Black Desert
34 Armadilha do Destino
Notas iniciais
Durante a minha total distração, de repente, uma das meninas -que voltara com a lista de pedidos de um dos clientes para Rigur anotar- sem aviso, se virou na minha direção assim que teve certeza de que ele terminou de escrever os novos valores que ela conseguira acabar de arrecadar -tudo sempre anotado em uma folha discretamente guardada na parte interna do seu balcão.
— "Yura, agora há pouco apareceu uma pessoa aqui te procurando, e ele disse que queria falar com você à sós, parecia algo sério."
— "Uma pessoa? Você sabe quem era?"
— "Não sei não, só consegui perceber pela voz que era um homem, mas ele estava com o rosto coberto."
Ao ouvir aquilo, Rigur -que até então estava em silêncio observando minha expressão desconfiada- finalmente se intrometeu também na conversa.
— "Será que é um cliente?"
— "Acho que não, ele acabou de chegar aqui e não me pediu mais nada além de passar esse recado para o Yura."
— "Bem... Realmente, se fosse um cliente querendo algo ele então teria vindo direto no balcão para requisitar..."
Enquanto ouvia Rigur e a menina conversando sobre suas hipóteses, por outro lado, eu agora tentava em silêncio pensar sozinho sobre qualquer tipo de pessoa ou compromisso que eu pudesse estar na pendência de atender hoje mas que tivesse acidentalmente esquecido (o que não é tão incomum de acontecer, da minha parte). Só que nada realmente me veio em mente, me fazendo ter quase a certeza de que não importava o que fosse, essa pessoa era algo pelo qual eu realmente não estava esperando.
"Será que pode ter algo à ver com ontem? Afinal Gale e sua gangue sabem aonde eu trabalho."
Decidido então à descobrir logo de uma vez, eu me levantei do banco em que estava sentado ao que perguntei com pressa para a menina.
— "Certo, sabe para que lado essa pessoa foi?"
— "Sim, como parecia ser importante eu pedi para ele ficar e esperar por você no quarto 102. Está vazio no momento, então vocês podem usá-lo para conversar."
— "Ok, obrigado. Eu vou lá ver do que se trata.”
Fazendo um gesto para ela e para Rigur -sem prolongar ainda mais minha curiosidade-, eu tomei meu rumo até o quarto 102. Como no resto do meu tempo eu também lidava muitas vezes com pessoas que exigiam descrição -já que em meu tempo vago eu também era um entregador que não fazia muitas perguntas- então não era realmente incomum acontecer de alguém vir pessoalmente aqui me procurar para pedir pelos meus serviços (mesmo sem me avisar antes), especialmente com qualquer um sabendo que essa boate era o lugar mais fácil de me encontrar.
Tiveram até algumas vezes em que eu acabei ficando muito tempo sem aparecer na boate, e no dia seguinte acabar por me deparar com Rigur me esperando, segurando várias anotações com pedidos que eu nem mesmo havia aceitado fazer!
"Por sorte ele nunca se importou de que eu usasse a boate como referência para me enviarem esses serviços... E acho que ele também nem vai algum dia reclamar disso, contanto que eu também nunca reclame do fato de que ele fica por curiosidade lendo tudo que deixam anotado para mim."
Começando então à acreditar que aquilo poderia muito bem ser só mais um simples trabalho, eu decidi acertar o meu passo andando em meio as poucas meninas com as quais eu cruzava entre os corredores de mesas e cadeiras até sair da vista delas e dos clientes, finalmente entrando no quarto 102 sem qualquer cautela ou suspeita, já que eu não conseguiria encontrar razões para tê-las.
Ao que eu pisei dentro daquele quarto, a primeira coisa que consegui notar foi o fato de que não dava para notar nada ali, já que as luzes estavam apagadas e o aposento não era exatamente pequeno, impedindo que a pouca luz que entrava pela porta semi-aberta conseguisse sequer iluminá-lo de forma decente. Porém, o que mais me roubou a atenção na verdade -não me fazendo correr logo até o interruptor na parede- era a completa falta de qualquer tipo de movimento naquela escuridão, me dando a impressão de que eu também estava sozinho ali dentro mesmo que minha intuição –meus poderes– insistissem para eu reconsiderar essa ideia por que eu sentia bem no meu interior o pulsar de algo além do que minha visão alcançava.
