Black Hole - Interativa
4 Diferenças
Notas iniciais
FINNMARK, 6:00
– Bom dia, crianças.
Todos no Orfanato Norkse responderam, exceto um.
– Kai, não vai nos responder?
Kai suspirou fundo e disse:
– Talvez.
– Ah, Kai, por que faz essas coisas?
– Não sei.
– Tudo bem. Vocês tem que comer logo, para ir para a escola, ok? E não se esqueçam, se pessoas estranhas aparecerem na escola para entrevistar vocês...
– Não devemos aceitar – disseram todos. Exceto Kai.
~
Ao contrário daquelas crianças bobas, Kai era inteligente e sabia do que a Sra. Vane estava falando. E ele não pretendia obedecê-la. Como a Sra. Vane previu, ainda no primeiro tempo de aulas foi anunciado que os representantes da Aurum fariam entrevistas que começariam nos intervalos, e se não desse tempo, se estenderiam para o fim da aula. Mas, se Kai não conseguisse pegar a sessão do intervalo, e tivesse que ficar depois, a Sra. Vane acabaria descobrindo o que ele fez. Possivelmente brigaria com ele, talvez até o castigasse, embora os castigos da doce mulher sempre fossem simples e infantis, como “hoje você não vai brincar com os outros”. Mesmo assim, Kai não queria que ela descobrisse antes do tempo, pois poderia tentar impedir. Por isso, assim que o sinal bateu, ele correu para a pequena fila. Sim, estava pequena, mas isso não diminuiu sua preocupação. Afinal, o intervalo também era pequeno. Kai não se importou com a fome que passaria por estar perdendo o precioso tempo do lanche com a entrevista. Faltava menos de um minuto para o intervalo terminar quando ele foi chamado, e se sentou.
– Nome?
– Kai Goran Muorbjorn.
– Como?
– Mu, Orb, Jorn.
– Que seja. Idade.
– 14.
– Está bem, senhor Mu... Senhor Goran. Por que quer ir ao Black Hole?
– Quero viver algo novo.
– Só isso? Não me parece um bom motivo.
– Tanto faz.
– Me admira que alguém em sã consciência queira fazer isso, quanto mais sem motivos.
– Acho que você está errado. E não estou falando da sua opinião.
– Como?
– O senhor trabalha em uma organização científica. Não deveria estar disposto a fazer tudo pela ciência?
– O que você tem a oferecer?
– Primeiramente, coragem. Mais coragem do que o senhor, e peço perdão se sou sincero, mas, fala sério, né... Segundo... Não sei. Acho que o senhor vai ter que me escolher para descobrir.
– Garoto... Você tem algum problema?
– Sim.
– Então?
– Todo mundo tem problemas.
– Não vai me contar.
– Acho que isso não faz parte da minha entrevista. Não quero dizer a um estranho mais coisas do que o necessário.
– Mas você já disse mais do que o necessário. Me acusou de falta de coragem. E eu o invejo. Pela coragem que eu não tenho, e por ser verdadeiro.
– Então quer que eu te conte meus problemas pra você se sentir melhor? Se sentir superior mesmo que seja medroso?
– O quê? Não! Olha, você é um menino interessante. Eu só quero saber mais sobre você.
– Tanto faz.
– Por favor, me conte. Eu posso te ajudar.
Essa era a frase que Kai estava esperando.
– De que tipo de ajuda você está falando?
– Ah, não sei. Conversar...
– Não preciso desse tipo de ajuda. O que eu preciso é ir para o Black Hole.
– Entendo. Quer me contar? Eu posso te ajudar. Do jeito que você precisa.
– Ah, sim. Meu maior problema é não agradar as pessoas. E isso não acontece porque eu não me esforço.
– Por que não?
– Por que me esforçar? Eu não vejo sentido em fingir ser algo que não sou. Eu fui deixado no orfanato quando era pequeno. Mas eu fui adotado. E sabe o que aconteceu? Me devolveram.
– Porque você não agradou.
– Porque eu não quis agradar. Eu não quis fingir. Se alguém se agradar comigo, se agradará pelo que eu sou de verdade.
O sinal tocou.
– Entendi. Olha, Kai, você agradou a mim. E eu farei o possível para te ajudar. Mas agora, você tem que ir. Se você for selecionado, buscaremos você no orfanato. Quer que eu avise com antecedência.
– Não. Por favor. Ninguém deve saber antes do tempo.
