Notas iniciais
Sim, a última noite, fechar os assuntos não resolvidos e os casais. Let's Read.

Passaram-se alguns dias de escalada e noites se acampamento. E, enfim, chegou o fim do sexto dia. Annika insistiu para que prosseguissem, pois ela já conseguia avistar o último sinalizador. Significava que estavam muito, muito perto.

– Não – disse Alex. – Vamos acampar e partir de manhã. Será melhor entrarmos no Black Hole de dia, não acha, Annika.

– É verdade. Vamos montar acampamento aqui.

Assim, eles fizeram. Seria a última noite deles antes do Black Hole. Talvez, a última noite mesmo. Mas eles tinham esperança de sobreviver ao Black Hole, como Kuni fizera. Eles comeram, conversaram e tentaram passar uns para os outros a sensação de que não estavam nervosos. Mas todos estavam. Nunca estiveram tão perto, mas se aproximavam cada vez mais. No fim da noite, começaram a acontecer as coisas que se esperam em uma última noite. Um grande clima de despedida, a sensação de que tudo acabaria em pouco tempo. Um gostinho de morte. Mas, maior do que o medo era a sensação de ter feito amigos, de ter feito uma família. A sensação de que, mesmo que o fim estivesse próximo, eles estariam juntos como uma família.

Alguns deles tinham assuntos não resolvidos, e sabiam que essa era a melhor chance, o melhor momento para desatar os nós. HaNa estava namorando, e os meninos do BTS deixaram de ser importantes pra ela. Nenhum deles superaria Stux com sua doçura. Essa parte já estava resolvida. Mas ela ainda tinha um pedaço de papel muito importante. A carta de seu pai estava guardada com ela desde criança, e ela nunca havia aberto ou lido. Não esperava ter a carta em seus últimos momentos antes de mergulhar no desconhecido, mas tinha. Ela agradeceu mentalmente à agente Fox, e hesitante, pegou a carta.

Todos naquele lugar pareciam saber do que se tratava. Mas tudo o que eles sabiam era que aquela carta era importante para HaNa. Sabiam disso porque ela tentara esconder a carta em seu uniforme, no primeiro dia na Base Central da Aurum. Ela fora descoberta pela mesma pessoa que lhe devolveu a carta. Todos olharam para HaNa com ansiedade, e Stux estava atento. Ele era o único que sabia o que a carta realmente era. As últimas palavras de seu pai, a única pessoa em sua família de quem HaNa realmente sentia falta. E ela sentia falta havia muito tempo.

O pai de HaNa havia se suicidado por causa de dívidas e deixado a carta. Quando ela tinha quatro anos, a família foi de Core, a antiga Coreia, para Lalysia. O pai de HaNa pediu que ela abrisse a carta quando achasse o momento certo. Para HaNa, não havia momento melhor do que a última noite antes do que era quase um suicídio. Sendo observada por todos, ela abriu a carta e a leu. Com lágrimas nos olhos.

Na carta, Min Hyuk, o pai de HaNa, explicava as verdadeiras razões do seu suicídio. HaNa achava que havia sido um pouco egoísta da parte do pai se suicidar por causa de dívidas, mas já tinha o perdoado. No entanto, o suicídio dele não tinha muito a ver com dívidas. Na verdade, Min Hyuk estava sendo perseguido pela Máfia coreana havia muito tempo. E ele sabia que sua pequena safira, como ele chamava HaNa, assim como sua esposa e seu filho, eram um grande alvo. Algo que a Máfia poderia usar para atingi-lo. Por isso ele tirou a própria vida: para protege-los. Antes de se matar, ele deixou parte do dinheiro que havia acumulado para a família, e a carta para HaNa, com as recomendações. No fim da carta, Min Hyuk dizia que esperava que HaNa entendesse suas razões, que entendesse que ele só queria protege-la. E também dizia que ele cuidaria dela de onde estivesse.

HaNa chorou ao lado de Stux. O pai havia tirado a própria vida por um simples e nobre motivo: Proteção. E por que ela estava indo para a morte? Por uma aventura? Para fugir do cotidiano? Mesmo que estivesse indo salvar Kuni Yovesh, mesmo que estivesse em uma missão de resgate muito nobre, as razões que a levaram até ali não eram. Mas HaNa não se importava mais. Porque ela estava vivendo um grande amor, estava fazendo algo certo com sua vida, algo melhor do que simplesmente viver. E, se estivesse mesmo indo para a morte, ela iria encontrar seu pai.

~

– Alex, você vai contar uma história hoje? – Perguntou Mabel, reservadamente.

