BlackSwan
21 Visita noturna
Cheguei ao meu apartamento em Manhattan já perto da madrugada, completamente drenado depois de tudo o que tinha acontecido naquela ilha. O trajeto de volta pareceu durar horas, não pela distância, mas porque minha cabeça não parava um segundo sequer. Renesmee continuava aparecendo nos meus pensamentos de forma irritante. O sorriso dela, o jeito como descreveu Paris apenas pelo cheiro em minhas roupas, a facilidade absurda com que me derrubou no corredor e, pior que tudo, a forma como abaixou a cabeça quando eu elevei o tom de voz. Charlie estava certo em uma coisa, aquilo não era normal.
Entrei no apartamento jogando as chaves em qualquer lugar sem nem me preocupar onde caíram. O silêncio do lugar normalmente me agradava, mas naquela noite parecia sufocante. Tirei a jaqueta enquanto caminhava até o pequeno bar perto da janela panorâmica da sala e peguei uma garrafa de whisky sem pensar muito. Precisava de álcool ou de um coma temporário, talvez os dois. Servi o copo lentamente e levei a bebida aos lábios, sentindo o gosto forte descer queimando pela garganta.
Foi quando ouvi a voz feminina atrás de mim.
— A nova missão dada pela KGB foi tão ruim assim?
Fechei os olhos por um segundo antes de me virar devagar.
Bree Tanner estava sentada no sofá como se fosse dona do lugar, as pernas cruzadas e uma taça vazia sobre a mesa de centro. O cabelo curto estava impecável, e ela tinha aquele olhar típico de quem achava que sempre estava alguns passos à frente de todo mundo.
— O que você está fazendo no meu apartamento? — perguntei sem paciência.
Ela deu um pequeno sorriso de canto.
— Eu ainda tenho as chaves.
Peguei o copo novamente antes de responder.
— Você devia devolver. Nós terminamos.
Bree soltou um pequeno riso nasalado, claramente achando aquilo engraçado.
— Eu dei um tempo pra você repensar.
Aquilo me arrancou um sorriso irônico imediato. Caminhei lentamente até o sofá enquanto terminava o whisky de uma vez só.
— Não preciso de tempo nenhum, Bree.
Sentei no sofá oposto ao dela, relaxando o corpo de propósito, como se aquela conversa não tivesse importância alguma.
— Inclusive… acho que vou trocar as fechaduras amanhã.
O olhar dela endureceu imediatamente.
— Você acha que pode simplesmente me descartar assim?
Inclinei levemente a cabeça enquanto servia outra dose da bebida.
— Eu terminei. Se você chama isso de descarte… então sim.
O silêncio entre nós ficou pesado por alguns segundos. Bree me observava como se estivesse esperando que eu recuasse ou demonstrasse qualquer culpa, mas eu já estava cansado demais para jogos emocionais.
Então ela resolveu atacar.
— Isso não vai ficar assim, Jacob.
Levantei os olhos lentamente.
— É mesmo?
Ela se inclinou levemente para frente.
— Eu sei que você é um agente duplo.
Aquilo finalmente chamou minha atenção de verdade.
O apartamento ficou silencioso.
Coloquei o copo sobre a mesa sem tirar os olhos dela.
— Você pode ir contar — respondi calmamente. — Mas espero que esteja preparada pras consequências.
Bree franziu o cenho.
— Você não tem coragem.
Soltei um pequeno riso sem humor.
— Bree… eu vou dizer que você me ajudou.
A expressão dela mudou imediatamente.
— O quê?
— Nós dois sabemos como a KGB trata traidores — continuei, mantendo a voz calma de propósito. — Então, se eu cair… você cai comigo.
Ela levantou do sofá de uma vez.
— Você não pode me colocar nisso.
Agora fui eu quem levantou devagar. Caminhei até ela sem pressa, vendo claramente o desconforto crescer no olhar dela conforme diminuía a distância.
— Quer pagar pra ver?
Parei bem na frente dela.
— Você sabe do que eu sou capaz, Bree.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos, mas dessa vez sem a mesma confiança de antes. O medo apareceu rápido demais para alguém treinado como ela.
— Você é um crápula — murmurou, recuando.
