Bittersweet.
10 10. Por que isso está acontecendo comigo?
Notas iniciais
“Não... Ele não é só bonito. Sua pureza e inocência são tão grandes que nem mesmo o doutor seria capaz de corromper.”
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A noite passou lentamente em um arrastar lento e vagaroso de horas e Shadow ainda continuava acordado, embora sentisse vagamente uma sonolência de origem desconhecida, não era o bastante para que o fizesse sentir vontade de dormir, ele não era acostumado a ter horas longas de sono, mesmo que seu corpo estivesse sob estresse ele via o simples ato de dormir como uma necessidade reservada aos mortais enquanto ele poderia simplesmente o fazer por capricho.
Seu pulso vibrou ao mesmo tempo que o característico sinal sonoro ressoou, olhou em direção ao relógio e franziu a testa.
5:00 AM
Suspirou enquanto movia seu pulso para perto de seu rosto, Sonic durante a noite mudou sua posição diversas vezes durante seu sono e agora ele mantinha a mão descansando entre os pelos de seu peito e a cabeça no travesseiro.
— Agente Shadow. — Cumprimentou quem quer que fosse com uma voz tranquila, em palavras quase silenciosas. Sonic se remexeu um pouco, suas orelhas azuis captando o som de sua voz.
— Saudações, uh, Projeto. — A voz do homem se fez presente, altiva e séria. — Espero não tê-lo acordado. — Shadow notou o tom de presunção em sua voz. Sabendo que o ouriço não ia responder, continuou. — Venho pessoalmente avisar que você escalado para uma missão de reconhecimento um pouco longa, entretanto é de suma importância e não estou lhe oferendo a opção de negar. Se ainda quiser manter seu emprego e provar que vale de algo, claro. — Ele podia visualizar o comandante sorrindo.
— Em que área? — Perguntou ignorando toda a provocação. Enquanto notava Sonic inquieto, sem se abalar correu seus dedos pelos espinhos da cabeça suavemente fazendo com que o ouriço se acalmasse e relaxasse.
— Christmas Island, veja, é uma ilha quase ignorável no mapa, porém para evitar problemas futuros achei conveniente mandar alguns dos meus soldados para procurar por algo que poderia representar problemas. Mesmo sendo uma ilha aparentemente inofensiva com alguns poucos habitantes, não quero correr risco algum. — Concluiu.
— Qual a escalação?
— Inicialmente o Team Dark, não quero correr riscos mandando algum soldado inexperiente.
— Tire Rouge da formação. — Disse depois de um pensamento rápido, era arriscado, porém não via outras alternativas.
— Desculpe?
— Creio que por ser algo que envolva exploração e reconhecimento, basta Ômega e a mim, já que não temos a necessidade de descanso periódico e comida. Rouge ainda é mortal. — Concluiu, embora soasse como um comentário frio e decerto até maldoso, era a única forma de fazer seu ponto válido.
— Que seja. — Concluiu. — Você tem meia hora. — E desligou.
Ele suspirou, não era fácil trabalhar para o ser humano que parecia o desprezar.
Tirou a mão que estava em seu peito e a depositou calmamente na barriga cor de pêssego. Se levantou silenciosamente, porém ao olhar para sua figura adormecida, algo como a preocupação apareceu novamente em sua face. Seu rosto parecia levemente cansado, mesmo com as horas de sono a mais e com a refeição farta, ele parecia estranhamente fraco.
Balançou a cabeça, rolou ao redor para procurar papel e caneta e ao os encontrar, escreveu rapidamente uma nota. Não que ele fosse obrigado a avisar ao ouriço o que ele faz ou o que deixa de fazer, não possuíam vinculo algum que o obrigasse a fazer tal coisa, entretanto se viu o fazendo.
Deixou a nota na cômoda, ao lado do relógio digital, um lugar de fácil acesso. E deixou o quarto, fechado a porta lentamente e dando uma última olhada no ouriço. Foi primeiramente à cozinha e depois antes de sair, fez questão de realizar uma ligação.
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Seus olhos verdes se abriram de repente, quando uma pontada de dor o fez acordar contra sua vontade, sua visão ainda estava embaçada e demorou um pouco até que ela ficasse normal, sua cabeça parecia girar e ainda tinha uma leve dor incomoda em sua testa.
“Uh... Onde estou?” Demorou até que ele reconhecesse seu próprio quarto, seus olhos pareciam ter assumido um ar melancólico. “Então... Foi realmente tudo um sonho?” Lágrimas frescas abriam caminho pela face pálida, seu coração parecia se afundar em um mar de incertezas enquanto a tristeza lhe corroía lentamente.
