Black Roses

3 The point of no return


Um motorista diferente do que nos buscou da última vez nos esperava, abrindo a porta de trás do Maserati.

Outra característica peculiar de minha família é que não mantínhamos funcionários, excetuando raríssimas exceções, como o jardineiro senhor Bates, um empregado não duraria mais que 6 meses naquela casa, não se quisesse manter o mínimo de vitalidade em seu espírito e não se deixasse levar por aquele ambiente melancólico.


Saímos da cidade em direção aos morros e a estrada tortuosa que levavam à mansão. O terreno irregular fazia com que o motorista inexperiente nos jogasse um contra o outro algumas vezes durante o trajeto.

— D- d- desculpe, senhorita. — murmurou o senhor, nervoso, ao fazer outra curva pouco cuidadosa que teria me jogado pela janela, se Edgar não tivesse me segurado a tempo.

A tarde estava fria e brumosa. Os ventos, comuns naquela região, ricocheteavam nas árvores retorcidas e emitiam o som agoniante que me faziam reconhecer que estava em casa. A névoa cedeu e pude, enfim, confirmar a suspeita ao ver os portões que quase tocavam o céu, a última fronteira para que se chegasse à mansão dos Black, rangerem para permitir que entrássemos. O barulho fez com que eu estremecesse: esse era o ponto de não retorno: lá eu era Elizabeth Black, o peso do sobrenome caindo sobre meus ombros me fazendo lembrar que, a partir dali, Erick tinha total controle sobre mim.
Forcei- me a olhar para frente, na trilha que levava até a porta principal. Soltei um ruído de espanto, um déjà-vu me veio violentamente à memória ao olhar pela janela a área externa do terreno: o jardim não estava parecido, mas idêntico ao que eu vira no meu sonho.

Roseiras salpicadas de flores haviam tomado o espaço do monótono gramado do jardim. Elas não chegavam a formar paredes, mas tinham altura para qualquer um que as quisesse apreciar não precisar buscá-las abaixando os olhos. Também não haviam apenas rosas brancas: eram coloridas, algumas com tons que eu não sabia que flores poderiam ter.

— O que aconteceu aqui? — perguntei, ainda olhando pelo vidro o apinhado de flores que quase encostavam no carro.

— O que? Ah, isso...- Edgar olhou de relance e logo voltou a atenção para o celular, visivelmente desinteressado.- Senhor Bates precisou ficar na cidade por problemas de saúde e seu sobrinho assumiu o trabalho desde então.

— É... Magnífico. — Murmurei, desejando ter mais olhos para vislumbrar tudo que estava a minha volta. Até que o carro finalmente estacionou na estrada da grande casa.

Fui jogada na realidade de forma brusca quando o carro parou diante da suntuosa porta de ébano. Edgar, como sempre muito menos hesitante do que eu, foi na frente e entrou como se não houvesse nada demais. Fiquei de pé admirando a madeira enegrecida que separava o jardim paradisíaco do interior caliginoso e, finalmente, entrei.

Senti o ar frio da casa me envolver, fazendo com que eu me sentisse em casa, apertei o passo e me recusei a olhar o mármore negro do piso, a lareira sombriamente acesa e o lustre exuberante feito do mais puro cristal, cujo valor facilmente cobriria o custo de vida de uma pessoa. Ambos tentavam disfarçar inutilmente a escuridão gerada pelas cortinas esmeraldas, que nunca, em hipótese alguma, eram abertas. Subi a escadaria cabisbaixa, ainda me recusando a ver os detalhes que eu me lembrava de cor. Mas esse eu não conseguia me desviar, por mais que tentasse:

No corredor que levava aos quartos, entre os candelabros fixados na parede estavam eles: o clã Black, eternizados em pintura a óleo.

Quando era criança, ficava horas encarando os quadros de meus ancestrais procurando alguma semelhança, a mínima que fosse, até que, por fim me conformei com a verdade: eu não era como eles, em absolutamente nada.

Os Black tinham a pele clara como mármore, traços harmônicos e perfeitos formavam a face angelical, a postura elegante e firme lhes dava um ar de nobreza e todos, em sua absoluta totalidade, tinham as íris dos olhos vermelhas como sangue, completamente hipnotizantes para quem tivesse coragem de encará-los e particularmente perturbadoras para mim, mesmo tendo convivido com eles minha vida toda. Das vezes que me permitia olhá-los diretamente, sentia um desconforto, como se adentrassem fundo em minha alma. Não havia como fugir, ou alguma esquiva: uma vez olhados diretamente, meus olhos serviam como míseras janelas e não havia absolutamente nada de mim que eu pudesse esconder, não deles.

