Black Magic
2 Dois
Notas iniciais
A MANSÃO SEGUIA todos os padrões das casas de Tebas.
Enquanto avançava pela estrada principal em direção à entrada de colunas brancas, Lissa ainda pensava consigo mesma se aquela era a melhor ideia. Mesmo ela sendo uma bruxa considerada de cor, os mais velhos não entenderiam nunca o motivo que fizera com que ela recorresse A Casa dos Mistérios.
Aquele era o povo do Velho Mundo, as leis dos feiticeiros não era a mesma lei dos bruxos voodoo ou dos praticantes da magia do Novo Mundo, ali as consequências eram mais sérias, mas Lissa estava decidida a encará-la, ela havia negado a Oberon um nome, pois sabia o quanto isso iria lhe custar, mas agora as coisas haviam mudado, e a mágica que ela buscara iria interferir na vida das pessoas.
— Brincar com a sorte de alguém não é uma “cousa” boa... – Grande Nancy havia dito quando Lissa foi procurá-la. – Os brancos chamam de “Roda da Fortuna”... Não tem fortuna nenhuma em atirar uma moeda pro alto e esperar que ela caia do lado que “cê” quer.
— Mas eu fiz uma previsão, e ele espera que as coisas aconteçam como eu disse! – Lissa protestou.
— Esse menino, ele sabe das “cousas”, não é nada burro... Ele sabe que tem “cousas” que a gente dele não desfaz, por isso aprendeu muito com a nossa gente, mas a vida prega peças, e a vida dele é triste... A mágica que ele “pegô” vai encarregar de selar o destino dele... Uma maldição fecha o círculo dos Laveau, e ele sabe disso!
Lissa despertou das suas lembranças quando subiu as escadas e caminhou em direção à porta dupla de entrada, esta se abriu revelando o saguão imenso da mansão, diferente do seu exterior, o interior parecia abandonado, a impressão que aquele lugar dava a Lissa era de que fazia mais ou menos um século que ninguém andava dentro da casa.
— Você deve ser muito burra para entrar na Casa dos Mistérios... – uma voz ecoou pelo saguão, e a mulher olhou para o alto das escadas, de onde a voz surgira. – Diga-me Lissa Price, você gosta tanto do rapaz para querer que a sina dele seja alterada?
***
Havia uma grande confusão na central quando Carter chegou. Seus colegas corriam de um lado para o outro, os telefones não paravam de tocar e os seus superiores gritavam com todas as pessoas que cruzavam seus caminhos.
— Carter! – ele ouviu alguém chamar seu nome e caminhou em direção a sala de onde veio a voz, havia três pessoas na sala do diretor e para sua surpresa duas vestiam ternos pretos elegantes e usavam óculos escuros.
“Ótimo, serviço secreto!”, ele pensou. Não era necessário ver os distintivos, o pessoal da CIA e do FBI tinha aquela coisa que ninguém mais tem, como uma aura de superioridade que queria dizer “Hey, somos melhores que vocês e não temos problema em admitir!”, o detetive sorriu após o pensamento atravessar a sua mente, mas ele ficou sério no mesmo instante, pois todos os olhares se voltaram em sua direção.
— Carter, eu quero você na margem do Mississippi! – disse o diretor sem muita cerimônia.
— Algum lugar específico senhor? – ele perguntou, e os agentes deixaram escapar uma risada sem humor.
— Pelo amor de Deus homem! – o diretor exclamou. – Você não assiste televisão? Não ouve rádio, qualquer lugar serve desde que você esteja lá! Agora vai!
Em pouco tempo o detetive cruzou a cidade e logo se deparou com uma multidão impedindo o avanço de carro até a margem, então o detetive saiu do veículo e caminhou por entre as pessoas, como de praxe mostrou o distintivo para um dos policiais que estavam próximos à faixa que mantinha os civis o mais longe possível das margens do rio.
À primeira vista a água parecia mais escura que o normal, mas ao se aproximar ele entendeu o motivo para aquele alvoroço, corpos flutuavam por toda a extensão do rio. Era impossível calcular a quantidade, pessoas brancas e negras, grandes e pequenas, adultos, velhos, jovens e crianças, estavam todos ali, as roupas eram de épocas variadas.
Carter podia jurar que via homens com uniformes de soldados da época da guerra civil, mulheres vestidas como as vedetes de cabarés, negros vestidos como escravos, para o espanto de todos, os mortos estavam de olhos abertos, fitando o céu nublado.
Havia médicos legistas por toda parte, alguns colhiam amostras da água enquanto outros puxavam corpos para a margem a fim de colher amostras.