Olhou para o relógio digital, ao notar que ainda estavam na parte da manhã, as cortinas estavam fechadas assim como sua janela. Foi então que notou uma folha de papel na madeira escura, pegou-o curioso e lentamente leu as palavras.
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Fui chamado para alguma missão da G.U.N, não sei quanto tempo vou demorar, então não espere que eu vá aparecer tão cedo. Enfim. Não confio em você sozinho, Rouge vai te fazer companhia por todo o tempo.
Cuide-se, você parece anêmico.
— Shadow
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Franziu a testa confuso. “Então... Foi... Real?” Seu coração parecia acelerado enquanto suas bochechas adquiriam uma cor rosada, porém a sensação durou pouco quando uma dor em seu estômago o fez lembrar da razão de ter lido aquela nota em primeiro lugar.
Se levantou rapidamente, se arrependendo de sua estupidez segundos depois quando uma tontura quase o derrubou na cama. Porém não se deixou abalar e praticamente correu para o banheiro com a mão fortemente segurando a boca com força.
Entrou de qualquer maneira em seu banheiro, se jogando de joelhos em frente a privada e vomitando violentamente.
Sentia o gosto ruim em sua boca depois que terminou, seus olhos estavam amplos e sua face pálida, todo seu corpo tremia.
“Por que... Por que isso está acontecendo comigo?” Estremeceu quando outro impulso o fez voltar a vomitar.
Parecia que não teria fim, ficou algum tempo ajoelhado, ainda com as mãos apoiadas no vaso ainda esperando que fosse o fazer novamente, no entanto parecia lhe não tinha mais nada para ser voltado.
“Desculpe, Shads... Eu... Eu não sei o que está acontecendo comigo...” Lágrimas apareciam nos cantos de seus olhos enquanto ele se sentia culpado pelo mal-estar.
Balançou a cabeça e limpou seus olhos com a luva.
Levantou-se com dificuldades, suas pernas tremiam e se sentia tonto, além de sua cabeça também estar doendo em um bônus desagradável. Tinha lembranças vagas de ter subido as escadas para calçar seus sapatos e depois tudo ficar escuro, não se lembrava de ter conseguido alcançar seu quarto, mas tinha uma sugestão de como acabou por parar ali.
Espalmou suas mãos na bancada, usando-a como apoio enquanto ele não conseguia confiar em suas próprias pernas para o equilíbrio. Suspirou.
Ele estaria mentindo se dissesse que aquilo nunca tinha acontecido antes, mas ele estava com sua mente focada em diversos assuntos ao mesmo tempo para dar atenção a algo como sua própria saúde. Franziu a testa para o ouriço de olhos verdes brilhantes e face pálida que lhe era mostrado pelo reflexo do espelho.
“Shads tem razão... Pareço anêmico. Me pergunto o porquê.” Murmurou consigo mesmo, uma tontura quase o desequilibrou, porém conseguiu se estabilizar rapidamente. “Me pergunto porque isso está acontecendo... Está ficando pior... Estou doente?” Pensou nervoso, foi algo que aconteceu recente, fazendo com que a cada manhã ele tivesse algum desconforto, começou com leves sintomas, como algumas vertigens quando levantava da cama rápido demais para saciar logo sua fome com o café da manhã. E daí sua situação foi só piorando.
Começou gradual, era a única certeza que ele tinha, foi algo em torno de uma semana ou até mesmo um pouco mais. E agora que ele parava para analisar, não era algo recente, parecia ter vindo a se manifestar lentamente, se arrastando de uma forma que ele não se deu conta até está chegar a aquela situação.
“Eu nunca fiquei assim.... É uma sensação estranha.” Encarou a figura no espelho com uma expressão de analise, nunca tinha reparado antes como seus olhos pareciam brilhar de forma radiante. Seus espinhos pareciam tão bonitos, levou a mão até eles acariciando-os de uma forma curiosa, estavam mais longos?
Pegou no armário uma escova que tinha ganhado de Amy há alguns meses, quando ela insistia que ele deveria se cuidar mais, e deslizou entre o emaranhado de espinhos azuis que estavam bagunçados. Para sua surpresa e preocupação, ela deslizou fácil e quando a encarou não havia resquício algum de espinho morto. Piscou e deu de ombros, não era realmente uma preocupação relevante. Em realidade garotas como a Amy ficariam felizes se seus espinhos não enchessem as cerdas de suas escovas, mas ele era Sonic, então não fazia diferença, isso só significava que ele não teria nenhum susto ao sentar-se na cama ou até mesmo visitantes reclamando ao sentarem em seu sofá.