— E você devia devolver minhas chaves.
Ela me lançou um último olhar carregado de raiva antes de pegar a bolsa e sair do apartamento batendo a porta com força.
O silêncio voltou imediatamente.
Passei a mão pelo rosto cansado e soltei um longo suspiro antes de simplesmente me jogar no sofá, encarando o teto do apartamento enquanto a imagem de Renesmee aparecia de novo na minha cabeça.
E aquilo era um problema enorme.
Porque eu já tinha visto muita gente perigosa na vida.
Mas nunca alguém que parecia tão inocente quanto ela.
Os dias seguintes foram um inferno silencioso. Eu tentava agir normalmente, continuar as missões, manter a cobertura dentro da KGB e seguir exatamente como vinha fazendo nos últimos anos, mas a verdade é que minha cabeça continuava voltando para aquela ilha e, principalmente, para Renesmee. Quanto mais eu pensava nela, pior tudo ficava, porque aos poucos eu começava a entender a dimensão real do que Charlie e Carlisle tinham criado.
Elizabeth Swan.
Mesmo morta há mais de vinte anos, o nome dela ainda circulava pelos corredores da KGB como uma espécie de lenda. Eu nunca a conheci pessoalmente, apenas por relatórios, fotografias e histórias contadas por agentes mais antigos, mas aquilo bastava para entender o tamanho da fama dela dentro da organização. Elizabeth havia sido uma das agentes mais eficientes que a KGB já teve. Inteligente, brutal quando necessário e absurdamente leal. Diziam que ela entrava em uma missão sabendo exatamente quem pisaria vivo do outro lado. E então ela morreu.
Ou, pelo menos, foi isso que todos acreditaram.
Agora eu sabia a verdade.
Charlie Swan não se afastou da liderança da KGB por luto.
Ele se afastou porque enlouqueceu tentando trazer a filha de volta.
E conseguiu.
A pior parte era que Renesmee não fazia ideia do tamanho da própria existência. Ela não se via como uma arma ou uma aberração científica. Se via apenas como filha de Charlie e irmã de Bella. Aquela inocência me incomodava de um jeito que eu não conseguia explicar, talvez porque eu soubesse exatamente o que a KGB faria se descobrisse tudo.
Ou talvez porque eu já estivesse começando a me importar mais do que deveria.
Naquela noite eu estava em outra missão. Mais uma entre dezenas executadas para manter minha posição dentro da organização. O alvo era um laboratório clandestino nos arredores de Chicago, oficialmente abandonado, mas usado pela KGB como ponto temporário de armazenamento. Eu nem sabia exatamente o que deveria recuperar. E honestamente, agentes como eu aprendiam rápido a não fazer perguntas.
O prédio estava silencioso quando entrei, silencioso demais. O tipo de silêncio que antecede problema. Atravessei o primeiro corredor já sabendo que não sairia dali sem luta, e não demorou muito para os homens aparecerem. Dois surgiram na escada lateral. O primeiro caiu antes mesmo de sacar a arma completamente. O segundo tentou reagir, mas bateu contra a parede após um golpe no rosto e desabou desacordado.
Continuei avançando.
Mais dois homens vieram pelo corredor principal. Disparos ecoaram pelo laboratório enquanto eu usava as próprias estruturas metálicas como cobertura. Um caiu imediatamente. O outro ainda conseguiu correr alguns metros antes de eu alcançá-lo.
Menos de dez minutos depois, o lugar inteiro estava limpo.
Entrei na sala indicada nas instruções e encontrei o objeto no centro de uma mesa metálica protegido por uma pequena maleta térmica. Não havia identificação, apenas um sistema de trava biométrica já desbloqueado para mim. Peguei o objeto sem perder tempo. Pequeno, metálico, estranho. Parecia importante demais para algo tão discreto.
Mas eu não perguntei.
Nunca perguntava.
Saí do laboratório ajustando o detonador enquanto caminhava calmamente até a saída. Quando atravessei a porta principal e alcancei o estacionamento vazio, pressionei o botão.
A explosão iluminou a noite atrás de mim.
