Notas iniciais
Aqui temos início a uma jornada rápida e intensa dentro das famílias dotadas de magia em Nova Orleans. Dividida em três partes, Black Magic será um futuro adendo a algo maior que estou planejando dar vida, mas por enquanto, espero que gostem da história de Oberon e Carter.

Um agradecimento especial a moça Stéfani Shadowhunter fb.com/raquel.stefany.39 , que betou este conto.

OBERON observava a vidente sentada bem a sua frente.

Ela era uma mulher bonita, tinha olhos negros da cor do carvão, e sua pele era marrom da cor do chocolate, só de estar perto dela ele podia sentir toda a história daquela mulher, ela tinha sangue de haitianos, e a magia voodoo estava impregnando todo o espaço ao redor deles.

— O que vê nas cartas? – ele murmurou por entre os dentes.

— Vejo dor, morte, tristeza, solidão e assassinato... – ela sussurrou mantendo o tom de mistério. “Ela é boa”, ele pensou olhando em volta, uma sala à meia luz, decorada com objetos africanos, nada daquilo tinha poder de verdade, estava ali justamente pelo motivo que foram feitos, apenas decoração de ambiente. – E você sabe do que estou falado, não sabe?

A voz da mulher fez com que os seus olhos se voltassem em sua direção.

— Preciso de um nome... – disse ele sem se deixar abalar, ele convivera com a comunidade de bruxos durante muito tempo, e nada mais o assustava, ele viveu em uma época em que causava assombro a si próprio, mas à medida que os anos foram passando ele percebeu que não tinha tempo para nada disso, então abraçou aquela vida e aceitou o que havia de bom e ruim nela.

***

O detetive Carter não aguentava mais permanecer naquele lugar, em cinco anos de profissão, ele deveria ter aprendido que aquele tipo de caso não era a sua especialidade, mas o destino era implacável e naquele momento ele estava no lugar errado e com toda certeza na hora errada.

O porão estava iluminado por velas e havia sangue, muito sangue, espalhado por toda parte, paredes e teto, e no meio daquilo tudo, existia um corpo que uma vez pertencera a uma mulher, e agora eram pedaços, inúmeros pedaços de vários tamanhos diferentes, braços e pernas se perdiam em meio aquele horror.

Nos lugares que não estavam cobertos por sangue era possível ver algumas marcas estranhas, e partes de um círculo, Carter não era burro, e ele somou dois e dois, chegando a uma conclusão que seu pai havia dito para evitar sempre que fosse possível.

Aquilo era bruxaria.

O departamento de polícia aceitava duas opiniões a respeito de assuntos como esses.

Uma delas estava na cidade, Mr. Mandrake, era um charlatão, um ilusionista barato que fora criado pela avó, uma verdadeira bruxa que morrera pouco tempo antes de Carter entrar para a polícia, apesar de ser uma grande fraude, ele era capaz de reconhecer certos feitiços que ninguém dentro do corpo de polícia reconheceria.

A segunda pessoa, Lissa Price, era uma poderosa vidente, mas diferente das videntes conhecidas, ela possuía um talento digno de uma sensitiva, sendo capaz de ver e falar com espíritos além de prendê-los por mais um tempo no plano material, impedindo que atravessassem as portas da morte.

E mesmo sabendo que aqueles eram os dois contatos, o detetive recusou a pedir ajuda. Ele deu mais uma boa olhada na cena do crime, os médicos legistas se preparavam para entrar no local e tentar fazer o melhor possível pela vítima, mas naquele momento, Carter estava mais preocupado com a papelada que deveria preencher por conta daquela loucura que estava diante dos seus olhos.

Ele entrou no carro e dirigiu até sua casa, onde entrou, trancou a porta e ali mesmo, na sala, começou a se despir. O detetive Alex Carter era um homem alto, de cabelos castanhos lisos e ondulados, cujas pontas rebeldes alcançavam o meio da nuca em uma cascata de bronze escuro e brilhante. Ele era claro, alto e seu corpo era musculoso, ideal para um jovem detetive ambicioso como ele, os olhos muito azuis estavam sempre atentos a tudo ao redor, e estavam separados por um nariz reto, nem muito pequeno e nem muito grande, do tamanho perfeito para o rosto anguloso, os lábios eram desenhados, mas sempre apertados em uma linha fina e rosada, e o maxilar apontava num queixo duro e forte, onde se podia ver uma cicatriz pequena e antiga, fruto de uma briga de bar. O detetive Carter era o sonho de qualquer mulher, e ele esbanjava charme até nos piores trajes.

