Ela subia a colina lentamente, de forma que podia observar gradativamente a imensidão azul adiante. Seus cabelos refletiam a luz solar, brilhavam de tal forma que era possível crer que estavam em chamas. Era uma garota deslumbrante, é verdade. Possuía olhos claros, brilhantes, joviais. Era literalmente, uma deusa, desejada e almejada por todos os habitantes helênicos, deuses que habitavam o Olimpo e dizia-se nos cantos de toda a Grécia que até mesmo o maior dos monstros marinhos curvaria-se em admiração à sua beleza, ao seu corpo inigualável, ao seu jeito ímpar. Mesmo tendo consciência de seus dotes, compreendendo o que era ser Persephone, a garota não se importava. Não mantinha seu foco nos pedidos de casamento oferecidos, nos buquês de flores, em toda a pompa. Ela possuía apenas uma única pessoa em sua mente; alguém que permitia-lhe ser quem realmente era, que a admirava e a amava pela nobreza do íntimo de seu ser.

Sentou-se calmamente na relva esmeralda e fitou os domínios de Poseidon sobre o oceano. Admirava o trabalho dos deuses que compartilhavam do Olimpo com seus progenitores, mas sabia que não havia para ela um trabalho a exercer. Era apenas Persephone. Continuou, com movimentos delicados e pacientes, como lhe era de costume, a deitar-se e a pensar sobre assuntos irrelevantes no momento, quando veio-lhe à mente algo... ou melhor, alguém.

~x~

Aquele era um dia um tanto diferente dos outros. O céu possuía aspecto nebuloso, o radiante sol que agradava tanto à garota, dava lugar à tons cinzentos e ao vento que assoviava cantigas. Ela já havia cansado de rumar sem motivos pelo Olimpo, então passara a visitar alguns lugares do mundo em si. Neste dia, em especial, caminhava em um bosque. Seguia uma trilha quase inexistente que acabaria em uma cachoeira, com passos pequenos e cuidadosos. A chuva se aproximava lentamente, pequenas gotículas de água acariciavam o rosto e penetravam o vestido branco que lhe atribuía um corpo ainda mais belo que realmente era, mas ela seguia seu caminho. Caminhou até o momento que encontrou seu destino final; a bela cachoeira não decepcionava sua espectadora.

Mas aparentemente, havia algo ali que havia chamado a atenção da jovem. No seio do bosque, mais afundo no coração da pequena floresta que formava-se nas margens da queda d'água, havia uma caverna. Aparentava ser uma simples e vazia caverna, como muitas na Grécia em que visitava, mas a curiosidade despertava-lhe e fazia com que fosse mais a fundo. Além do mais, a chuva passara a cair mais fortemente, então parecia uma decisão sábia esperar que ela passasse em segurança.

Adentrou a caverna e a escuridão gradativa não a agradava tanto assim. Pensou em sair, pois não haveria forma de tornar aquele ambiente claro, e poderiam haver perigos ali. Pensava em enfrentar a chuva que caía forte no exterior da caverna, até que ouvira uma doce cantiga entoada por uma voz conhecida.

"Pretty lady who stands on the walls..."

Virou-se para o interior escuro e frio daquele abrigo, mas continuara sem conseguir distinguir qualquer forma na escuridão. Pouco a pouco, aquela voz aproximava-se e aumentava o tom.

"Life is short and wait is long..."

Passou a poder observar, lentamente, uma silhueta dirigindo-se ao seu encontro. Não tinha medo; na verdade, sabia que a esperava há tempos. Um sorriso estampou-lhe a face enquanto relembrava seus sonhos. E assim, o belo homem saía do breu em que encontrava-se para a luz proveniente do dia nublado.

"Hades? É... você?"

"Minha pequena, minha amada... para ti, sou o que quiseres."

Foram as palavras proferidas pelos lábios do homem de pele alva, cabelos negros e compridos. O sorriso de Persephone era único naquele momento, pois apenas seu amado poderia trazer tais sentimentos aflorados em sua alma juvenil. Ela lembrou-se de seus sonhos tão vívidos onde conhecera o Deus do Tártaro e nos quais pode ter certeza de que seu coração teria lugar apenas para um indivíduo de todo o mundo.

Aquele momento singular em que os dois olhares cruzaram-se, finalmente, em que os dois sorrisos alinhados transpassavam a felicidade transbordante e que a certeza de um amor eterno fazia-se presente, mesmo sem palavras ditas que transmitissem essa ideia, era melhor do que os sonhos da jovem garota de cabelos flamejantes. Ela sabia quem era Hades, conhecia bem sua história e tudo o que já ouvira falar sobre este deus. Ela entendia muito bem as consequências de seu amor. Não seria fácil para nenhum dos dois conseguir levar em frente essa ideia absurda, porém, não existe chance sem que exista tentativas. E desde o primeiro abraço, desde o primeiro toque dos lábios quentes e desejosos, os dois souberam que qualquer sacrifício seria válido.

Os dois deuses tiveram uma bela tarde juntos, na penumbra que a cachoeira criava dentro da caverna, com muitos momentos em que Hades simplesmente contemplava a beleza de sua amada e ouvia-na falar sobre sua vida, seus pensamentos, seu desejos. Os dois conheciam-se há muito; desde um sonho no qual os dois puderam falar-se há anos atrás. Todas as noites eram reservadas para si, nas quais Hades e Persephone passavam pouco a pouco a compreender e a fazer parte um da vida do outro, sem nem mesmo terem se visto algum dia. Esta era a principal prova de que seu amor, mesmo que fosse negado por Zeus, era puro e sincero em suas intenções. Não haveriam trovões ou tempestades que pudessem separar as duas almas.

"Persephone, minha amada. Preciso que considere bem minhas palavras; se escrevo-te esta carta é por necessidade. Tu bem sabes que lhe amo mais do que amaria qualquer outra coisa entre o Olimpo e o Tártaro, mas eu não posso passar meus dias longe de tua companhia. Preciso ter-te comigo, independentemente das consequências ou do que precisarei abdicar para que você passe a ser minha e somente minha. Assim que ler este pergaminho, por favor, encontre-me na mesma cachoeira em que vimo-nos pela primeira vez. Se tua presença em minha vida for vetada, não precisarás mais ir ou preocupares-te comigo, pois não haverá mais um Hades e nem mesmo um Tártaro sob este chão. Lembre-se que amo-te mais do que tudo."