Bittersweet.
63 54. Preciso de ajuda.
Notas iniciais
Não tinha noção de quanto tempo se passara, a floresta abrira espaço para os prédios da cidade, andava sem nem mesmo ver por onde, os transeuntes abriam passassem para ele, por medo e surpresa, ninguém queria estar no seu caminho.
Sua fama nunca fora das melhores, não poderia julgar o preconceito deles, afinal, ele fora um monstro.
Sua expressão era transtornada, chocada.
Exausto, quebrado.
Auto-ódio.
Entrou em um beco qualquer, a cidade o nauseava. Vomitou sem nem saber de que ele era capaz de fazê-lo. A bile impregnando sua língua, fazendo com que se sentisse ainda pior.
O que ele estava fazendo? O que um monstro como ele estava procurando?
Não sabia, não fazia ideia.
Sua mente dava loopings, nenhum pensamento coerente se firmava.
Tudo era uma série de borrões de cores, cheiros e movimentos.
Iria continuar, quando uma aura ciano inesperadamente o parou.
— Encontrei você. — A voz era surpreendentemente familiar, como se a tivesse ouvido uma vez antes.
Mas não conseguia se lembrar, talvez uma alucinação?
Levantou a cabeça encarando olhos de mesma cor, olhando para ele com expectativa. Como se estivesse feliz em encontra-lo.
Não respondeu, o que deveria dizer? “Acabe com meu sofrimento?”
Patético.
— Preciso de sua ajuda. — Disse apressado, sua expressão parecia afetada, séria demais. — Você é o Ultimate Lifeform, certo?
Shadow apenas o encarou sem emoção.
Seu peito queimava de uma dor que não conseguia nem mesmo mensurar, era como se seu interior estivesse rachando em milhares de pedaços. Suas costelas doíam, o ar era escasso, parecia que sentia além de sua própria dor.
— Só você é capaz de me ajudar. — Insistiu, olhando o ouriço perdido com pena?
Quão patético tinha se tornado para ser digno de pena?
— Não. — Conseguiu dizer com o ar preso na garganta.
Ele era a pior criação da humanidade, com objetivos deturpados. Ele deveria ser a cura de Maria, o protetor do planeta que a menina sempre sonhara conhecer. Agora, ele era uma arma letal, a mais afiada das lâminas, um inimigo mortal.
Um fracasso para a proteção daquelas vidas.
O que ele ainda tinha como objetivo?
Não se importava mais. O que ainda lhe restava?
Se Sonic sobrevivesse, o que viria depois?
Nunca mais olharia em sua cara.
Ele arruinou tudo que poderiam ter.
— Eu sei o que te assombra. — Disse de repente. — Ainda tem remédio.
— Você não sabe de nada! — Rosnou, seus olhos vermelhos tinham raiva, se era dirigida para o garoto ou para si, não sabia nem mesmo dizer.
— Acredite. Eu sei. — Suspirou, depois olhou para a chão, exausto. — Vamos para outro lugar, aqui não é o melhor lugar.
Shadow apenas o encarou, então assentiu, o que ainda tinha a perder?
E se... Esse garoto misterioso realmente soubesse do que está falando. Teria salvação?
Ele estava destruído, acabado tanto mental, como fisicamente.
O que ainda restava?
Nem mesmo esperança sabia que era capaz de sentir.
.
Chegaram até uma cabana improvisada, feita de sucatas e lixo. Encarou o lugar, ele deveria estar ali há algum tempo.
Ele ofereceu um lugar para sentar, perto de um colchão mofado.
— Eu venho do futuro. — Admitiu depois de um tempo de silêncio contemplativo. — De um tempo não muito longe desse.
— Por que eu? — Cuspiu.
— Porque você e Sonic são nossas únicas esperanças de mudar meu futuro. — A voz tinha uma estranha doçura.
— Eu o destruí. — Rosnou, encarando com ódio suas próprias mãos.
— Não. Mas se o abandonar, tudo irá ruir. — Sua convicção era assustadora, os olhos cianos amargos e sérios.
— Eu sou um monstro, uma arma.
— Não, não é. Você é tão vital para o equilíbrio quanto acredita.
— O... O que acontece nesse seu futuro?
— Estou quebrando todas as regras contando isso a você. — Fez uma careta. — Mas você precisa acreditar. — Apertou as mãos com força.
— Estou ouvindo...
— Sonic morreu. Você se isolou na ARK e se auto congelou. — Disse sem mais detalhes. — Depois disso Eggman conseguiu o controle do planeta com uma joia antiga que existia na Angel Island, a GUN tentou controlar a situação, mas a coroa Acorn foi controlada e tudo foi de mal a pior. — Desviou o olhar.
