BlackSwan

20 Contenção


Voltei para o escritório ainda tentando processar a imagem daquela garota sorrindo para mim como se fosse apenas uma adolescente comum. Minha mente continuava presa ao rosto dela, aos traços de Elizabeth Swan reproduzidos de forma quase absurda diante dos meus olhos. Aquilo não era apenas clonagem. Era algo muito maior, muito mais perigoso, e Charlie sabia disso pela tranquilidade irritante com que conduzia toda aquela conversa. Assim que entrei novamente no escritório, passei a mão pelo rosto e me sentei sem cerimônia na cadeira diante da mesa dele, tentando organizar as ideias antes que minha cabeça explodisse de vez.

— Joga a bomba logo inteira, Charlie — falei, encarando-o diretamente. — A KGB não criou um programa de clonagem humana só pela ciência. Tem alguma coisa maior nisso tudo.

Charlie não respondeu de imediato. Apenas caminhou até o cofre embutido atrás de um quadro antigo na parede e digitou a senha com calma demais para alguém que estava destruindo a minha sanidade aos poucos. Quando a porta metálica se abriu, ele retirou várias pastas grossas e as colocou sobre a mesa. O peso delas sozinho já dizia muito.

— Aí está o resumo do inferno — respondeu ele.

Peguei a primeira pasta no topo. Na capa, em letras escuras e discretas, estava escrito: Super Humanos.

Só aquilo já foi suficiente para fazer meu estômago revirar.

Abri lentamente e comecei a folhear os documentos. Relatórios médicos, gráficos genéticos, fotografias… e então vieram as imagens que me fizeram parar. Crianças. Pequenas demais. Algumas apresentavam mutações grotescas, deformações ósseas, alterações na pele, olhos completamente anormais. Fechei a pasta de uma vez, soltando o ar devagar enquanto apoiava as mãos sobre ela.

— Isso é demais pro meu estômago — murmurei, balançando a cabeça.

Charlie permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Sempre dava errado.

Levantei o olhar para ele novamente, esperando que completasse.

— O corpo rejeitava o preenchimento celular — explicou. — As células humanas clonadas não conseguiam estabilidade completa. Sempre havia falhas… mutações… degeneração precoce.

Olhei novamente para a pasta fechada diante de mim e senti um desconforto genuíno subir pela garganta.

— Mas na Renesmee deu certo — continuou ele.

Franzi o cenho.

— Como?

Charlie respirou fundo antes de responder, como alguém que sabia exatamente o tamanho do absurdo que estava prestes a dizer.

— Eu e Carlisle encontramos uma forma de preencher as lacunas celulares dela antes da formação completa do organismo.

— Com o quê? — perguntei, já sabendo que não gostaria da resposta.

— Células de mamíferos caçadores.

Fiquei em silêncio por um segundo.

Depois outro.

Então me recostei na cadeira lentamente.

— Claro — falei com sarcasmo. — Porque isso definitivamente parece uma decisão saudável.

Charlie ignorou o comentário.

— Isso estabilizou o corpo dela. Eliminou as mutações físicas.

Passei a mão pelo cabelo, tentando acompanhar aquela insanidade científica.

— Menos mal — murmurei. — Ela é linda demais pra nascer com uma cauda.

Charlie soltou uma risada curta pela primeira vez desde que a conversa começou.

— Renesmee é especial, Jacob.

— Sempre tem um “mas” nessas histórias — retruquei imediatamente.

Ele assentiu devagar.

— Sempre tem.

A expressão dele ficou séria outra vez.

— As células usadas nela desenvolveram respostas instintivas muito acima do normal. Reflexos, sentidos, adaptação física, agressividade sob ameaça… tudo acima do limite humano.

Voltei a olhar para a pasta sobre a mesa.

E, então algumas coisas começaram a fazer sentido, o jeito que ela observava tudo, a intensidade do olhar. A sensação estranha que tive quando ela entrei naquela biblioteca.

Charlie então apoiou as mãos sobre a mesa e me encarou diretamente.

— Por precaução… nós criamos uma forma de contenção.

Franzi o cenho imediatamente.

— E é aí que eu entro na história?

Charlie assentiu.

— Exatamente.

