Black Hole - Interativa
3 Estranho, eu?
Notas iniciais
OSLO, 00:24
– Não chora, Peter, faz silêncio, por favor – Alex sussurrou. O pequeno Peter tentou não fazer barulho, mesmo que seu rosto estivesse cheio de lágrimas. Alex abriu uma pequena fresta na porta do armário, só o suficiente para tentar ver o que estava acontecendo. Mas os gritos do lado de fora já eram suficientes para ter uma noção. A mãe berrava palavras sem sentido. O pai gritava com ela. E ela apanhava. Sim, havia motivos para Peter chorar. E havia motivos para Alex escondê-los. Lá fora, o pai descontrolado já andava pela casa e gritava pelas crianças. Alex fechou a porta completamente. O pai não era muito esperto. Como não os procurou direito, não os encontrou em canto algum. Já era tarde da noite, e ele saiu para beber. Assim que Alex teve certeza que ele tinha ido embora, saiu do guarda-roupa e pegou o irmão no colo. Ele o colocou em cima da cama.
– Fique aqui, está bem? Vou ver como a mamãe está.
– Eu também quero ver a mamãe!
Alex sabia que Peter diria isso. Mas não queria deixar o irmão ver a mãe como ela estava. Certamente não estava muito bem.
– Eu sei. Mas preciso que você fique aqui dentro, entende?
– Tudo bem.
Alex saiu do quarto e fechou a porta. Foi até a mãe, que estava jogada no chão da sala. Ela estava chorando, toda machucada, com manchas vermelhas, roxas e alguns ferimentos sangrando. Alex passou algum tempo cuidando dela. De repente, Peter apareceu, e deu de cara com o irmão mais velho cuidando dos ferimentos.
– Peter... Disse pra ficar no quarto.
– Eu quero ajudar.
– Peter... – A mãe dos garotos estendeu a mão, e Peter correu até ela. Peter chorou por ver a mãe sofrendo tanto, e Alex observou. Depois de algum tempo, ele pegou um band-aid na caixa de primeiros socorros e entregou a Peter. Ele sorriu, e ajudou o irmão a cuidar da mãe. Ela disse algo sem sentido, mas era possível sentir amor em suas palavras.
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– Isso tem que mudar, Alex.
Alex colocou a coberta sobre Peter, que estava deitado na cama.
– Eu sei. Eu vou dar um jeito nisso, Peter. Eu encontrei uma maneira de melhorar tudo pra nós.
– Está falando do que passou no jornal ontem?
– É. Eles não foram à escola hoje. Mas irão logo.
– Você vai nos deixar sozinhos?
– Se eu for selecionado, vou levar vocês pra tia Lucy. Ela vai cuidar de vocês até eu voltar.
– E se não voltar?
– Mas eu vou voltar. Confia em mim. – Alex se inclinou e deu um beijo na testa do caçula. – Boa noite, Peter.
– Boa noite, Alex.
Na manhã seguinte, Alex foi para o Instituto Letcher. Foi comunicado que, após as aulas, os representantes da Aurum fariam entrevistas. Alex sorriu. Assim que a aula acabou, ele correu para lá, e foi o primeiro a chegar, de modo que já esperavam por ele.
– Qual o seu nome? — O rapaz da Aurum perguntou.
– Alex Greenwich.
– Idade?
– 13 anos.
– Ok, senhor Greenwich, por que quer ir ao Black Hole.
Alex respirou fundo. Queria dizer “porque minha mãe é louca e meu pai é um tirano”, mas inventou algo que o fizesse passar.
– Eu acompanho a história do Black Hole desde muito pequeno. Sempre tive interesse e curiosidade em relação a ele. Quando ouvi a história de Kuni, fiquei com um pouco de pena do garoto, mas admirei sua coragem. Fiquei pensando se faria o mesmo. Agora que precisam de pessoas para busca-lo... Não sei, eu sinto que posso fazer isso. E eu quero ajuda-lo.
– Entendo. Não tem medo de deixar a família?
– Eles vão me entender. Eles sabem que uma das minhas grande motivações é buscar uma vida melhor para eles.
Ninguém anunciou que os selecionados seriam premiados se voltasse, mas era um pouco óbvio. Seriam heróis nacionais, admirados por toda Lalysia. Só em entrevistas e propagandas na televisão, ganhariam milhões de nuris.
– Sim. Senhor Greenwich, o que tem a oferecer a essa expedição.
Alex pensou um pouco, mas sem se mover, sem deixar transparecer a hesitação.
– Minha coragem. Minha determinação. Minha força.
– Força? Um menino magrinho como você?
– Senhor, eu sou mais forte do que pareço. Como posso dizer... – Alex pensou em todas as vezes que enfrentou seu pai e sem querer (ou querendo) o deixou sangrando. Em todas as vezes que ele arremessou objetos pesados, socou nas paredes e fez coisas surpreendentes quando estava com raiva. Em todos os acidentes escolares com meninos que ficaram com problemas dentários após cutuca-lo. – Eu tenho um pouco de prática.
