Bittersweet.
65 56. Miles Prower?
Notas iniciais
Haviam se passando cerca de três semanas. Shadow estava concentrado e focado em encontrar o garoto raposa, uma peça importante na vida de Sonic.
— Sonic não tem nenhuma ideia disso. — Disse a morcega caminhando pelo chão pantanoso de uma base semidestruída, havia algumas cercas rodeando o lugar, colocadas improvisadas.
— Por quê? O garoto é melhor amigo dele. — Rebateu, confuso.
— Questão emocional. — Mary respondeu de prontidão. — Ele está sensível demais, qualquer coisa pode o deixar pior.
Shadow absorveu a informação com cautela, fazendo pequenas notas mentais para usar posteriormente. Precisava aprender o máximo possível que conseguisse.
Nas semanas que se passaram, mal trocaram palavras sobre o tópico delicado, Shadow não tinha coragem de começar o assunto e a morcega estava concentrada demais na missão, sempre se comunicando com o comandante e o deixando a par do andamento da missão.
Então já que o assunto viera à tona...
— Como eu... Como posso... — Tentou perguntar, mas toda tentativa falhava.
Era um ambiente novo a qual estava pisando e nunca pensou que teria que se importar com outra pessoa além de seus aliados, às vezes ajudando quando lhe dava vontade.
Agora bem... Ele teria que se preocupar com outras vidas, cuidar de Sonic... Seus filhos...
— Abordagem sutil. — Mary disse séria. — Se aproxime aos poucos, tente mostrar que se importa com pequenos gestos, geralmente isso ajuda a tornar as coisas menos problemáticas.
— Abordagem sutil... — Ele repetiu para si mesmo. Baixo.
— Tente ouvi-lo, perguntar sobre como se sente, se precisa de algo. Deixe com que ele se sinta seguro em se aproximar. — Pararam na entrada da base.
Não havia segurança, nem sinais de uso recentes, mas isso não fora o suficiente para descartar a possibilidade.
— Ômega, processo de verificação. — Mary disse e abriu passagem para o robô que apenas acompanhava a dupla sem fazer nenhum som.
— AFIRMATIVO. — O enorme robô começou a caminhar, o led de seus olhos disparando lasers vermelhos.
A morcega se escorou na cerca, com os braços cruzados e esperando. A missão estava indo de acordo com o planejara e havia traçado linhas para procurar pelo garoto, se não tivesse em nenhuma das bases estipuladas, já havia um plano B.
Esperava que não fosse tarde demais para o garoto e que ele estivesse no mínimo vivo.
Suspirou olhando o céu, as nuvens carregadas se arrastavam pelo céu.
Havia conversado com Rouge mais cedo, para obter informações sobre Sonic, como o ouriço estava lidando e sua situação atual, felizmente não havia piora, pelo menos a morcega albina havia dito que não havia acontecido nada demais.
Não sabia se deveria confiar ou seguir seus instintos. Mas tinha coisas maiores para resolver antes de mais nada, principalmente quando se tratava de resgatar inocentes.
— Acha que eu... Ainda tenho chances com Sonic? — Shadow perguntou de repente.
— Não sou quem pode dizer. — Passou a mão pelos cabelos negros. — Isso depende de você, do quanto deseja estar ao lado dele.
— E... Se ele nunca mais querer olhar na minha cara... Depois de tudo eu... Arruinei as coisas.
— Se quer consertar as coisas, você vai saber como fazer. Não sou conselheira amorosa, sou uma ajudante, mas não cabe a mim solucionar todos os seus problemas. — Viu Ômega caminhando pelos entulhos.
— Como... Devo tratar alguém do estado dele? — Fechou os punhos e encarou a morcega.
— Depende de como você o vê. — A morcega suspirou. — Uma gravidez não é motivo para relacionamentos forçados, ouriço. Se você o vê como um aliado ou amigo, precisa deixar isso claro, se nutre algum sentimento e, ambos estão de acordo com um avanço no relacionamento, é algo que depende de vocês.
Shadow a encarou por um momento, absorvendo as palavras.
O que Sonic significava para ele? Um aliado? Um rival? Um amigo? Amante...?
Eles passaram meses praticando atos carnais.
Mas Sonic parecia levar isso como normal, algo comum nessa linha do tempo, o casamento era algo ultrapassado e a fornicação sem compromisso era costumeira. Então por que se sente tão culpado agora?
Não é como se Sonic fosse o único culpado por sua depravação sem limites, como lidar com o fato de que sua falta de vergonha resultara em consequências muito além das reparáveis?
— Não é como se mudassem com o passar dos anos. Antigamente, o sexo era um tabu, casamento era só pela desculpa de reprodução, a homossexualidade era odiada. Não que tivesse mudado algo para os dias de hoje, talvez a banalização do casamento, mas fora isso. — A morcega deu de ombros.
Passou-se alguns anos antes que os sistemas de Ômega apitassem, ouviu-se o robô se virando para eles.
— ASSINATURA DE SER ORGÂNICO DETECTADA. — Sua voz saiu como um sinal de esperança.
A morcega saiu de sua posição letárgica, correndo em direção a Ômega.
— Onde? — Não perdeu tempo em questionar.
— TRÊS ANDARES PARA BAIXO. — Apontou com seus dedos metálicos.
— Sinal de outras formas de vida?
O robô voltou a usar seu laser por alguns minutos. Antes de levantar a cabeça e dizer decidido.
— NEGATIVO.
— Vamos entrar da forma mais difícil. — Mary olhou para o ouriço negro. — Destrua a fonte de energia.
— Por quê? — Perguntou já pegando sua esmeralda dentre os espinhos.