– Eu disse que não tenho mais histórias, pequena.

– Você não precisa ter. Basta criar uma.

– Talvez você devesse criar uma.

– Acho que não sou boa com isso. Mas eu sinto que vou precisar de uma história para dormir. Estou com muito medo do que virá.

Alex esticou o braço, para que Mabel pudesse se aconchegar com ele.

– Você não precisa ter medo, princesinha. Você terá nove amigos corajosos para te proteger.

– Eu não sei se quero ser protegida. Mas sei que não vou querer ser protegida se isso significar colocar vocês em perigo. Não adiantará de nada eu ser salva se vocês não continuarem comigo.

– Não pense assim, Mabel. Você tem que pensar na missão.

– Estou cansada de pensar na missão. Eu só tenho 12 anos. Eu não devia estar aqui. Foi bem imprudente da minha parte. Me propus a fazer algo para o qual não estou preparada. Mas a parte mais legal é que eu não me arrependo. Eu conheci as dez pessoas mais legais de Lalysia.

– Dez?

– Se contarmos Melissa, sim. Dez.

– Sim. Mas escute, você nos salvou daquela cobra. Nós estamos em dívida com você, eu já disse isso.

– Disse. Mas eu não considero uma dívida. Não existe dívida entre família. Os membros de uma família não pensam de forma individualista, pensam apenas no todo. Eu salvei o todo, mas é apenas como se o todo tivesse salvado a si mesmo.

– A família também pensa que os mais velhos devem proteger os mais novos. – Disse Alex, de repente se lembrando de seu irmão.

– Quando houver tempo para pensar nisso, você pode até pensar. Mas estamos todos vulneráveis aqui. Não precisamos pensar em quem deve proteger, em quem deve ser protegido. Todos devem proteger a todos e a si mesmos. A única regra é essa. Sem regras, sem dívidas.

– Bom, você é quem sabe. É uma menina muito especial, Mabel.

Ela sorriu.

– Você também, Alex. – Ela disse, e o beijou na testa. Depois, se abraçaram e dormiram.

Alex gostava muito de Mabel. Queria fazer de tudo para protege-la, e estar sempre ao lado dela, mas não a considerava como irmã. Então o que seria? Mabel era pequena demais para namorar. Mas Alex começou a achar que era assim que ela pensava. Embora eles fossem novos e o amor deles fosse mais baseado em conversas e companheirismo do que em beijos, como eles assistiam os outros casais fazerem, Mabel e Alex sabiam. Sabiam que se amavam, e que estavam namorando.

~

Esfinge acordou no meio da noite, estranhou a ausência de Lin, que tinha dormido logo ali do seu lado. Ficou preocupada, mas logo a avistou, sentada numa pedra adiante, olhando para o restinho de montanha que faltava. Esfinge se levantou e foi até ela, embora estivesse sonolenta. E se sentou na pedra ao lado dela.

– Não está conseguindo dormir – disse Esfinge.

– Não tem como dormir. Só consigo pensar no que vamos ver quando chegarmos lá em cima. Se é tão perigoso, por que as pessoas entram?

– Acho que não é aparentemente perigoso. Os perigos devem ser bem disfarçados.

– Mesmo assim. Ninguém nunca voltou pra dizer isso. Sabe, as expedições subiram e olharam para o Black Hole. Várias pessoas o viram, mas não estavam lá dentro. Poderiam voltar. Mas ninguém voltou, nunca. Por quê?

– Cada um tem seus motivos. Imagino que a curiosidade seja maior. – Elas ficaram observando a escuridão da montanha em silêncio por alguns segundos, até que Esfinge perguntou. – Acha que um de nós deve voltar depois de ver o Black Hole?

– Não exatamente voltar, mas esperar. Quando descermos, alguém deve ficar e ver o que acontece. Acho que é mais prudente.

– Realmente. E foi muito inteligente da sua parte pensar nisso, Lin. – Houve mais um pouco de silêncio, até que Lin fez uma pergunta.

– Esfinge...

– O quê?

– Você está com medo?

– Bom, acho que não tem como não estar com um pouquinho de medo. O Black Hole não uma colônia de férias. É um lugar perigoso e misterioso, do qual ninguém voltou. Tudo o que estamos fazendo é fingir que acreditamos que não é tão ruim assim.

– Talvez não seja tão ruim assim. Nós estamos aqui porque somos diferentes. É possível que tenhamos uma chance. É possível que, de algum jeito, possamos sobreviver, como Kuni.