– Tá – disse o cara, sem confiar muito. – Algo mais?
– Eu sou bom em me esconder. Sempre fui, mas a vida me ensinou um pouco mais. E sou rápido, corro muito rápido.
– Senhor Grennwich, não queremos crianças que brinquem de pique-esconde e pique-pega.
O homem já estava começando a irritar Alex, mas ele sabia que valia a pena manter a linha.
– Olha, já é alguma coisa, moço. Acho que uma criança que seja boa em pega-pega se sai melhor nos treinamentos do que crianças que vivem jogando vídeo-game.
– Será? No vídeo-game se aprende estratégias, golpes e...
– Cada um com seu meio. Eu ainda acho que disposição física conta alguma coisa.
– Então tá. Pode ir.
– O quê? É só isso?
– Alex Greenwich, se por algum milagre você for selecionado, o buscaremos em sua casa.
Alex se levantou e foi para a porta.
– Só uma coisa. Pode me avisar com um pouco de antecedência?
– Tchau, senhor Greenwich.
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FJORDANE, 13:00
– Boa aula, Mabel.
– Obrigada, pai! – A pequena deu um beijo no rosto de Maxwell e saiu do carro, correndo direto para o portão da escola. Ela foi animada para a sala, assistiu à aula de ciências, e depois, foi avisada de que haveria entrevistas para a tal expedição para o Black Hole. Assim que saiu da sala, Mabel foi para a fila, onde só havia alunos maiores.
Mabel não tinha contado aos pais, mas desde que ouvira a reportagem, estava louca para ir ao Black Hole. Mal podia esperar para as entrevistas chegarem ao Centro de Formação Professor Mateus Schaffer. Mais conhecido por Schaffer na região.
Quando chegou a vez dela, a sorridente garota entrou. A moça indicou o lugar para sentar.
– É para sentar? — A moça olhou para ela como se não tivesse entendido a pergunta, mas assentiu, e Mabel foi se sentar. – Qual o seu nome, moça?
A mulher olhou para Mabel com uma cara estranha. Afinal, era essa a pergunta que ela deveria fazer. Mas, felizmente, a moça compreendeu que Mabel era de uma idade pouco avançada, e estava apenas curiosa, tentando ser simpática. Então, a mulher sorriu e apontou para a plaquinha em seu uniforme da Aurum.
– Sou a agente McCourtney. Leslie McCourtney.
– Ok, senhorita agente Leslie McCourtney.
– E o seu nome, qual é?
– É Mabel Schunk. – As perninhas de Mabel se balançavam na cadeira quase alta demais para ela.
– Você tem quantos anos, Mabel?
– 12. – Mesmo para 12 anos, Mabel parecia ingênua demais.
– Entendo. Mabel, pode me dizer por que quer ir ao Black Hole?
– Para salvar Kuni, ué! Ah, e porque eu quero saber o que tem lá.
– E você não tem medo?
– Não, claro que não! Eu sou corajosa, como Kuni! Quero ser uma heroína! Quero saber se o Black Hole é como eu imagino.
A agente McCourtney pensou em perguntar como a Mabel como ela imaginava a cordilheira, mas ficou com medo. Além disso, a pergunta não constava na entrevista.
– Ok, Mabel. Quero perguntar uma coisa. Por que você acha que será útil para salvar Kuni Yovesh.
– Talvez por causa disso. – Mabel estendeu o braço, e mostrou uma pequena balestra de mão feita com materiais simples. Ficava agarrado ao pulso como um bracelete, e era controlado pelos dedos. Mabel atirou na parede atrás da agente McCourtney, o que a assustou.
– Mabel... Onde conseguiu isso?
– Meu irmão Rafael me ensinou a fazer. E eu sou boa em... Como é o nome? Esqueci o nome, mas eu sou boa em acertar o que eu quero quando atiro.
– Ah, o nome disso é mira.
– Isso! Tenho boa mira. E sei... Entender os animais.
– O quê?
– Eu entendo! Eu sei quando eles estão com fome, quando estão com raiva, quando querem brincar e quando querem atacar. É só observar o comportamento deles!
– Entendi. Bom, Mabel, se você for selecionada, a buscaremos em sua casa, tudo bem?
– Tá.
– Pode ir agora.
– Quando vão saber se eu fui selecionada?
– Quando selecionarmos.
– E quando isso vai acontecer?
– Depois que as entrevistas se encerrarem em todas as províncias.
– Isso vai demorar?
– Não, Mabel. Deve demorar só mais um dia. Então, depois de amanhã, poderemos ter um resultado.
– Tudo bem. Obrigada dona moça agente Leslie McCourtney!
