Black Desert
35 Os Limites de um Feiticeiro
Eu não sabia exatamente qual era a decisão mais segura agora, obedecer ou não as ordens daquele Skrea. Mas eu sabia o que acima dessas duas coisas eu queria! Eu queria conseguir me soltar dele! Mesmo que minha força e velocidade sozinhas não se equiparassen às dele, e que com tão pequena distância entre nós dois, conseguir fugir fosse acabar sendo improvável –independente dele não estar considerando ainda me matar!
"Porém, ainda sim..."
Indiferente aos riscos, eu ainda estava sentindo um grande impulso contra deixar ele me dominar tão facilmente, já que a única coisa que me garantia estar vivo ainda era o fato de que ele queria esse cordão de volta e só eu sabia aonde encontrá-lo!
"Quando eu o devolver, o que será que ele vai fazer comigo?"
Sentindo um receio se instalando em meu peito, -como um reflexo- inconscientemente então uma das minhas mãos calmamente se levantou sem aviso, apoiando-se no braço dele -que estava me segurando com a mesma firmeza de sempre. Mesmo que eu estivesse agindo automaticamente, ainda sim meus gestos se contiveram naquilo, deixando qualquer previsível exaltação ou nova tentativa de combatê-lo apenas para a sua própria imaginação (isso é, se ele tiver uma).
Diante daquele meu gesto nem um pouco óbvio ou ameaçador, o Skrea então também parou no mesmo lugar, esquecendo das armas na sua cintura e afastando um pouco sua cabeça em dúvida ao que encarava aquela minha mão sobre seu braço, e logo então, procurando nos meus olhos qualquer mínimo indício das minhas dúbias intenções. Coisa que ele não conseguiu, já que nem mesmo eu estava me dando conta do que eu pretendia fazer ali além de ouvir aos meus instintos de sobrevivência.
Mas, aos poucos -ao que minha reação instintiva se tornava mais e mais clara para mim em seu propósito-, eu então comecei à encará-lo de volta enquanto tentando friamente me concentrar ao máximo para fazer aquilo que no fundo eu não queria fazer, mas que sabia que precisava.
Com a minha calma inexpressiva aquele Skrea continuou totalmente desalarmado, apenas me observando -com uma certa curiosidade bem inesperada- ao que eu podia notar sua respiração diminuindo de ritmo e suas pupilas dilatando em um sinal descuidado de relaxamento que nem ele mesmo parecia estar se dando conta.
Mas esse tipo de reação eu já podia saber que iria acontecer, justamente porque os Skreas, no fundo, sempre cometem o mesmo crime -o de serem extremamente influenciáveis pelo que nós humanos estamos sentindo, assim como pelas nossas reações (sejam elas reações de exaltação ou pura calma).
Só que, talvez nesse caso a culpa até não fosse diretamente dos meus sentimentos sobre ele, mas sim da sua completa falta de saber o que fazer já que meu medo e agitação estavam se dissipando de dentro de mim.
Por terem se tornado fisicamente melhores do que quase tudo que poderia representar alguma ameaça à eles, -de acordo com Ebraín- os Skreas, com o tempo, acabaram criando essa mania de subestimar tudo e todos ao seu redor (porque nada mais seria capaz de representar um verdadeiro obstáculo para a vontade deles em longo prazo, especialmente nós Humanos).
E é graças a isso é que eles têm esse terrível ego de acreditar que suas presenças intimidadoras são o suficiente para nos controlar quando estamos indefesos. O que acontece quase que diariamente nessa cidade, caso cruzemos o caminho deles... e que acaba gerando esse convívio “tranquilo” entre as nossas raças, até o momento em que nós não aguentamos mais e acabamos cometendo alguma burrice.
Mas até mesmo essa nossa personalidade explosiva tem deixado os Skreas enferrujados... eles sabem como devem reagir quando ficamos agitados, para nos controlar, mas eles se esquecem facilmente que também temos o dom de enganar e manipular as oportunidades ao nosso favor -e que eles deveriam de se preparar para nos controlar nessas horas. Mas como eles não são bons em perceber isso, é aí pessoas como eu ou Gale ganhamos a chance de agir sem que eles sequer se lembrem que precisam estar preparados para nos impedir!
"E você com certeza também vai se arrepender de não se preparar para me impedir agora, Skrea..."
De repente, mudando totalmente aquele clima inócuo entre nós dois -como se algo estivesse muito errado- o olhar dele apenas saltou na direção do seu braço que estava firmemente me prendendo, e como em uma surpresa que nem mesmo ele conseguia compreender, suas pupilas então lentamente começaram à se contrair ao que a força em sua mãos sobre mim começava à diminuir pouco à pouco! Tudo completamente fora de seu controle ou de sua vontade!
