Black Hole - Interativa
7 Quem somos nós
Notas iniciais
– Buddy, you're a young man, hard man, shouting in the street, gonna take on the world some day. You got blood on your face, you big disgrace, waving your banner all over the place. We will, we will rock you! Sing it! We will, we will…
Avelin estava bastante empolgada cantando We Will Rock You em seu beliche, até perceber que havia nove pares de olhos lhe observando. Ela tirou o ponto do ouvido.
– Desculpem, estou cantando alto?
– Não – disse Elly, que estava imediatamente ao lado. – Você estava cantando baixo.
– Ok. Não se preocupem, vou parar de cantar para não incomodar vocês.
– Pode cantar, Avelin! – Disse Mabel, lá de baixo. – Sua voz é linda!
– Obrigada, Mabel. Mas eu acho melhor não.
Os olhos desviaram de Avelin diretamente para o quarto beliche, onde HaNa fazia barulho ao se levantar. Ela parou em frente aos beliches.
– Aonde você vai? – Perguntou Ally.
– Vocês não vão ficar aqui, vão? A agente Fox disse que podíamos explorar. Qual é, gente, estamos dentro de uma base científica incrível. Não vou ficar trancada no quarto até amanhã de manhã.
– Calma, HaNa, temos muito o que explorar ainda – disse Stux. – Podemos fazer isso depois do almoço. Tem outra coisa que a agente Fox disse para fazermos.
HaNa pensou um pouco, e lembrou que a agente Fox falou para eles se conhecerem melhor.
– Tá bem, eu começo. Oi, galera, meu nome é HaNa e eu sou coreana.
– Puxa, nem deu para perceber! – Disse a Ally, rindo em seguida. – Me desculpe. Pode continuar.
– Bom, vocês vão perceber que eu sou uma pessoa alegre, alegre demais para permitir que vocês – HaNa apontou para Alex, Annika, Kai e Gabbe – continuem com essa mesmice, sem falar uma palavra com o restante do grupo.
– Eu falei com o restante do grupo – disse Annika. – Quero dizer, com o Kai. Quero dizer, com o agente Muorbjorn.
– Ah, o que é isso? Eu vi, mocinha, vocês tiveram uma conversa tão empolgante! Cara, eu não quero ofender vocês, mas é isso mesmo? Vamos ficar sem nos falar?
– Olha, agente Kim, — disse Annika – eu entendo suas intenções, mas não viemos para socializar, nem para brincar. Viemos para fazer algo pela ciência.
– Uma coisa não impede a outra, “agente Burke”. Podemos ser agentes agora, mas ainda somos jovens. E não podemos simplesmente parar de agir como jovens.
– Eu concordo, HaNa – disse Ally. – Afinal, pra fazer algo pela ciência, salvar o mundo, ser bons agentes e essa coisa toda, precisamos ser um grupo, e para isso, precisamos conviver e nos conhecer. – Ally se levantou. – Meu nome é Alissa, mas podem me chamar de Ally. Acho que vocês já perceberam que eu não vou ficar bancando a educada. Se estiverem me incomodando eu vou dizer. E gente que não socializa me incomoda. Então, é só vocês se abrirem um pouco para mantermos uma relação saudável.
– Tá – disse Stux, descendo do beliche. – Meu nome é Aeron Hennessy. Mas, eu não estou acostumado a isso, realmente vou odiar se me chamarem de agente Hennessy. Pra todos os efeitos, meu nome é Stux, e eu estou aqui por causa desse cara. – Stux agarrou o braço de Gabbe e o levantou. Para Gabbe, foi como se tivessem jogado um balde de água em sua cara para acordá-lo.
– O que aconteceu? – Perguntou ele, enquanto era meio que arrastado para a frente dos beliches. – Gabriel Nicacio, mais conhecido como Gabbe. Vocês devem ter notado que ele parece ser um pouco anti-social, mas é que ele não presta muita atenção nas coisas.
– Stux, o que está acontecendo?
– Apresentação. Vai, amigo, apresente-se.
– Tá. Oi, pessoal, meu nome é Gabriel Nicacio, mais conhecido como Gabbe. Talvez vocês estejam me achando um pouco anti-social, mas na verdade, eu não presto muita atenção nas coisas.
– Como eu disse – falou Stux.
– Você disse?
– Disse.
– Ok.
– Vamos continuar, — disse Stux — isso está muito divertido! Ei, garota-ciência, que tal vir aqui?
– Não me chame de garota ciência. – Disse Annika, descendo. – Meu nome é Annika Johanne Burke. Mas podem me chamar de agente Burke.
– Nada disso – falou Stux. – Vamos, eu sei que você pode ser um pouco mais social que isso!
– Tá bem. Annika. Pode ser Annika.
– Então, gente, essa é a Ann. Próximo!
– É Annika.
– Tudo bem, Ann, eu já entendi. – Stux ficou encarando Annika. – É sério? Não pode ser Ann?
– Ainda não sei. Você parece legal o suficiente para que eu não imponha essa restrição.
– Ah, qual é? Estamos aqui para nos divertir.
