Black Hole - Interativa
13 Flechas do Piripaque
Notas iniciais
Dois segundos depois de provar a frutinha, o esquilo teve um piripaque e morreu. Mabel arregalou os olhos e esticou a mão para ver se o bichinho tinha realmente morrido. Ao constatar isso, o escondeu e pegou algumas frutas.
– Mabel – disse Alex, que tinha notado seu movimento. Aparentemente, apenas ele notou. Mas os outros olharam pra ela. – Melhor não comer isso.
– Não pretendo comer.
Mabel conseguiu uma pedra e colocou as frutas, esmagando-as em seguida. Depois, mergulhou flecha por flecha de seu handgun, soprando pra que secasse. Depois, as guardou e se livrou da pedra. Mabel podia parecer burra, mas sabia que o handgun era apenas divertido, e que suas flechinhas inofensivas não a salvariam de nada. A menos que ela fizesse um upgrade.
– Gente! – Disse Annika, animada. – Vocês esqueceram do saquinho da agente Fox?
– Ah, é mesmo! – Disse Stux. – Ela disse para abrirmos de noite.
Todos os dez pegaram seus saquinhos e, antes de abrir, notaram que cada um tinha uma plaquinha com um nome. Assim, eles trocaram entre si, até que cada um detivesse seu próprio saquinho. Enfim, eles abriram.
Em alguns saquinhos, havia apenas jujubas. Em alguns, biscoitos e jujubas.
– Mas que droga – disse Ally, ao constatar que havia só uma jujuba em seu saquinho. Os outros estavam um pouco mais abastecidos. No saquinho de Alex, havia um biscoito e seis jujubas. No de Mabel, também tinha seis jujubas, mas nenhum biscoito. O de Annika era o que tinha mais biscoitos: quatro, além de dez jujubas. Quantidades muito boas. Seu namorado, Kai, se saiu quase tão bem quanto ela, ganhou só um biscoito a menos. Tanto Gabbe como Stux receberam onze jujubas e um biscoito, cada. HaNa ganhou só quatro jujubas, Esfinge ganhou nove jujubas e um biscoito, e Lin ganhou seis jujubas e dois biscoitos.
Alguns acabaram com as guloseimas ali mesmo. Outros, comeram um pouquinho e guardaram o restante para a viagem. Mas quem comeu tudo ali estava com medo de que aquela fosse a sua última refeição.
~
– Alex, conta uma história pra gente dormir? – Perguntou Mabel. – Eu sei que é criancice, mas... Eu estou com medo. Acho que não vou conseguir dormir.
– Não tem problema, Mabel – respondeu Alex. – Acho que todos nós vamos precisar de uma história hoje. Vamos lá.
***
– Era uma vez um garoto. Ele era feliz, tinha uma casa, uma boa mãe e um bom pai. – Alex desenhou um círculo na areia, um círculo que era a casa da família. — Pra completar ainda mais sua felicidade, ele recebeu a notícia de que sua mãe estava esperando um bebê. O garoto teria um irmão mais novo. A notícia trouxe alegria à sua casa. Mas, depois que o irmão mais novo nasceu, as coisas tomaram um rumo diferente. Um monstro invadiu a casa, matou o pai e feriu a mãe. – Mabel assumiu expressão de espanto. — Mas antes que o monstro chegasse ao quarto dos irmãos, o garoto se escondeu no armário com o irmão mais novo. E eles sempre se escondiam quando o monstro chegava. Mas o garoto sabia que as coisas não poderiam continuar assim. Então ele pegou a mãe e o irmão e fugiu de casa. Eles fugiram para o norte. – Alex traçou uma linha, o caminho que a família percorreu. — Por muito tempo ficaram tranquilos, mas o garoto sabia que o monstro estava em seu encalço. Mas ele era esperto. Em uma bifurcação, ele fez um rastro falso para a esquerda – Alex desenhou uma linha pontilhada para a esquerda – e foi para a direita, onde ele sabia que havia uma casa. – Alex fez a linha reta para a direita, com um círculo no final. – O garoto quis acreditar que, ali, eles estariam protegidos. Mas sabia que alguma hora o monstro descobriria que estava sendo enganado. O garoto sabia, então, que precisava matar o monstro – Mabel deu um gritinho – para garantir a segurança da família. Mas antes, ele precisava de uma espada. Ele procurou em alguns livros, e descobriu que havia um tesouro no caminho à direita de sua casa, – Alex fez um X ao do lado da casa, e uma linha pontilhada ligando os dois – mas o tesouro era guardado por muitos perigos. – Alex desenhou um monte de cobrinhas ao redor do X. – O garoto não desistiu por isso. Foi até lá, e no caminho, encontrou outras nove crianças. Juntos, eles venceram os perigos, e encontraram não um, mas dez tesouros. E além de leva-los, levaram uma grande amizade. No tesouro, o garoto encontrou a espada. Quando chegou em casa, o monstro estava quase alcançando eles. Então, o garoto o enfrentou e o matou, e permaneceu feliz com sua família e seus novos amigos.