As peças de roupa foram deixadas numa trilha perfeita da porta da sala até o corredor que levava ao banheiro, mas ele parou quando viu que a porta do quarto estava entreaberta, seu instinto apontou algo errado naquele lugar. Ele sempre fechava todas as portas antes de sair de casa.

O coldre havia ficado junto com a camisa na sala, e o piso rangia demais sob os seus pés, por isso, armado apenas com as mãos, ele manteve o ritmo dos passos e caminhou até a porta, abrindo-a de supetão, as paredes do seu quarto eram brancas, diferente do resto da casa, as cortinas eram azuis claro muito bonito, e estavam sempre fechadas, a cama de casal estava arrumada e a cadeira de freixo estava voltada para a porta.

O olhar do detetive cruzou com um par de olhos cinzentos que não deveriam estar ali.

— Vou lhe dar cinco segundos para começar a explicar porque invadiu a minha casa... – disse o detetive, com sua voz macia e calma, mas a tensão era evidente, seu maxilar estava tão apertado que a linha da sua boca quase desaparecera, ele não sabia, mas quando estava tenso dessa maneira ficava ainda mais sexy do que sempre foi.

Sentado na cadeira de freixo estava um rapaz que usava um terno caro e exibia um sorriso desdenhoso, ele era bonito, detalhe que Carter não pode deixar de notar, devia ter em torno de vinte e cinco a vinte e sete anos, os cabelos eram negros como carvão e estavam penteados para trás, sua pele era pálida e de longe sua textura parecia a de um pergaminho antigo, ainda assim, havia muita beleza naquele homem.

Os traços eram muito finos e elegantes, quase femininos, ele era magro e mesmo sentado, Carter soube que era mais alto que o estranho, ele estava com o cotovelo apoiado no braço da cadeira e a cabeça recostada na mão, enquanto seu outro braço estava estendido, apenas encostado no outro braço da cadeira, na ponta dos dedos ele segurava um cigarro cuja fumaça tinha cheiro de canela e algo mais, que o detetive não reconheceu.

Antes de falar, o estranho abriu um sorriso e ergueu uma sobrancelha, fitando a cueca boxer branca, que estava bem justa no corpo do detetive, expondo a linha do membro, seus olhos vasculharam o corpo do homem que o fitava, o peito largo e firme, o abdômen musculoso, as coxas grossas, e as entradas... “Mon Dieu”, ele pensou detendo o olhar por um longo tempo no quadril de Carter, e então voltando os olhos para a expressão dura dele.

— Eu me chamo Oberon, e estou aqui para lhe dar um recado importante...

Carter notou que a voz do homem era aveludada, e seu tom de voz era pomposo, como se ele fosse um daqueles empregados de filmes que retratavam a realeza, ele chegou a estranhar que Oberon não tivesse feito nenhum floreio com as mãos enquanto falava.

— E que tipo de recado você veio me dar? – Carter perguntou sem tentar esconder o tom de desdém em sua voz.

— Largue o caso de Marie Lafétt... – Oberon mal abria a boca para falar, e ainda assim, o seu tom de voz era impressionante.

— O que sabe sobre Marie? – Carter estreitou os olhos enquanto dava um passo para dentro do quarto, era uma distância pequena entre ele e Oberon, e aquela distância podia ser reduzida a dois passos sem problema nenhum.

O homem abriu um sorriso amargo que mais pareceu uma careta de dor.

— Marie era uma mulher do meu povo... Isso é tudo o que precisa saber.

Carter deu um passo reduzindo a distância entre eles, e após esse movimento, Oberon recostou as costas na cadeira e colocou as mãos sobre o colo, o detetive arriscou outro passo, mas ele não conseguiu mover um centímetro sequer.

— Mas que diabos...? – Carter cuspiu as palavras fitando Oberon com um olhar assustado.

Naquele momento ele entendeu tudo.

— Aquele foi um assassinato brutal! – ele exclamou furioso. – Quero participar da investigação, quero prender quem fez aquilo!