– Não sei como a nossa idade pode influenciar nisso, Lin, mas espero que você esteja certa. Eu vim pra cá querendo uma aventura. Mas talvez essa grande aventura seja a última, e talvez não tão divertida quanto eu pensei que seria. Quero dizer... Claro que amei conhecer todo mundo, principalmente você. Vivemos muitas coisas em grupo, nos tornamos uma família. Mas eu queria que a situação fosse outra.

– Não seria nada mal. Poderíamos ter nos conhecido no colégio. Seríamos a melhor turma.

– Não pense pequeno, Avelin – disse Esfinge, rindo. – Podíamos ter sido escolhidos pela Aurum para ser um time que testa os jogos e equipamentos mais incríveis do mundo. A Aurum tem tanta tecnologia, e nós nos tornamos agentes dela sem fazer parte disso. Somos apenas sacrifícios, no máximo uma esperança de trazer o queridinho de volta.

– Não diga isso. Nos tornamos mais que isso para a agente Fox, e você sabe disso.

– Eu sei. Ela é especial. É como se fôssemos dez irmãos, e ela, a mãe. Mas para o resto da Aurum, somos o quê? E não é um resto pequeno.

– Não, não é. Não me importo com o que eles pensam, mas eu concordo com você. As coisas podiam ser diferentes. Eu gostaria de poder rir e me divertir com todo mundo, em vez de gastar todas as minhas forças nessa escalada, preocupada em manter a integridade do grupo, olhando para os lados com medo de uma cobra coral e temendo o que vamos ver do outro lado. Queria mesmo que tudo fosse diferente. Mas não adianta pensar no que poderia ser. Ou no que pode ser. Estamos fartos de ouvir e repetir essas palavras, mas elas são verdadeiras e necessárias: Temos que nos focar em nossa missão.

– Sim, temos. Kuni pode estar nos esperando agora mesmo. Mas também pode estar morto. Eu tenho muito medo disso, Lin. Que tudo o que vivemos tenha sido em vão. E quanto mais perto eu chego... Mais medo eu tenho de que nenhum de nós sobreviva. Eu queria viver essa aventura, mas quero voltar dela. Mabel viveu só doze anos. Todos nós ainda somos muito jovens, temos muito a viver. Há tantas coisas que poderíamos fazer e não fizemos... Eu nunca vivi um grande amor. Dá pra perceber certa urgência em nosso grupo, eles querem se juntar, formar casais e viver seus amores. Amar enquanto podem. Alissa e Gabbe... Kai e Annika... HaNa e Stux... Até mesmo a pequena Mabel parece estar se desenrolando com o Alex. E nós ficamos aqui. Lin, eu quero poder voltar e viver o que ainda não tive tempo. Mas cada vez mais cresce a sensação de que eu não vou voltar. Nenhum de nós vai.

Lin segurou a mão de Esfinge. As duas tinham estado muito próximas.

– Vamos voltar sim. E se não voltarmos, é porque não era pra ser. Se não vamos viver mais nada, ao menos vivemos até aqui. Sabe, eu sinto a mesma agonia que você. Essa aproximação do topo, essa sensação de morte... Esse clima mórbido que parece nos cercar deixa tudo tenso e nos faz sentir o peso do que deixamos para trás. O que vivemos e o que ainda não pudemos viver. Assim como você, eu não amei ninguém. E sinto certo arrependimento por isso. Quando meu pai não era tão rigoroso e me contava histórias de princesas, eu sonhava com o amor e com o felizes para sempre. E agora cai a ficha: é possível, ou devo dizer provável, que eu morra sem amar. Sem ser amada. — Uma lágrima fina escorreu pelo rosto de Lin, e ela encarou Esfinge, que parecia sentir sua dor. E então elas se abraçaram muito forte, por muito tempo. — Parece que, no fim, só teremos uma à outra, minha amiga.

– Nós não podemos deixar isso acontecer, Lin.

Elas se soltaram, enquanto Lin franzia o cenho.

– Como assim?

– Não podemos permitir que esse seja nosso fim. Não podemos partir sem amar e ser amadas. Não podemos morrer sem viver um grande amor.

Aos poucos, Avelin começou a compreender o que Esfinge queria dizer, e um sorriso começou a se esboçar em seu rosto.

– Você está certa. Nós não podemos.

Elas se inclinaram muito aos pouquinhos até que seus lábios se tocassem.

Notas finais
Você está boquiaberto agora? Espero que sim. Eu sei que você não esperava #GALLY, mas também sei que #ELLIN é menos improvável ainda *-* Encontro vocês nos comentários.