O céu nublado clareou por alguns instantes e um trovão rugiu alto, o som não parecia ter vindo do alto, mas sim de baixo, surgindo do meio daquelas pessoas assustando e intimidando a todos. A correnteza do Mississipi ficou mais forte e uma forte chuva vermelha despencou sobre toda a cidade causando uma grande comoção entre os civis.
O medo tomou conta de todos, e as pessoas fugiram para os lugares que pudessem protegê-los da chuva vermelha, enquanto os policiais mantiveram as suas posições, ele ainda tinham um trabalho a ser feito apesar da chuva, por isso precisavam se apressar, enquanto isso, Carter só pode pensar em entrar em contato com a única pessoa que poderia ajudá-lo naquele momento.
Ele sacou o celular e tão logo tocou no display, aparecer a informação de que um número estava sendo chamado, ele levou o aparelho ao ouvido e aguardou até que alguém atendesse, a voz soou tranquilizadora para ele quando murmurou do outro lado da linha.
— Não se preocupe, eu já sei do que se trata... Estou a caminho, fique onde está, vou protegê-lo Alex... Chego aí num instante.
E então ele desligou.
O detetive olhou ao redor, chutou uma pedra que estava por perto e seu olhar acompanhou o objeto voar em direção a duas sombras que se moveram milimetricamente, mas foi o bastante para ele entender as palavras d’O Velho em relação as tais sombras.
Um observador diria que o detetive era uma pessoa louca, mas o rapaz sabia o que estava vendo, as sombras tinham a forma de cachorros, mas para o espanto de Carter, ao se aproximar das formas, dois cães negros surgiram cada um de um lado do detetive.
— Não alimente os animais...
Carter se virou na direção da voz e viu Oberon parado observando-o por baixo de um guarda-chuva japonês negro com desenhos de flores de cerejeira. O rapaz diante do detetive não parecia de modo algum aquele homem elegante de terno, ele usava um fraque por baixo uma camisa Calvin Klein tão antiga que era impossível dizer o que havia na estampa, a camisa parecia ter sido alvo de um atirador impiedoso que metralhou a peça de roupa; suas canelas finas apareciam por baixo da bermuda de estampa camuflada e ele usava botas de soldado.
— O que é você? – foi a primeira coisa que Carter disse após se refazer do susto.
— Não seja ridículo... – disse Oberon esboçando seu melhor olhar severo, mas torcendo os cantos da boca para cima. – Vamos, não quero molhar a minha roupa!
— Falo sério, o que houve com você? Passou cola em si mesmo e entrou no guarda roupas depois saiu com o que grudou no seu corpo?
— Por que o que eu visto é tão importante? – Oberon tinha um tom de voz desafiador.
— É que você está diferente... Gosto quando você se veste daquele jeito elegante... – Carter sentiu o rosto corar ao admitir aquilo, e então abaixou os olhos caminhando em silêncio ao lado do rapaz, que o observava pelo canto dos olhos com uma curiosidade arrasadora.
— Poderia até dizer que essa situação é fofa, se não estivesse tão apressado... – Oberon murmurou apertando ainda mais o passo. – Eu acredito que tenha duas notícias para dar a você, e nenhuma delas é boa, tem a notícia ruim e a péssima notícia... O que você escolhe?
— Comece pela péssima, a notícia que for ruim pode amenizar esta que você me der primeiro... – Carter respondeu caminhando a passos largos para manter-se no ritmo do rapaz.
— Não sei de onde vocês tiram esse tipo de ideia louca, mas tudo bem. Se isso tudo for o que eu tenho em mente, significa que estamos com sérios problemas, e essa situação tende a piorar ainda mais...
— Quanto mais?
— Acredito que mais do que eu possa lidar... E a outra notícia é que eu acreditava que todas essas ações tinham sido praticadas pelos bruxos pretos, mas eu estava errado e eles estão com raiva, e logo todo o estado vai sofrer com alguns sortilégios contra os quais eu não tenho defesa alguma, o que significa que você vai estar por conta própria.
Carter pesou as palavras de Oberon e assentiu, em seguida falou despreocupado:
— Eu não preciso que você me...
— Se sabe o que é melhor para si então você não vai terminar essa frase!
Os dois caminharam até uma limusine onde Oberon desapareceu no interior do veículo e exigiu que o detetive o acompanhasse.
— Não se preocupe com suas roupas... – disse Oberon quando o detetive começou a tirar o paletó e já desfazia o nó da gravata. – Entre, precisamos nos apressar...