– Não estamos.
– Bom, não estamos treinando, nem estudando. Estamos sem fazer nada. Enquanto isso, podemos brincar, não podemos?
Annika sorriu.
– Acho que sim.
– É, garota-ciência, você vai aprender na marra a se divertir com a gente. Eu vi você conversando com esse menino anti-social. Qual é o seu nome?
– Kai.
– Uau, temos uma palavra! Algo mais a dizer, Kai?
– Não.
– Acho que você ainda não se apresentou.
– É mesmo?
– Sério, fale um pouco sobre você.
– Não.
– Tá. Você está difícil. – Stux se virou para os que estavam de pé, que eram HaNa, Stux e Gabbe. – Pessoa sociáveis, quem quer chutar um pouco sobre a personalidade de Kai?
– Vamos lá – disse Ally, se aproximando do beliche como se fosse uma profissional.
– Kai. Com certeza você não gosta de falar. Seus motivos estão relacionados ao fato de que isso é estranho para você. Socializar, se divertir e conversar são coisas que você não fez muito durante a vida. Provavelmente preso no seu próprio casulo, não teve muitos amigos. Tem poucas palavras no vocabulário de uso. No entanto, isso tudo é só a casca. É a camada protetora que faz você ser inacessível. Essa fração da sua personalidade é seu próprio casulo. Dentro dele, está um garoto como eu. Inteligente, sarcástico e sincero. Um bom amigo. – Ally ergueu a sobrancelha. – Acertei?
– Não.
– Verdade. Errei só na parte do sincero.
– Qual é a sua?
– Uau, temos uma frase nova! Kai, muitos diriam que você é um caso perdido no quesito social. Mas eu não. Fale quando estiver pronto.
Ally se virou de volta para o grupo “social”, quando Kai disse:
– Obrigado.
– Pelo quê?
– Pelo espaço.
– De nada. Quer escolher o próximo?
Kai olhou para Alex, na cama de baixo à esquerda.
– Hum, sim, senhor Greenwich. Quer falar alguma coisa? Pode começar dizendo o seu nome.
– Eu não quero falar com você.
– Mas que audacioso! É melhor você não me irritar, garotinho.
– Não me chame de garotinho.
– Coitado! Ele não quer ser chamado de garotinho! Vamos ver o que...
– Ally, para – disse Gabbe. – Na boa.
– Quem é você para me dizer o que fazer? – Perguntou Ally, tentando fingir que os olhos de Gabbe não a incomodavam.
– Um amigo. Sério. Acho melhor não.
– Ally, — disse Stux – que tal pedirmos a outra pessoa?
– Acham que outra pessoa será melhor do que eu? Como ousam...
– Ally – Gabbe a encarou, com a mão estendida, como se quisesse amansá-la. – Por favor, não vamos criar confusão por pouca coisa.
– Tudo bem! – Disse Ally com raiva, marchando para trás do grupo. – Escolham outra pessoa!
Stux olhou para as camas à sua esquerda, perto da porta, e enxergou os olhinhos na cama de baixo.
– Mabel, quer vir aqui?
A pequena se levantou e foi para frente. A essa altura, o acúmulo de pessoas na frente tinha virado a rodinha do alcoólicos anônimos.
– O que eu falo?
– Fale seu nome, conte um pouco sobre você.
– Tudo bem. Meu nome é Mabel Schunk, tenho 12 anos, e gosto de atirar com handgun.
– O que é handgun? – Perguntou HaNa.
– É uma arma de mão, ué. Tive que deixar lá na sala de uniformes, mas não ando sem isso. É como uma pequena balestra de mão.
Todos olharam uns para os outros confusos.
– Mabel, você mexe com essas coisas? – Perguntou Avelin, de seu beliche.
– Por que não mexeria?
– Você é tão... Pequena...
– Eu sei. Meu irmão Rafael me ensinou. Vocês acham que eu sou pequena, indefesa, mas vão aprender a ver que há muito mais nas pessoas do que se pode ver.
Mabel andou até a cama de Alex, deixando todos perplexos.
– O que houve? Por que não quer falar?
Alex encarou a pequena, que apesar de ser apenas um ano mais nova, parecia ter três anos a menos.
– Eu... Eu não queria falar com ela. – Alex olhou para Ally, que revirou os olhos.
– Você não precisa ter medo dela. Ela é só uma garota legal que se irrita muito fácil. Mas eu não sou assim. Eu tenho paciência.
– Acha que eu deixo as pessoas impacientes?
– Bom, estamos tentando conversar. Se você não conversa, acaba fazendo as coisas darem errado. – Alex permaneceu quieto. – Sabe o que eu acho? Você deixou algo ruim para trás, algo que quer esquecer.
– Não totalmente.
– Então deixou alguém importante.
– Meu irmão. Como sabe dessas coisas?
– Isso é fácil de saber. Pessoas fechadas são assim porque alguma coisa as fez serem fechadas. Se você está aqui... Olha, é uma coisa boa. Você está aqui. Não sei o que deixou, mas não precisa se preocupar. Você está entre amigos agora. Ninguém vai te fazer mal. Nós só queremos saber mais sobre você, te conhecer. Vem? – Mabel estendeu a mão. Alex hesitou um pouco, e finalmente pegou a mão de Mabel, que o levou para frente. – Fale.
