BlackSwan

17 Em terreno inimigo


A sala parecia maior naquela noite, talvez pelo silêncio que se instalava entre nós. Charlie estava no centro de tudo, como sempre, pequena demais para carregar o peso do que estava acontecendo, mas, ainda assim, consciente de uma forma que me desconcertava. Eu me aproximei dela devagar, tentando manter a serenidade no rosto, mesmo com tudo se movendo dentro de mim.

— Mamãe… — disse ela, estendendo as mãos na minha direção — você não vai ficar dodói das memórias de novo, né?

A pergunta me atravessou.

Mas eu não deixei isso aparecer.

Sorri, me abaixando para pegá-la no colo, acomodando-a contra mim com cuidado. Meus dedos deslizaram pelos cabelos dela, afastando os fios do rosto enquanto eu a observava de perto, como se precisasse guardar aquele momento.

— Vai ser diferente dessa vez — respondi, com suavidade.

Charlie pareceu satisfeita com a resposta, apoiando a cabeça no meu ombro como se confiasse completamente naquilo que eu dizia.

Foi então que senti Jacob se aproximar. Ele não disse nada. Apenas envolveu nós duas em um abraço firme, protetor, como se quisesse manter aquele instante um pouco mais. O calor dele, a forma como nos envolvia, tornava tudo mais real… e mais difícil de deixar para trás.

Respirei fundo antes de me afastar, entregando Charlie para Rachel com cuidado.

— Cuida dela pra mim — pedi, mantendo o olhar firme.

Rachel assentiu sem hesitar.

— Eu cuido.

Jacob se inclinou, beijando os cabelos da filha com carinho antes de se afastar. Charlie segurou a mão dele por um segundo, como se não quisesse soltar, mas acabou cedendo, confiando mais uma vez.

Sem prolongar aquele momento, seguimos para fora.

O ar noturno estava mais frio, e o som das hélices começou a preencher o espaço assim que saímos da casa. Os helicópteros já estavam posicionados, a equipe se movimentando com precisão, ajustando equipamentos, verificando armas, tudo dentro de uma rotina que parecia quase automática.

Mas o clima…

Não era tenso.

Era leve demais para o que estávamos prestes a fazer.

— Espero que alguém tenha trazido café — comentou Paul, ajustando o colete. — Invadir base secreta com sono não dá.

Embry riu ao lado dele.

— Você só pensa nisso.

— Prioridades — respondeu Paul, dando de ombros.

Leah passou por nós, prendendo o cabelo com um elástico.

— Relaxa, Lahote. Se você dormir, a gente te arrasta.

— Sabia que podia contar com vocês — retrucou ele, sorrindo.

Seth estava ao lado de um dos helicópteros, concentrado em um tablet.

— Só lembrando — disse ele, sem tirar os olhos da tela — se vocês demorarem mais de cinco minutos lá dentro, eu vou fingir que não conheço ninguém.

— Ótimo — respondeu Jacob, pegando o equipamento. — Já ajuda.

Solomon soltou um leve riso.

— Esse é o espírito de equipe que eu gosto de ver.

Observei tudo em silêncio por um momento, absorvendo a leveza estranha daquele grupo que, mesmo diante de uma missão como aquela, ainda encontrava espaço para humor.

Sem perceber, já estava caminhando até um dos helicópteros. Subi com cuidado, ajustando o equipamento enquanto me acomodava no assento. O som das hélices aumentava, vibrando no ar, preparando-se para decolar.

Jacob passou por mim e seguiu direto para a cabine do piloto.

Por um instante, nossos olhares se encontraram.

E, sem precisar de palavras, eu soube.

Agora era de verdade.

E não havia mais volta.



O som das hélices dominava tudo enquanto o helicóptero ganhava altitude, deixando a ilha para trás como um ponto cada vez menor no meio do oceano. Encostei a cabeça no vidro por um instante, observando o mar se estender infinito abaixo de nós, escuro e silencioso, como se guardasse todos os segredos daquele lugar que provavelmente não existia em nenhum mapa. A ideia de que eu havia vivido ali, que aquela era uma espécie de refúgio… ainda parecia distante, mas não completamente estranha.

O vento sacudia levemente a aeronave, e, mesmo assim, havia algo quase hipnótico na paisagem. O céu começava a mudar de cor à medida que avançávamos, deixando o azul profundo da noite dar lugar a um tom mais frio, anunciando a aproximação da cidade. Nova York surgia ao longe, iluminada, viva, completamente oposta ao isolamento da ilha que acabávamos de deixar.

