Bittersweet.

61 52. Seu mundo obscureceu.


Notas iniciais
Sem mais delongas, boa leitura~

Esperou sentir a dor de ser perfurado. Esperou o sangue inundar as vias aéreas, se afogando em seu próprio líquido vital, agonizando lentamente até que o fio da vida fosse cortado pelo destino.

Mas nada veio.

Ouviu mais gritos, eles machucavam seus ouvidos, fazia com que desejasse se encolher em uma bola e não mais ser visto.

A falta de dor era pior, sentia torpor inundar seu corpo, sentia o frio do asfalto contrastando com o calor do corpo de Amy, sentia a respiração dela, subindo e descendo em seu peito.

Ela estava intacta?

Por que a dor não vinha?

Por que não conseguia sentir nada?

Era isso então a sensação de morrer? Um enorme vazio, a falta completa da dor?

Abriu os olhos e então entendeu.

O sangue escorria pelo chão destruído, mas não era seu. Uma sombra negra se estendia diante dele, misturada com verde e vermelho. As asas enormes abertas, pareciam maiores, tampava a luz.

A espada ainda em suas mãos, fincada no chão.

— Ômega! — A voz saiu em um rosnado de dor, de agonia.

Não conseguia ver nada, mas via a ponta da lança, prateada apontando para ele, mas com um empecilho se intercalando.

Não conseguiu ver Shadow de onde estava, nem mesmo fazia ideia de como o ouriço negro conseguiu ficar imóvel e não procurar outros meios.

E então, o som de uma descarga elétrica. Dois gritos de agonia se seguiram.

E então tudo cessou.

Seu rosto pinicava, passou a mão e percebeu que estava suja de líquido carmesim.

O sangue dela.

Não conseguia dizer nada, sua mente presa em um imenso mar de torpor, não sentia nada, nem mesmo a dor das costelas parecia o incomodar mais.

Então a inconsciência o varreu completamente.

Não tinha certeza de mais nada.

.

Amy despertou com os gritos, assustada.

Se lembrou de estar rebatendo os Chaos Spears e de acertar Shadow com sua própria técnica e, então tudo aconteceu rápido demais para que conseguisse pensar.

Em um instante estava esperando a morte, em outro, voava pelo campo de batalha junto de uma bola azul de espinhos.

Tentou se levantar mas o corpo pesado estava atrapalhando, se ergueu para perceber de que era Sonic.

Quantas vezes não sonharam com essa cena? Sonic deitado em seu peito, dormindo com ela como um perfeito casal fofo?

Então por que agora essa cena parecia tão errada? Por que não conseguia sentir felicidade e só dor vinha?

Era isso então? Realmente não foram feitos um para o outro como sempre sonhara?

Deslizou os dedos pelo rosto dele, quente e inconsciente.

Era como um sonho, tocar seu rosto, estar tão perto dele.

Mas sentia incompleta. Ao mesmo tempo que internamente realizada, era a sensação de tocar a face de uma santidade, ele esteve tão inalcançável todos esses anos que agora que o tinha em seus braços — mesmo que não nas melhores condições —, não conseguia sentir absolutamente nada.

Estava vazia.

Sem um objetivo.

E completamente esgotada.

Suspirou tentando se levantar, mesmo com o peso em cima, era difícil, suas costas doíam, conseguiu ver a cena da morcega negra caindo ao chão, com um baque surdo, Shadow veio logo em seguida caindo ao chão, atrás dele Ômega estava com um braço erguido, algumas faíscas saíam pelos dedos metálicos.

O enorme robô se abaixou, pegando o fragmento de sabe-se lá qual joia, abriu um compartimento em seu tronco e colocou-a ali.

Logo depois, o led de seus olhos se apagaram e ele caiu pesadamente.

Rouge se aproximou dela, assim como Sally que havia saído da formação e veio ao seu encontro, a expressão preocupada.