Quando chegou em casa, Mabel teve vontade de contar a Laura, ou a Rafael, seus irmãos adotivos, o que tinha acontecido. Poderia até mesmo contar para o pai adotivo, Maxwell, ou para a mãe adotiva, Jennyfer. Mas Mabel ficou quieta. Ela tinha a ligeira impressão de que os pais não permitiriam que ela fosse.
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TRONDELAG DO SUL, 16:00
– Finalmente! Mal posso esperar para me inscrever.
– Ahn... Você quer fazer isso por que...?
– Stux, meu amigo, isso é o que eu sonhei para a minha vida!
– Tá, Gabbe, eu sei que você têm estudado o Black Hole, que seu pai trabalha na Aurum, mas... Você não acha que é um pouquinho arriscado, não?
Gabbe colocou a mão no ombro do amigo.
– Stux, eu sempre quis ver o Black Hole com meus próprios olhos. E vou fazer isso, nem que seja a última coisa que eu faça!
– Mas você já tentou, e não deu certo.
Gabbe tirou a mão de Stux e seu pensamento se perdeu.
– É verdade. Aquele Kuni deu uma sorte. Eles estavam querendo mesmo um garotinho, e não um adolescente. Mas agora, Stux, eles querem crianças e adolescentes. Agora, é a minha hora, eu finalmente vou conseguir.
– Espero que eu consiga também – disse Stux, empurrando os óculos um pouco mais pra cima. Gabbe se virou para ele repentinamente, com as sobrancelhas arqueadas.
– Oi?
– Que foi?
– Você espera o quê?
– Espero que eu consiga?
– Stux, você também vai tentar?
– Por que não?
– Porque você acabou de dizer que é perigoso!
– E não é?
– É. Mas...
– E você vai mesmo assim.
– Mas eu tenho motivos pra ir!
– E eu não tenho motivos pra não ir. O que eu tenho a perder, Gabbe?
Os ombros de Gabbe caíram. Stux não tinha família desde os 12. Vivia no orfanato desde que seus pais e sua irmã foram assassinados dentro de casa em um assalto.
– Stux, eu sou seu amigo. Se vai fazer isso, eu vou te apoiar?
– Obrigado.
– Então, vamos esperar dar seis horas. É a hora da entrevista.
– A hora da saída.
– Sim, meu caro amigo. A hora de mudar nossas vidas.
Quando deu a hora, Gabbe e Stux foram para a fila. Gabbe entrou primeiro, e se sentou no local indicado.
– Nome?
– Gabriel Nicacio.
– Idade?
– 17 anos.
– Por que quer ir ao Black Hole?
– Ahn... – Gabbe pensou um pouco, e tentou embelezar a verdade. – O meu pai, Eleno Nicacio, é cientista da Aurum. Eu e ele sempre fomos atraídos pelo mistério do Black Hole, eu sempre quis desvendá-lo. Já tentei uma vez, na vez em que escolheram Kuni Yovesh. Agora, me sentirei honrado em ir busca-lo.
– E o que o senhor tem a oferecer?
– Como?
– O que tem a oferecer ao Black Hole? O que tem a oferecer à expedição?
– Ah... Minha força! Espere. Minha inteligência. Eu sei bastante sobre o Black Hole, como disse, meu pai... Enfim, você entendeu. Mas acho que nada é mais valioso que a coragem, não acha? Estar disposto a fazer uma coisa dessas, e duas vezes seguidas? Pra tentar duas vezes a pessoa tem que estar bem empolgada, e com certeza se esforçará para atingir seu objetivo.
– Senhor Nicacio... Se for escolhido, o buscaremos. Boa noite.
– Ah... Acabou?
– Sim, você pode ir.
Gabbe saiu, um pouco sem entender, e deu uns tapinhas nas costas de Stux, antes que ele entrasse e se sentasse.
– Nome.
– Aeron Hennessy.
– Idade.
– 17.
– Ok. Por que quer ir ao Black Hole?
– Porque quero saber como é lá. E, sabe... Eu não tenho muito a perder por aqui, então, acho que posso ser muito útil.
– Muito útil, você disse. E isso nos leva a nossa próxima pergunta. Como você será útil.
– Meus pais eram militares, senhor. Tenho conhecimento na área, e posso ser de grande serventia, talvez até mesmo para guiar e instruir os outros.
– Seus pais eram militares?
– Eram. Eles faleceram, senhor.
– Entendi. Senhor Hennessy, se for escolhido, o buscaremos em sua casa.
– Tudo bem.
Stux saiu de lá. Logo que o fez, ele e Gabbe começaram a conversar.
– Como foi? – Perguntou Gabbe.
– Não sei. Achei muito rápido. Talvez ele não tenha ido com a minha cara.
– É rápido com todo mundo, Stux. Não perca a esperança só por causa disso.
– Mas e você, Gabbe? O que achou da sua entrevista?
– Achei curta, admito, mas talvez eu tenha ido bem. Não tenho certeza.
– Bom, só nos resta esperar.
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