Soltei um riso desacreditado.

— Charlie, a garota acabou de me conhecer.

Ele apenas sorriu de leve, como alguém que sabia mais do que estava dizendo.

— Você percebeu a forma como ela olhou pra você quando saiu da biblioteca?

A pergunta me pegou desprevenido., porque eu tinha percebido e isso me irritou imediatamente.

O sorriso dela, ojeito como me analisou, a naturalidade desconcertante com que parecia confortável perto de mim.

Charlie deu a volta na mesa devagar antes de concluir:

— Você é a contenção dela, Jacob.



A risada saiu alta demais, quase descontrolada, daquelas que surgem quando a situação ultrapassa qualquer limite aceitável da realidade. Passei a mão pelo rosto e me afastei da mesa, ainda tentando entender se Charlie Swan realmente estava dizendo aquilo com seriedade ou se tinha enlouquecido de vez depois de anos brincando de Deus com cientistas fugitivos e clones humanos escondidos em ilhas isoladas.

— Não — falei, balançando a cabeça enquanto continuava andando pelo escritório. — Não, não, não. Eu estou fora disso.

Charlie permaneceu parado perto da mesa, observando minha reação sem parecer minimamente surpreso.

— Jacob…

— Ela acabou de me conhecer — interrompi imediatamente, apontando na direção da porta por onde Renesmee tinha saído minutos antes. — Você está falando dessa garota como se eu tivesse alguma ligação sobrenatural com ela.

Charlie suspirou lentamente, como alguém que já esperava aquela explosão.

— Existe uma contenção — disse ele com calma. — Carlisle criou um mecanismo biológico.

Parei de andar no mesmo instante.

— Um quê?

Charlie apoiou as mãos sobre a mesa antes de continuar.

— Uma ligação química e neural acionada através de uma substância específica. Carlisle acreditava que, se as alterações genéticas da Renesmee despertassem completamente, ela precisaria de um elo emocional permanente para estabilizar os instintos mais agressivos.

Fiquei encarando ele em silêncio por dois segundos antes de sentir a irritação subir de verdade.

— Que diabos vocês fizeram?

Charlie não desviou o olhar.

— A KGB descobriu parte das pesquisas — respondeu ele. — Eles sabem sobre os experimentos, sabem sobre Renesmee e sabem sobre mim e Carlisle.

Meu maxilar travou imediatamente.

— Então é por isso que vocês estão escondidos aqui.

— Sim — confirmou ele. — Carlisle reuniu os Cullen em uma ilha no Brasil. Ilha de Esme. Todos se tornaram fugitivos no momento em que a KGB descobriu que Renesmee existia.

Passei as mãos pelo cabelo tentando acompanhar aquilo.

— Isso continua sendo insanidade.

— Talvez seja — respondeu Charlie. — Mas é a nossa realidade.

Ele então respirou fundo antes de dizer a parte que realmente me fez perder o pouco de calma que ainda restava.

— Só existia uma amostra da substância.

Franzi o cenho imediatamente.

— Charlie…

— Eu dei a ela antes de você chegar.

O silêncio no escritório pareceu esmagador.

Meu corpo inteiro ficou imóvel enquanto eu encarava aquele homem tentando decidir se socava ele ou se simplesmente pegava o helicóptero e desaparecia dali.

— Você fez o quê?

Charlie continuou falando, agora mais firme, como se finalmente tivesse decidido parar de aliviar as informações.

— No momento em que você entrou naquela biblioteca e ela olhou para você… o elo foi ativado.

Minha respiração ficou pesada.

— Você transformou aquela garota em uma responsabilidade minha sem me perguntar?

— Eu transformei você na única pessoa capaz de estabilizar ela.

Soltei as pastas sobre a mesa com força.

— Você não pode jogar isso nas minhas costas!

A voz saiu mais alta do que eu pretendia.

— Eu tenho uma missão pra cumprir, Charlie! Anos infiltrado na KGB, anos construindo uma posição dentro daquela organização, e agora você quer que eu abandone tudo porque resolveu brincar de laboratório humano?

Charlie permaneceu em silêncio enquanto eu continuava.

— Se eu me envolver nisso… eu perco tudo. Minha missão, minha cobertura, meu trabalho com a CIA.