***
Quando Alex se deu conta, Mabel já estava adormecida em seu ombro, e todos estavam deitados. Pouco mais tarde, Kai, que estava do lado dele, perguntou.
– Alex.
– O que foi?
– O garoto da sua história. Era você?
Alex demorou, mas finalmente disse:
– Sim.
~
Assim que o sol se levantou, eles se levantaram também, guardaram suas coisas, colocaram as mochilas e começaram a subir. Foi nesse segundo dia que o primeiro grande perigo do dia apareceu.
Eles subiam, e pouco mais acima eles viram uma cobra. Ah, que lindo, uma cobrinha? Não, uma cobra do tamanho de um ônibus. Mas era uma cobra linda, listrada de vermelho e preto com linhas brancas nas divisões. Ah, espera, essa não é a coral, uma das cobras mais venenosas que existem?
– Não se mexam – disse Annika.
– Pode ser a falsa – disse Kai. Eles tinham estudado algumas cobras, e sabiam que tinha uma cobra não venenosa que parecia com a coral. – Não pode?
– Não, não pode – informou Annika, nervosa. – Essa é a verdadeira. E está vindo rápido. Não atirem, ou ela vai entender como uma ameaça.
– Sério? – Perguntou Ally. – Ela não morre se eu meter uma flecha nela?
– Se pegar seu arco ela vai nos atacar. Simples assim.
Eles começaram a dar lentos passos para trás, enquanto a cobra se aproximava. Do nada, ela foi atingida. Ninguém ouviu barulho de arma sendo desembainhada, mas uma pequena flecha havia se cravado no animal.
– Mabel! – Gritou Annika, desesperada. Ela sabia que aquele espetinho só ia deixar a cobra com mais raiva. Ela chegou pertinho deles e se preparou para cuspir veneno, mas antes que pudesse fazê-lo, ela começou a tremer e depois caiu no chão.
– O que aconteceu? – Perguntou Gabbe, confuso.
– Ela teve um piripaque – respondeu Mabel. – E morreu. Mas é melhor que alguém faça picadinho dela pra ter certeza. — Annika se adiantou e foi cuidar do serviço. Alex perguntou à pequena.
– Mabel... Como você fez isso?
Mabel contou a história das frutas venenosas e do esquilo que teve um piripaque. Todos estavam boquiabertos.
– É melhor irmos agora. – Disse ela, indo na frente, com seu handgun sempre empunhado. – Se não, sete dias viram oito, e já viu né... Mais um dia perto das cobras.
– Talvez as cobras sejam anjinhos comparados ao que vamos encontrar no final – murmurou Esfinge. Apenas, Lin, sua amiga para todas as horas (que como sempre estava do lado dela) ouviu. Elas sabiam que era melhor não pensar no que estava à frente.
Eles seguiram Mabel.
~
~
UM DIA DEPOIS – NOITE DO TERCEIRO DIA
~
O grupo se aquecia à fogueira. Ally e HaNa, como as grandes amigas que eram, estavam conversando. Elas conversavam sobre música.
– Mas eu acho que o BTS é realmente incrível – disse HaNa.
