Black Roses

2 Edgar e o sonho


— Lizzie, esse é o seu irmão...?!

Depois de todos esses anos, eu já havia me acostumado com essa reação e sabia o que ela significava. Problemas da fraternidade à parte, digamos que Edgar era de uma beleza quase inumana: era alto, tinha um corpo esbelto levemente musculoso destacando sob a pele pálida. Seu rosto era perfeitamente reto e angulado, mesmo quando se contorcia em um sorriso encantador que exibia os dentes brancos e brilhantes. Os cabelos dourados sedutoramente desarrumados caindo sobre os olhos misteriosamente vermelhos, sendo esse o grande traço que marcava minha família: todos tinham as íris de um vermelho vívido, sendo eu a única exceção: meus olhos eram indiscutivelmente castanhos.

— Não falou de mim pra elas, Lizzie? Por quê? — depois de eu relutar, Edgar finalmente me soltou, franzindo o cenho, fitou-me com a expressão de um irmão preocupado com a querida irmã mais nova. Com isso, Edgar deu, enfim, sua última cartada, na qual minhas amigas pensam que menosprezo meu lindo irmão atencioso e que, se sou incapaz de amar esse anjo, não conseguiria ter consideração por ninguém e, dessa forma, elas passam para o título de "ex-amigas" de uma menina perturbada. Já havia visto isso outras vezes, em outros internatos pelos quais passei. Mudavam os peões, mas o jogo continuava o mesmo.

Algum tempo depois da troca de telefones e despedidas (dadas apenas ao meu irmão, com exceção de um "espero que lide bem com sua consciência" de Verônica), ouvi o suspiro de triunfo do garoto ao meu lado.

— Satisfeito agora? Não tenho outros vínculos de amizade, você conseguiu estragar todos.

— E que diferença isso faz, Elizabeth? — O tom de costume havia retornado à sua voz. — Erick não quer que você retorne pra cá.

— Podemos ir? — Peguei as malas com impaciência e puxei em direção à fila de embarque, mas Edgar me impediu.

— Não é aqui. O avião particular está nos esperando. Fazemos isso todas as férias. O que deu em você?

"Uma tentativa de fuga, apenas" pensei comigo mesma, a não execução devido apenas à certeza do fracasso.

**

— Erick estará lá? — Perguntei, enquanto picotava com os dedos o primeiro papel que achei em minha mochila.

— Não. — Ele tomou o que havia sobrado da folha em minhas mãos. — E vamos tentar manter a calma, por favor... Ei, mas o que é isso?

Só quando estava nas mãos dele reparei que o papel destruído por mim era meu boletim. Não que fosse inconveniente destruí-lo, é verdade, mas não seria idiota de fazer isso perto do meu irmão, que agora observava atentamente as notas escarlate.

— Eu não imaginava que a situação era tão crítica...

— Me devolva! — Esse boletim, nas mãos de Edgar significavam a minha transferência certa pra outra escola, sempre uma mais próxima do lugar que eu mais queria evitar, e eu sabia que essa era a forma que Erick fazia para me avisar que tudo poderia voltar a ser como antes...

— Se quer esconder dele, perde seu tempo. Em uma situação como essa ligam para os responsáveis. — Ele dobrou a folha impecavelmente e a estendeu para mim, que a recuperei com um puxão. Os dedos trêmulos e frios prendendo o papel que, agora, além de rasgado, estava completamente amassado.

— Vou pedir para a comissária de bordo te trazer algo pra comer. Sua palidez está me preocupando.

Sorri amarelo em sua direção, já que ele havia sido o grande culpado de uma crise de ansiedade desnecessária. Mas nem o coração acelerado nem o estômago vazio foram páreos para o sono acumulado de alguns dias, fazendo-me desabar na poltrona macia com apenas alguns minutos de voo, sem sequer notar o sanduíche que a mulher trouxe. Não dormi o tempo suficiente para descansar e me sentir relaxada, mas, infelizmente, bastou para que eu tivesse um pesadelo.

No sonho, eu caminhava por um corredor escuro, muito parecido com a passarela que dava para a mansão Black, com a diferença de que não havia mansão, nem nada, com exceção de roseiras formando extensas paredes naturais de flores exclusivamente brancas, que delimitavam o caminho que eu estava seguindo. Após caminhar sem rumo nesse mesmo cenário. Parei com um sobressalto e, sem muita ideia do porquê fiz isso, colhi uma das rosas impecavelmente alvas, fechando a mão com força em volta do seu caule, o que fez com que eu me ferisse.

Soltei a rosa que segurava depressa, pressionando o dedo contra minhas vestes para estancar o sangue, mas eu não era a única que sangrava. De todas as rosas, escorria um líquido vermelho espesso e idêntico ao sangue que manchava minhas mãos, o meu sangue.

Comecei a correr e procurar a saída do labirinto, enquanto as antigas rosas brancas se tingiam de vermelhas. O sangue agora já escorria pelas roseiras e alcançava a passarela na qual eu me encontrava. Estava completamente só e a cada vez que meus pés desprendiam do solo, sentia minhas forças deixando meu corpo. A fuga não fazia sentido. Não havia saída. Exausta, caí inerte na terra, enquanto a mancha de sangue me cercava aos poucos, consumindo-me.

Acordei com o baque da aterrissagem do avião, assustada, minha respiração ofegante, o coração batendo dolorosamente contra as costelas. Olhei para o lado, Edgar lia calmamente. Aproveitei seu momento de distração fechei os olhos a fim de reduzir a quantidade de informações em minha cabeça. O dedo ferido no sonho latejava, mas no toque, não haviam sinais de lesão

É, foi um sonho, mais real, trágico e perturbador do que muitas experiências que vivi, mas um sonho.

— Dá pena ver seu cansaço, mas precisamos descer.- Meus olhos abriram ao ouvir a voz de Edgar, já em pé, pronto para descer. — Se puder ser mais rápida, quero chegar em casa hoje.