***
— Há muito tempo os mais antigos... – Delilah começou a falar enquanto misturava um pouco de açúcar ao chá. – Todos os mais antigos, resolveram acabar com um sério problema que se abatia sobre os bruxos brancos e os bruxos de cor. Uma mulher aprendeu os piores artifícios dos dois lados e decidiu que controlaria tudo, mas não poderíamos permitir, então criamos um feitiço poderoso... Chamamos de “A Tranca do Demônio” e fizemos algo terrível.
Delilah fez uma pausa teatral, o fogo crepitava na lareira, a saleta estava à meia luz, aquele era o ambiente mais propício para tornar a situação ainda mais dramática que já era.
— Pelo amor de Deus, Delilah! – Lissa exclamou aborrecida. – Nós não temos tempo para isso, então sejamos breves, ok?
— Tudo bem... – disse a mulher endurecendo o queixo. – Ninguém sabia dizer realmente qual era o nome verdadeiro daquela criatura, apenas o chamávamos de Inimigo, seus poderes eram maiores que os de qualquer um dos mais velhos, naquela época éramos cinco, dois brancos e três de cor, eles vieram dos pântanos, ficavam lá onde a magia deles é mais forte, onde invocam os seus senhores e abrem seus caminhos através do voodoo.
“Houve mortes... Muitas perdas irreparáveis, e muito ódio se espalharam dentro das famílias, os sem magia passaram a odiar a herança que corria no sangue dos dotados de mágika, já não era mais seguro usarmos os nossos dons; as coisas estavam mais do que descontroladas, e era preciso fazer algo, casos contrários todos pereceriam nas mãos daquele demônio...”
— Espera, não era humano?
— Ah, não, de forma alguma ele era humano, não! Era um diabo, faminto por sangue de pura magia, o ritual era complicado, e ele precisava de três pessoas, ele possuía pessoas e matava consagrando as mortes em seu nome, tudo era sempre muito sujo, sangue, carne, ossos, ele espalhava em todas as direções. Era uma das noites sagradas para os meus, quando aquela besta surgiu diante de todos. Tinha um corpo perfeito e seus poderes eram plenos, fizemos algo terrível...
“Para impedir o demônio, precisávamos que ele tivesse um corpo físico, por isso facilitamos as mortes, Grande Nancy nunca mais me perdoou quando o filho dela foi assassinado, mas o que poderíamos fazer? O feitiço precisava ser lançado em um corpo físico, e não num corpo astral, não daria certo se não fosse assim, e permitimos... Perdemos cinco crianças, aquela mulher me odeia como se tivesse sido a única a sentir esse tipo de dor, na noite em que o demônio ganhou forma, Oberon nasceu, e ele era um bebê perfeito, saudável, estava vivo, e isso era suficiente.
“Roubamos o futuro daquela criança, e reescrevemos a vida dele... Brincamos de deuses, e cometemos o pior dos pecados, levamos o menino até o ponto onde faríamos o ritual, marcamos a criança com escritas de fogo, gravamos maldições sobre ele, não existe um centímetro da pele daquele menino que não esteja coberto por maldições, e o colocamos no fogo... Sacrificamos o sexto inocente, e trancamos o demônio dentro de Oberon.
“Mas as coisas não aconteceram como prevíamos e o menino, a Tranca, se tornou poderoso como o demônio, as maldições dentro dele tornaram sua alma impura, e ele apodreceu, Oberon assumiu a forma atual... Aquela noite foi um caos, menina, você não pode imaginar...”, Delilah suspirou alto enquanto apoiava a cabeça na mão, parte do que sentia era vergonha, lembrar-se daquele ocaso ainda lhe doía, mas algo semelhante parecia estar acontecendo, e ela sabia que Oberon estava no meio daquilo tudo.
— Ele nunca manifestou energia demoníaca alguma e nem...
— Francamente mulher, você é burra?! Alguma vez já teve que lidar com um demônio?
— Não, nunca precisei disso, mas...
— Mas o que?! – Delilah gritou se levantando e caminhando de um lado para o outro. – Ou você já fez ou não fez, não tem meio termo minha querida, lembre-se bem disso. Um demônio não é um espírito ou um bruxo, as coisas são mais difíceis do que você imagina.
Lissa olhou ao seu redor, o lugar caindo aos pedaços antes conhecida como A Grande Casa dos Mistérios, nada era como antes, o tempo havia acontecido para todos, a própria Delilah havia sido uma das maiores bruxas de sua época, mas hoje era apenas uma velha reclusa que contava histórias do passado e relembrava seus tempos de glória.
Pela primeira vez em toda a sua vida, Lissa teve medo que sua visão se tornasse real e ela fosse a próxima Senhora da Casa dos Mistérios.