Oberon não conseguiu conter uma risada divertida.

Prender? – ele murmurou, sem disfarçar o nojo ao dizer aquela palavra. – Quem fez aquilo não merece ser... Preso! Os meus exigem sangue... Eu exijo sangue! Marie era uma mulher boa, nós todos a amávamos, ela foi tirada de nós, então vamos cobrar o preço de sangue!

— Eu quero ajudar! – Carter exclamou ainda tentando avançar.

O rapaz se levantou de repente, e ao fazê-lo, o corpo do detetive foi violentamente lançado para trás, suas costas bateram contra a parede do corredor e ele caiu, mas ainda não conseguia mover o corpo.

Oberon caminhou em sua direção e saiu do quarto, parado ao lado do detetive e fitando-o como se ele fosse um rei e o homem loiro não fosse nada mais que um grão de areia.

— Você não ajuda... Você atrapalha!

Dizendo isso ele caminhou até a porta da casa e antes que esta se fechasse Carter pode ouvir claramente a voz daquele homem, como se ele ainda estivesse ao seu lado.

— Não fique no meu caminho detetive, sua beleza não é motivo para que eu não o mate!

***

Os dias avançavam rapidamente, o Mardi Gras aconteceu como sempre, e o caso da mulher assassinada parecia ter sido esquecido.

Apesar dos esforços de Carter, ninguém parecia se importar com o assassinato, era como se aquilo nunca tivesse acontecido, não havia nenhum tipo de evidência a ser analisado nos laboratórios, o sangue colhido havia desaparecido, e quando ele levantava qualquer tipo de questionamento os seus superiores diziam que o melhor a fazer era deixar o caso nas mãos de pessoas mais capazes.

O detetive se enfurecia a cada dia, pois ele queria desvendar aquele caso, e a visita de Oberon o deixou ainda mais interessado em descobrir quem era o assassino de Marie Lafétt, entretanto, se aproximar de uma pista significava se afastar de qualquer outra, era como estar no escuro e no meio de nada.

Com a aproximação da última noite do Mardi Gras, Carter dirigiu até o French Quarter e caminhou até o lado mais antigo de Nova Orleans, aquele estado era a Meca dos Bruxos. Os negros trouxeram consigo o voodoo da África e incrementaram com a magia europeia, ou vice-versa, o que o detetive sabia, era que na velha Nova Orleans os mais antigos eram os mais fortes, e os novos não passavam de bebês recém-saídos das fraudas.

Enquanto ele estava na academia, ouviu algumas vezes amigos comentarem sobre um bar na cidade velha, onde podiam encontrar pessoas que faziam certos remédios para aumentar a potência na hora “H”, ele não acreditava em nada disso, mas também não discordava.

Diante das portas daquele bar, ele sentia falta da época que desacreditava tudo sobre essa coisa toda de magia, segundo ele, isso não passava de besteiras inventadas pra encobrir os malucos assassinos que não sabiam explicar o motivo que os levou a fazer aquilo. Naquela época, fatos era tudo o que importava.

Agora ele já não sabia mais no que deveria acreditar.

Quando entrou no bar, Carter sentiu como se tivesse regressado pelos menos 50 anos no tempo, o papel de parede era velho e amarelado, e cobria metade da parede enquanto a outra metade estava pintada de branco. A temperatura ali dentro estava em torno de 35 graus, mas o lugar continuava fechado, havia quatro ventiladores de teto que giravam preguiçosamente arejando um pouco o ambiente, mas sem sucesso nenhum contra aquele calor.

Em um canto à esquerda havia um palco improvisado onde uma banda composta apenas por negros tocavam uma música animada, “O verdadeiro jazz”, pensou Carter que sem perceber estava balançando a cabeça ao ritmo da música que ouvia.

Devagar ele avançou até o bar através mesas redondas dispostas em círculos concêntricos, o lugar estava cheio, ele se sentia um verdadeiro peixe fora d’água, era o único branco no bar.

Avançando pelo mar me mesas dispostas em círculos concêntricos em torno de uma única mesa no centro do bar, o detetive se aproximou do bar e viu que o barman era um homem grande em todos os aspectos, após murmurar algumas palavras no ouvido do homem, Carter mostrou o distintivo e o barman assentiu e indicou uma porta atrás do balcão.