Contrariado pela sensação que desafiava os meus próprios olhos de um modo ominoso e me colocava em uma estranha desvantagem sensorial, eu preferi não ficar muito mais tempo para saber o que estava de fato ali e tentei dar meia-volta com os meus pés para sair daquele quarto. Mas assim que o ameacei fazer -como se uma rajada de vento forte passasse pelo meu lado e a empurrasse- aquela porta rapidamente foi fechada sem qualquer aviso! Cortando junto a única fonte de luz que eu ainda tinha ali dentro e me fazendo recuar no susto por ter agora a certeza de que algo ali estava errado!
Só que antes que desse para eu dar qualquer outro passo ou ter qualquer outra reação diferente, uma mão do nada surgiu por trás de mim cobrindo a minha boca como se tentando abafar minha voz e me puxando para trás com muita força!
"Gh-! O que é isso?! "
Eu comecei à me debater tentando me soltar do domínio dela, mas mesmo assim parecia que todos os meus esforços estavam sendo extremamente inúteis ao que aquela única mão continuava a -sozinha- conseguir me segurar no mesmo lugar, me contendo muito facilmente! De repente, uma segunda mão então surgiu pelo meu outro lado -ao que na minha agitação eu só a notei quando ela me tocou- contornando ela minha cintura e me puxando ainda mais para trás, até que eu finalmente sentisse minhas costas esbarrando contra algo quente... macio... e apenas um pouco maior do que eu.
"Realmente tinha alguém aqui... Mas quem-!?"
Só que logo que eu fui de encontro contra aquele corpo, pude então ouvir -com a mistura do som daquele baque- também o som do que parecia ser algum tipo de metal, ou pequenas correntes... balançando e batendo umas contra as outras no meio daquela brusca pancada.
Na mesma hora então uma lembrança despertou em mim -quanto àquele barulho estranhamente familiar- e junto dessa lembrança que eu não conseguia colocar em palavras, também um calafrio que inconscientemente me acertou bem no fundo!
“Esse som... eu conheço esse som..."
Mas antes mesmo que eu pudesse conseguir chegar à qualquer conclusão -além da de que meu corpo estava extremamente tenso- todo o meu foco foi então mais uma vez roubado pela mão que ainda me prendia pela cintura, ao que ela me soltou e começou a recuar, desaparecendo completamente do meu campo de visão e me deixando ainda mais preocupado com o que viria a seguir, sem eu ter como devidamente enxergar o que estava no meu caminho para ter como me defender!
De repente, sem que eu esperasse por isso, em um estalo uma das luzes do quarto foram acesas, fazendo com que eu me tocasse de que o interruptor provavelmente estava bem atrás de nós esse tempo todo! No que, finalmente, conseguindo ter uma melhor noção do que estava ao meu redor, eu tentei virar os meus olhos rapidamente para a figura misteriosa que me prendeu ali dentro com ela – mas sem muito sucesso porque ela continuava segurando o meu rosto enquanto tapando a minha boca!
Eu então tentei mais uma vez me soltar daquela única mão, uma vez, duas vezes, três vezes, forçando a pessoa a segurar os meus braços por trás para me conter, até que por uma quarta vez eu já estava me sentindo completamente sem forças para acreditar que iria conseguir continuar com aquilo... relaxando finalmente os meus ombros em desistência e respirando de forma exasperada não sabendo como prosseguir sem depender da boa vontade daquela pessoa.
Foi aí que finalmente senti uma cabeça se inclinando sobre meu ombro, e uma quente respiração se aproximando mais e mais do meu pescoço... Perto o suficiente para que sua boca ficasse bem próxima do meu ouvido e sussurrasse em um tom de ameaça aquelas familiares palavras.
— "Eu disse que não iria te poupar se os nossos caminhos se cruzassem novamente."
Novamente um arrepio desceu pelo meu pescoço, diante daquela voz -que eu sinceramente achei que não iria voltar mais a ouvir! E foi ali eu finalmente consegui ter a certeza de quem é que esteve comigo esse tempo inteiro dentro do quarto!
"Essa não..."
— "Agora me devolva ele, sua porcaria de Odalisca!"
Surgindo do meu lado, pude então sentir meus braços sendo soltos e aquela mão se estendendo à minha frente como se impacientemente esperasse que eu lhe entregasse alguma coisa.
Ao ver aqueles dedos finos, as unhas um pouco afiadas e parte da manga de um casado escuro e pesado, sem mais sombra de dúvida nenhuma eu admiti a pergunta que agora passou a intensamente me atormentar por dentro!