— Srta. Black? — Uma mulher franzina aguardava no final do corredor, com a porta que levava ao meu quarto aberta.- Espero que tenha feito uma boa viagem!

— Fiz, sim... — Aproximei-me, apertando os olhos para ler o nome bordado em seu uniforme.- Srta. Chase, obrigada por perguntar.

— A senhorita deve estar cansada, por isso preparei a banheira. Espero que a temperatura lhe seja agradável.

Entrei no quarto e o corpinho frágil da nova empregada virou-se também, me acompanhando. A forma bem disposta e inquieta de srta. Chase esperando à soleira da porta denunciaram que este era seu primeiro dia de trabalho, ou pelo menos o primeiro dia que ela via um dos donos da casa. Optei por dispensá-la, assim, nós duas ficaríamos mais a vontade.

— Como a senhorita desejar. O brunch será servido em menos de 15 minutos. Se quiser, posso vir aqui avisá-la quando estiver pronto.

Assenti com a cabeça e ela foi embora para que eu pudesse me render ao banho quente e demorado.


**

— Edgar — chamei.

— Sim?

— O que Erick é nosso?

— O que quer dizer? — disse Edgar, com calma, enquanto se servia de chá, sem me dar muita atenção.

— Qual o grau de parentesco que temos com ele? — Perguntei.- Ele é nosso pai? Nosso tutor? O que ele é?

Sim, essa era uma pergunta séria, que eu fazia desde que entendia como graus de parentesco funcionavam. Era visível que ele e Edgar eram parentes, devido à semelhança na fisionomia, mas mesmo não sabendo a idade de Erick entendia que seria impossível que ele tivesse filhos adolescentes. Nós o chamávamos assim e ele nos chamava por nossos nomes, sempre.

— É... Mais ou menos isso. — Edgar, já acostumado com esse questionamento, dava a mesma resposta vaga, que nada esclarecia, sem tirar os olhos do que estivesse fazendo anteriormente.

— Mais ou menos o que? Responsável ou tutor? Faz anos que pergunto a mesma coisa e nunca me responde com clareza. É uma resposta simples!

— Elizabeth, por favor. — Ele usou todo o poder imenso, devastador do seu olhar em mim e optei por me conformar com a resposta, deixando-o vencer mais uma vez e desviando o olhar rapidamente.

Empurrei o prato que mal fora tocado e me movimentei para sair da mesa, enfurecida.

— Aonde você vai?

— Ali, mais ou menos. — repeti, irritada.

Eu já ia em direção ao meu quarto quando o jardim me veio a mente, fazendo com que eu mudasse meu trajeto.

Saí pela porta principal e senti como se tivesse entrado em outro ambiente, completamente diferente do primeiro. O deslumbrante e colorido jardim servia como uma casca, que disfarçava perfeitamente a morbidade do interior. E eu, a essa altura, preferia ficar apenas com a superfície.

Havia, distante da casa mas não fora de seus limites, uma discreta elevação do terreno onde se encontrava um velho carvalho. Eu me escondia lá algumas vezes como uma forma de clarear a mente. Esse era, de toda a parte externa, o único lugar que eu desejava que o novo jardineiro tivesse mantido intacto.
Suspirei de alívio quando cheguei e vi as folhas da grande árvore serem acariciadas suavemente pelo vento. Corri ao encontro da árvore e me deixei escorregar, ficando de costas para ela, mas de frente para o magnífico jardim, cujas plantas inanimadas já não eram mais o único cenário.

A alguns metros de distância, um lindo garoto de olhos turquesa e cortava gentilmente os galhos secos de um pequeno arbusto. O vento brincava com seus cabelos cor de bronze, desarrumando-o, coisa que ele não parecia se importar. Sua atenção estava completamente voltada ao seu trabalho até que, por um movimento brusco e absurdamente desajeitado, bati a cabeça na árvore, fazendo-o perceber que não estava mais sozinho.
O garoto agora voltava a cabeça para onde eu estava, deixando o que estava fazendo. Após depositar as ferramentas no chão, ele se virou para ficarmos frente a frente um do outro. Os metros que nos distanciavam diminuindo. Ele se aproximava com um sorriso irresistivelmente gentil.

Notas finais
Olá pessu! Por favor, não deixem de comentar o que acharam, ok? O feedback de vcs e fundamental para que eu possa continuar a história e melhorá-la no que for possível. Espero que tenham gostado!