigo.

Hesitei por um segundo, mas segui.

Antes de sair, não consegui evitar.

— Não me diga que tem um moreno de um metro e oitenta e cem quilos solto por aí — comentei, tentando aliviar o peso da situação com humor.

Charlie soltou um leve sorriso de canto, abrindo a porta.

— Você vai ver com seus próprios olhos.

E foi naquele momento que eu soube…

Que o que quer que estivesse do outro lado daquela porta… viraria minha vida de cabeça para baixo.


Saí do escritório ao lado de Charlie ainda tentando organizar tudo o que tinha acabado de ouvir, mas a verdade é que não havia organização possível para aquilo, não naquele momento, não com a quantidade de informação que ele simplesmente despejou sobre mim. Minha mente ainda estava presa na ideia de clonagem, de um experimento que não deveria ter funcionado… e que, de alguma forma, tinha dado certo. Caminhávamos pelo corredor em silêncio, mas não era um silêncio confortável, era aquele tipo que carrega mais perguntas do que respostas, e cada passo que eu dava parecia me aproximar de algo que eu ainda não sabia se queria realmente ver.

Antes que chegássemos ao fim do corredor, Renee apareceu vindo na direção oposta, equilibrando uma bandeja com duas xícaras de café como se nada de anormal estivesse acontecendo naquela casa. O contraste me incomodou mais do que deveria. Tudo ali era tranquilo demais para o que estava sendo revelado. Ela sorriu ao nos ver, mantendo aquela postura gentil de sempre, como se estivesse apenas cumprindo um papel cotidiano.

— Achei que vocês iam precisar disso — disse ela, estendendo a bandeja.

Peguei uma das xícaras quase por reflexo, mais pelo gesto do que pela vontade real de beber alguma coisa. O calor do café ajudou a me manter presente, ancorado naquele momento.

Charlie não perdeu tempo.

— Onde ela está, Renee?

Ela não hesitou.

— Na biblioteca.

Franzi o cenho imediatamente.

— Ela…? — repeti, sem entender completamente a forma como ele se referia.

Mas Charlie já estava se movendo novamente, como se aquela resposta fosse tudo o que precisava. Dei mais um passo, mas parei por um segundo, olhando para a xícara na minha mão. Aquilo parecia… errado. Deslocado. Soltei um pequeno suspiro, devolvi o café para a bandeja de Renee sem dizer nada e segui atrás dele.

O corredor parecia mais longo agora.

Cada passo mais pesado.

E então paramos diante de uma porta.

Charlie não falou nada. Apenas girou a maçaneta e a abriu.

O ambiente lá dentro era diferente do resto da casa. Mais silencioso. Mais… vivo. Livros ocupavam as paredes, organizados com cuidado, e a luz entrava de forma suave pelas janelas, iluminando o espaço com uma tranquilidade quase absurda.

Foi então que eu a vi uma jovem, sentada, mas que se levantou no momento em que entramos.

Ela sorriu de forma natural e sem hesitação.

— Oi, pai.

A palavra ecoou na sala.

E tudo dentro de mim travou, meu corpo simplesmente parou de responder por um segundo. O cérebro tentando acompanhar o que os olhos estavam vendo, mas sem conseguir fechar a equação.

— Puta merda… — murmurei, sem conseguir evitar.

Charlie deu um passo à frente, como se estivesse apresentando algo perfeitamente normal.

— Black… — disse ele, com uma calma que só tornava tudo mais absurdo — essa é Renesmee, minha filha caçula.

Meu olhar foi dela para ele e de volta para ela, tentando encontrar algum ponto de referência, algum detalhe que explicasse aquilo.

Nada.

— Renesmee — continuou Charlie, agora voltando-se para ela — esse é Jacob Black.

E foi naquele instante que eu percebi que o problema não era o que eu estava vendo.

Era o que aquilo significava.


Renesmee deu alguns passos na direção de Charlie com naturalidade, como se a presença dele fosse o ponto de equilíbrio daquele espaço, e só depois voltou o olhar para mim, avaliando de forma curiosa, quase divertida, como se já tivesse ouvido falar de mim antes mesmo daquele encontro. O sorriso dela era leve, espontâneo, mas havia algo por trás daquele olhar que não combinava com a simplicidade da cena, algo que me fez permanecer imóvel por um segundo a mais do que deveria, ainda tentando encaixar todas as peças que estavam sendo jogadas diante de mim.

— Esse é o agente durão? — perguntou ela, inclinando levemente a cabeça, sem qualquer cerimônia.

Charlie soltou um suspiro imediato.

— Renesmee… — disse ele, em tom de advertência — se comporte.

Ela apenas deu de ombros, sem parecer realmente repreendida, e manteve o olhar em mim por mais um instante, como se estivesse registrando cada detalhe, antes de voltar a atenção para o pai.

Eu, por outro lado, não consegui reagir de imediato. Minha mente ainda tentava acompanhar a situação, mas as palavras não vinham, não com aquela facilidade que eu costumava ter. Aquilo não era apenas estranho. Era impossível.

Charlie então deu um passo à frente, assumindo novamente o controle da situação.

— Renesmee, nos dê um momento.

Ela assentiu sem resistência, como se já esperasse por aquilo, e se virou em direção à porta. Antes de sair, porém, parou por um breve segundo, voltou o rosto na minha direção e sorriu novamente, um sorriso rápido, quase provocativo, antes de deixar o cômodo e fechar a porta com cuidado.

O som do fechamento ecoou mais alto do que deveria.

E foi o suficiente.

— Você só pode estar brincando comigo — falei, passando a mão pelo rosto, tentando manter algum controle que já não existia. — Essa garota… essa garota é o clone da Elizabeth Swan.

Minha voz saiu mais carregada do que eu pretendia.

— A sua filha — continuei, encarando-o diretamente — a que morreu há quatorze anos.

O silêncio que se seguiu foi curto.

Mas pesado.

— Como você conseguiu isso?

Respirei fundo, tentando estabilizar o próprio corpo, como se a simples tentativa de entender aquilo exigisse mais esforço do que qualquer missão que eu já tivesse enfrentado.

Charlie não desviou o olhar.

— Eu usei o DNA dela — respondeu, sem rodeios. — E a Renee… aceitou ser a barriga de aluguel.

A resposta foi direta.

Fria.

Como se estivesse descrevendo um procedimento comum.

Balancei a cabeça lentamente, tentando aceitar o que estava ouvindo.

— Isso é loucura — disse, sem conseguir disfarçar.

Charlie deu um leve sorriso, mas não havia humor ali.

— A loucura… — começou ele, dando um passo à frente — ainda nem começou.

E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa…

Eu acreditei nele.