— Segurança, não adianta entrar pela porta da frente, certamente tem câmeras em todos os lugares e sabe-se lá onde está Miles ou o que fizeram com ele, ou... — Passou a mão por seus bolsos, procurando. — Tenho uma alternativa melhor.
Tirou de lá uma espécie de celular preto. Caminhando até um dos cantos da base e puxando um fio.
— Hope ainda não teve chances de testar antes se o sistema está funcional. — Comentou. — É um “agora ou nunca” perfeito. Pegamos a tecnologia patenteada de Rotor, não sabemos se nossa versão se equipara, mas, é um tiro do escuro.
A tela de acendeu e uma espécie de holograma apareceu, relevando imagens pixeladas incompreensíveis.
— Alpha, desative o sistema de segurança. — Disse ao aparelho.
Alguns segundos se passaram antes da tela se apagar e faíscas saírem do painel.
De repente uma sirene de alerta tocou em toda a base, os portões se abrindo enquanto uma horda de badniks começaram a surgir.
— Avisarei Hope dos pequenos problemas técnicos. — Disse com sarcasmo. — Ômega! Cuide deles. E você — pegou com força no braço dele. — Nos coloque no andar -2.
Shadow assentiu, se sussurrando “chaos control” e envolvendo os dois em um clarão dourado.
Apareçam em um corredor metálico frio e árido, havia câmeras de segurança, como previsto, mas não se importaram muito mais com a questão da abordagem sutil, não agora, naquele momento.
Correram pelos corredores se desviando de lasers e alguns robôs que apareceram, correndo até um lance de escadas a qual desceram em uma velocidade impressionante, embora um deles voassem.
— O que aconteceu com toda a história de segurança? — Perguntou enquanto alcançavam o andar que precisavam.
— Nem tudo pode sair da forma como planejamos! — Mary gritou para ele. — Se prepare! — Segurou os braços dele e o levantou do chão.
Não precisava de muito mais para entender qual era o plano assim que a porta de metal apareceu na sua frente, assim que fora lançado, se curvou em uma bola e foi com tudo contra a contenção de metal.
A porta resistiu a primeira tentativa, antes dele continuar atacando-a com uma chuva de chaos spears.
Estava ofegante quando as dobradiças resolveram ceder sobre sua insistência.
— Me dê cobertura! Vou entrar. — Disse e entrou voando.
O corredor parecia uma espécie de prisão, onde havia celas de metal e se estendia por vários metros.
Pousou no chão e começou a passar por elas, uma a uma procurando por qualquer pista do garoto.
Até que o encontrou, na última cela. Ele estava preso na parede por algemas, havia um prato de comida de aspecto não muito comestível, o garoto estava com a cabeça encostada contra a parede, olhando para cima.
Seus pelos estavam imundos, emaranhados e encardidos, seu corpo estava absurdamente magro, quase subnutrido.
— Miles Prower? — Chamou.
O garoto olhou para a morcega assustado, os grandes olhos azuis estavam desesperançados. Assentiu com a cabeça, mas até esse movimento parecia cobrar muito dele.
Tocou a grande da cela, procurando uma forma de abri-la, mas assim que encostou na porta, sentiu toda a descarga elétrica passar por sua mão, afastou-a com um arfar.
— É inútil... — Ouviu a voz cansada dizer. — Melhor fugir antes que eles voltem. — Ele riu cansado, sem qualquer resquício de humor.
Mary encarou aquilo como um desafio, então abriu as asas e alçou voou em uma boa altura e começou a chutar a porta. Cada investida era dolorosa, até que a tranca cedeu.
Pisar novamente ao chão doía em cada célula do seu ser.
— Não vou falhar no meu objetivo. — Disse ofegante. — Falhas não são permitidas.
— Sonic não veio me resgatar... — Disse desolado.
— Eles tentaram encobrir sua ausência com um protótipo quase convincente. — Mary comentou ao se aproximar da corrente, tentando a tirar do pulso dele.
— Por quanto tempo? — Sua voz era um fio doloroso de tristeza.
— O suficiente. — Disse somente, desistindo dos pulsos e forçando a corrente a sair do suporte na parede. — O suficiente para que fosse responsabilizado por coisas não muito agradáveis.
— Não... — Colocou a cabeça na parede, tentando suprimir a dor. — Se eu não tivesse sido idiota...
— Não é hora de culpar. — Disse arrancando a primeira corrente. — Não adianta ficar se flagelando por isso, o que resta é tentar não cometer o mesmo erro.
— Eu sou um idiota. — Ele riu fraco.
— Acha que consegue andar? — Perguntou depois de libertá-lo da constrição.
— Não. — Admitiu.
Ela segurou o corpo dele junto do dela, passando o braço magro por seus ombros e segurando sua cintura. Começaram a caminhar em um passo apressado, com Mary puxando o garoto enquanto chegavam perto de Shadow.
— Já era hora. — Comentou impaciente.
— Celas com eletricidade. — Disse simplesmente.
— Ah. — E deu de ombros.
— Consegue tirar nos três daqui? — Olhou para o garoto que estava com a cabeça encostada em seu peito, quase inconsciente.
— Preciso me concentrar. — Admitiu.
— Então o que está esperando? — A morcega o puxou e fechou a porta das celas. — Vamos logo, não tem como sair de onde viemos.
Shadow assentiu, segurou o braço de Mary e fechou os olhos com força. Demorou alguns minutos, longos minutos de tensão, ouvindo a aproximação cada vez mais audível de inimigos armados sem qualquer piedade em suas programações.
— Chaos...
Mas antes que conseguisse terminar o comando, algo explodiu, o teto começou a desmoronar. Tails tentou gritar, mas sua voz cansada não conseguia uma boa altura, Mary tentou o proteger com seu corpo enquanto um pedaço enorme de teto caía em direção deles.
A missão havia dado errado.
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