— Amy? Você está bem? — Sally disse ao mesmo tempo que Rouge perguntava “Está machucada?”

— Estou... Bem... Acho... — Disse sem fôlego. — Ele é mais pesado do que pensei. — Riu sem humor, as falas complicadas de sair.

— Me ajude a levantá-lo. — Rouge pediu, segurando um dos braços do ouriço inerte, segurando com cuidado já que vira que estava arroxeado, provavelmente se machucara na queda. — Esse ouriço imbecil. — Xingou baixo, mas Amy fora capaz de ouvir.

— Sim. — Sally se prontificou, puxando o outro. As duas mulheres conseguiram fazer com que Sonic ficasse de pé, apoiando o corpo dele colocando cada braço ao redor dos seus pescoços.

Ambas ofereceram a mão para Amy que aceitou, mesmo sendo as costas estalarem quando se levantou, soltou um gemido de dor e tentou se endireitar.

— Isso é mais doloroso do que parece. — Comentou, se esticando e ouvindo o som agorento das articulações indo para seus devidos lugares. Depois deu um sorriso. — Como estamos?

— Shadow tá apagado. — Rouge afirmou. — Ômega é forte o suficiente para reter Shadow se ele saísse do controle, na verdade ele foi construído com essa função. — Explicou. — Embora isso gaste muita energia e tenha que se reiniciar para evitar que entre em pane.

— Isso já aconteceu antes? — Sally perguntou, virando a cabeça para trás, encarando o ouriço negro com uma careta.

— Não. — Rouge disse com convicção. — Na verdade uma vez, mas não assim. Você já sabe da história.

— Ele estava confuso. — Amy disse sem pensar. — Não quero ser a defensora dele, mas eu estava lá quando aconteceu, ele estava confuso. Conversei com ele, suas memórias estavam confusas e acreditava que a promessa da sua falecida amiga era outra...

— Isso é maduro da sua parte, não culpar inteiramente alguém dessa forma. — Sally elogiou e Amy se sentiu ligeiramente encabulada com isso.

— Não posso negar algo que eu presenciei, mas agora... Isso não era Shadow, sei que todo mundo acredita que ele é o inimigo número 1 do planeta, mas... Ele mudou, não confio nele, claro. Mas... Algo mudou. Bobo, eu sei... — Olhou para o chão. — Talvez Sonic tenha esse poder. — Deu de ombros e olhou para o ouriço inconsciente com carinho.

— Temos que leva-lo para uma ambulância rápido! — Rouge disse e o alarme em sua voz despertou a curiosidade de Amy.

Claro, ele estava machucado, levou um golpe forte de Shadow e estava inconsciente, mas a forma como Rouge disse aquilo... Era diferente.

Estufou o peito e disse com toda a convicção que tinha.

— Lidero o caminho. — Virou as costas para as mulheres, caminhando com passos sôfregos e cansados, mas o martelo ainda em mãos.

Ninguém iria se interpor em seu caminho se fosse inteligente.

— Deixa que eu o carregue. — Rouge disse. — Já carreguei Shadow e Ômega antes.

— Certo.

Sally a ajudou, até olhar para Sonic mais atentamente.

— Sabe, ele me lembra alguém da minha infância... — Disse e sem pensar o tocou.

Rouge endureceu quando o pijama levantou, expondo o pequeno volume, Sally também endureceu e depois seus olhos tomaram um olhar de raiva. Se estreitando e colocando a blusa novamente em seu lugar.

— Claro. Imbecil. — Disse e fora para junto de Amy, caminhando junto dela e começando a correr com Rouge logo atrás, começando a voar.

— O que aconteceu? — Amy perguntou olhando para a esquila irritada, como se estivesse culpando Chaos e o mundo.

— Muitas coisas. — Disse por fim, mas, se arrependendo do seu tom, tentou reverter a situação. — Eu explico depois, acho que vai se chocar.