– Tudo bem. Foi um prazer conhece-lo, Kai.
~
– O que você estava fazendo na sala de entrevistas?
– O que você acha, Lucy? Fui perguntar onde era o banheiro.
– Engraçadinho. Kai, a Sra. Vane disse para não aceitarmos...
– Dane-se o que a Sra. Vane disse. Ela não é minha mãe. Ela não manda em mim.
– Ela cuida de você desde que se entende por gente, deveria ter um pouco de consideração. Você deve muito a ela.
– Não. Não devo nada a ninguém. A partir de agora, eu vou tomar conta da minha vida. Chega de orfanato. Chega de pessoas fingindo que não gostam de mim.
– Eu gosto de você, e você sabe que não estou fingindo.
– E você sabe que eu não estou falando de você.
– Kai... Nem sabe se vai ser escolhido. Já está dando adeus ao Norkse?
– Ainda não. Eu tenho grandes chances, mas nada está confirmado. Se eu não for escolhido, tudo vai continuar como está. Mas, se eu for escolhido, minha vida vai mudar. E, ai sim, adeus Orfanato Norkse.
– E adeus, Lucy.
– Você vai ser a parte mais difícil. Mas eu não vou te abandonar. Quando eu voltar...
– Quando você voltar? Ninguém volta do Black Hole, Kai.
– Isso está começando a mudar. Aquele garoto é a prova disso.
– Sei. Bom, eu vou ficar muito preocupada se você for. Você sabe, eu gostaria que encontrasse uma família, que mudasse sua vida, mas o Black Hole é um caminho um tanto exótico. E pode ser um caminho sem volta.
– Talvez.
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ROGALAND, 9:00
– Sua vez de sacar.
Elas amavam ter HaNa no time. Ela era a melhor jogadora. HaNa deu o primeiro saque, tão perfeito que foi direto no chão inimigo. O segundo saque, eles conseguiram pegar. Devolveram para o time de HaNa, mas jogaram fora. Resumidamente, HaNa ficou sacando até vencer o segundo set. As meninas foram correndo com ela para comemorar. Eles a ergueram, e HaNa olhou para a arquibancada, e percebeu que havia pessoas estranhas ali. Pessoas uniformizadas. Céus, será que finalmente tinha chegado? E a estavam observando.
Após a comemoração, era hora do intervalo entre o segundo e o terceiro set. A treinadora Hilery foi falar com HaNa.
– Parabéns, HaNa, você foi ótima como sempre.
– Obrigada, treinadora Hilery. Ahn... Quem são aquelas pessoas?
HaNa apontou para os uniformizados que ainda olhavam para ela.
– Ah, sobre isso que eu vim falar. Eles são representantes da Aurum. Mais tarde, eles se disponibilizarão para entrevistas e...
– Então são eles! Finalmente chegaram aqui na Sheulberg.
– Eles querem falar com você.
HaNa de repente perdeu o fôlego.
– É sério?
– Sim. Eles a estão esperando.
– Vou ver o que querem – disse HaNa, embora pudesse imaginar. E caminhou até eles. – Pois não?
– Senhorita Kim, já ouviu falar no Black Hole?
– Acho que vocês ficaram felizes se eu poupar vocês da explicação toda. Eu sei quem são e sei por que estão aqui. Ao menos, eu acho. Se querem me entrevistar para ir ao Black Hole, estou à disposição.
– Isso é ótimo. Por favor, nos acompanhe.
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– Antes de dar início à entrevista, gostaríamos de dizer que a senhorita já está um passo à frente. Foi escolhida para uma entrevista exclusiva por sua habilidade e disposição física.
– Eu agradeço muito pela oportunidade.
– Demos início. Senhorita Kim, você deseja se voluntariar?
– Sim, senhor.
– Pode nos dizer seus motivos?
– Ah, eu acho que isso pode ser uma aventura. E eu estou precisando de uma.
– Por quê?
– Bem... Eu sou do Core, sabe... Eu vim de lá.
– Hum, uma coreana. É um excelente país.
– É o que todos dizem. Mas as coisas são mais complicadas do que parecem. E estavam tão complicadas que eu tive que sair. E quando eu vim pra cá... Bem, minha família mudou muito. Estão mais... Frios. Não são os mesmos de antes, e eu já não me sinto à vontade. Estou precisando sair de casa.
– Mesmo que isso signifique arriscar a sua vida?
