BlackSwan
4 Jogo de Xadrez
Narrado por Renesmee
O aroma do café recém-passado preenchia o ambiente de forma suave, quase reconfortante, enquanto eu inclinava levemente a cafeteira, deixando o líquido escuro cair lentamente dentro da caneca. O som era baixo, constante, contrastando com o silêncio da casa ainda vazia naquela hora. Apoiei a cafeteira de volta sobre a bancada e envolvi a caneca com as mãos, sentindo o calor se espalhar pela pele como um pequeno lembrete de normalidade.
O celular vibrava sobre a mesa.
Olhei para a tela por um segundo antes de atender, já sabendo quem estava do outro lado.
— Oi, Bella.
A voz da minha irmã veio imediata, carregada de uma leve ansiedade que ela nem tentava esconder.
— Você vai mesmo, não vai? — perguntou, sem rodeios. — Renesmee, eu preciso saber se posso contar com você.
Fechei os olhos por um instante, apoiando o quadril na bancada enquanto levava a caneca aos lábios, dando um pequeno gole antes de responder.
— Eu vou ao seu casamento, Bella. Pode ficar tranquila.
Houve um suspiro do outro lado da linha, como se aquela simples confirmação aliviasse um peso considerável.
— Você trabalha demais — ela continuou, em um tom mais suave, mas ainda carregado de preocupação. — O hospital pode esperar um pouco. Você não precisa carregar tudo sozinha o tempo todo.
Um leve sorriso surgiu em meus lábios, quase automático, mesmo sabendo que aquela versão de mim que ela conhecia era apenas uma fração cuidadosamente construída.
— Eu sei — respondi, com calma. — Mas está tudo sob controle.
— Renesmee…
A forma como ela disse meu nome trouxe algo mais humano à conversa, algo que, por um breve momento, me fez querer ficar ali, presa àquela realidade simples onde minhas maiores preocupações eram plantões e compromissos familiares.
— Eu te amo — disse, interrompendo-a antes que insistisse mais.
Houve um pequeno silêncio, seguido por um tom mais leve na resposta.
— Eu também te amo.
Afastei o celular do ouvido e encerrei a ligação, deixando-o sobre a mesa com cuidado. Permaneci parada por alguns segundos, olhando para a tela apagada, enquanto as palavras dela ainda ecoavam na minha mente.
O hospital pode esperar.
A ideia seria quase engraçada, se não fosse tão distante da verdade.
Levei a caneca novamente aos lábios e caminhei até a sala, os passos lentos, pensativos, enquanto a rotina que eu sustentava diante da minha família se sobrepunha, mais uma vez, à realidade que eu realmente vivia. Sentei-me no sofá, apoiando o cotovelo no encosto e observando o vapor do café se dissipar no ar.
Minha mente, inevitavelmente, voltou para ele.
Jacob Black.
A imagem dele no chão, o sorriso ainda presente mesmo com a arma apontada para a cabeça, surgia com uma nitidez incômoda. Havia algo naquele momento que não se encaixava, algo que fugia do padrão de qualquer missão anterior.
Foi fácil demais.
Essa constatação se repetia, insistente.
Cruzei as pernas, apoiando a caneca sobre o joelho enquanto deixava o olhar se perder por alguns segundos. Não fazia sentido. Um agente com o histórico dele, com o nível de treinamento que possuía, não seria derrubado daquela forma sem motivo. Ele não era o tipo de homem que cometia erros por descuido.
Ele havia permitido.
A percepção se instalou com mais força, trazendo junto uma sensação desconfortável que eu ainda não conseguia nomear com precisão.
Preocupação.
Franzi levemente o cenho, incomodada com o próprio pensamento. Aquilo não deveria existir. Ele era um alvo. Um traidor. Alguém que havia sido designado para captura sem margem para questionamentos.
Ainda assim…
Algo estava errado.
Levei o café aos lábios novamente, mas o gosto já não parecia o mesmo. Permaneci em silêncio, imóvel, deixando que aquela sensação estranha se acomodasse dentro de mim, mesmo sem encontrar uma explicação lógica para ela.
Porque, no fundo, havia uma verdade difícil de ignorar.
Eu não acreditava que tinha sido sorte.
E isso tornava tudo muito mais perigoso.