O calor atingiu minhas costas enquanto os vidros do prédio estouravam em sequência. Entrei no carro sem sequer olhar duas vezes para o incêndio crescendo atrás do laboratório e liguei o motor imediatamente.
O celular tocou poucos segundos depois.
Atendi no viva-voz mantendo os olhos na estrada.
— A missão foi realizada com sucesso.
A voz masculina do outro lado permaneceu em silêncio por um instante antes de responder:
— Novo ponto de entrega.
Ouvi o som de um teclado sendo digitado e logo um endereço apareceu na tela do painel do carro.
Brooklyn.
Armazém 17.
— Entregue a encomenda e aguarde novas instruções.
A ligação foi encerrada sem despedidas.
Olhei rapidamente para o objeto sobre o banco do passageiro. Pequeno demais para causar tanta movimentação. Aquilo me incomodava.
Peguei o celular, tirei uma foto rápida do artefato e enviei diretamente para o contato criptografado da CIA com apenas uma frase:
“Recuperado pela KGB. Tentem identificar.”
Guardei o aparelho novamente e acelerei o carro pelas ruas vazias da cidade.
Naquele momento eu ainda não sabia exatamente o que estava transportando,mas aprendi há muito tempo que, quando a KGB escondia algo daquele jeito...Normalmente significava problema suficiente para derrubar países inteiros.
A água quente escorria pelo meu corpo enquanto eu tentava, sem muito sucesso, desligar a cabeça por alguns minutos. Já passava da madrugada e Manhattan continuava viva do lado de fora das janelas do apartamento, mas ali dentro existia apenas silêncio. O tipo de silêncio que normalmente me ajudava a pensar. Naquela noite, porém, ele só piorava as coisas.
Renesmee continuava voltando aos meus pensamentos de forma irritante.
O sorriso dela.
A força absurda escondida naquele corpo aparentemente delicado.
A forma como me observava como se eu fosse alguém importante antes mesmo de me conhecer.
Desliguei o chuveiro soltando um suspiro pesado e peguei a toalha, enrolando-a na cintura enquanto caminhava pelo apartamento ainda úmido do banho. A iluminação vinha apenas dos abajures espalhados pela sala, deixando o ambiente parcialmente escuro. Tudo parecia normal.
Até eu perceber a janela.
Parei imediatamente.
Meu olhar se fixou nela por um segundo mais longo.
Fechada.
Eu tinha certeza absoluta de que havia deixado aquela janela aberta antes de entrar no banho.
O instinto veio antes do pensamento.
Em segundos eu já estava com a arma na mão, o corpo inteiro entrando automaticamente no estado de alerta que anos dentro da KGB tinham me ensinado a desenvolver. O apartamento ficou silencioso demais outra vez, e dessa vez não havia nada confortável nisso.
Comecei a andar lentamente pela sala, cada passo controlado, observando o ambiente da mesma forma que um predador observa território invadido. Meu olhar percorria cada sombra, cada reflexo nos vidros, cada pequeno detalhe fora do lugar.
Então ouvi.
Passos.
Vindos da cozinha.
Apontei a arma imediatamente e avancei devagar pelo corredor estreito, sentindo o corpo inteiro preparado para reagir. O som parou por um segundo. Continuei andando até alcançar a entrada da cozinha.
E quase atirei.
A figura surgiu diante de mim rápido demais.
Renesmee.
Meu dedo travou no gatilho por instinto antes do disparo acontecer.
— Você quer morrer? — rosnei imediatamente, ainda com a arma apontada. — Como diabos você me encontrou? O que você está fazendo aqui?
Ela não respondeu.
Ficou parada no meio da cozinha, imóvel, me encarando como se ainda estivesse tentando processar alguma coisa. Foi então que percebi que havia algo errado. Muito errado.
Renesmee parecia assustada.
Não o tipo comum de medo.
Era choque.
O olhar dela estava perdido, a respiração irregular, como se tivesse corrido quilômetros antes de chegar ali.
— Renesmee.
Chamei novamente, dessa vez mais firme.
Ela piscou algumas vezes antes de finalmente conseguir falar.
— Eles nos encontraram.
A voz saiu baixa e fraca.
Aquilo bastou para meu corpo inteiro entrar em alerta de verdade.