– Minha vida não está muito boa aqui. Só na escola, mas quando eu chego em casa... Olha, eu não tenho tanto a arriscar. O que é a minha vida agora? Eu sempre fui a mais animada do grupo, sabe? E agora, minha motivação para isso não é muita.
– E o que você tem a oferecer ao Black Hole?
– Bom, eu sou uma ótima esportista. Todos os tipos mesmo. Então eu tenho um bom preparo físico, que pode se mostrar bem necessário.
– A entrevista acabaria aqui. Mas eu tenho mais uma pergunta. Você disse que sempre é a mais animada do grupo, mas sua vida familiar não lhe dá mais motivos para isso. Você acha que a motivação se reacenderá na missão, se você for escolhida?
– Acredito que sim. Essa missão mudaria minha vida completamente, eu ficaria entusiasmada com isso. Mas... Por que essa pergunta?
– Porque uma garota animada e contagiante como você seria extremamente útil para manter o ritmo na missão. Ela pode ser completamente desgastante. Acho que você é uma das garotas que precisamos.
HaNa ficou feliz. As palavras do entrevistador da Aurum a deixaram com 99% de certeza de que ela seria selecionada. Afinal, ela fora escolhida para a entrevista, e além de tudo, havia sido caracterizada como a garota perfeita, que seria responsável por animar o grupo perante as dificuldades. HaNa já poderia prever que seria de grande importância. Ou será que haveria alguém que, como ela, teria preparo físico e ainda mais qualidades?
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HORDALAND, 13:00
Annika parou em frente à porta. A temerosa porta que definiria sua vida. Tinha chegado a vez dela. Ela respirou fundo.
– Tudo pela ciência – disse a si mesma, e entrou. A mulher pediu que ela sentasse.
– Qual o seu nome?
– Annika Johanne Burke.
– Qual a sua idade, senhorita Burke?
– 16.
– Tudo bem. Vamos começar. Por que deseja ir ao Black Hole.
– Porque estou preocupada.
– Preocupada?
– Com o avanço da humanidade.
– Isso é surpreendente.
Ann franziu o cenho.
– É sério? – Seu tom de voz era calmo e baixo. Ela estava sentada com a coluna ereta, mãos sobre as pernas, postura impecável. – O que as pessoas dizem quando vêm aqui?
– Geralmente, estão atrás de aventura, e querem deixar suas vidas.
– Isso é estranho. Ninguém se importa com as descobertas científicas? Os avanços tecnológicos?
– Bom, Annika, sejamos realistas. É raro que crianças e adolescentes entendam essas coisas. Na mente deles, é tudo brincadeira, e não um sacrifício pela ciência.
– Ao menos deve ser fácil conseguir voluntários.
– Realmente. Próxima pergunta. O que você pode oferecer ao Black Hole?
– Ahn... Eu sou atlética. Não sei como me sairia no treinamento, mas suponho que teria um bom rendimento. Algumas pessoas dizem que eu sou esperta.
– Eu diria que você é inteligente.
Annika se retesou com o comentário. Não recebia muitos elogios, e não o esperava de uma entrevistadora. Para ela, uma entrevistadora deveria ser imparcial.
– Obrigada – disse ela, muito baixo.
– A entrevista terminou. Se você for escolhida, a buscaremos em sua casa.
Ainda nervosa, Annika se levantou e saiu da sala.
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– Como foi a aula, filha?
– Bem. E eles... Foram lá hoje.
– O pessoal da Aurum? – A mãe de Annika largou a louça e limpou as mãos no avental. – E você fez a entrevista?
– Fiz.
– O que disseram?
– Eles me buscarão, se eu for escolhida.
– Mas você acha que foi?
– Eu não sei, mãe.
– Eles gostaram de você?
– Acho... Acho que sim. Mas não sei se isso conta. Acho que as respostas é que são avaliadas.
– Você acha que respondeu bem?
– Não sei. Mãe... Obrigada por me apoiar nisso.
– Eu e seu pai estamos do seu lado, filha. Claro que é difícil permitir que nossa caçula se arrisque desse jeito, mas... Você quer ajudar as pessoas. E eu a admiro muito por isso.
A mãe de Annika a abraçou. Ela era médica, e entendia os desejos da filha, e admirava sua escolha. Mesmo que tivesse medo de perde-la.
– Então, agora, precisamos esperar as coisas se encaminharem.
– É. Deixa eu te ajudar com essa louça.
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