– Tá. Meu nome é Alex Greenwich, tenho 13 anos. Eu realmente não vim aqui para fazer amigos. E não costumo confiar nas pessoas. Pra conquistar minha confiança tem que ser muito merecedor – ele olhou para Mabel, que ainda segurava sua mão. Aparentemente, ela tinha sido merecedora. – Eu não sou de falar, muito menos sobre mim, e acho que isso é o suficiente. Quem quiser ouvir mais deve merecer confiança suficiente para saber o que tenho a falar.
– Veleu, cara – disse Stux. – Já ajudou a sabermos um pouco sobre você. Nós vamos tentar conseguir sua confiança. Agora, só faltam vocês duas.
Avelin olhou para Mabel, ali na roda, e decidiu descer.
– Vamos logo – disse ela para Elly.
– Sério? Vai participar disso?
– Não vejo por que não. Pode ser divertido.
Elly também desceu. Elas se juntaram à roda e Avelin começou a falar.
– Meu nome é Avelin Van Devereaux. Vocês... Vocês podem me chamar de Lin. Eu diria que eu sou a pessoa certa para estar aqui.
– Mas que convencida! – Disse Ally.
– Eu poderia responder você à altura, Alissa, mas não vou perder meu tempo com você. Eu não estou me gabando, quero apenas falar um pouco sobre mim, como pediram.
– Então nos diga – falou HaNa. – Por que você é a pessoa certa para estar aqui?
– Ela já foi treinada – disse Stux, fazendo Avelin franzir o cenho. – Acertei?
– Como sabe disso?
– Seu sobrenome. Qualquer pessoa minimamente informada em Trondelag do Sul sabe quem é a família Devereaux. Eu posso apostar que seu pai ou sua mãe são militares, se não ambos.
– Meu pai é militar. Minha mãe trabalha na Aurum.
– Hum, entendo. O pai do Gabbe – Stux colocou o braço no pescoço do amigo, fazendo-o acordar para a realidade – também trabalha na Aurum.
– O que tem meu pai?
– Continue, Lin. – Pediu Stux.
– Bom, como você disse, meu pai me treinou desde pequena. Eu estou pronta para a missão.
– E você, moça? – Perguntou Stux a Elly.
– Ellynia Stone. Mas estou acostumada a ser chamada apenas de Elly ou Esfinge.
– Por que Esfinge? – Perguntou Mabel.
– Não posso nem adivinhar! – Disse Ally. – Pela pergunta sem graça que fez a Mabel, já sei que tipo de garota você é.
– Olha aqui, eu não vou aceitar que você me julgue, Alissa. Está na minha vez de falar e eu fico feliz em dizer que um dos meus hobbies favoritos é brincar com os enigmas.
– Mas que interessante! – Disse Ally, ironicamente. – Enigmas são coisas bobas. Elas fazem os inteligentes parecerem burros e não torna os burros mais inteligentes. Então não há sentido. Você, Ellynia, gosta de propor enigmas para parecer superior aos outros. Afinal, você sabe a resposta e os outros não, o que cria a falsa ilusão de que você é mais inteligente, quando na verdade, não passa de um truque.
– Você está errada, Alissa. Eu gosto de brincar com a mente das pessoas. O que torna os enigmas atraentes é que suas respostas são simples, e ao mesmo tempo, impensáveis. Quando pergunto a Mabel qual é o animal que anda com quatro patas, depois com duas e com três em seguida, é difícil pensar na resposta porque não estamos acostumados a tratar nós mesmos como animais, embora sejamos. A natureza apresenta muitas espécies, algumas delas modificam características conforme crescem, então é fácil se perder nas possibilidades.
– Usar esse enigma como argumento é ridículo. Uma bengala não é uma pata!
– Gente, — disse Mabel – eu não estou entendendo nada. Do que vocês estão falando?
– A resposta do enigma – disse Annika. – É o homem. Quando bebês, andamos com “quatro patas”, pois engatinhamos. Quando crescemos, no meio-dia, andamos com duas pernas. Quando envelhecemos, que é o entardecer, precisamos de uma bengala, que é como uma terceira perna.
– Eu gosto dessa história de enigmas – disse Lin. – Exercitamos o raciocínio rápido, e convenhamos, isso é muito bom para o nosso treinamento.
– Exatamente, Lin – disse Elly. – Ao contrário do que certas pessoas pensam, os enigmas ajudam a pensar, porque são cheios de padrões e nos ajudam a pensar em todas as possibilidades. Então, vamos começar o treinamento com um enigma. Existem duas portas, uma da vida e outra da morte. Cada porta é guardada por um segurança. Um deles só fala verdades, e o outro só mente. Mas não sabemos qual porta é qual nem qual segurança é qual. Só podemos fazer uma pergunta a um dos seguranças antes de escolher uma porta. Qual pergunta fazer para saber qual é a porta certa?
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