Bittersweet.
64 55. Isso está mesmo acontecendo?
Notas iniciais
A morcega encarou o ouriço por alguns minutos, longos minutos de silêncio e análise, até que ela respirou fundo e abriu a porta para ele.
— Entre. — Disse apenas.
Aceitou a oferta e caminhou pelo hall, não conseguia focar sua visão para além do chão, não sabia como degradante para seu orgulho seria ir para uma desconhecida e pedir ajuda, mas era a única opção que o destino lhe deu.
— Primeiro tire isso. — Apontou para o pescoço dele.
Sem entender, deslizou a mão para aquele lugar, seus dedos tocando algo de metal, sua memória vacilou, sequer se lembrava quando isso fora colocado ali.
— E tome um banho. — Ordenou, apontando para o final do corredor. — Você está horrível. — Sua voz tinha frieza.
Olhou para ela sem entender, como se tivesse problemas para apreender as palavras.
Ela lhe deu as costas, caminhando pelo apartamento, sem outra alternativa e, já que estava ali, resolveu acatar.
Não era todo dia que isso acontecia, nem mesmo era o esperado. Mas o que esperava? Não fazia a menor ideia.
Nem Rouge o tratava dessa forma e não sabia como lidar.
Chegou a um quarto qualquer, na qual nem ele sabia se era de hospede ou principal, estava confuso demais para prestar atenção e não se importava o suficiente para isso.
— Anda, não tenho todo o tempo. — Jogou-lhe uma toalha e saiu do quarto.
Encarou aquilo por um tempo, antes de balançar a cabeça e arrancar o colar do pescoço.
Entrou no banheiro, para então se limpar.
.
Nem mesmo um banho o fazia se sentir melhor, parecia que sua imundice nunca iria desaparecer, a água não era capaz de limpar seus erros.
Saiu do banheiro se sentindo apenas uma mísera parcela melhor.
Suas luvas estavam encardidas e suas meias imundas, não tinha muito o que fazer sobre isso, já que não tinha um par delas perto e mesmo que estivesse no mesmo prédio, não tinha forças para chegar até o apartamento de Rouge e repor com novas peças limpas.
Suspirou, com a toalha presa no corpo. Se sentindo deslocado e completamente sem graça.
Depois de um tempo, a morcega entrou, gesticulando para ele sentar na cama e sentando em uma distância razoavelmente longa para quem compartilha o mesmo recinto.
— Você queria...? — Disse desinteressada, pegando seu computador de um case e começando a digitar.
— Eu não sei. — Respondeu depois de um tempo. — Como você...?
— Não graças a você, aparentemente. — Cortou seca. — Mas não estamos falando sobre mim. Tenho certeza que veio por algum motivo.
— Sim, na verdade nem sei o que fazer. — Admitiu.
— Bem, não acredito que sua visita informal tenha alguma coisa a ver com a GUN. — Disse relaxando. — Tem algo te incomodando.
— É Sonic... Ele... Eu... — Não conseguiu dizer. — Alguém me mandou vir te procurar, não sei porquê, mas você parece ter respostas.
— Depende de quais são suas perguntas. — Respondeu evasiva, se remexendo com o computador no colo, digitando rapidamente algo.
— Sonic, ele realmente está...? — Não conseguiu terminar, era como se algo estivesse preso em sua garganta, as palavras não pareciam soar como ele esperava que saíssem.
— Fora de risco. Digamos que por agora fisicamente estável. — Respondeu sem pensar muito. — A hemorragia foi controlada, não corre nenhum risco de vida.
— E... eles...? — Perguntou esperançoso, o tom era novo e estranho saindo de sua voz geralmente sem emoção, sua expressão era preocupada, culpada e dolorida.
— Eles? — Perguntou sem tirar os olhos da tela, digitando mais alguns botões.
— Meus... uh, os... — Engoliu em seco. Por que era tão difícil?
“Meus filhos.”
Era como palavras estranhas. Uma família? Filhos? Dele? Soava como loucura! Ele só podia estar louco.
Não poderia ser possível!
Era possível?
— Ah. Você sabe. — Mary disse sem surpresa, mas seu tom denunciava que estava levemente intrigada.
— Eles... Sonic... Vão ficar bem? — Apertou as mãos desnudas com força. Seus olhos se levantaram, se sentia vulnerável, exposto e completamente tímido. Era algo novo, inesperado.
Anormal.
— Por hora, sim. — Disse com um suspiro. — As expectativas são controversas. — Admitiu. — Não acho que ele consiga levar a gravidez até o final, é um risco que existe, os níveis de chaos no corpo dele oscilam, o esforço que ele fez sem necessidade, somado ao último acontecido... — Balançou a cabeça. — A gravidez ainda continuar é um milagre, mas as expectativas não são muito boas.
— Ele pode...? — Perguntou, temendo a resposta.
— Não é uma possibilidade que eu descartaria. — Comunicou direto e sincera.
Aquilo fora como um banho de água fria no inverno, doeu em todos seus ossos com a força de um martelo. Forte e doloroso.
Sua respiração travou, seu estômago se retorceu.
A culpa era inteiramente sua...
— Não posso dizer com exatidão, até porque varia de acordo com inúmeros fatores, mas se Sonic continuar sendo estúpido, a tendência é piorar. — A voz dela tinha uma pitada de raiva, se era por ele, ela ou Sonic, não sabia dizer.