Guardou a escova com um suspiro e pegou uma escova diferente e uma pasta de creme dental.
Encarava novamente seu reflexo, seu olhar perdido em pensamentos que ele não conseguia entender, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo para si. Primeiro toda a sua tristeza, sua solidão sempre que acordava pela manhã sozinho. Sentia que de alguma forma precisava de Shadow, era uma necessidade quase dolorosa e não era nada relacionada ao sexo. Sentia como se o ouriço fosse seu porto seguro, sentia paz quando estava em seus braços, uma sensação de proteção que ele desconhecia por tão ter tido muito disso quando jovem, sendo órfão como era.
Havia sido criado apenas por sua mãe, uma mulher gentil e forte o suficiente para conseguir lidar com toda a pressão que a maternidade oferecia e se orgulhava sempre que às vezes conseguia alguma breve memória dele. Nunca soube de seu pai, a única certeza que tinha era de que se sentia desconfortável ao relembrar que passou toda a sua infância desejando ardentemente um pai, via os olhos infantis outras famílias completas e de alguma forma desejava ter isso também.
Bem, ele tinha alguém que poderia ser um pai para si, Charles, ou como ele sempre o chamou desde que se lembrava, Tio Churck, não era bem um conhecido de sangue, porém era o adulto que sempre adorou sempre criança, sendo como um protetor, um tio e um pai que sempre desejou ter.
Era triste lembrar de que um dia já teve uma família, uma mãe para lhe abraçar sempre que chegava em casa, um pai de consideração que sempre que protegia dos perigos e lhe defendia dos garotos que implicavam com ele por razões que nem mesmo ele entendia. Mas ele nunca foi de ter rancor do pai que nunca teve, cansou de perguntar a sua quando percebia o quanto sua inocente curiosidade a fazia chorar e depois de muito tempo, passou a se conformar.
Desde que aquela maldita bomba explodiu em sua vila, o fogo da explosão engoliu muitas casas, assim como a que morava, não teve tempo para reação, não teve tempo para nada, seus olhos verdes infantis assistiam imponente enquanto sua única família era levada pelo fogo. E desde então, sempre esteve sozinho.
Ele nunca pensou que iria conseguir uma companha, ele nunca tinha pensado nisso até conhecer Tails, mas ele o protetor, o irmão mais velho, apesar de que ele mesmo não sabia como ser um bom irmão, ele apenas improvisava e torcia para que fosse o bastante para a pequena raposa amarela que salvou de um destino pior que a morte.
Falar em Tails lhe fazia ter vontade de sorrir, o garoto era um prodígio e muito curioso. Sempre buscando mostrar para seu irmão mais velho o quanto era grato por ele estar para si e como cresceu ao longo dos anos. Sonic sabia que ele tinha crescido, se tornado muito mais forte e inteligente desde quando o encontrou, mas preferia deixar com que ele fizesse o que ele sentia que era melhor para si.
Mas ainda assim, ele nunca teve a mesma segurança, o mesmo conforto que sentia sempre que Shadow estava ao redor. Era como se já tivesse encontrado seu companheiro e ninguém importava mais para si do que ele, seus amigos eram valiosos sim, porém não era a mesma situação. Ele parecia ter sempre um radar, que lhe avisava sempre que o ouriço obscuro estava perto e ele acaba sendo atraído misteriosamente em sua direção.
Ainda tinham as lutas, claro. As corridas, a chama da competição sempre acessa entre eles, mas era diferente. Shadow parecia ter visivelmente mudado de uma forma que ele não era mais tão retraído e solitário como antes. Embora ainda tivesse sua seriedade e frieza intactas, ele não era o mesmo Shadow que conheceu quando ele estava sendo caçado injustamente pelo roubo de jóias enquanto o outro estava com sede de sangue, visando destruir o planeta para cumprir uma promessa distorcida.
Colocou a escova no pote encima da pia, suas mãos espalmadas sobre a pia e um pequeno sorriso aparecendo em sua face.
Algo que ele sabia que nunca mudaria é a forma como ambos agem e se comportam em público, apesar do segredo compartilhado, eles sempre agiam como sempre, com provocações, com sarcasmos. Tails balançava a cabeça em negação, Knuckles estava mais preocupado com a segurança de sua Master Emerald para notar todos ao seu redor. Amy era apenas ela mesma, abraçando o herói como se sua vida dependesse disso, apertando-o contra si sempre que uma batalha era ganha, apesar de sempre saberem que o resultado era óbvio, ele nunca seria derrotado facilmente, Eggman sempre perderia se dependesse dele. E Rouge, era apenas ela mesma, imprevisível, mas sempre lançava olhares maliciosos e uma piscadela para Sonic, que se odiava por entender a mensagem suja.
