Notas iniciais
Depois daquela pausa bonita do feriadão, temos um capítulo novo. Se quiserem xingar alguém pela demora, é culpa da minha mãe. Mentira, não xinguem minha mãe. Ela é um doce. Vamos ler.

Alex não se importou com o fato de Ally continuar em sua cama. Ela tinha lá sua razão de não estar nem um pouco satisfeita.

– Obrigado – disse ele. – Obrigado a todos. Quero que saibam que as coisas vão mudar a partir de agora. Por favor, não quero que pensem que eu sou seu inimigo. Nós somos uma equipe, mas até agora não agimos como tal. A nossa reputação está terrível, e nós precisamos mudar isso. Precisamos mostrar aos agentes que somos mais do que crianças. Nós somos herois. E vamos mostrar que somos herois. A partir de agora, eu quero força total. Quero que se empenhem em seus treinamentos. Quero que se esforcem em aprender as coisas. Vamos brincar menos e treinar mais. Não estou falando isso só por causa da reputação. Estou falando isso porque não quero mais dez baixas naquela contagem. Eu quero que o zero vire onze. Pra fazer isso, precisamos treinar. Precisamos fazer mais do que treinar. Precisamos ser uma equipe. Então, me digam. Nós vamos fazer isso?

Todos os que estavam de pé sorriram, e juntos, disseram:

– Sim senhor!

– Ótimo. Mas não me chamem de senhor. Ainda sou Alex. Tirem o dia para descansar. Amanhã, vamos começar com tudo.

~

Alissa acordou de um pesadelo. Sabia que era um pesadelo, mas não se lembrava com o que havia sonhado. Suspeitava que o sonho havia alguma relação com o incidente com Alex. Ela se revirou na cama, logo abaixo de Lin, por alguns minutos, mas sabia que não voltaria a ter sono tão cedo. Por isso, colocou seus pezinhos para fora da cama e fez com que eles entrassem nas sapatilhas noturnas. Então se esgueirou até a porta.

Ally não sabia se poderia sair do dormitório à noite, mas isso não faria diferença. As regras eram a mesma coisa que nada para ela. Além disso, uma de suas distrações favoritas quando sem sono sempre foi caminhar, e ela não se contentaria em ficar andando em círculos no espaço livre do dormitório.

Ela foi até um de seus lugares favoritos na base, o jardim interno. Os caminhos de pedra faziam um círculo no entorno, além de se cruzarem no centro, onde havia uma fonte. Havia bancos, lamparinas, e muitas, muitas plantas, além de uma sacada, também no entorno. O céu, que antes parecia uma pintura de um céu azul com nuvens, agora era a perfeita réplica de um céu estrelado. Tudo fazia com que o jardim fosse lindo. Alissa andou até a fonte e molhou suas mãos na água que caia. Chegou a beber um pouquinho, e nesse momento, notou que não estava sozinha. Ela sorriu cinicamente.

– Entre todas as pessoas que estavam naquele quarto, você é a que eu menos esperava encontrar aqui – disse ela, se virando e sentando na fonte para ver o rapaz que estava debruçado na sacada, bem acima da porta.

– Por que isso te surpreende?

– Ahn, deixe- me ver. – Alissa colocou a mão na boca, fingindo que estava pensando. – Será que é porque você é sem graça, desatento e não liga pra nada?

– Isso não é verdade – disse ele, descendo a escada à sua direita, devagar. – Eu presto atenção...

– ...ao que interessa você. Como, por exemplo, — disse ela, se levantando e caminhando em direção a ele – impedir que eu faça justiça com as minhas próprias mãos. Na hora de evitar que eu acabasse com o infeliz do Alex Greenwich, você ficou atento rapidinho.

– Então você acha que eu só passei a observar você por causa do incidente. Está errada, Alissa Blackhorn. Eu tenho te observado há muito tempo. – A essa altura, eles já tinham andado o suficiente para estarem um de frente para o outro. Foi o que fez Ally ficar um pouco nervosa, ainda mais com a última frase do garoto. – Você estava certa. É difícil que algo prenda a minha atenção. Mas você conseguiu.

– Eu não gosto de ser observada. – Disse ela, quase sussurrando. Ela nunca tinha passado por algo semelhante, e estava um pouquinho apavorada. Mas ela não sabia que Gabbe também estava nervoso. Afinal, ambos enfrentavam uma coisa nova, além do fato de que Ally poderia voar no pescoço dele a qualquer momento.

– Tudo bem – disse ele, se virando de costas para ela. – Não vou mais te observar. Mas podemos continuar conversando?

Ally não sabia o que fazer, nem o que sentir. No fundo, ela queria ser observada por ele, mas a sensação a deixava em pânico. A ideia de conversar com ele parecia agradável.