O detetive deu a volta no móvel entrando logo em seguida na passagem que o outro abriu.

Seguindo por um corredor mal iluminado, o homem avançou até a única saída que existia naquele lugar, e estendeu a mão para a maçaneta da porta e antes mesmo de girá-la, esta se abriu revelando um quarto estéril, iluminado por uma luz pálida que vinha de uma única lâmpada bem no centro do teto.

O quarto era simples, o piso era de linóleo, a direita havia uma cama pronta com uma colcha dobrada cuidadosamente ao pé da cama, a esquerda havia um armário pequeno de madeira bruta e bem no meio entre o armário e a cama havia uma escrivaninha, sentado à mesa um senhor encurvado todo vestido de branco parecia escrever alguma coisa.

Carter entrou e se posicionou ao lado do velho, tentando ver o que ele escrevia, mas o senhor estava tão encurvado que o papel desaparecia em baixo dele.

— Eu sei o que você faz aqui... – disse o senhor, sua voz era fraca. – Mas não há nada aqui para você, aquilo é magia de gente branca, a mulher morreu por causa da sua própria gente... Se quiser ajuda deve procurar o homem que colocou as duas sombras atrás de você...

— Sombras? Que... Sombras? – Carter perguntou olhando para trás, mas sem encontrar o que o velho disse.

— Não adianta olhar aqui dentro menino, as sombras daquele homem não podem te seguir neste quarto, mas fique atento meu rapaz, os brancos da família Laveau não são gente confiável, e Oberon carrega os... Traços... Daquela gente...

— O que quer dizer?

Antes que o velho respondesse, a porta do quarto se abriu e Carter se deparou com Oberon, fitando-o de relance, o rapaz murmurou alguma coisa em uma língua que o detetive não entendeu, e o velho respondeu no mesmo idioma, e então, após tossir um pouco, ele se moveu.

Carter viu o senhor se levantar calmamente da cadeira e deu um passo para trás quando vou o rosto do velho.

Não havia pálpebras sobre os seus olhos, que eram inteiramente brancos, a não ser por um círculo bem pequeno e prateado que estava voltado para o teto, sua pele era negra e os cabelos, a sobrancelha e o bigode eram brancos assim como sua roupa, e ele sorria abertamente para Oberon.

— Olá jovem senhor Laveau, faz tempo que o senhor não se aproxima da Cidade Velha...

— Carter saia já! – disse o rapaz sem tirar os olhos do velho, sua expressão era selvagem, e o olhar possuía um fogo que o detetive não reconheceu como sendo daquele homem.

— Mas...

— Saia logo daqui Carter! – Oberon gritou sem deixar que o detetive terminasse o protesto.

O homem loiro passou pelo recém-chegado e ouviu os passos dele atrás de si, mas antes de cruzar a porta que os levava para o bar, ele ouviu o velho rir e dizer que deveria tomar cuidado com as sombras.

O bar estava completamente vazio quando passaram, e do lado de fora o calor cedeu lugar a uma chuva bem fina que cobriu toda Nova Orleans com um véu de água fresca.

— Você parece um lixo – disse Oberon parando diante de Carter. – Vem comigo, vou preparar um chá, parece que você precisa muito.

Os dois homens caminharam até o Volvo de Carter, o detetive viu seu companheiro ir até o lado do motorista, abrir a porta do carro e entrar, em seguida ligar o automóvel e abrir a porta do carona para ele, rapidamente Carter checou os bolsos e dirigiu um olhar repreensivo para Oberon, que novamente abriu o conhecido sorriso antes de falar.

— Você é muito lento, e não sabe onde eu moro, entra a noite ainda tá no começo.

— Como sabe que eu sou lento? – Carter perguntou entrando no carro e fechando a porta.

— Tenho olhos por toda a cidade – Oberon respondeu arrancando com o carro.

***

O apartamento de Oberon ficava na Rua Bourbon, era um lugar amplo, com móveis modernos, apesar de parecer ter saído de algum romance do início do século passado, as paredes eram de madeira pintadas de azul noturno e o teto era branco, na sala havia janelões e as cortinas eram brancas assim como o teto, o tecido parecia grosso e pesado, mas Oberon abriu com grande facilidade.