Apontei novamente para as pastas.

— A coisa certa a fazer seria entregar a Renesmee para a CIA agora mesmo.

As palavras saíram rápidas.

Automáticas.

Profissionais.

Mas Charlie apenas me observou.

Então perguntou, calmo demais para aquele momento:

— Você seria capaz?

A pergunta me atingiu pior do que qualquer resposta e eu não consegui responder.



Saí do escritório irritado demais para continuar naquela conversa sem acabar quebrando alguma coisa. Minha cabeça parecia um campo minado depois de tudo o que Charlie tinha despejado sobre mim em menos de uma hora. Clonagem humana, experimentos ilegais, uma garota geneticamente modificada e, agora, a informação absurda de que eu tinha sido transformado em algum tipo de “âncora biológica” sem nem sequer ser consultado. Eu já tinha vivido muita coisa trabalhando infiltrado na KGB, mas aquilo ultrapassava qualquer limite aceitável de insanidade.

Charlie veio atrás de mim pelo corredor, ainda mantendo aquela calma irritante.

— Jacob, escuta—

— Não, Charlie, você escuta — retruquei, andando sem diminuir o passo. — Você basicamente amarrou minha vida a de uma garota que eu conheci há cinco minutos.

Ele suspirou atrás de mim.

— Você me deve isso.

Parei imediatamente.

Virei devagar na direção dele, incrédulo com a coragem daquela frase.

— Eu te devo?

Charlie sustentou meu olhar.

— Quando você quase morreu em Moscou… eu e Carlisle salvamos sua vida.

Aquilo me irritou ainda mais justamente porque era verdade. Eu lembrava daquele hospital improvisado, das semanas entre a vida e a morte depois da missão fracassada na Rússia. Carlisle realmente tinha me tirado dali.

Mas aquilo não dava a Charlie o direito de decidir meu futuro.

— Então é isso? — perguntei com sarcasmo. — Um favor médico virou contrato vitalício agora?

Charlie abriu a boca para responder, mas eu simplesmente passei a mão pelo rosto e caminhei até a porta da sala, sentindo a pressão aumentar dentro da cabeça.

— Merda… — murmurei, sem paciência nenhuma.

— Olha essa língua !

A voz feminina veio do corredor.

Levantei o olhar e encontrei Renesmee parada alguns passos à frente, os braços cruzados, me encarando com uma expressão de repreensão que me pegou completamente desprevenido. Por um segundo, fiquei olhando para ela tentando entender como alguém podia soar tão naturalmente íntima sem sequer me conhecer.

— Isso não é conversa pra criança — respondi automaticamente.

Ela ergueu uma sobrancelha imediatamente.

— Eu tenho vinte anos — retrucou. — Faço vinte e um em alguns dias.

Então inclinou levemente a cabeça antes de completar — Você por acaso tem, cinquenta?

Charlie soltou uma risada baixa atrás de mim, o traidor.

Antes que eu respondesse qualquer coisa, Renee apareceu no corredor com aquela expressão típica de mãe tentando impedir um desastre social.

— Renesmee…

— Deixa, querida — interrompeu Charlie. — O que acha de me servir aquele café?

Renee olhou para ele desconfiada.

— Charlie—

— Jacob precisa conhecer a Renesmee.

Franzi o cenho imediatamente.

— Eu preciso o quê? Espera um pouco, Charlie—

Mas os dois simplesmente me ignoraram.

Renee suspirou e acabou seguindo Charlie pelo corredor, ainda lançando um olhar preocupado na nossa direção antes de desaparecer com ele escada abaixo. Fiquei sozinho no corredor com Renesmee me observando de uma forma curiosa demais para o meu conforto.

Ela descruzou os braços lentamente e se aproximou alguns passos.

— O que você fazia em Paris?

Meu corpo inteiro travou e olhei para ela imediatamente.

— Como você sabe que eu estive em Paris?

O sorriso dela surgiu de canto, pequeno, satisfeito com minha reação.

— Porque você ainda está com o cheiro de lá.

Franzi o cenho, completamente perdido.

— O quê?

