Black Hole - Interativa
15 O Primeiro Dia
Notas iniciais
Eles se levantaram junto com o sol, arrumaram as coisas e partiram. Em alguns morava a ansiedade de saber o que os esperava. Em outros, o medo pelo mesmo motivo, e nenhuma vontade de prosseguir. Mas eles precisavam prosseguir. Então subiram, e levaram cerca de quinze minutos para chegar a mais uma haste fincada no chão, com um brilho verde na ponta. Eles pararam a dois metros da haste e Annika parou ao lado dela.
– O último sinalizador – disse. Sua voz soou chiada através do comunicador.
– Significa – disse Kai – que ninguém que passou desse ponto voltou.
O clima de tensão se instalou entre eles. Começaram a trocar olhares no silêncio por vários segundos até que Ann respirou fundo e disse:
– Eu vou – ela se virou, mas antes que desse um passo, Alex disse, em tom firme.
– Não. Eu sou o líder. Eu devo ir.
Annika foi até Alex e segurou seus ombros com um sorriso.
– Sim, você é o líder. E, se algo acontecer, o grupo precisará de mim. – Dizendo isso, ela o soltou. Kai abriu a boca para dizer algo, mas Annika sabia o que ele diria. Ele não queria que esse “algo”, que provavelmente era ruim, acontecesse com Annika. Então ela o cortou antes que ele pudesse verbalizar seus pensamentos. – Mas não vai acontecer nada. Eu vou apenas ver se é seguro, e não consigo imaginar como isso pode me fazer algum mal. Esperem aqui.
Annika voltou ao sinalizador, mas dessa vez, passou por ele. E subiu devagar, cada vez enxergando mais. Ela andou em passos lentos até parar bem no alto.
– Annika? – Perguntou Kai, preocupado.
– Vocês precisam ver isso – ela murmurou, com um sorriso.
Alguns se entreolharam. E depois de alguns segundos de hesitação, eles subiram até onde Annika estava, em passos lentos. Apesar de estar usando um capacete com suplemento de oxigênio, a garota parecia ter perdido o fôlego. Logo, eles também perderam. Não por realmente estar faltando ar, mas pela emoção de finalmente ter chegado e olhado para o Black Hole, o famoso Black Hole, do qual ninguém jamais voltou. Eles tinham imaginado coisas mirabolantes que poderiam compor a cordilheira com seu tamanho perigo. Mas nada tão simples como uma floresta.
A floresta foi, de fato, a primeira coisa que notaram. Muito abaixo deles, as copas de árvores faziam parecer que era possível mergulhar no mar de árvores. A única coisa visível além das folhas era uma coisa estranha, parecia uma linha de rocha montanhosa que desenhava uma espiral perfeita da borda até o centro, terminava em um grande círculo. Mas, se estava a uma altura superior às folhas, ou as árvores eram muito baixas ou a linha era muito alta. Mas a coisa mais impressionante no interior da cordilheira eram as paredes. O grupo havia percorrido um longo caminho na subida, mas simplesmente não havia caminho para descer. O chão acabava um ou dois metros à frente dos pés de Annika. Por toda a borda ao redor, eles viam paredes lisas do lado de dentro, como se alguém tivesse pegado uma faca gigante e cortado o caminho da descida. Estranhamente, a cordilheira era circular por dentro, ao contrário do que sugeria o exterior irregular.
– Nossa – disse Esfinge, bastante surpresa. – Isso é...
– Completamente fora do que pensamos – completou Alex, dirigindo um rápido olhar para ela, entre uma e outra contemplação do que estava à frente.
– Por isso não voltaram – disse Lin. – Não tem como sair.
– E tem como entrar? – Perguntou Ally, incrédula.
– Que tal aquilo? – Mabel apontou para um ponto na beirada, alguns metros à direita de onde estavam. Era uma escada íngreme de rocha montanhosa.