A descida foi rápida.

O helicóptero pousou em um porto abandonado, cercado por estruturas antigas e enferrujadas que pareciam esquecidas pelo tempo. Assim que os motores começaram a desacelerar, todos se movimentaram com precisão, abrindo as portas e saltando para fora quase ao mesmo tempo. O ar ali era diferente, mais pesado, carregado com o cheiro de metal, óleo e água parada.

Seguimos em grupo até um galpão próximo. As portas eram grandes, antigas, e rangiam levemente quando foram abertas. Entrei logo atrás de Jacob e parei por um segundo ao ver o interior.

Veículos.

Muitos.

Caminhonetes, motos, carros adaptados, todos organizados como se aquele lugar fosse uma base operacional completa. Não era improviso. Era estrutura.

— Impressionante — murmurei, sem esconder a surpresa.

Antes que eu pudesse dar mais alguns passos, senti os braços de Jacob ao meu redor, envolvendo minha cintura por trás com naturalidade. Ele se inclinou levemente, aproximando o rosto do meu.

— Bem-vinda à nossa garagem, amor.

O tom dele era leve, quase divertido, mas havia algo de orgulho ali. Não consegui evitar um pequeno sorriso, mesmo com tudo o que estava acontecendo.

Ao redor, o restante da equipe se movimentava com a mesma energia descontraída de antes. Embry já estava abrindo a traseira de uma das caminhonetes, enquanto Paul e Sam carregavam caixas com equipamentos.

— Pega essa aqui — disse Paul, jogando uma bolsa para Leah.

— Se tiver coisa quebrada, eu vou saber que foi você — respondeu ela, pegando sem esforço.

Seth entrou logo depois, ainda com o tablet nas mãos.

— Só lembrando que vocês têm um tempo limite lá dentro — comentou, sem levantar muito o olhar. — Não testem minha paciência.

— A gente confia em você — disse Solomon, passando por ele com um leve sorriso.

— Isso que me preocupa — retrucou Seth.

Observei aquela dinâmica por um instante, tentando entender como conseguiam manter aquele clima mesmo diante do que estava por vir. Talvez fosse exatamente aquilo que os mantinha funcionando.

Em poucos minutos, tudo estava carregado. As caminhonetes prontas, os equipamentos organizados, cada um em sua posição.

Nos reunimos novamente no centro do galpão.

Jacob abriu o mapa mais uma vez sobre o capô de um dos veículos, chamando todos com um gesto.

— Última revisão — disse ele, olhando ao redor. — Depois disso, é execução.

A projeção foi ativada novamente, e todos se aproximaram.

— Equipe de distração entra primeiro — continuou. — Criam o caos e puxam a segurança para cima.

— Música para os meus ouvidos — comentou Paul.

— Cinco minutos depois, a gente entra pela manutenção — completou Jacob, apontando para o trajeto. — Sem desvios.

Olhei para o mapa, absorvendo cada detalhe, cada caminho, cada possibilidade.

— A saída é pelo mesmo ponto — disse Leah. — Sem improviso.

— Sem improviso — repetiu Jacob.

Houve um breve silêncio.

Não tenso.

Mas focado.

Jacob levantou o olhar, passando por todos antes de parar em mim.

— É agora.

Senti o coração acelerar.

Mas, dessa vez não havia dúvida, a decisão havia sido tomada.


O trajeto até o local foi silencioso, quebrado apenas pelo som do motor e pelas comunicações curtas entre os veículos. Quando finalmente paramos, olhei através do vidro e vi o prédio à nossa frente. Nada nele chamava atenção. Era comum, integrado à rotina da cidade, com pessoas passando na calçada, carros indo e vindo, como se fosse apenas mais um ponto qualquer em Nova York.

Mas não era.

Respirei fundo, ajustando a postura.

Dentro da caminhonete, terminei de me arrumar ao lado de Leah. O uniforme tático já havia sido substituído por roupas elegantes, discretas, perfeitamente adequadas ao perfil que precisaríamos assumir. Um blazer bem cortado, salto baixo, cabelo alinhado. Aparência de quem estava indo para uma reunião… ou apenas tomar um café.

Leah ajeitou o próprio colar e me olhou pelo reflexo do vidro.

— Nunca achei que ia sentir falta de roupa de combate — murmurou.

— Dá mais liberdade de movimento — respondi, ajustando a manga.

Ela soltou um leve riso.