A cerimônia havia sido conduzida com uma elegância serena, quase delicada, como se cada detalhe tivesse sido cuidadosamente pensado para refletir exatamente o que Bella sempre quis. As flores claras, dispostas com precisão ao longo do corredor, exalavam um perfume suave que se misturava ao ar fresco do fim de tarde, enquanto a luz dourada do sol atravessava os vitrais, criando reflexos discretos sobre os convidados. Permaneci em meu lugar durante todo o tempo, observando minha irmã caminhar até o altar com uma expressão que eu raramente via, tranquila, feliz de uma forma genuína, distante das preocupações que costumava carregar.
Edward Cullen aguardava por ela com a postura impecável, o olhar fixo, quase reverente. Havia algo na forma como ele a observava que transmitia segurança, e isso, mais do que qualquer palavra dita durante os votos, parecia suficiente para acalmar qualquer dúvida que pudesse existir. Quando Bella finalmente parou diante dele, e suas mãos se encontraram, compreendi que, ao menos naquele momento, tudo estava exatamente como deveria estar.
A recepção seguiu em um ritmo leve, embalada por música suave e conversas espalhadas entre os convidados. Caminhei pelo salão com uma taça em mãos, cumprimentando alguns parentes de Edward que se aproximavam com curiosidade discreta. Os Cullen eram, em sua maioria, educados e observadores, do tipo que analisava antes de se expor. Respondi às perguntas com naturalidade, mantendo a imagem que todos ali esperavam de mim, a irmã presente, a profissional dedicada, alguém cuja vida orbitava ao redor de rotinas previsíveis.
— Você está linda — ouvi uma voz familiar dizer ao me aproximar de uma das mesas.
Alice.
Ela me observava com um sorriso aberto, os olhos atentos ao vestido azul que eu havia escolhido para a ocasião. A cor contrastava com o ambiente claro ao redor, mas ainda assim se encaixava de forma discreta, exatamente como eu pretendia.
— Obrigada — respondi, inclinando levemente a cabeça em reconhecimento.
— Eu sabia que essa cor ficaria perfeita em você — continuou, satisfeita com a própria escolha. — Sempre penso nesses detalhes.
Antes que eu pudesse responder, ela se voltou levemente para o lado.
— Ah, quase esqueci — disse, puxando alguém pela mão. — Renesmee, esse é o Jasper, meu marido.
O homem ao lado dela mantinha uma postura tranquila, o olhar firme, mas distante o suficiente para não parecer invasivo. Havia algo nele que transmitia controle, como se estivesse constantemente medindo o ambiente ao redor.
— Prazer — disse ele, com um aceno discreto.
— O prazer é meu — respondi, mantendo o tom cordial.
Troquei mais algumas palavras com eles, o suficiente para manter a formalidade da situação, antes de me afastar novamente, permitindo que o fluxo da festa me conduzisse para outra direção. Foi então que senti uma presença diferente se aproximando, mais familiar, mais direta.
— Vou roubar minha filha por alguns minutos.
Sorri ao reconhecer a voz antes mesmo de me virar.
Charlie.
— Isso é raro o suficiente pra eu não discutir — respondi, entregando a taça a um garçom que passava naquele instante.
Ele me ofereceu o braço com naturalidade, e caminhei ao lado dele para fora do salão, seguindo em direção ao jardim. O ar ali era mais fresco, carregado pelo perfume leve das flores e pelo som distante da música que ainda ecoava lá dentro. A iluminação suave criava um ambiente quase íntimo, afastado da movimentação da festa.
Andamos por alguns passos em silêncio, lado a lado, como fazíamos tantas vezes quando palavras não eram necessárias.
— Eu estou orgulhoso de você — disse ele, finalmente.
Virei o rosto em sua direção, observando a expressão séria, mas tranquila.
— Soube que o Cisne Negro prendeu o Lobo.
O tempo pareceu desacelerar por um segundo.
Meu corpo não reagiu de imediato, mas minha mente já trabalhava em velocidade máxima, reorganizando cada detalhe, cada possibilidade. Mantive o rosto neutro, controlado, como havia aprendido a fazer diante de qualquer situação inesperada.
— Você anda bem informado — respondi, com um leve sorriso que não entregava nada além do necessário.
Charlie soltou um pequeno riso, sem olhar diretamente para mim.