– Isso não me parece nem um pouco seguro, Mabel – disse Alex, atencioso.
– Mas é o que temos – concluiu Stux. – Parece ser o único caminho.
– Esse único caminho é o mesmo caminho que todos os outros tomaram. Não é óbvio?
– É, Ally, é óbvio sim, mas não viemos aqui pra olhar e ir embora. Viemos salvar Kuni Yovesh.
– E é isso o que vamos fazer – disse Alex. Ele sabia que precisava levar o grupo pra lá, mas queria deixar uma pessoa em especial. – Mas um de nós deve ficar. Mabel.
– O quê? Nem pensar! Eu vou com vocês.
– Mabel, escuta. – Disse ele. – Precisamos de alguém aqui em cima para nos ajudar caso as coisas fiquem difíceis.
Mabel olhou para o que estava abaixo dela. A imponência de uma floresta desconhecida. Será que Kuni Yovesh estava em algum lugar ali embaixo? Que perigos maravilhosos poderiam estar escondidos? Ela tinha achado que, quando visse o que havia lá, entenderia tudo, teria todas as respostas. Mas a floresta só a deixava mais curiosa. Era um lugar que precisava ser desbravado por ela.
– Não foi pra isso que eu vim – ela disse. – Eu quero ir. – Ela olhou para o grupo, que a observava atentamente. – Eu sei o que vocês estão pensando. Não querem que eu fique aqui pra que eu possa ajudar. Querem me deixar para me proteger. Eu sei que vocês me acham pequena, indefesa, ingênua e até mesmo idiota. Uma idiotice que perdoam por eu ser criança. Vocês me consideram o elo fraco do grupo, querem me proteger... Mas eu cansei disso! Cansei de ser protegida. Às vezes vocês se preocupam mais comigo do que com a missão. Mas a missão é mais importante. Eu amo cada um de vocês, mas precisam parar de se preocupar comigo.
– Não! – Disse Alex, como se fosse óbvio. – Não vou deixar de me importar com você. E não é porque você é “o elo mais fraco”. É porque você é especial. Pra todos nós. É por isso que queremos te proteger.
HaNa se mexeu desconfortavelmente, como se quisesse dizer algo, mas não soubesse como. Stux estava ao lado dela, e tocou carinhosamente seu braço.
– Está tudo bem com você, HaNa? – A garota deu de ombros e começou a falar em voz baixa. Mesmo assim, por causa do comunicador, todos ouviram perfeitamente.
– Gajog.
– O quê? – Perguntou Alex, sem entender. Era pra ele que ela estava olhando. Era ele quem deveria ouvir.
– Uma palavra coreana. Gajog quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar, ou esquecer. Temos nos conhecido melhor, e nos tratado como uma família desde que nos conhecemos. Acho que, se realmente queremos proteger a Mabel, devemos trazê-la conosco, e não deixa-la aqui. Acima de tudo, temos que trata-la como uma irmã e respeitar suas decisões. Ela deseja ir, então irá. Digo, depende de você, líder.
Alex olhou de HaNa para Mabel. O antigo coque desleixado agora estava arrumado e bem feito. O chão estava desnivelado, e ela estava na parte mais alta. Mabel parecia mais forte e independente, como se a escalada a tivesse moldado para ser uma heroína. Quando Alex a conheceu, ela parecia tão frágil que poderia se quebrar em milhões de pedacinhos se caísse no chão. Mas ela tinha mudado, evoluído. Quase parecia capaz de cuidar de si mesma. Alex achava que ela nunca estaria pronta para isso, não porque não conseguiria, mas ele simplesmente porque ele não queria parar de protegê-la. Mas ele precisava dar a ela um pouco de liberdade.
– Ao menos vá atrás de todos – pediu ele, depois de um suspiro.
Pouco depois, eles começaram a descer. Alex foi na frente de todos. Pelo tamanho da escada, demoraria um bom tempo até chegarem ao solo. Até onde podia ver, eles teriam que dar uma enorme volta em toda a circunferência interna.