— E menos julgamento.

Nossos olhares se encontraram por um segundo, firmes, sincronizados. Não era só aparência. Era postura. Era personagem.

Duas jovens executivas.

A porta da van se abriu.

Jacob entrou, trazendo com ele uma presença que mudava o ambiente automaticamente. Ele olhou primeiro para Leah, depois para mim, avaliando cada detalhe com atenção.

— Vocês têm três minutos a partir da distração — disse, direto. — Sem contato desnecessário. Sigam o roteiro até o acesso lateral.

— Jake relaxa— respondeu Leah, cruzando os braços. — Você repete isso a cada cinco minutos.

Jacob ignorou o tom dela e continuou.

— Se algo sair do controle, recuem. Não tentem improvisar.

Leah revirou os olhos.

— Falou o rei do improviso.

Jacob a encarou por um segundo.

— Segue o plano.

Ela abriu a porta novamente.

— Ótimo.

E saiu.

O silêncio que ficou dentro da van foi diferente.

Mais carregado.

Jacob deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti a mão dele na minha cintura, firme, puxando-me para perto com uma naturalidade que já começava a não me surpreender.

E então ele me beijou, um beijo urgente e ao mesmo tempo lento.

Ele se afastou, ainda mantendo a proximidade, ergui levemente uma sobrancelha, tentando manter o controle da situação.

— Isso faz parte das instruções? — perguntei, em acariciando os ombros dele.

O canto da boca dele se curvou de leve.

— Parte importante — respondeu, sem hesitar.



O início do plano aconteceu sem anúncio, sem contagem regressiva dramática. Apenas… começou.

Leah e eu atravessamos a calçada lado a lado, mantendo o ritmo natural de duas mulheres que tinham um destino comum e nada a esconder. O prédio à nossa frente continuava exatamente como eu havia visto antes, comum, discreto, perfeitamente integrado à rotina da cidade. Pessoas entravam e saíam sem notar nada além do óbvio.

Mas nós sabíamos.

— Estamos entrando — murmurei, quase sem mover os lábios.

— Recebido — a voz de Jacob veio baixa no comunicador. — Mantenham o padrão.

— Sistema ativo — completou Seth. — Estou com vocês.

Empurrei a porta do café e entrei junto com Leah. O ambiente era pequeno, simples, com poucas mesas ocupadas e o som baixo de conversas misturado ao tilintar de xícaras. O cheiro de café fresco preenchia o espaço, criando uma normalidade quase irritante diante do que estávamos prestes a fazer.

Leah seguiu até o balcão, assumindo a posição combinada, enquanto eu me movia em direção ao fundo do local, mantendo a postura tranquila, sem pressa, como se estivesse apenas procurando o banheiro.

— Porta lateral identificada — disse Seth no comunicador. — Próxima ao banheiro feminino.

Assenti levemente, mesmo sabendo que ele não podia me ver.

— Tempo? — perguntei.

— Trinta segundos — respondeu ele. — Abertura será automática. Fiquem prontas.

Entrei no banheiro feminino e fechei a porta atrás de mim, encostando-me por um segundo, sentindo o coração acelerar de forma controlada. Não era nervosismo. Era foco.

— Equipe de distração posicionada — disse Jacob. — Aguardando seu sinal, Seth.

— Sincronizando… — respondeu Seth.

Olhei para a porta lateral indicada, disfarçada entre as paredes, quase imperceptível para quem não sabia onde procurar.

— Dez segundos — avisou Seth.

Ajustei a postura.

— Cinco…

Minha mão já estava pronta.

— Três… dois… um.

Um leve clique.

A porta se abriu.

No mesmo instante, saí do banheiro, cruzando o pequeno corredor com precisão. Um homem passou pela abertura, provavelmente um dos agentes internos, sem tempo sequer de reagir. Segurei seu braço e o puxei com força, usando o próprio movimento dele contra si. O impacto foi rápido, silencioso. Ele caiu antes de entender o que havia acontecido.

Arrastei o corpo para dentro, fechando a porta atrás de mim.

— Entrada limpa — murmurei.

Houve um breve silêncio no comunicador.

Então a voz de Seth veio, com um leve entusiasmo contido.

— Boa, Nessie. Fase um concluída.

Meu olhar se ajustou à escuridão do corredor interno à minha frente.

— É hora da invasão.