Baixei a arma imediatamente e me aproximei dela rápido, segurando seus ombros para obrigá-la a focar em mim.
— Quem encontrou vocês?
Ela tentou responder, mas parecia perdida demais para organizar as palavras.
Foi então que notei outro detalhe.
As mãos dela tremiam.
Aquela garota geneticamente modificada, praticamente impossível de intimidar… estava tremendo.
Droga.
Segurei o rosto dela por um segundo, forçando ela a me olhar.
— Ei. Olha pra mim.
Ela finalmente focou os olhos nos meus.
— Senta.
Guiei Renesmee até o sofá praticamente à força enquanto minha mente já trabalhava rápido demais tentando calcular possibilidades. Se a KGB realmente tinha encontrado aquela ilha, então Charlie estava certo desde o começo.
O inferno finalmente tinha começado.
Empurrei ela suavemente para sentar no sofá e me abaixei na frente dela por um instante.
— Você não sai daqui — falei firme. — Não abre a porta pra ninguém. Não importa quem seja.
Ela assentiu lentamente, ainda tentando recuperar o fôlego. Peguei a arma novamente.
— Eu já volto.
Levei menos de cinco minutos para me vestir, mas minha cabeça já estava funcionando como se estivesse no meio de uma operação ativa. Enquanto colocava a camisa e ajustava a arma na cintura, tentei organizar as possibilidades. Se a KGB realmente tinha encontrado a ilha de Charlie, aquilo mudava tudo. Eles não teriam enviado apenas uma equipe pequena. Não para um alvo daquele tamanho. Não para alguém que carregava informações suficientes para destruir metade da organização.
Quando voltei para a sala, Renesmee estava exatamente onde eu a deixei.
Sentada no sofá.
Imóvel.
Os braços abraçando o próprio corpo enquanto ela encarava um ponto qualquer do chão como se ainda estivesse tentando entender o que tinha acontecido. Aquilo me chamou atenção imediatamente. Qualquer outro agente treinado já teria começado a fazer perguntas, traçar rotas de fuga ou vasculhar meu apartamento em busca de possíveis ameaças. Renesmee não.
Ela parecia… perdida.
Me aproximei devagar e sentei ao lado dela soltando um suspiro cansado.
— Me conta exatamente o que aconteceu.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Eu não consegui deter eles.
A voz saiu baixa, carregada de culpa.
— Eram muitos.
Passei a mão pelo rosto antes de perguntar o que realmente importava.
— E o Charlie?
Renesmee balançou a cabeça lentamente.
— Eles o levaram.
Aquilo não me tranquilizou nem um pouco.
Ela respirou fundo antes de continuar:
— Ele só mandou eu vir atrás de você.
Fechei os olhos por um segundo.
— Ótimo… — murmurei.
Porque aquilo significava duas coisas muito ruins ao mesmo tempo. Primeiro, Charlie realmente acreditava que eu conseguiria protegê-la. Segundo, ele provavelmente não sabia se sairia vivo daquela situação.
Renesmee ficou em silêncio por alguns instantes antes de finalmente olhar para mim.
— Eu posso ficar aqui… até encontrar meu pai?
A pergunta saiu com uma sinceridade quase infantil, o que tornava tudo ainda mais absurdo considerando o que ela realmente era.
Recostei no sofá tentando pensar rápido.
— Eu vou descobrir onde o Charlie está — respondi. — Até lá, você não vai rastrea-lo.
Ela franziu o cenho imediatamente.
— Por quê?
Olhei diretamente para ela antes de responder.
— Porque, se a KGB está com ele, então já sabe que você vai atrás dele.
Renesmee permaneceu em silêncio, e nesse instante uma percepção finalmente me atingiu com força.
Charlie criou um ser biologicamente superior, mas não criou uma agente. Ela tinha sentidos absurdos, força acima do normal, reflexos quase impossíveis… mas não tinha treinamento. Não sabia pensar como alguém caçado pela KGB deveria pensar. Não entendia armadilhas, manipulação ou infiltração.
Ela era poderosa.
Mas completamente despreparada para o mundo em que tinha acabado de entrar.
Passei a mão pela nuca soltando um suspiro cansado antes de perguntar: — Como você chegou até Manhattan?