— A sua geração fez isso uma vez, e agora sinto que é a vez da minha geração agir... – ela murmurou enquanto fitava a Dama Cinzenta. – Como eu mato esse demônio?
***
A lua avançava pelo céu, sua luz atravessava os buracos entre as nuvens de chuva, o estado da Luisiana estava calmo, era uma noite comum na cidade, o pântano era outra coisa.
Tochas foram fixadas ao chão para formar um caminho ao povo do pântano, O Velho com a ajuda de Grande Nancy conseguiu reunir um número suficiente para colocar em marcha contra os bruxos brancos, e aquele era o momento de chamá-los para fora da lama, das árvores e das águas escuras e perigosas daquela região.
Um incontável número de pessoas marchou para fora do pântano, o Mississipi estava dando conta daqueles que havia tragado, assim como a terra expelia para fora de suas entranhas todos os corpos que recebera.
— C’ês sabem o que fazer! – Grande Nancy gritou para o seu exército. – Ele “matô” gente nossa, nosso sangue, nossos filhos... O demônio dos brancos lavou a terra com o sangue da nossa gente, e agora ele está de volta naquele corpo maldito e cheio de danação. A coisa está de volta, e dessa vez temos a chance de lidar com a situação à nossa maneira! Por isso vocês estão aqui... Por isso os envio até o demônio, tragam–no até o pântano e sepultem a coisa na lama!
Ao ouvir o comando de Grande Nancy os mortos caminharam, passo a passo sem se deter por nada. Dias negros estavam por vir e nada poderia impedir a sua chegada.
***
Quando Oberon abriu a porta do seu apartamento, Carter, um pouco sem jeito, entrou pé ante pé, com medo de molhar o carpete ou sujar a casa, enquanto Oberon, por sua vez, entrou jogando tudo no chão, largando o guarda-chuva perto da porta e se despindo do fraque e da camisa, arrancando as botas e por fim a bermuda, ficando apenas de cueca. Não foi preciso palavras, o detetive desafivelou o cinto e abaixou a calça, que era a única peça de roupa que estava usando, além da cueca.
Ele seguiu Oberon pelo corredor e quando o alcançou estendeu a mão puxou o bruxo para si, movendo o corpo dele em direção ao seu, comprimindo o espaço entre eles e recostando seu peito largo nas costas de Oberon, que se deixou conduzir, como se estivesse em uma dança.
Oberon levou o detetive para seu quarto e o colocou sobre a cama, habilmente ele despiu o homem diante de si e galgou o corpo musculoso de Carter, que puxou o bruxo para si, seus lábios se uniram no momento em que um forte trovão ribombou nos céus, juntos começaram a se amar. Carter parecia saber tudo o que se passava na mente de Oberon. Os braços fortes de Carter envolveram o corpo do parceiro, que acabou ficando por baixo do detetive, e à medida que ele o satisfazia, seu desejo e sua vontade cresciam ainda mais.
Aquele homem era perfeito e Oberon se via escravo da vontade dele, não havia nada que ele tentasse e que Carter não desse vazão, o detetive parecia conhecer cada parte do corpo de Oberon, e a cada toque seu, o bruxo sentia como se pudesse explodir e ficar feliz por isso.
— Me ame... – Oberon murmurou.
Um relâmpago riscou o céu iluminando seus rostos, então Carter sorriu.
— Claro que te amo, seu bobo! – ele respondeu prontamente.
— Não perguntei... – disse o bruxo sentindo o homem em seus braços tomá-lo para si. – Eu pedi... Ama-me, Carter... Ame cada centímetro do meu corpo, ame cada célula dentro de mim. Ame cada troca de carícias, cada contato físico, cada batimento do meu coração... Ama-me por inteiro, sem exceções... Me ame com excessos, ultrapasse todos os limites que eu tentar impor, quebre as minhas barreiras e me ame.
Carter fitou o rapaz e não soube o que fazer ou responder, então Oberon emendou:
— Apenas me ame...
— Eu te amo. Claro que amo... – ele respondeu calmamente.
— Mostra amor – Oberon sussurrou.
Oberon abraçou o corpo de Carter e girou sobre ele, permanecendo sentado sobre seu quadril, enquanto seus movimentos ritmados proporcionavam aos dois um prazer sem igual. A chuva do lado de fora piorava concideravelmente, enquanto dentro do quarto os únicos sons a se ouvir eram os gemidos e as palavras sussurradas pelos dois homens.