— Eu não entendo... Sonic e eu somos ambos machos... — Balbuciou, seus pensamentos ainda não clareavam.
— Ele é intersexual. — Ela corrigiu calma. — E não, nem mesmo ele sabia disso até bem, acontecer a gravidez. — Acrescentou rapidamente, antes de qualquer outra reação mais agravada. — Imagino o choque.
— Eu... Não sei o que pensar... É como se tudo não fizesse mais sentido. — Admitiu. Perdendo completamente a pose. — Não imaginei que... Isso aconteceu.
— Parabéns, papai. — Murmurou com sarcasmo.
— Uh... — Deitou na cama encarando o tempo.
Pai... A palavra estranha dançava em sua mente.
Pai.
Ele nunca tivera um, Gerald era seu criador e, mesmo que tivesse lhe dado a vida, não agia como os pais que via nas novelas que Maria costumava assistir.
E quando seu “pai” apareceu, bem, ele fora forçado a mata-lo para que pudesse proteger o planeta que Maria amava.
Shadow nunca tivera um pai em sua vida. Nunca teve um exemplo paterno, um ambiente familiar, um grupo de pessoas a qual pudesse chamar de família.
Claro, tinha seu time de missão, mas... Mesmo assim, se sentia deslocado.
Ômega era um amigo, claro. Mas ele era composto de chips e circuitos, não compreensiva a complexidade humana e trabalhava com estatísticas baseada em fatos reais, não emocionais e, Rouge, bem, ele não sabia como se expressar com ela, pareciam estar em patamares diferentes, frequências opostas.
Mesmo que muitas vezes ela agisse como uma figura maternal para ele, ainda assim... Não sabia como se expressar abertamente com a morcega. Como se estivesse em um trave mental e social.
Encarou o teto.
Pai...
Isso realmente estava acontecendo?
Sonic o aceitaria em sua vida mesmo depois de tudo que ele fizera? Mesmo sendo o monstro que era? Mesmo que... Por culpa dele... Sonic esteja carregando seus filhotes? Crias de um ser odioso?
Não estava surpreso de Sonic ter continuado com a gravidez. Para todos os efeitos, ele é o ouriço mais idiota e bondoso que existia, nunca mataria uma vida, mesmo que tivesse que carregar os filhotes do pior ser existente.
Aquele que quase o matou.
— Você precisa de tempo. — A voz de Mary de repente soou. Ainda suave e tranquila. — É um choque grande. Você parece bem transtornado.
Não respondeu. O que poderia responder? Negar? Era patético.
Nunca tivera uma quebra mental perto de outras pessoas e, agora ele se sentia tão pequeno, tão insignificante. Tão... Inferior.
Um longo silêncio prosseguiu, sendo ocasionalmente interrompido pelo som dos dedos deslizando pelo teclado.
Depois o barulho parou e a morcega suspirou.
— Bem, ouriço. Você quer minha ajuda, certo? — Shadow levantou a cabeça e a encarou, os olhos carmesins brilhavam de um misto de emoções mescladas.
Não precisou dizer nada, sua expressão corporal já dizia muito.
— Então, estava conversando com o atual comandante. — Informou agora com uma postura séria. — Considere isso uma missão extraoficial, dada pela General da GUN. — Seu tom era frio.
Shadow levantou o olhar.
— Qual a tarefa? — Sentou ereto, ajustando a toalha ainda em seu corpo.
— Encontrar Miles Prower, desaparecido cerca de dois ou três meses, aproximadamente. — Shadow ouviu atentamente. Já sabia que o Miles que estava no campo de batalha não era o real, mas onde estava o verdadeiro?
— Alguma ideia de onde começar a procurar? — Se levantou, ficando de pé.
Sabia o quanto Miles significava para Sonic, sendo como um irmão mais novo, uma figura fraternal. Talvez... Mas só talvez, pudesse aprender alguma coisa com o garoto? Mesmo que ele não fosse um filhote recém-nascido...
Mesmo que provavelmente Sonic nunca o aceite novamente em sua vida...
— Usei os scanners dos satélites da GUN para enumerar todas as bases com sinais de terem sido usadas recentemente. — Fechou o computador. — É um tiro no escuro, algo que demoraria algum tempo.
— Estimativa?
Mary suspirou, depois deixou com que todo o estresse acumulado saísse em um arriar cansado da musculatura dos ombros.
— Um mês.
— Isso é muito tempo. — Comentou.
— Eu sei, mas estava estimando apenas com uma pessoa, agora tenho em mente duas a mais. — Disse mais firme. — Você e Ômega serão seus companheiros. Acabei de notificar Thomas sobre isso.
— Quando iremos?
— Amanhã. Hoje você precisa colocar a cabeça no lugar, um agente transtornado seria uma dor de cabeça e já tenho problemas demais para lidar. — Reclamou, antes de dizer mais tranquila. — Te ajudarei o máximo que eu puder, mas esfrie a cabeça antes.
Assentiu.
Seria então uma esperança? O feixe de luz solar entre as nuvens de chuva carregadas?
Sentou novamente na cama.
— Agora se me der licença... — Mary disse depois de um tempo. — Preciso organizar algumas coisas, tome seu tempo.
A morcega saiu.
Encarou novamente o teto, sem se conter, seus lábios se moveram em um sorriso que não sabia que ainda era capaz de dar.
Filhos... Dele...
Uma família.
Só poderia ser uma piada do destino.
Se a vida lhe oferecia uma chance, quem seria o tolo de recusar?
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