"Sinceramente, eu não gosto de recorrer a isso porque eu não consigo garantir que vai dar certo... Mas dessa vez não é como se eu tivesse muitas outras opções em mãos!"
Diante da minha forçada calma e do meu concentrado olhar sobre seu braço, de relance eu consegui notar seus ombros e seus músculos contraindo, ao que parecia que ele internamente lutava para continuar com sua mão aonde estava!
E como se fosse só uma questão de tempo, finalmente em um pulo ele desistiu de continuar me prendendo ali, me soltando no mesmo instante que relutantemente recuara sem mostrar qualquer sinal de revide (ou de que ele sabia que eu podia ter realmente sido o responsável por aquilo)!
A única coisa que ele estava conseguindo demonstrar na verdade era uma incomum expressão de susto para o seu rosto, me encarando indignado, enquanto segurava atônito aquele seu braço agora aparentemente imóvel.
Em resposta, sem me mover ainda, eu continuei à encará-lo, tentando não deixar aquela pesada respiração de medo que eu queria voltar a pôr pra fora, sair de dentro de mim, assim como tentando não deixar que meu corpo começasse à tremer da forma que eu sentia que ele tanto queria fazer!
Ele só continuava confuso porque eu continuava me mantendo calmo, e era melhor que eu me mantivesse assim... Não que eu estivesse sentindo tudo aquilo -uma extenuante tensão- por culpa desse Skrea. Meu medo na verdade era por algo bem diferente, e que me assombrava muito mais constantemente do que qualquer Skrea jamais seria capaz de talvez fazer! Usar minha dominação de água para debilitar ao máximo alguém.
Ser um Feiticeiro d’água significava conseguir curar, mas também destruir com apenas a força da vontade. No que eu havia cortado a circulação de sangue na altura do seu pulso, momentaneamente, para que ele não conseguisse mais sentir a mão ou me segurar. Só que fazer aquilo era algo muito além do que eu sabia como controlar, e muito além também de toda a confiança que eu depositava nesse poder!
Não querendo soar errado, eu sei muito bem que posso fazer uma coisa dessas se eu me concentrar o suficiente, então não era esse o meu problema.
"O meu problema não se trata do limite da minha capacidade... mas sim do limite da minha própria coragem em encarar a culpa, se eu não conseguir pará-la a tempo."
Quase todos os feiticeiros de água que já conseguiram sentir por dentro do corpo de um ser vivo sabem como o sistema de um organismo pode ser absurdamente complexo para poder se manipular com confiança. E usar os nossos poderes para interferir tão diretamente em algo vivo, com intenções tão negativas ou intensas (diferente de quando pretendemos apenas curar alguém), se feito de um modo minimamente errado, pode acabar causando problemas irreversíveis ou até mesmo matando a pessoa caso cometamos qualquer mínimo deslize! Tudo isso, porque a execução dos nossos poderes é inteiramente guiada pelas nossas intenções e comedida apenas pela nossa racionalidade. Coisas que sempre desaparecem fácil quando nos deixando levar demais pelos nossos sentimentos, sejam eles quais forem (tanto os ruins, quanto os bons).
"E mesmo que ele seja um Skrea, eu continuo não sendo um assassino. Minha existência, eu não posso encará-la como se fosse algo perigoso, ou não sinto que seria capaz de conviver com isso... com essa coisa tão instável que existe dentro de mim."
Sem falar que o risco de usarmos nossos poderes de forma tão descuidadamente nociva só iria é permitir às pessoas acreditarem no quanto um feiticeiro poderia ser perigoso, nos colocando em uma evidência negativa da qual sempre estivemos fugindo para termos a oportunidade de viver em paz aqui dentro –o mundo já não gosta muito de nós, então é melhor não darmos razões para que isso piore. E é por isso que eu jamais sinto que devo usar esses poderes contra os outros para ganhar alguma vantagem, mesmo confiando nas minhas próprias intenções de parar antes que seja tarde demais.
Tentando não tirar o olho daquele Skrea que ainda procurava -sem muito sucesso- mover sua mão esquerda, eu então senti um peso sobre minha própria coinsciência que refutava toda minha fiel cautela com uma difícil contradição...
“A menos... que não me sobre nenhuma outra escolha além de precisar usá-los.”