Ele realmente não conseguia ver como aquela rotina poderia mudar, não havia como. Ou melhor, poderia mudar. Shadow se afastaria de si se soubesse o quanto ligado ele se tornou pelos últimos três meses, o quanto inconsciente ele acabou se tornando dependente de seus toques, de seus apertos, quando as batalhas de força se transformavam em gemidos de prazer quando ele bancava o submisso. E ele odiava admitir, mas a sensação de não temer, de se entregar, se dar a alguém era tão estranha quanto agradável.
Sonic não conseguia entender a si mesmo.
Balançou a cabeça e deu uma última olhada no espelho, a imagem que se era refletida era melhor que a do início. Ele estava relaxando, se sentindo novamente ele mesmo enquanto o tom pêssego voltava ao seu rosto. Ele podia sentir um sorriso fraco ameaçando surgir em seus lábios e não o reprimiu.
Saiu do banheiro então e foi rapidamente ao quarto, seus sapatos continuavam no mesmo lugar em que estavam na noite passada, intocados. Calçou-os calmamente enquanto pensava em correr hoje, já que no dia anterior misteriosamente ele dormiu demais.
Desceu as escadas aos pulos, um sorriso mais largo em seu rosto, mas antes que chegasse em meio caminho para a cozinha, uma batida na porta o fez parar. Não precisava de muito para saber quem exatamente era ou o que queria. Era Rouge, assim como estava na nota deixada por Shadow. Suspirou se preparando mentalmente para o que poderia acontecer. Talvez pudesse dispensar a morcega pelo dia, ele não se sentia tão mal quanto de manhã, embora ele não pudesse simplesmente mentir para ela. De alguma forma a morcega poderia ser impertinente quando ela queria e mentir não era um dos seus fortes de qualquer maneira.
— Olá, Rouge. — Cumprimentou desanimado. Apesar de gostar de ter companhia, a ideia de ter Rouge como babá era estranha, para não dizer desconfortável.
— Bom dia, Blueboy! — Disse com uma expressão falsamente animada. Nesse momento Sonic temia o que quer que a morcega estiver planejando.
Encarou-a, buscando descobrir o que ela escondia por trás do seu sorriso, que não acompanhava a emoção dos seus olhos, eles estavam sérios, quase assustados. Levantou o olhar ao notar uma sacola em sua mão, o logo de uma farmácia estampado com letras bonitas e o número de contato.
— Não vai me convidar a entrar? — Rouge brincou levemente. — Isso não é forma de tratar uma dama, você sabe. — Deu um de seus sorrisos provocantes, com o qual Sonic gemeu interiormente.
Abriu mais a porta e se recostou no batente, abrindo passagem para que a morcega entrasse. Rouge entrou em falar uma palavra ou fazer algum comentário, todo seu ar brincalhão e zombeteiro parecia ter desaparecido assim que ela se viu dentro daquela casa. Sentou no sofá sem uma palavra enquanto observava Sonic fechar a porta e seguir para onde ela estava.
A tensão que caiu entre os dois foi instantânea e insuportável.
— Diga-me, Blueboy, como você anda se sentindo ultimamente? — Levantou seus olhos azuis turquesa para encarar os verdes esmeraldas que lhe retribuiu o olhar com profunda confusão.
— Desculpe? — Disse surpreso. O desconforto voltou na mesma intensidade ou até mesmo mais forte.
— Um passarinho, ou melhor, um ouriço me contou que você anda apresentando certos... Sintomas... — Começou lentamente, dando um sorriso zombeteiro. — Então pensei que isso poderia te ajudar. — Falou oferecendo a sacola a ele, que a pegou atordoado.
Como aquilo poderia lhe ajudar? Era algum tipo de remédio?
Ao mesmo tempo em que isso parecia algo confortador, ainda havia certa desconfiança nos olhos verdes enquanto assistia Rouge dando-lhe um sorriso de diversão, como se estivesse aprontando algo.
Abriu a sacola lentamente, como se esperasse que uma bomba estivesse dentro, mas ao olhar, ele desejou imensamente que realmente fosse uma bomba, de preferência nuclear.
— Você só pode estar brincando! — Gritou enquanto jogava a sacola com seu conteúdo diretamente para um rosto com expressão divertida.
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