– Podemos. — Gabbe começou a andar em direção à sacada, e Ally andou em direção à fonte. – Por que você está aqui?

– Eu gosto de observar as estrelas quando estou sem sono. O dia de hoje foi estressante demais.

– Desculpe por isso. – Normalmente, Ally era um detector ambulante. Sabia tudo sobre qualquer pessoa só de olhar para ela. De cara, notara que Gabbe só prestava atenção ao que era de seu interesse. No entanto, ela nunca tinha vivido algo parecido com o que estava acontecendo, então não sabia exatamente o que Gabbe queria. E isso a frustrava.

– E você? Por que está aqui?

– Não gosto de regras. Caminhar à noite é algo que me faz bem, e não vou abandonar meu comportamento porque a Aurum quer.

– Se não está disposta a isso, sinceramente, não deveria estar aqui.

A aquela altura, Ally já tinha passado pela fonte, e Gabbe estava dando a volta no caminho circular. Ally olhou para Gabbe, com um pouco de raiva pela sinceridade dele (embora ela mesma fosse muito sincera). Ela queria deixa-lo desconfortável, pois assim teria uma chance de descobrir qual era a dele. Mas ele estava olhando para as plantas do outro lado, cumprindo a parte em que disse que não a observaria mais. Ally ficou um pouco triste, mas conseguiu entender uma coisa a mais sobre ele.

– Sei. Você é um observador da natureza. Estrelas, plantas... Um homem da ciência.

– Eu sou um homem da ciência. Não tanto quanto a Ann, suponho. Você acertou isso, mas errou ao achar que vim pra cá pelo simples interesse científico em plantas e estrelas.

– Então me conte por que está aqui.

– Ao contrário de uma parte do nosso grupo, eu não vim em busca de aventura, nem tentando esquecer meus problemas. Vim para cá única e verdadeiramente pelo Black Hole. Meu pai é um homem da ciência.

– Um agente da Aurum que incentivou você.

– Não do jeito que está pensando. Você está achando que ele me chamava para compartilhar seus estudos. Mas isso era o que eu queria. Meu pai é como eu. Desligado para o que não interessa. Mas o Black Hole é um grande mistério que aguça nossa curiosidade. Passei boa parte da minha vida tentando entender, ao lado do meu pai, que fenômeno esplêndido atua naquela cordilheira. E sempre quis ver e sentir esse fenômeno por mim mesmo, ainda que fosse a última coisa que eu vivesse. Eu poderia estar lá agora mesmo, mandando vibrações em código morse e esperando que dez crianças despreparadas me salvem.

– Quer dizer que se voluntariou no processo seletivo que escolheu Kuni Yovesh para ir ao Black Hole?

– Foi um processo muito menor do que o nosso. Só crianças diretamente envolvidas com a Aurum, ou seja, parentes de agentes, poderiam fazer os testes. Eles não foram divulgado. Acontece que Kuni era o queridinho da Aurum, e não digo isso com raiva. Eu não cheguei a conhece-lo, mas sempre o admirei pelo que ouvia meu pai contar. Ele já estava sendo preparado desde pequeno. Meu pai sabia que, no fundo, abrir o processo para os outros filhos de agentes não ia dar em nada. Eles já tinham o que queriam.

– Entendi. A Aurum não me quer. Ele me escolheu porque precisa de alguém para achar seu queridinho. – Ally tinha dobrado à direita no caminho circular, e estava chegando perto de Gabbe de novo.

– Nós somos o melhor que a Aurum conseguiu. A única coisa que ela tem agora. E estamos destroçando todas as esperanças que ela tem de rever o garoto.

– A Aurum nos odeia. Ela só quer saber de Kuni.

– Ela tem seus motivos, Ally. Kuni era um garoto prodígio. Foi criado aqui, treinado a vida toda, é um filhotinho da Aurum. Empenhado, inteligente, forte...

– Tudo o que nós não somos.

– A Aurum não esperava pelo desastre que somos, embora isso fosse previsível. Eu sei que você odeia o Alex, mas o que ele está tentando fazer é mudar a nossa imagem, fazer com que sejamos mais como Kuni e menos como...

– Monstrinhos. Somos um monte de nada para a Aurum. Já sei disso, Gabriel, e também já sei qual é a sua.

– Qual é a minha? – Perguntou ele confuso.

– Esse conversa toda de interesse, estrelas, queridinho da Aurum... Você só quer que eu fique do lado do Alex!

– Quê? Não! Ally, esse assunto da Aurum surgiu do nada. Eu não quero te obrigar a ficar do lado do Alex, confia em mim.

Ally semicerrou os olhos e torceu o nariz. Devia mesmo confiar nele? Bom, ele estava interessado, será que o interesse dele era só levá-la para o grupo?