A porta se fechou atrás de mim com um clique seco, isolando o som do café e mergulhando-nos no silêncio frio do interior do prédio. Leah já estava ali, surgindo das sombras do corredor com a mesma precisão que eu esperava. Sem troca de palavras desnecessárias, seguimos até o elevador indicado por Seth.

Assim que as portas metálicas se fecharam, o ambiente mudou novamente.

Ali dentro, não éramos mais duas executivas.

Leah abriu um compartimento oculto na lateral e puxou o equipamento tático. Fiz o mesmo, trocando as roupas com rapidez, cada movimento ensaiado, eficiente. O tecido elegante foi substituído por algo mais funcional, mais real, como se finalmente estivéssemos assumindo quem realmente éramos naquele momento.

— Vocês vão encontrar resistência assim que a porta abrir — disse Seth no comunicador, a voz mais séria agora. — Leitura térmica indica pelo menos quatro agentes posicionados do lado de fora. Eles vão atirar sem aviso.

Leah terminou de ajustar a arma e olhou para mim.

— Ótimo — murmurou. — Já estava achando fácil demais.

Encontrei o olhar dela por um segundo, não havia medo e nem hesitação.

O elevador começou a desacelerar.

— Preparadas? — a voz de Jacob veio baixa, firme.

— Sempre — respondi.

Um breve silêncio.

O elevador parou e as portas começaram a se abrir. Mas pnão havia ninguém ali.

Pelo menos… não para quem estava do lado de fora.

A tecnologia de Seth fez seu trabalho. Para os agentes posicionados no corredor, o elevador parecia vazio. Um truque simples, mas eficaz.

Assim que avançaram para dentro, atravessando o limite do elevador…

Nós nos movemos.

Leah atacou primeiro, derrubando o agente mais próximo com um golpe preciso. Eu avancei ao mesmo tempo, neutralizando o segundo antes que pudesse reagir. O espaço era apertado, mas a vantagem era nossa.

Os outros dois tentaram reagir.

Tarde demais.

Em segundos, o elevador estava sob controle.

— Limpo — disse Leah, empurrando um dos corpos para o lado.

As portas ainda estavam abertas.

E agora…não havia mais disfarce.

Saímos e o corredor à frente se iluminou com movimento.

— Contato — avisei.

E então começou.

Os primeiros disparos ecoaram pelo espaço fechado, o som seco das armas preenchendo o ambiente. Me movi imediatamente, usando a parede como cobertura enquanto respondia ao fogo. Leah avançava ao meu lado, precisa, rápida, como se cada passo já estivesse calculado antes mesmo de acontecer.

— Distração ativa no nível superior — informou Seth. — Segurança dividida, mas vocês ainda têm companhia.

— Já percebemos — respondeu Leah, recarregando.

Respirei fundo, sentindo a adrenalina assumir completamente.



Os corredores se transformaram em um campo de batalha em poucos segundos. O som dos disparos ricocheteava nas paredes estreitas, misturado ao eco dos passos e aos comandos curtos no comunicador. Não havia espaço para hesitação. Cada movimento precisava ser preciso, direto, eficiente.

Avancei.

Um agente surgiu à minha frente, arma erguida, mas eu já estava em movimento antes mesmo de ele apertar o gatilho. Desviei, reduzi a distância e o derrubei com um golpe seco, usando o próprio impulso dele contra o corpo. Outro apareceu à direita. Girei, disparei, avancei novamente. Tudo parecia acontecer rápido demais… e, ao mesmo tempo, natural.

Familiar.

Como se meu corpo lembrasse por mim.

— Distração ativa — a voz de Jacob surgiu no comunicador. — Fase dois iniciada.

Ouvi ao fundo algum tipo de explosão abafada, seguida por alarmes começando a soar pelo prédio.

— Estamos em movimento — completou ele. — Sam está comigo.

— Recebido — respondeu Seth. — Sistema instável, mas ainda funcional.

Leah se posicionou ao meu lado, respirando rápido, observando o último agente cair alguns metros à frente.

— Ok… — murmurou ela, quase incrédula. — Acho que estou começando a entender por que te chamam de Cisne Negro.

Não respondi de imediato. Meu foco ainda estava à frente, no próximo corredor, no próximo movimento.

— Isso é… — ela continuou, balançando levemente a cabeça — acima do esperado.

Avancei mais alguns passos, verificando o caminho.

— A gente não tem tempo pra análise — disse, direta. — Continua.

Ela soltou um riso curto.

— Certo. Depois eu elogio melhor.

Seguimos.

Seth voltou ao comunicador, mas dessa vez havia algo diferente no tom dele.