— Digamos que algumas coisas chegam até mim — disse, em tom calmo. — Mais do que você imagina.
Parei de andar por um instante, observando o jardim à minha frente enquanto as palavras dele se acomodavam dentro de mim com um peso diferente.
Charlie manteve o olhar à frente por alguns segundos, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras, enquanto retomávamos o caminhar pelo jardim. O som distante da música e das conversas voltava a preencher o ambiente, mas ali, naquele espaço mais reservado, tudo parecia mais contido, mais atento.
— E então… — ele começou, com uma naturalidade que soava ensaiada demais para ser casual. — O que você achou do Lobo?
A pergunta veio direta, sem rodeios, e, ainda assim, carregada de uma intenção que ia além da curiosidade simples. Mantive o ritmo dos passos, sem demonstrar pressa em responder, permitindo que o silêncio se estendesse por um instante calculado.
— Ele é exatamente o que disseram — respondi, por fim, com voz estável. — Inteligente, rápido… perigoso.
Charlie assentiu de leve, como se já esperasse aquela resposta, mas não pareceu satisfeito com ela. Havia algo mais.
— E você sentiu algo estranho ao conhecê-lo?
Franzi levemente o cenho, voltando o olhar para ele com mais atenção. A pergunta não fazia sentido no contexto em que deveria estar inserida, não da forma como foi colocada.
— Estranho… como? — questionei, tentando entender o que exatamente ele buscava.
Charlie suspirou baixo, passando a mão pela nuca antes de finalmente me encarar.
— Diferente — explicou, escolhendo as palavras com cuidado. — Alguma coisa fora do padrão. Uma sensação… difícil de ignorar.
Permaneci em silêncio por um breve instante, revisitando mentalmente cada segundo daquele encontro, cada movimento, cada palavra dita. Havia algo, sim, mas não era algo que eu estivesse disposta a nomear em voz alta, muito menos naquele momento.
Ainda assim, balancei a cabeça de leve.
— Não senti nada — respondi, firme o suficiente para encerrar o assunto. — Foi só mais uma missão.
Ele me observou por um segundo a mais, como se tentasse ler algo além da resposta, mas não insistiu diretamente. Em vez disso, desviou o olhar para frente novamente, retomando o caminhar com passos lentos.
— Eu pergunto porque… — começou, com um tom mais sério agora — o Lobo tem suas artimanhas.
A forma como ele disse aquilo não parecia baseada apenas em relatos ou informações de terceiros. Havia experiência ali. Conhecimento.
— Ele sabe como entrar na cabeça das pessoas — continuou. — Sabe o que dizer, como agir… e, quando você percebe, já está envolvido de um jeito que não deveria.
Parei por um instante, cruzando os braços de forma sutil, mais por hábito do que por necessidade.
— Você está preocupado comigo — observei.
Charlie soltou um pequeno sorriso, quase cansado.
— Eu sempre estou — respondeu, sem hesitar. — Não quero que você se torne uma desertora.
A palavra ficou no ar por um segundo, carregando um peso silencioso. Era mais do que um aviso. Era um limite.
Soltei uma breve risada, leve, quase divertida, quebrando a tensão que se formava.
— Pode ficar tranquilo — disse, balançando a cabeça. — Eu não cairia na lábia do Lobo.
Charlie me acompanhou na risada, o clima suavizando de forma quase imediata, como se aquele momento mais sério tivesse sido apenas um desvio passageiro.
— Espero que não — respondeu ele, com um tom mais leve, embora o olhar ainda guardasse um traço de atenção.
Retomamos o caminho de volta para o salão, lado a lado, enquanto a música se tornava mais nítida e as luzes mais intensas.
Mas, mesmo com a conversa encerrada, as palavras dele não desapareceram.
Elas apenas ficaram ali.
Quietas.
Esperando.
O fim da festa chegou de forma quase silenciosa, como se o tempo tivesse decidido desacelerar depois de horas de celebração. O salão já não carregava a mesma energia de antes, restando apenas pequenos grupos dispersos, conversas mais baixas e o som distante de risadas ocasionais. Subi até o andar superior após me despedir de alguns convidados, encontrando Bella no quarto, cercada por malas abertas e tecidos cuidadosamente dobrados, enquanto ajustava os últimos detalhes antes da viagem de lua de mel. Havia uma leve ansiedade em seus movimentos, misturada à felicidade evidente que ela tentava disfarçar com organização excessiva.