O clímax chegou junto de um trovão, que pareceu sacudir os céus, os gemidos se tornaram urros guturais e quando o som do trovão ribombou ensurdecedoramente, Oberon deixou seu corpo cair sobre o corpo de Carter, que o abraçou e começou a mexer em seu cabelo.
Ele percebeu que estava sonhando quando se deu conta de que estava de pé dentro de um espaço vazio e escuro sem chão ou teto. Em meio aquela escuridão havia alguém, ou alguma coisa, ele podia sentir, mas uma força muito poderosa estava bloqueando a sua percepção e isso tornava impossível de descobrir a forma do seu observador.
A força dentro daquele lugar escuro e sufocante era tamanha que fazia com que Oberon se sentisse encurralado, não havia espaço para fugas, ele não podia se desvencilhar. E de repente, ele se viu preso, escravo da vontade daquele ser.
Um olho se abriu na escuridão, e milhões de outros olhos se abriram logo em seguida, todos os olhos o encaravam, e a última coisa a surgir foram bocas cruéis com dentes terrivelmente afiados, e no limiar de sua consciência, Oberon sentiu sua alma ser devorada por aquele ser monstruoso.
Oberon acordou do sonho e se arrastou da cama, ele não tocou o chão, seus olhos vermelhos perscrutavam tudo ao redor, Carter ainda dormia, e isso era muito conveniente, acordar aquela pessoa não seria nada bom, afinal ele era o único que poderia impedi-lo de conseguir o que queria, e ele finalmente estava perto o bastante do fim.
O bruxo, possuído pelo demônio avançou pelo quarto, as portas da casa se abriram e ele logo saiu do prédio, mas estacou quando tocou a calçada.
Um relâmpago iluminou o céu, revelando algo que o demônio jamais poderia prever, parado na Rua Bourbon, havia um exército invencível, do tipo que só existia uma única finalidade para ser convocado.
E essa finalidade fez com que o demônio tremesse dentro do corpo que possuíra.
— Aquela velha... – a voz do demônio sussurrou por entre os lábios de Oberon, e um sorriso maligno se formou, o demônio sabia o que poderia fazer para conseguir se livrar daquele pequeno obstáculo, não seria permanente, mas lhe daria tempo suficiente para fugir daquela situação.
O corpo de Oberon era uma arma letal, mas o demônio precisava de algo mais simples, para o seu completo desagrado, usar dos próprios poderes iria contra o seu desejo de continuar no anonimato, ele, porém, não hesitou.
***
Delilah atravessou o salão da Casa dos Mistérios com Lissa em seu encalço, ela sabia o que deveria fazer, era chegada a hora em que os seus antigos erros fossem corrigidos, e ela o faria sem medo das consequências.
— Esteja preparada Lissa, porque coloco a minha mão no fogo se você já tiver participado de algum feitiço tão poderoso quanto este, e se você cair morta eu vou acabar me dando mal, porque terei que fazer tudo sozinha... E caso não tenha reparado, não sou mais tão jovenzinha quanto você!
Lissa preferiu ficar em silêncio e apenas acompanhar a anciã.
O salão onde entraram era circular e o teto parecia ser tão alto que parecia nem existir, bem no centro do salão havia um enorme círculo entalhado na pedra, com diversos símbolos. Lissa não conhecia nenhum deles, em torno do círculo ela podia ler uma inscrição em aramaico e de tudo o que via ali, apenas os signos dos elementos ela podia reconhecer.
Ao se aproximar de Delilah, a bruxa mais velha juntou as mãos como em uma oração e pronunciou algumas palavras, chamas altas e muito vermelhas nasceram nas bordas do círculo, e logo de tornaram azuladas. A anciã estendeu a mão para Lissa e passou para a mulher uma pedra negra e quente, ela mesma segurava outra pedra semelhante, e indicando que Lissa deveria imitá-la, as duas logo deram início ao ritual complicadíssimo.
Suas vozes ecoavam pelo salão, e à medida que o ritual avançava, Lissa tinha a impressão de que outras vozes também se juntaram as delas, uma grande energia mística se concentrava no lugar; Delilah estava agora no centro do círculo enquanto Lissa caminhava ao seu redor, ela agradeceu aos espíritos das Três Anciãs por conduzirem aquela menina à Casa dos Mistérios naquela noite, ao fechar os olhos, Delilah entregou sua alma aos juízes da morte.
Lissa não poderia imaginar o que aconteceria, por isso, quando viu a anciã descer o braço com o punhal e cravá-lo em seu próprio peito, ela apenas gritou no mesmo instante em que uma onda de poder lhe tomou e arrastou para o centro do círculo, onde terminaria o ritual a qualquer custo.
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