Carter o acompanhou pelo apartamento até chegarem à cozinha, o cômodo era muito branco, tudo estava muito limpo e havia uma janela ali também, bem em cima da pia, a visão dava direto para a rua.

Sem que o rapaz tocasse em nada o fogão ascendeu e a chaleira com água já estava preparada dentro da pia. Oberon pegou a chaleira e colocou sobre o fogo aceso, e então apoiado na pia, ele sentou sobre ela e indicou com o queixo uma cadeira atrás do detetive, que se virou e puxou o objeto posicionando-a bem a frente do rapaz.

— O que estava fazendo naquele lugar? — Oberon perguntou tirando um maço de cigarros do bolso e puxando um, ele colocou entre os lábios e o prendeu, então cruzou as mãos sobre o colo e esperou uma resposta.

— Não vai acender? – perguntou o detetive.

A pergunta fez com que o rapaz sorrisse novamente, ele balançou a cabeça em um gesto negativo, e a ponta do cigarro brilhou por um instante até que uma fumaça começou a sair de sua ponta, e aquele cheiro que Carter sentiu em seu quarto novamente o envolveu.

— Detetive... Alexander... Carter... Mais conhecido pelos amigos como Alex, e para os colegas de trabalho apenas Carter. Oque estava fazendo naquele lugar? Porque foi atrás d’O Velho? Não acha que já se envolveu demais só por ter encontrado o corpo de Marie? – Oberon se calou e assoprou uma grande quantidade de fumaça enquanto observava o homem a sua frente.

— Quero descobrir o que aconteceu com ela, aquilo tudo foi brutal demais...

— Está além de você Alex, ainda não entendeu isso?

O detetive se levantou de uma vez, derrubando a cadeira e se colocando bem perto de Oberon.

— Eu vi aquela mulher morta, despedaçada, eu não a conhecia antes, mas sei que ela deixou de ser o ser humano que era. Não se faz uma coisa daquelas com alguém...

— É realmente inspirador, um detetive que pensa saber o que se faz ou não faz com uma pessoa. Nunca passou pela sua cabeça que houve um motivo?

— Não foi aleatório?

— É óbvio que não homem! – Oberon exclamou batendo a mão no joelho.

O jeito daquele rapaz deixava Carter fascinado, ele era espontâneo, não seguia nenhum tipo de regra, era livre para fazer o que bem entendesse, e gostava daquela liberdade, o modo como Oberon segurava o cigarro com as pontas dos dedos, a força que ele fazia para segurá-lo entre os lábios, seus olhos correndo de um lado para o outro, notando tudo ao redor, seu corpo movendo-se de algum modo mais lento que o normal e ainda assim ele continuava fazendo tudo na velocidade das outras pessoas. “Quem é este homem?”, Carter pensou.

— Acho que você está perto demais, detetive... – Oberon murmurou abrindo o seu sorriso maldoso de costume.

— Perdão? – Carter tossiu engasgando com sua própria saliva, aquele comentário o pegou desprevenido, e se o outro homem não tivesse dito nada ele teria se aproximado ainda mais.

O magnetismo que aquela pessoa tinha era muito grande, quase sobrenatural, e Carter sabia que não tinha sido enfeitiçado nem nada disso, aquilo era natural e ele se sentia incapaz de descrever como aquilo tudo lhe afetava.

Ele ainda estava perdido em pensamentos quando Oberon agarrou sua camisa e o puxou, os seus lábios se uniram e os braços de Carter envolveram o corpo daquele rapaz, apertando-o contra si, seus corpos tinham temperaturas opostas, o que fez com que eles ficassem arrepiados em contato um com o outro.

Os lábios do detetive eram urgentes e seu beijo parecia mais uma agressão, seu desejo latente era quase palpável, aquilo fazia com que Oberon o quisesse ainda mais, mas logo que se deu conta do que estava acontecendo, Carter se afastou do rapaz.

— O que pensa que está fazendo? – ele gritou furioso.

— Não sei... – Oberon respondeu jogando o cigarro pela janela e descendo da pia. – Eu acho que estava sendo beijado por você.

— Eu... Eu não beijei você! – Carter gaguejou enquanto se afastava.