– Não sei não.

– Tá bom. Você gosta de definir os outros, gosta de pescar informações no ar e construir o que a pessoa é. Mas você nunca foi definida por alguém, foi?

– Eu me defini. Eu sei muito bem quem eu sou.

– Você define muito bem uma parte de você. Mas existe um parte sua que você não explora, não conhece, e não ousa mexer.

– O que quer dizer?

– Vamos definir Alissa Blackhorn.

– Isso é fácil.

– Exatamente. É fácil definir você. Uma garota fortemente armada com sua língua afiada, fala tudo o que pensa e não tem medo de enfrentar as pessoas, sejam elas seus desafiantes ou não. Sua sinceridade faz com que pareça arrogante.

Até aí, Alissa estava sorrindo.

– Essa aí sou eu.

– Não. Essa é a sua armadura.

O sorriso dela desapareceu.

– O quê?

– Sua armadura, sua embalagem. A parte da sua personalidade que você deixa à mostra. Você se cobre com sua armadura por que tem medo do que as pessoas pensarão de você quando virem o que tem por dentro.

– Ossos? – Alissa tentava sorrir e fazer piadas, mas toda aquela atenção de Gabbe a deixava extremamente nervosa.

– Sua verdadeira personalidade. Uma garota linda, gentil, e levemente medrosa. Uma garota que nunca perdeu, pois sua armadura nunca deixou. Uma menina jovem, inocente, e que não sabe nada sobre os sentimentos. Uma garota confusa, talvez rejeitada. E muito assustada.

– Por que está fazendo isso?

– Eu estou prestando atenção. Sua armadura não me interessa. É a garota que está dentro dela que chama a minha atenção.

– Então, você não gosta da armadura. Não gosta de quem eu demonstro ser.

– Fala sério, Alissa, quem gostaria da sua armadura? O que uma garota arrogante e ignorante tem de especial? Sua linda armadura conseguiu ser odiada pelo grupo todo, até mesmo por mim. Mas se eles vissem o que eu vejo através da armadura, estariam encantados. — Alissa estava parada com a boca semiaberta, encarando Gabbe e suas palavras que pairaram no ar. Gabbe sorriu. Estava quase alcançando seu objetivo. – Sabe, Ally, existe algo muito peculiar na sua armadura.

Gabbe abaixou e passou as mãos por trás da pernas de Ally. Ela gritou ao ser erguida como uma noiva depois do casamento. Gabbe a girou, e ela se desesperou, exigindo que ele a colocasse no chão. Depois de alguns segundos, ele o fez. Ally estava pronta para dar uma bela bronca em Gabbe, mas não teve tempo. Gabbe falava de forma firme, sem abrir espaços, e chegava cada vez mais perto dela.

– Você também usa sua armadura para proteger a verdadeira Ally de ameaças. Ou seja, quando é surpreendida. Mas nesses momentos, a armadura falha, pois você não sabe o que fazer. Eu sei, Ally, que quando você recompor sua armadura, vai me bater, vai me xingar, eu vou parar na enfermaria, mas eu não estou nem aí. Porque eu não ligo nem um pouco para a sua armadura, mas eu amo o que tem dentro dela. E é por isso que eu vou fazer de tudo para destruir essa armadura até que reste apenas você.

Logo em seguida, Gabbe beijou Ally. Mas ele sabia que beijá-la não seria o suficiente. Precisaria prendê-la, literalmente, e abraça-la, e impedir que ela se soltasse. Porque se ela se soltasse antes do tempo, ele iria parar na enfermaria de verdade. Mas, se ele a prendesse e a beijasse por tempo suficiente para que ela sentisse seu calor e todo o seu amor, e se apaixonasse por ele tão perdidamente que daria para ouvir o som de sua armadura caindo no chão, ela seria Ally, somente uma doce e querida Ally envolta em uma névoa de amor, para sempre.

Notas finais
Meloso, né? Ui. Eu quis fazer esse casal bem meloso, porque nunca descrevi um beijo direito, e me dei conta disso há pouco tempo. Vamos à contagem. Alex: Um biscoito e quatro jujubas Ally: Uma jujuba Annika: Dois biscoitos e nove jujubas Avelin: Um biscoito e cinco jujubas Elly: Um biscoito e oito jujubas Gabbe: Nove jujubas HaNa: Quatro jujubas Kai: Um biscoito e oito jujubas Mabel: Quatro jujubas Stux: Nove jujubas Já sabem, ganha jujuba quem comentar. E... Ganha biscoito quem adivinhar os casais, minha gente! Chuta mesmo, fala quem vocês tão shippando. É um biscoito por casal acertado! Então tenta adivinhar. Ally com Gabbe não vale mais kkkkk #GALLY E me digam o que acharam deles. Beijoos!