— Você vai ficar bem? — perguntei, encostando levemente na porta.
Ela sorriu ao me ver, aquele sorriso sincero que sempre me fazia esquecer, por um segundo, de tudo o que existia fora daquele mundo.
— Vou — respondeu, ajeitando o véu já guardado. — E você também deveria descansar um pouco.
Assenti com um gesto simples, sem prolongar a conversa, sabendo que aquele momento pertencia a ela. Deixei o quarto em silêncio e desci novamente, sendo recebida por uma cena completamente diferente da agitação anterior.
Na sala principal, Charlie e Edward estavam concentrados sobre um tabuleiro de xadrez, a iluminação suave projetando sombras longas sobre as peças. A postura dos dois era oposta, Edward ereto, analítico, enquanto Charlie parecia mais relaxado, mas com os olhos atentos a cada movimento.
Aproximei-me sem fazer ruído, observando a disposição das peças por alguns segundos antes de me posicionar ao lado.
— Não deveria estar com as mulheres? — Emmett comentou, encostado na parede com um sorriso divertido. — Esse não é exatamente o tipo de festa que você costuma frequentar.
Jasper, ao lado dele, apenas observava, curioso.
— Eu gosto de xadrez — respondi, mantendo o olhar fixo no tabuleiro.
Edward fez seu movimento, deslocando uma peça com precisão calculada, claramente confiante na vantagem que acreditava ter. Seus olhos analisavam o jogo como se não houvesse margem para erro, como se cada possibilidade já tivesse sido antecipada.
Charlie permaneceu imóvel por alguns segundos, os dedos pairando sobre as peças, até que, finalmente, moveu uma delas com aparente simplicidade.
O efeito foi imediato.
Edward franziu levemente o cenho, inclinando-se para frente, analisando o tabuleiro com mais atenção.
— Isso não faz sentido — murmurou. — Eu estava ganhando.
Charlie não respondeu de imediato. Em vez disso, levantou o olhar lentamente, encontrando o meu por um breve instante antes de voltar sua atenção ao tabuleiro.
— Às vezes… — começou, com a voz calma — deixamos o inimigo nos capturar.
Fez uma pequena pausa, deslizando os dedos sobre a peça que havia movido.
— Para criar distrações.
As palavras atingiram como um impacto direto.
Distração.
Minha mente conectou os pontos em uma velocidade quase instantânea, revisitando cada detalhe, cada escolha, cada momento daquele encontro. O sorriso dele. A ausência de resistência real. A forma como havia aceitado o confronto.
Foi fácil demais.
Meu corpo reagiu antes mesmo que eu percebesse, endireitando a postura enquanto o olhar se fixava no tabuleiro sem realmente enxergá-lo.
Jacob Black não havia sido derrotado.
Ele havia permitido.
— Eu preciso ir — disse, abruptamente, já me afastando antes que qualquer um pudesse questionar.
Desci os degraus com rapidez, ignorando completamente o restante da casa, o som das vozes ficando para trás enquanto atravessava a porta principal e sentia o ar frio da noite atingir meu rosto com força. Cada passo era guiado por uma urgência crescente, uma certeza que já não podia ser ignorada.
Ele se deixou capturar.
Agora tudo fazia sentido.
Subi na moto sem hesitar, ligando o motor com um movimento firme enquanto puxava o celular do bolso. Disquei o número de memória, os olhos atentos à rua à minha frente, mas a mente completamente focada no que precisava fazer.
A chamada foi atendida após poucos toques.
— Central — disse a voz do outro lado, neutra.
— Preciso falar com o chefe — respondi, direta.
Houve um breve silêncio.
— Aguarde.
Os segundos seguintes pareceram mais longos do que deveriam. O som do motor vibrava sob mim, acompanhando a tensão crescente que se instalava.
Então, outra voz surgiu.
Masculina. Mais grave.
— Fale.
— Onde está o Lobo? — perguntei, sem rodeios.
— Você não tem autorização para essa informação — veio a resposta imediata.
Apertei o maxilar, controlando a irritação que ameaçava surgir.
— Código Ômega, sete, três, um, operação BlackSwan.