O rapaz deu de ombros e começou a tirar a roupa, passou pelo detetive e lentamente caminhou até o banheiro, Carter ouviu quando o chuveiro foi ligado, e o som da água martelou em seu ouvido como se estivesse pessoalmente lá, com... Oberon.

E naquele instante ele não dominou mais os seus movimentos, seu corpo se virou automaticamente, e suas pernas agiram por conta própria, ele só conseguia pensar nos lábios de Oberon, aquele sorriso que ele sempre abria antes de falar, a maneira como agia, como se movia, a voz provocante... A porta do banheiro estava aberta, e Carter pode ver o contorno do corpo do rapaz através da cortina branca quase transparente.

— Você entra ou eu vou aí te buscar?

Aquela pergunta pegou Carter de surpresa e ele não soube o que responder, e dessa vez agiu por conta própria, tirou a rouba e entrou no box, ainda com os olhos fechados ele apenas sentiu a água quente molhando o seu corpo, e de repente as mãos frias de Oberon seguraram os seus ombros e o puxaram mais para baixo do chuveiro.

— Você é bonito Alex... – o rapaz murmurou, e abraçou o detetive, sendo abraçado em retribuição. – Por que esconde isso?

— Eu não... – Carter começou a responder, mas foi interrompido por um beijo de Oberon.

O beijo de Oberon era calmo, pacífico, carinhoso e sensual, suas mãos atuavam em um combo perfeito estimulando Carter a continuar aquele beijo e não querer soltar o homem a sua frente, o detetive parecia mais voraz, com as mãos fortes ele girou o rapaz colocando-o de costas para si e o abraçando com força. O banho foi rápido e os dois seguiram para o quarto.

Naquela noite Oberon finalmente entendeu como era ser amado, e pela primeira vez ele quis que aquilo acontecesse. Ele sabia que nunca mais olharia para outra pessoa e que não desejaria mais ninguém, pois havia encontrado o seu outro lado.

***

O som de tambores ecoava pelo cemitério, havia mais naquela cidade que apenas um assassino, e as pessoas certas sabiam disso, e por esse motivo, depois de muitos anos, o grupo havia se reunido.

— É chegada a hora meus irmãos... – disse a mais velha dentre todos. – Os tolos brancos disseram uma vez que a nossa mágica estava morta, nos chamaram de obsoletos e agora por causa da mágica deles o nosso lugar está sujo, aquilo QE sempre nos foi sagrado está repleto de imundice... O diabo, o deus, os santos, os rituais e os mistérios que os brancos impuseram sobre nós estão sufocando a nossa força...

Grande Nancy era uma mulher velha, a mais velha de toda a Louisiana, ninguém sabia a sua idade, sabiam apenas que ela sempre esteve por aquelas bandas, era também a mulher de cor com o maior poder dentre os seus, e a mais odiada por aqueles que a trouxeram ao Novo Mundo.

— Osso... Carne... Sangue... – disse um homem que estava bem a frente de Grande Nancy, ele se lembrava do detetive que estivera em seu quarto e lamentava por saber que o bruxo dos brancos conseguiu atraí-lo para a sua teia, mas aquele não era um momento para lamentações. – Eles nos conhecerão por nossa mágica, a nossa tradição vem sofrendo com as coisas que esses brancos fazem entre si, é hora de retribuição!

Grande Nancy e O Velho estavam no centro do círculo, cada um de um lado de uma grande fogueira, enquanto as outras pessoas estavam ao redor dos dois, o som dos tambores soava cada vez mais alto.

O Velho atirou no fogo alguns ossos e pedaços de carne, então alguém entregou a ele uma garrafa com um líquido vermelho, que ele bebeu de um só gole e cuspiu todo o líquido em direção ao fogo, que aumentou de tamanho e assumiu uma tonalidade azul. Um gemido alto pode ser ouvido no cemitério, e um forte tremor sacudiu todo o estado.

— Hoje é o dia, meus filhos... – disse Grande Nancy. – Hoje os mortos vingarão os seus...

Notas finais
Bom, esse é o fim da primeira parte de BM... Espero sinceramente que tenham gostado, e garanto que a segunda parte estará ainda mais interessante, por enquanto me despeço ^^ bjo grande povo lindo, que sdd do Nyah.