— Temos um problema.

Parei por um instante.

— Fala.

— Perdi a comunicação com Jacob e Sam — disse ele. — O sinal caiu.

Meu corpo reagiu antes mesmo da mente processar completamente.

— O quê?

— Calma — continuou Seth rapidamente. — Eles ainda estão no prédio. Só… não consigo contato direto agora.

Olhei para Leah por um segundo. Ela também havia ouvido.

— Onde eles estão? — perguntei, tentando manter a voz firme.

Houve uma breve pausa.

— Não sei com precisão — respondeu Seth. — O sistema está instável demais.

A resposta não era suficiente.

Não para mim.

— Então me dá uma localização aproximada.

— Renesmee — a voz dele veio mais firme agora — você precisa seguir o plano.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Meu olhar se fixou no corredor à frente, mas a mente já estava em outro lugar.

— O Millennium continua sendo o objetivo — completou Seth. — Se vocês desviarem agora, a missão cai.

Respirei fundo.

Forçando o controle.

— Entendido — respondi, mesmo sem gostar.

Leah se aproximou levemente.

— A gente resolve isso depois — disse ela, mais baixa. — Primeiro o plano.

Assenti.

Mas algo dentro de mim já estava diferente.


Avançamos pelo corredor seguinte com mais cautela. O segundo nível era diferente. A iluminação era mais fria, os sensores mais visíveis, e o número de agentes aumentava a cada curva. Não havia mais improviso. Cada passo exigia cálculo.

— Vocês estão no nível dois — disse Seth no comunicador. — Segurança elevada. Esperem resistência pesada.

Desviei de um disparo, encostando o corpo na parede antes de avançar novamente.

— Já estamos vendo — respondi, controlando a respiração.

Leah neutralizou um agente à frente com precisão e me lançou um olhar rápido.

— Tá ficando interessante.

— O Millennium está no nível três — continuou Seth. — Vocês precisam descer mais um.

Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.

— Alguma notícia do Jacob? — perguntei, sem desacelerar.

Houve uma pausa.

Curta demais para ser boa.

— Negativo — respondeu Seth. — Ainda sem comunicação com ele.

Meu maxilar se tensionou.

Não era resposta suficiente.

Seguimos.

O final do corredor se aproximava, e mais dois agentes surgiram no caminho. Não houve tempo para hesitação. Leah abriu cobertura, e eu avancei, derrubando o primeiro antes que ele conseguisse alinhar o disparo. O segundo tentou recuar, mas caiu logo em seguida.

O silêncio voltou por um segundo.

E então eu vi.

Uma silhueta encostada na parede.

Parada.

Imóvel.

Me aproximei com cuidado, a arma ainda erguida, até reconhecer o rosto.

Sam.

Ele estava sujo de sangue. Não dava para dizer o quanto era dele.

Leah chegou ao meu lado imediatamente.

— Sam — disse ela, a voz carregada de preocupação. — Você está bem?

Ele respirava pesado, tentando se manter de pé.

— Estou… — começou, mas a voz falhou por um instante.

Não esperei.

— Cadê o Jacob? — perguntei, direto.

Sam levantou o olhar para mim, ainda tentando organizar o que dizer.

— Ele… ficou pra trás.

A resposta não fez sentido.

Não do jeito que ele disse.

Algo dentro de mim reagiu de forma instantânea. Não era apenas preocupação. Era algo mais intenso, mais bruto, como se meus sentidos tivessem sido ampliados de repente. O som do sangue correndo, a respiração dele, cada detalhe parecia mais nítido.

Errado.

Tudo parecia errado.

Sam abriu a boca novamente.

— A gente foi separado, eu tentei—

Não deixei ele terminar.

Avancei.

Empurrei-o contra a parede com força, prendendo-o ali antes que pudesse reagir. Meu braço travou contra o peito dele, mantendo-o imóvel. A arma já não era necessária.

— Nessie! — a voz de Leah veio tensa. — Calma!

Ignorei.

Me aproximei mais, o olhar fixo no dele.

— O que você fez com ele? — perguntei, a voz baixa, mas carregada.

Sam tentou se soltar, mas não conseguiu.

— Eu não fiz nada—

— Não mente pra mim! — pressionei mais, sentindo a raiva crescer sem controle. — Cadê o Jacob, desgraçado?

Leah se aproximou, tentando intervir.

— Renesmee, para com isso, ele está ferido!

Mas naquele momento…

Eu não conseguia parar.