Mabel começou a ter a sensação de que a escada estava com leves vibrações. Mas achava que deveriam ser apenas as passadas firmes dos nove companheiros gerando aquele efeito. A escada era bem íngreme, com degraus muito altos e sem nenhum apoio na parte de dentro, de modo que Mabel descia cada degrau devagar e com cuidado, se escorando nas paredes rochosas. Aos poucos, ela foi se distanciando do grupo, pois não era veloz como eles. À frente de Mabel ia Stux, uma pessoa que certamente se preocuparia com a pequena, se já não tivesse uma garota frágil para cuidar à frente. HaNa não estava muito melhor que Mabel.
A pequena garota de 12 anos sentia que estava precisando de um pouquinho de ajuda, mas não queria parecer fraca. Queria se mostrar independente, então, mesmo tendo um comunicador para pedir ajuda, ela não se pronunciou, e continuou a descer o melhor que pode. Ela começou a ficar com medo de que a ouvissem arfando pelo comunicador, e sua respiração falha, mas felizmente – ou talvez não – ninguém esboçou reação a isso.
Quanto mais eles desciam, mais se confirmava a certeza de Mabel. A escada estava tremendo um pouquinho. Ela decidiu parar para averiguar.
Ela se apoiou na parede e se virou para os degraus que já tinha descido. Ela apertou um pouco os olhos e teve certeza de que, lá em cima, os degraus tremiam violentamente.
– Gente – disse ela, finalmente. Estava começando a ficar preocupada demais com a segurança da escada. Mas não ouviu ninguém respondê-la. Ela virou novamente, onde os outros continuavam a descer tranquilamente, ou tendo pequenas dificuldades. — Gente! — Ela gritou dessa vez, mas não houve reação. Ela percebeu que não estava ouvindo nada, nenhuma respiração. As pequenas luzes nos controladores que ela tinha no bracelete e no pescoço haviam se apagado. O suprimento de ar não estava chegando. Nada estava funcionando.
Mabel se desesperou. Ela tinha um problema e não conseguia comunicar. Era como ela tinha estudado: Ninguém se comunicava de dentro do Black Hole. Kuni tinha feito aquilo com vibrações, mas muito depois de sua entrada. A questão era que, com os capacetes de vidro, eles não ouviam absolutamente nada do lado de fora, e mesmo se ouvissem, não ouviriam Mabel com seu capacete. Nenhum dos nove parecia notar o que estava acontecendo.
Mabel sentiu um tremor mais forte e se voltou para a escada. A parte de cima tremia violentamente. Em pouco tempo, começou a sumir. Mabel arregalou os olhos ao perceber que a escada estava desmoronando.
– Essa não. Gente!
Mesmo tendo consciência da falha na comunicação, Mabel tentou fazê-los ouvir enquanto descia o mais rápido que podia. Ela tinha quer alcançá-los, sinalizar de alguma forma. Não lhe ocorreu tirar o capacete. Ela desceu saltando, quase sem fôlego, e percebeu a pedra começando a rachar sob seus pés. Ela saltou para o próximo antes que o degrau desmoronasse, mas sabia que não poderia fazer aquilo para sempre. Estava quase alcançando Stux e HaNa quando o chão desabou sob seus pés.
Mabel gritou sem ser ouvida. E caiu. Os degraus foram caindo aos pés de cada um deles. Mabel caiu por menos de um segundo e se chocou contra algo relativamente macio. Uma cachoeira de terra com fragmentos de rochas que a machucavam. Em pouco tempo, todos gritavam inutilmente e tentavam se segurar, enquanto desciam na cachoeira a uma velocidade absurda como se fosse um tobogã. A terra rasgava as roupas e feria a pele.
E tudo foi uma agonia até que chegassem ao solo, um pouco soterrados pela terra e pelas pedras.
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