Black Mirror
3 A Felicidade
Mas afinal o que tem acontecido comigo? Sinto que sou tão poderoso quanto antes, mas mesmo assim eu ainda sou desajeitado, vivo batendo nas coisas, enfim não vou me preocupar com isso agora, pois o que está me deixando realmente irritado é essa garota Dayse, alguma coisa nela me deixou em um bom estado de espírito, talvez sua bondade em relação aos outros que só riram de mim, mas não sei, talvez matá-la me deixe melhor, me fortaleça e me sustente.
Andei pela cidade, uma linda cidade por sinal, bem diferente do que era na época que eu vivia aqui, as construções foram melhoradas e as casas ganharam um visual moderno, tinha até telões nos grandes edifícios, algo parecido com New York City mas sem deixar de ser a boa e velha Kanavan.
Parei um pouco para dar uma observada na população, sentir o local usando todos os meus novos sentidos, creio que seja bom fazer isso para não ter nem uma surpresa na hora dos assassinatos. Haviam várias crianças se divertindo no parque com suas famílias, a diversão era tão grande que até tinha piquenique, mal eles sabiam que esse momento de diversão seria substituído por terror, medo, angustia, sentimento de morte.
Continuei andando até anoitecer, queria visitar o túmulo dos meus pais assim que já fosse noite, e assim foi, quando o sol se pôs me dirigi até uma floricultura e comprei dois botões de rosa e fui ao cemitério.
A vida é tão engraçada enquanto uns morrem, outros vivem e outros voltam da morte certa, vivendo um inferno e tornando a vida dos outros um inferno. Lá estava Verônica Jurth e Humberto Jurth um ao lado do outro, mortos e imagino que eu deveria também estar como um mal filho que volta para sua verdadeira casa, talvez fosse uma má ideia visitar meus pais.
– Rodric? É você? – Alguma coisa naquela voz me parecia familiar, mas fingi não ter escutado.
Reconheci o cheiro, mas como é possível isso? É uma perseguição só pode, nem no cemitério eu me livro dela?
– Rodric sou eu Dayse, no encontramos mais cedo na rodoviária, lhe ajudei a levantar-se. – Cada vez mais ela se aproximava de mim, mas eu continuava a ignorá-la e fui saindo.
Percebi que ela estava correndo para ir falar comigo até que ela me alcançou e me tocou no ombro
– Rodric! – me vivei e ela estava sorrindo.
– Oi, Dayse, né? O que te traz aqui no cemitério?
– Sim, sou eu mesma, vim caminhar, eu sei que você agora deve estar me achando louca, mas o cemitério é um ótimo lugar para pensar, é calmo e quem está morto não volta a vida né! – ela riu e eu também para ser simpático.
– Pois é, podemos marcar um dia e vir aqui caminhar e conversar, talvez fazer um lanche! O que você acha? – o lanche dela eu não sei qual vai ser, mas o meu...
– Nossa, ótima ideia, mas pode ser semana que vem? Talvez quarta? Eu tenho que ajudar minha mãe na loja.
– Claro, então está marcado, quarta de 20h, pode ser?
– Sim! – oba comida fácil, uma pena, ela parece ser uma garota tão simpática e legal, mas não é legal desperdiçar comida, e logo uma tão fácil como essa – Mas agora tenho que ir, já está ficando muito tarde, foi um prazer te encontrar aqui.
– O prazer é meu, tchau.
– Tchau, beijos – beijos? Nossa...
Ainda fiquei um pouco no cemitério até perceber que não tinha nem um canto para passar a noite, claro que não seria um problema já que não durmo, mas descansar é bom. Resolvi ir procurar minha antiga casa, talvez esteja abandonada.
Ao chegar em frente à casa pude ver que estava exatamente como eu imaginei que estivesse, abandonada, escura, lugar perfeito para passar a noite.
A casa estava muito empoeirada, mas dava para sobreviver por uma noite.
A noite foi boa e tranquila, passei-a ouvindo música e pensando na garota estranha, Dayse.
Me levantei e sai da casa, alguns idosos estavam andando pela rua, provavelmente uma caminhada matinal. Tudo o que eu podia pensar nesse momento era sede de poder e claro como não poderia deixar de ser minha amada sede de sangue humano, não seria muito legal matar estes idosos, afinal já estão quase mortos.
Mas eu resolvi passar na loja da mãe da Dayse e ver se ela estava lá, eu não conseguia tirar essa garota da minha cabeça, isso já estava ficando muito chato.
A loja já estava aberta, então entrei e a procurei, mas ela ainda não havia acordado, segundo sua mãe. Ela morava acima da loja, que era de bicicletas.
Sai e senti algo estranho, um cheiro que só havia sentido antes na casa do Sr. Bern, além de ter a estranha sensação de que estava a ser seguido. Sai rapidamente da frente da loja e fui na praça principal da cidade, a praça da escuridão, eu nunca soube o motivo do nome, mas era bastante frequentada, principalmente aos finais de semana. Iria voltar na loja mais tarde.
Tudo parecia muito tranquilo o vento, que sobrava calmamente, era muito agradável, havia muitas crianças brincando e por mais estranho que pareça, eu estava bem, uma calma me possuía, não tinha o desejo de matar ninguém.
Passei em uma loja e comprei algumas coisas.
Algumas horas depois, voltei na loja e Dayse já estava acordada, falei que precisava conversar sério com ela.
Saímos e ela sugeriu que fossemos tomar um café, não vi nem um mal que um pequeno cafezinho pudesse me fazer.
Ao chegar ao Palace Café ela me contou que estava nervosa e queria saber logo o que eu tinha para lhe dizer, eu falei:
– É o seguinte Dayse, você está mexendo comigo de uma forma que eu não sei explicar – falei isso e tomei um gole do café.
– Como assim mexendo com você? Tente explicar, de que forma exatamente?
– Não sei, você apareceu em um momento perturbado da minha vida e a fez mudar totalmente.
– Certo... Acho que entendi – Eu estava tão nervoso que já havia tomado todo o café – você está querendo compartilhar alguma coisa, tipo com uma amiga e você acha que eu sou essa amiga por ter o feito se sentir bem?
– Sim, eu quero compartilhar uma coisa com você, só não sei como dizer... – ela me interrompeu
– Pode falar, não se preocupe
– Bem... Eu não quero você exatamente como minha amiga, não só isso, bem, é o seguinte, eu estou apaixonado por você, tu és como uma única flor vermelha em um grande jardim, aquela que se destacou em minha vida e a que eu quero apenas para mim. – Eu peguei um buquê de flores vermelhas e me pus de joelhos – Então Dayse, você me daria a honra de ser seu namorado? – tudo ficou calmo, ela estava sem acreditar.
– Rodric, desde o momento em que o mundo resolveu te trazer até mim naquele dia, desde a primeira troca de olhares, eu senti que alguma coisa iria acontecer, então, por mais que eu ainda não te conheça muito, mas acredito que tudo o que aconteceu para estarmos aqui hoje, nesse momento, é o certo a se fazer. Rodric, eu com absoluta certeza aceito.
Eu mal podia acreditar nisso, a mulher que iria ser meu alimento agora é a mais importante de minha vida. Demos um beijo bom e demorado, agora, eu sou o homem mais feliz do mundo e espero que continue assim.
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