Shadow ouviu silenciosamente, parecia algo fantasioso, mas ao mesmo tempo crível, por alguma razão... Confiava no garoto. Parecia jovem, mas bastante forte.
— Fui criado por uma tutora que era companheira da Guerra. — Olhou para cima, parecendo se lembrar de algo doce. — Ela me mandou para o passado, esperando que eu conseguisse corrigir isso.
— E o que eu tenho que fazer?
— Procure-o, converse com ele, tente corrigir seu erro. É a única maneira de proteger o planeta e tudo que você queria ter.
— Como...? Destruí tudo...
— Você conseguirá. — Sorriu.
Aquele garoto... Tinha um sorriso parecido com de Sonic, mesmo que tivesse um semblante cansado.
— Qual o seu nome? — Tinha certeza que já o vira antes, mas não conseguia se lembrar, era irritante, mas onde vira um ouriço prateado com pelos amarelados antes...?
Sua cabeça doía demais para que tentasse se lembrar, como se algo bloqueasse.
— Você saberá. — Disse apenas.
Shadow queria perguntar a razão, mas antes que pudesse abrir a boca para perguntar, ele já mudara de assunto.
— Procure Mary, ela vai te ajudar com isso. — Disse apenas e, surpreendentemente, começou a desaparecer, lentamente.
— Você está...? — Se levantou tentando tocar o garoto.
— Nos veremos no futuro... Shadow. Você terá muito tempo para me conhecer.
E com essas últimas palavras, sua figura sumiu.
Isso era um bom sinal? Talvez.
Mas quanto tempo ainda tinha?
Se ele sumira, então motivos para ficar não existiam mais.
Então... Existia esperança?
.
Não soube qual força o levara para ali, conhecia aquele prédio, já vivera ali por algum tempo antes que resolvesse sair.
Era o mesmo prédio de Rouge.
Chegou até a recepcionista, uma overlander estranha que cheirava mobian, mas ele era desinteressado demais em outros seres para se importar com esse detalhe, mesmo que fosse intrigante para seus sentidos.
— Qual andar é o da Mary? — Perguntou.
Notou como sua voz era estranha, havia se esquecido completamente de como seu estado físico estava.
— Sr. Shadow? — Ela gritou, se levantando assustada. Seus olhos expressavam medo, mesmo que já estivesse acostumada a ele. — Úl-Últi-mo an-dar... — Tremia.
Shadow ignorou-a indo para o elevador. Havia alguns overlanders esperando, esses de repente decidiram usar as escadas, subindo apressados e se afastando de sua presença.
Quando o elevador desceu, os poucos que estavam dentro, evacuaram o mais rápido que suas pernas permitiam.
Entrou, esperando os minutos torturantes até o último andar, o prédio parecia estar estranho, não se lembrava da fachada de um dos apartamentos estar vedada com madeira, como se algum acidente tivesse acontecido.
Suspirou quando as portas se abriam, se bem sabia, o último andar era a cobertura, então teria que passar pelo sistema de segurança e ser reconhecido para poder ter acesso, ainda tinha a saída de incêndio, mas não estava ali para invasão de domicilio.
Passou por um corredor com câmeras, um leitor de retinas e impressão digital. Somente funcionários e moradores do prédio estavam dentro do sistema de reconhecimento e, como ele vivera com Rouge, sua passagem estava liberada, suspeitava que a recepcionista tivesse permitido, mesmo que ele parecesse transtornado demais para estar em boas faculdades mentais.
Tocou a campainha, esperando.
Sentia seu coração acelerando com um jato inesperado de adrenalina.
A porta se abriu, olhos carmesins lhe encararam estreitos, antes de fechar a porta com força, sendo impedida por um pé como empecilho.
— Espera... — Disse apenas.
Ouviu um suspiro, depois a porta se abriu.
— Fale.
Engoliu.
Pedir algo nunca fora fácil. Desacostumado com contato social mais do que o necessário, na GUN e no pouco tempo que passou com Rouge.
Não era a mesma coisa.
Ela era uma desconhecida.
Mesmo uma desconhecida que ele quase matara.
Vê-la, viva. Lhe dera uma inesperada esperança.
Se ela estava bem, então... Sonic também estava?
Havia realmente esperanças para ele?
Fechou os olhos e respirou fundo várias vezes, como se estivesse exigindo um esforço descomunal dele, queria dar meia volta e fazer as coisas à sua maneira, mesmo não tendo ideia de como.
Mas já era tarde demais.
Engolindo o orgulho e abrindo os olhos, finalmente disse:
— Preciso de ajuda.
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