"Como esse Skrea inconsequente me encontrou aqui!?"
Só que em meio ao clima intimidador que eu comecei a arruinar -graças ao meu demorado silêncio que ignorava tão persistentemente suas demandas- aquelas duas mãos então em resposta precipitadamente recuaram, me soltando por uma fração de segundos no que eu mal tive tempo de abandonar os meus pensamentos, sabendo que a coisa não iria acabar por ali!
Mas eu não tinha nada para me defender naquela hora, meu bastão estava no camarim! E só podendo olhar apreensivo para o lado -tentando não perder a minha falsa calma- ao que de relance eu consegui ver aquela imagem de cabelos negros, roupas escuras compridas e olhos vermelhos intensos com pupilas contraídas agilmente passando pelo meu lado e me contornado rápido o suficiente para ficar bem de frente para mim, pude sentir então ele mais uma vez tapar a minha boca com força antes de me empurrar com vontade contra a parede do quarto!
Porém, assim como minha voz, o impacto dessa vez do meu corpo contra a parede dura foi um tanto breve -ao que eu me dei conta do quão perto da parede nós dois já estávamos- machucando as minhas costas, para minha sorte, bem menos do que poderia ter machucado!
Sua outra mão então lentamente se debruçou sobre aquela mesma parede, fazendo-o se inclinar sobre mim e me encarar bem de perto, com um olhar extremamente impaciente e firme, e uma respiração pesada e forte.
Aquele olhar porém parecia também conter um pouco mais do que apenas a previsível frieza que todos os Skreas naturalmente demonstravam... Aquele olhar parecia conter também... raiva?
"Isso não fez o menor sentido ontem, e continua à não fazer sentido hoje! Por quê esse Skrea continua parecendo estar agindo através de sentimentos!?"
— "Eu sei que ele só pode estar com você! Então não adianta me enrolar, você só sai desse quarto depois de me entrega-lo!"
Insistentemente, ele então voltou à me exigir a mesma coisa (sem por alguma razão entrar em detalhes do que era), e me obrigando à finalmente cortar todos meus pensamentos menos importantes enquanto tentando melhor pensar sobre o que afinal era aquilo que ele tanto queria de mim (seria mais fácil se ele apenas disesse de uma vez)...
Só que, sem realmente gastar quase que tempo algum pensando, eu então me dei conta do que se tratava -ao que meus olhos se abriram um pouco na surpresa- daquele velho medalhão com o tal símbolo de Derak! A única coisa que realmente fazia sentido "estar comigo"! Mesmo que eu não tivesse ideia de como ele podia saber de uma coisa dessas.
"E-Espera, se isso era mesmo dele, então realmente quer dizer que ele tem relação com um dos patriarc-...?"
Antes, porém, que eu pudesse completar aqueles meus pensamentos, sua outra mão -que ainda estava livre- voltou a se movimentar ameaçadoramente, deslizando até a sua cintura aonde aquelas duas armas de ontem se encontravam embanhadas.
Ele não estava me convencendo de que iria usá-las contra mim, afinal, senão ele já teria usado, mas claramente ele sabia que tinha ganho de volta a minha instável atenção com aquilo assim que seus olhos intensos voltaram a encarar os meus com satisfação.
Era óbvio que ele estava tentando me intimidar para que eu o obedecesse, evidentemente também me subestimando no processo -ao que ele realmente não parecia estar se esforçando mais para me conter uma vez que eu havia parado de tentar me debater- e já que para ele eu não teria como fugir e muito menos como me defender, mesmo se tentasse!
Só que, pensando agora com mais calma, eu finalmente senti uma razão para me preocupar de verdade já que –com ou sem seriedade em sua intimidação- ele ainda estava agindo de forma muito ansiosa para sequer me dar um minuto de reação entre cada uma das vezes que ele me mandava devolver o cordão!
"Não importa o quanto ele esteja blefando em suas ameaças, é bem perigoso lidar com um Skrea agressivo, e que ainda por cima é precipitado!"
Reconhecer aquilo, estava era, acidentalmente me fazendo apenas congelar bem ali naquela posição, enquanto tentando pensar muito bem no que eu ia fazer antes de procurar um próximo movimento que fosse –porque aquela poderia ser minha última oportunidade de movimento se eu errasse agora na minha decisão!
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