Aquela frase me desceu com um forte amargor, ao que junto dela surgiu também uma gratidão pessoal à Grivah por aquele Skrea não ter tentado me desconcentrar enquanto eu o fazia, já que até um mero susto poderia ter me feito acidentalmente causar uma trombose no braço inteiro dele... não que eu tenha. Daqui, pelo menos, consigo sentir que isso não aconteceu. Ainda bem...
Respirando fundo para mais uma vez tentar reaver minha verdadeira calma e não perder a brecha que consegui abrir nas defesas daquele Skrea, lentamente eu procurei dominar todas as pequenas reações de pânico que meu corpo estava tão disposto à por pra fora, e busquei gradualmente relaxar as minhas emoções. Se eu continuasse a não transmitir emoções fortes para aquele Skrea, ele não iria conseguir reconquistar a impressão de que seria seguro investir mais uma vez contra mim. Ao que ainda atônito sobre o que havia acontecido mas finalmente retomando a sensação de sua mão, a voz dele então desavisadamente cortou o silêncio que aquietava os meus pensamentos!
— "O que-!? O que você fez com o meu braço, seu...!?"
— "..."
Eu continuei encarando-o em silêncio, sem deixar que ele conseguisse mais uma vez me intimidar para reverter o seu domínio sobre a situação.
Mas sem eu esperar, indiferente à minha calma, ele continuou falando, dando cada vez mais espaço para uma confusão em sua voz que começara à substituir seu sempre irreverente tom de raiva!
— "...O-o que é você afinal!?"
Ignorando em silêncio também aquela pergunta, eu enfim desci os meus olhos um pouco –preocupado que minha temperança sozinha não ia contê-lo para sempre– e por fim percebi a boa distância que o Skrea havia criado entre nós dois graças àquela sua recuada. Aquilo me permitiu então ajeitar em segurança a minha postura ao que eu consegui engolir todo o resto da tensão em meu peito com sucesso, satisfeito com a prova de que mesmo que ele continuasse agitado, quem dessa vez estava acuado para variar era ele, e não eu!
Foi então que eu me toquei de que ele havia me feito uma pergunta. E eu sabia que minha resposta não iria acalmá-lo ou diminuir seu cauteloso receio, contanto que eu o desse a resposta certa! No que, com toda calma, eu o respondi -quase que com um orgulho por poder admitir o que eu era se fosse isso que iria continuar mantendo-o afastado de mim!
— "Eu sou um feiticeiro d'água."
Eu proferi sem esperar muito por uma reação óbvia vinda dele, mas mesmo assim, torcendo para que ele soubesse o que aquilo queria dizer e por quê ele não deveria tentar novamente se aproximar de mim.
Ao que eu procurei não desperdiçar mais meus segundos, deixando-o sozinho com seus pensamentos enquanto minha mão discretamente foi para trás tentando tatear a parede -sem alertá-lo- para buscar saber exatamente o que estava ao meu alcance -além de um Skrea que tentava não tirar seus olhos de mim, mas que distraidamente continuava preso em seus próprios pensamentos enquanto segurando sua mão dormente.
Porém, à cada movimento mais pronunciado que meu corpo fazia, seu corpo igualmente tentava me replicar quebrando temporariamente o transe em que ele se encontrava e se inclinando na minha direção como se não soubesse ainda se arriscava ou não vir para cima de mim mais uma vez.
E com isso eu tive mais e mais certeza de que aquele tempo de trégua que consegui entre nós dois só estava era mesmo dependendo do meu próximo movimento para acabar!
Na realidade eu sei que estava esticando algo que não precisaria ser esticado... Eu sei que até onde se possa confirmar, ele estava apenas atrás desse tal cordão e eu poderia acabar logo com isso entregando-o à ele e indo embora... Mas, sinceramente eu não estou interessado em subestimá-lo da mesma forma que ele fez comigo. Esse Skrea não era um cara simples, e não me convenço de que ele pretende que essa situação também seja resolvida tão simplesmente assim!
Nada me provava que no instante que eu entregar esse cordão, ele não iria me atacar. E até onde eu sei esse cordão na verdade é a única coisa que está poupando a minha vida (ao menos enquanto ele não perceber aonde eu o escondi)... Isso é, enquanto sua paciência também durar, já que com esse Skrea tem sido sempre uma questão de "esperar a tempestade atingir".
Eu não quero segurar esse cordão comigo, mas o melhor é que eu só devolva isso à ele quando eu não estiver mais tão desprotegido.
"... Se eu tiver ao menos um segundo de vantagem, acho que posso correr até a porta e fugir desse quarto. Ele não deve tentar me seguir se eu conseguir sair pela porta, não com tantas testemunhas lá fora, já que ele estava tão preocupado em ser reconhecido quando chegou...!"
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