Ela se aproximou mais um pouco, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Chuva antiga nas ruas de pedra… perfume caro… café forte… fumaça perto do rio… — disse ela lentamente, fechando os olhos por um instante. — E tem cheiro de aeroporto também. Você voltou há pouco tempo.

Fiquei encarando ela em absoluto silêncio.

Aquilo não era um chute, ela realmente sabia.

Renesmee abriu os olhos novamente e me observou como se estivesse tentando entender minha reação.

— Paris é bonita? — perguntou de forma simples.

Mas eu mal ouvi a pergunta.



Fiquei olhando para Renesmee sem conseguir esconder completamente a mistura de impressão e desconforto que ela causava. Não era apenas pela aparência dela, embora aquilo sozinho já fosse suficiente para bagunçar a cabeça de qualquer um que soubesse da história real. Era a forma como ela observava o mundo. O jeito como parecia captar detalhes invisíveis para qualquer pessoa comum. Aquela garota tinha acabado de sentir o cheiro de Paris em mim como se tivesse caminhado pelas ruas da cidade algumas horas antes.

E o pior era que ela parecia achar aquilo absolutamente normal.

— Então Paris é bonita mesmo? — perguntou novamente, agora mais animada, caminhando lentamente ao meu redor como alguém genuinamente curioso. — Tem mesmo cheiro de chuva nas ruas? E aqueles cafés na calçada? As pessoas realmente ficam sentadas horas olhando o rio?

Franzi o cenho enquanto acompanhava ela com o olhar.

— Você faz perguntas demais.

— É porque eu nunca fui — respondeu rapidamente. — Não posso ir.

Aquilo me chamou atenção imediatamente.

— Não pode… ou não deixam você ir?

Renesmee parou por um instante antes de dar de ombros.

— Os dois, eu acho.

A resposta saiu leve demais para alguém falando da própria prisão.

Foi nesse momento que percebi algo estranho. Ela sabia exatamente o que era. Não parecia confusa, assustada ou revoltada. Não havia crise existencial, trauma aparente ou qualquer reação comum de alguém criado em laboratório e tratado como um experimento biológico.

Ela simplesmente… aceitava.

Olhei para ela por alguns segundos antes de perguntar:

— Como você se sente sendo um…

Parei no meio da frase, sem saber exatamente qual palavra usar.

Experimento.

Clone.

Arma.

Renesmee sorriu antes mesmo de eu terminar. E aquilo me incomodou mais do que deveria. Porque era um sorriso doce demais para alguém que, teoricamente, tinha sido criado para ser um super humano.

— Especial — respondeu simplesmente.

A voz dela não carregava arrogância.

Só verdade.

Charlie apareceu no corredor nesse momento segurando uma xícara de café, claramente ouvindo a conversa havia mais tempo do que eu imaginava.

— Renesmee é imune a coisas como depressão e ansiedade — explicou ele. — O cérebro dela foi estabilizado junto com o restante do organismo.

Olhei de Charlie para ela novamente, tentando absorver aquilo.

Então murmurei quase sem perceber:

— Um ser humano perfeito.

Renesmee sorriu de novo, mas dessa vez havia curiosidade no olhar dela.

— Meu pai e Bella falavam sobre você.

Franzi o cenho.

— Bella?

— Minha irmã — respondeu naturalmente. — Ela disse que você é bom de briga.

Aquilo me arrancou um pequeno riso sem humor.

— Isso depende do dia.

Os olhos dela pareceram brilhar imediatamente.

— Então luta comigo.

Pisquei uma vez.

— O quê?

— Boxe — respondeu ela, como se fosse a proposta mais normal do mundo. — Quero ver se você é tão bom quanto falaram.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Não vou bater em um bebê.

O erro aconteceu exatamente ali.

Nem vi o movimento direito, um segundo ela estava parada na minha frente.

No outro…

O soco atingiu meu rosto com força suficiente para me lançar longe. Meu corpo bateu contra a parede do corredor antes de cair parcialmente no chão, completamente sem dignidade.

Charlie gargalhou alto atrás dela.

Alto mesmo.

Daqueles risos sinceros e inconvenientes.

Passei a mão pelo maxilar tentando entender o que tinha acabado de acontecer enquanto olhava incrédulo para Renesmee.