Do outro lado da linha, o silêncio se prolongou dessa vez, mais denso, mais significativo. Era o tipo de pausa que indicava verificação, análise, decisão.
Finalmente, a voz retornou.
— Anote.
Endireitei a postura sobre a moto, já pronta para partir.
Um endereço foi dito.
Claro. Direto.
Perigoso.
A ligação foi encerrada antes que qualquer outra palavra fosse dita.
Guardei o celular, ajustei as mãos no guidão e acelerei sem hesitar, deixando para trás qualquer vestígio daquela noite que, até poucos minutos atrás, parecia tranquila.
Agora não havia mais dúvida.
A caçada… ainda não havia terminado.
O endereço me levou para longe do brilho da cidade, afastando-se pouco a pouco das ruas iluminadas e mergulhando em uma área onde o silêncio era quebrado apenas pelo som distante da água contra o concreto. O porto surgia à frente como uma sombra extensa, tomado por galpões antigos, iluminação irregular e estruturas metálicas que pareciam mais ameaçadoras do que funcionais naquela hora da noite. Reduzi a velocidade da moto ao me aproximar, analisando o ambiente com atenção antes de parar em um ponto estratégico, parcialmente encoberto por um dos armazéns.
Desliguei o motor e permaneci imóvel por um segundo, deixando que meus sentidos se ajustassem ao lugar. O vento trazia o cheiro salgado do mar misturado ao metal frio das estruturas ao redor. Não havia movimento visível, mas a sensação era clara.
Algo já havia começado.
Desci da moto com precisão, ajustando o vestido com naturalidade enquanto deslizava a mão até a arma presa sob o tecido. O contato frio do metal trouxe foco imediato. Conferi a posição, garantindo acesso rápido, e então comecei a caminhar, os passos silenciosos contra o chão áspero do porto.
Foi quando ouvi.
O primeiro disparo cortou o ar.
Depois outro.
E outro.
O som ecoou entre os galpões, alto demais para ser ignorado, próximo demais para ser coincidência.
Não hesitei.
Corri.
O corpo reagiu antes mesmo que o pensamento se completasse, avançando em meio ao caos que se formava. Os tiros se intensificaram, ricocheteando nas superfícies metálicas dos contêineres empilhados ao redor, criando um labirinto de aço e sombra. Desviei de um disparo que atingiu a lateral de um contêiner, o som agudo vibrando nos meus ouvidos enquanto eu me movia entre as estruturas, utilizando cada abertura, cada canto, cada espaço como cobertura.
As luzes eram escassas, criando áreas de escuridão profunda entre os blocos gigantes de metal. Passei por uma pilha de contêineres, me abaixando instintivamente quando mais dois disparos cruzaram o espaço acima da minha cabeça. O coração mantinha o ritmo controlado, cada respiração calculada, cada passo decidido.
Aquilo não era uma contenção.
Era um confronto.
E estava fora de controle.
Avancei mais alguns metros, contornando uma empilhadeira abandonada, o som de vozes se misturando aos tiros agora mais próximos. Um homem surgiu à minha frente, armado, virando na minha direção sem tempo suficiente para reagir. Disparei primeiro. Um único tiro. Preciso. Ele caiu antes mesmo de entender o que havia acontecido.
Segui em frente.
O barulho começou a diminuir à medida que me aproximava do centro do confronto, substituído por um silêncio estranho, pesado, interrompido apenas por ecos distantes. Reduzi o ritmo, a arma erguida, os olhos atentos a cada movimento.
Então parei.
Ele estava ali.
No espaço aberto entre dois blocos de contêineres, iluminado parcialmente por uma luz falha que piscava acima, Jacob Black permanecia de pé, como se tudo aquilo ao redor não tivesse importância alguma. A postura era relaxada demais, o olhar fixo em mim como se soubesse exatamente o momento em que eu chegaria.
Por um segundo, o mundo ao redor pareceu desaparecer.
Restaram apenas nós dois.
Frente a frente.
Mais uma vez.
Apertei levemente a arma, mantendo-a firme, enquanto sustentava o olhar dele sem vacilar.
— Você se deixou capturar — declarei, a voz firme apesar da tensão que ainda pairava no ar.
O canto dos lábios dele se curvou em um sorriso lento, quase satisfeito.
E, naquele instante, tive a confirmação.
Nada daquilo havia sido um acidente.
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