— Peguei um barco escondida… depois um avião.
Pisquei lentamente.
— Sozinha?
Ela assentiu.
Balancei a cabeça tentando processar aquilo.
Ela atravessou metade do país escondida, fugindo da KGB, sem treinamento, sem apoio e aparentemente guiada apenas pelos próprios instintos absurdos.
E conseguiu chegar viva.
Aquilo devia me tranquilizar, mas, honestamente…
Só me preocupou mais ainda.
A cozinha do apartamento era silenciosa demais para aquela madrugada. Enquanto a água fervia e o molho aquecia lentamente na panela, eu tentava organizar mentalmente tudo o que precisava fazer nas próximas horas. Precisava descobrir se Charlie estava vivo, entender até onde a KGB já sabia sobre Renesmee e, principalmente, decidir o que faria com ela ali dentro do meu apartamento. Porque aquela situação inteira tinha potencial suficiente para destruir minha infiltração, minha vida e provavelmente o resto da minha sanidade.
O som baixo dos passos dela chamou minha atenção antes mesmo que eu virasse o rosto.
Quando olhei na direção da porta da cozinha, precisei de um segundo a mais para reagir.
Renesmee tinha acabado de sair do banho. Os cabelos ainda estavam molhados, caindo pelas costas em ondas escuras enquanto usava uma das minhas camisas. O tecido enorme nela fazia parecer ainda menor do que realmente era, as mangas dobradas de qualquer jeito e a barra quase alcançando metade das coxas.
E, por um instante irritante, tudo o que consegui pensar foi que ela era bonita demais para o próprio bem.
Muito bonita.
O tipo de beleza que causava problema naturalmente.
Ela percebeu meu olhar imediatamente.
— Por que você compra camisas tão grandes?
A pergunta saiu genuinamente curiosa.
Soltei um pequeno riso nasalado enquanto mexia o molho.
— As camisas não são grandes. Você que é pequena.
Renesmee me analisou de cima abaixo como se estivesse comparando nossas proporções e então sorriu levemente.
— Faz sentido.
Voltei a atenção para a panela tentando ignorar o fato de que ela parecia confortável demais ali dentro depois de fugir da KGB atravessando metade do país.
Ela se aproximou da bancada lentamente, observando tudo ao redor com curiosidade silenciosa até o cheiro do molho preencher mais a cozinha.
— Eu adoro macarrão ao molho.
Revirei os olhos imediatamente.
— Desse jeito nada nunca vai te surpreender.
O sorriso dela aumentou um pouco.
— Meu olfato é mais forte do que eu.
Aquilo me arrancou um pequeno suspiro cansado. Claro que era. Tudo naquela garota parecia acima do normal.
Desliguei o fogo e comecei a servir os pratos.
— Está pronto.
Coloquei os pratos sobre a mesa pequena da cozinha enquanto Renesmee se sentava observando cada movimento meu de forma quase atenta demais. Quando finalmente me sentei também, percebi ela suspirar baixinho enquanto mexia distraidamente no garfo.
Franzi o cenho.
— O que foi?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Estou preocupada.
A voz dela saiu mais baixa agora.
— Com quem?
Renesmee levantou os olhos lentamente.
— Bella… minha mãe… meu pai…
A insegurança no olhar dela me atingiu mais do que eu gostaria. Porque, apesar de tudo o que ela era biologicamente, naquele momento parecia apenas uma garota assustada tentando acreditar que a família ainda estava viva.
Me recostei levemente na cadeira antes de responder no tom mais firme que consegui.
— Eles vão ficar bem.
Ela assentiu devagar, claramente querendo acreditar nisso.
Mas a verdade…
A verdade era outra.
Porque eu conhecia a KGB, conhecia os métodos e sabia exatamente o que acontecia quando alguém carregava informações perigosas demais.
Se Charlie, Renee e Bella realmente tinham sido capturados, existia uma possibilidade muito real de que já estivessem mortos.
Olhei para Renesmee em silêncio por alguns segundos enquanto ela tentava comer mesmo claramente sem fome.
Naquele instante eu entendi que, gostando ou não…
Agora ela estava sob minha responsabilidade.
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