— Por que diabos você me socou?

Ela me encarou séria por dois segundos e então perguntou calmamente:

— Bebês socam assim?

Charlie voltou a rir.

E eu finalmente percebi que minha vida tinha acabado de ficar muito mais complicada.


Levantei devagar, ainda sentindo o impacto daquele soco absurdo no maxilar enquanto encarava Renesmee tentando decidir se ficava irritado ou impressionado. A garota tinha me lançado longe como se eu não pesasse nada, e o pior era que ela parecia completamente tranquila depois disso, como se derrubar um homem adulto no corredor de casa fosse uma forma normal de provar um argumento.

Charlie ainda ria atrás dela.

— Acho que vocês dois já estão se entendendo — comentou entre uma risada e outra.

Lancei um olhar mortal na direção dele.

— Eu vou embora antes que fique completamente maluco nessa ilha.

Passei por eles sem esperar resposta, seguindo direto para fora da casa enquanto tentava reorganizar a cabeça. O ar frio vindo do mar bateu no rosto assim que saí, mas nem aquilo foi suficiente para aliviar a sensação de que minha vida tinha acabado de entrar em uma espiral absurda sem qualquer chance de retorno.

Atrás de mim ouvi passos rápidos.

— Jacob!

Continuei andando por mais alguns metros até ela alcançar meu lado.

— Por que você vai embora?

Parei imediatamente e virei na direção dela, ainda irritado demais para medir completamente o tom da voz.

— Você me deu um soco e ainda pergunta por que eu vou embora?

A pergunta saiu mais alta do que deveria.

Renesmee parou no mesmo instante.

A mudança nela foi imediata.

O sorriso desapareceu. Os ombros relaxaram levemente e ela baixou o olhar de forma quase automática, como alguém que realmente tinha entendido que fez algo errado.

— Desculpa… — murmurou.

Aquilo me pegou completamente desprevenido.

Olhei para Charlie por instinto, e ele apenas assentiu lentamente, como se estivesse mostrando exatamente o que queria que eu percebesse desde o início.

O elo, a influência....contenção.

- Mas que merda! Soltei um suspiro pesado e passei a mão pelo rosto outra vez, sentindo a irritação diminuir quase à força.

— Ei… — falei agora em um tom bem mais baixo. — Você não precisa ficar assim.

Renesmee levantou os olhos devagar, ainda me observando com cautela.

Balancei a cabeça antes de continuar.

— Eu realmente preciso ir. Se eu desaparecer por muito tempo, vão sentir minha falta.

Ela permaneceu em silêncio por um segundo antes de perguntar:

— Você não vai ao casamento da Bella e do Edward?

Franzi o cenho sem entender imediatamente.

Charlie respondeu por mim.

— Minha outra filha, Bella, vai se casar com o filho mais novo do Carlisle.

Assenti de leve.

Eu conhecia os Cullen apenas pelos relatórios e pelas histórias de Charlie. Nunca tinha encontrado nenhum deles pessoalmente.

Voltei o olhar para Renesmee.

— Não vou poder ir.

Ela pareceu pensar naquilo por alguns segundos antes de fazer outra pergunta, dessa vez mais baixa:

— Quando você vem me ver de novo?

A pergunta saiu simples, honesta e sem jogos.

Olhei para ela por um instante maior do que deveria antes de responder:

— Eu aviso o Charlie.

Ela assentiu lentamente, mas havia algo no olhar dela que me incomodou de um jeito estranho. Não era tristeza exatamente. Era expectativa.

Me virei antes que aquilo começasse a mexer demais comigo e caminhei até o helicóptero. Fiz os procedimentos quase no automático, ajustando os equipamentos enquanto tentava colocar a cabeça de volta no lugar.

Mas antes de partir…

Olhei novamente na direção da casa, Charlie estava parado próximo à varanda, observando tudo em silêncio. Ao lado dele, Renesmee permanecia imóvel, os cabelos balançando levemente com o vento vindo do mar enquanto me observava como se eu estivesse levando algo importante embora junto comigo.

E foi naquele momento que percebi a pior parte de toda aquela história, apesar de tudo o que ela era…do que foi criada para ser…

Renesmee ainda era completamente inocente.