— Uh? — Balbuciou confusa, apesar da crescente curiosidade, parecia que procurar ajuda para Sonic parecia realmente importante.

Se lembrou das inúmeras lutas antes, até piores. Nunca havia visto Sonic naquele estado, nem mesmo havia pensado o quanto isso poderia custar dele até sentir na própria pele, todos seus músculos doíam, seu corpo implorava por repouso, mas não tinha tempo para isso.

Era assim que Sonic se sentia após cada batalha?

Esboçando um sorriso zombeteiro quando seu corpo inteiro queimava e sua mente implorava por descanso?

Era esse o verdadeiro significado de ser um herói? E... Se ela tivesse falhado? A culpa seria inteiramente sua? Se Sonic não tivesse sido rápido em salvá-la em todas vezes, ela poderia julgá-lo?

Seria hipócrita se dissesse que não, certamente ficaria irritada, se sentiria deixada de lado. Mas, agora... Se a situação fosse inversa, teria o mesmo sentimento?

Uma pequena amostra de como é estar do lugar de Sonic a fizera pensar em mais coisas do que normalmente faria.

Teria sido tão compreensiva se soubesse quanta dor ele sentia enquanto o prendia em seus abraços esmagadores?

Agora, vendo por esse lado, Sonic tinha razão de sempre fugir.

Ela é irritante demais.

.

Fechou um dos punhos, o outro segurando Piko Piko Hammer com um aperto mortal.

Ela não será mais a mesma Amy Rose, seria digna de se integrar no grupo de heróis de Sonic e, mesmo que tivesse seu próprio time, faria de tudo para que eles estivessem sempre a salvo.

Jurou a si mesma, não seria mais a garotinha egoísta de outrora, seria mais a amiga que Sonic precisava, a irmã que ele não tinha, companheira para estar sempre ao lado dele, faria por merecer os encontros com ele, agora, como uma grande amiga e parceira de batalha.

Cada passo para fora, parecia que o céu nublado se abria e os raios de sol começavam a surgir.

— Merda! — Ouviu Rouge xingar baixo.

Uma overlander de cabelo curto castanho passou por elas correndo, junto de outra de cabelos loiros que mais parecia uma atriz que um soldado. Não entendia urgência, mas deixou-as passarem, já que não era de sua conta.

Via uma multidão de telespectadores sendo contidos por uma cerca humana de soldados, tentando evitar que transpassassem e se ferissem.

Ao mesmo tempo que os vira, também foram vistas, logo um coro de gritos fora ouvido, clamando por Sonic, idolatrando-o mesmo sem nem saberem quem fora os lutadores.

Franziu a testa para as garotas gritando histéricas, sabendo muito bem que já se enquadrara naquele grupo.

Mas agora apenas achava isso irritante.

Ela realmente era tão irritante nesse nível?

Bem, agora não era mais.

.

Rouge avistou uma ambulância mais afastada, voou para lá. Amy seguiu seu exemplo, usando o máximo de sua força para conseguir alcançar a morcega, suas energias nas últimas.

Entraram as três, Rouge parecia ter se esquecido que tinha plateia e, depois de gritar para o motorista para se apressar, levantou a camisa do pijama e fora averiguar os danos.

Amy olhou chocada para o volume no ventre do ouriço. Tudo pareceu girar, enquanto a opção mais lógica parecia um absurdo, não ajudava que a calça estivesse impregnada de sangue, o mesmo que manchava a roupa de Rouge, fresco.

Isso era... Um sangramento...?

Ele...

Não...

Ele não estava...?

Ele...

Podia?

Sally estava do lado de Rouge, pressionando as costelas onde um hematoma roxo estava, mas tudo que ela conseguia ver era o volume.

Isso era absurdo!

Então por que seu mundo começou a girar?

E então, tudo deixou de fazer sentido.

Seu mundo escureceu.

Notas finais
Comentem caso sintam o interesse~