– É mas eles são um pouco velhos, não?
– É talvez. Nunca vou superar a morte deles. Mas eles são lendas da música, Ally. Acho que não vou encontrar alguém que cante melhor.
A conversa não era a única. Estavam todos juntos ali, mas formavam duplas e trios de conversas aleatórias. Alex mantinha Mabel aninhada em seus braços, como se isso pudesse protege-la do mundo. Ele sabia que a garota tinha sido valente e os tinha salvado da coral. Mas sentia que deveria ser o contrário. E faria de tudo para retribuir. Não só porque o grupo tinha uma dívida com ela, mas também porque ela era muito especial para Alex. Muito mesmo.
Mas havia uma dupla que estava de olho naquelas meninas. Gabbe estava observando como a luz da fogueira fazia os fios ruivos de Ally parecerem chamas. E Stux estava querendo ressuscitar os meninos do BTS pra mata-los de novo. De repente, ele falou em voz alta, chamando a atenção de todos.
– Tá bom galera, não estamos parecendo uma equipe. Vamos fazer algo mais... geral. Algo que pareça mais uma roda de violão do que uma sala de aula cheia de panelinhas.
– Só tem um problema, fera – disse Ally. – Não temos um violão.
– Não é preciso. Temos nossas vozes e uma fogueira. Vocês sabem o que é cantar a cappella, não sabem?
– Sim – disse Lin. – Música vocal sem acompanhamento instrumental. Todos os instrumentos são feitos pela voz, e até mesmo pelo corpo.
– Pois é. Você foi bem técnica, mas é isso aí. Eu e Gabbe fazemos muitas coisas juntos, e às vezes, bem às vezes, brincamos de cantar a cappella. Gabbe, me dá uma guitarra de Accidentally in Love, Couting Crowns. Essa é pra HaNa.
Gabbe atendeu o pedido, e eles começaram a bater nas próprias pernas no ritmo da música.
No começo, HaNa achou que fosse uma brincadeira. Mas começou a perceber no olhar e na voz de Stux que ele estava falando sério. Ele estava se declarando. No final da música, todos aplaudiram. Mabel começou a pedir, e os outros a acompanharam:
– Beija! Beija! Beija!
Os dois ficaram sem saber o que fazer. Stux achou que não seria legal forçar HaNa a fazer alguma coisa, então disse aos outros.
– Galera, galera... Não. Vamos deixar que as coisas aconteçam naturalmente, certo? Se for pra ser, será.
– Você tem razão, amigo – disse Gabbe. – Daremos tempo ao tempo. Mas já que estamos aqui, vamos continuar com a música.
~
Eles cantaram até a hora de dormir, quando Alex teve que contar outra história, a pedido de Mabel.
– Por favor.
– Mas eu não conheço outra história.
– Tá bom. Seus pais nunca contaram histórias pra você dormir?
– Não exatamente. Mas aposto que alguém aqui tem uma boa história. Alguém?
– Eu tenho. – Disse Esfinge. – Tenho algumas boas histórias pra contar.
Esfinge contou a antiga história do Pequeno Príncipe. Mabel nunca tinha ouvido falar, e ficou encantada com o garoto que morava em um asteroide. Enfim, ela conseguiu dormir. Os outros foram se aconchegando aos poucos. Stux estava limpando seu rifle, quando HaNa se sentou ao lado dele.
– Oi – ele disse.
– Oi, Stux. Obrigada por não... Me obrigar a fazer nada. – Stux baixou os olhos. Ele não esperava por isso. Será que ela não gostava dele? – Ah, e pela canção. Foi maravilhoso. Você deve gostar dessa música.
– Eu a ouvia e pensava se um dia sentiria algo parecido. Agora eu sinto, mas...
– É, eu também.
Stux olhou nos olhos dela, perplexo.
– Como?
– Ah, você sabe... Eu não queria dizer na frente de todo mundo e... Apesar de sermos uma equipe, acho que eles não precisam testemunhar.
– Testemunhar o que, exatamente?
– Isso.
E HaNa o beijou.
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