Bittersweet.
51 ? Incógnita.
Notas iniciais
Fúria. Um profundo ódio.
Escorria por suas veias como ácido sulfúrico, ardendo, queimando, doendo.
O que ele fez? O que ele fez? O. QUE. ELE. FEZ?
Dor.
Agonia.
Choque.
Desespero.
Mais dor.
POR QUÊ?!
Não... Não... Não podia ser possível...
O que ele fez?
Meus olhos só viam borrões indistintos. Ardiam. Embaçados.
Isso era chorar? Não sabia, não tinha certeza, não se lembrava.
Gritos altos, agudos, agoniados. Eram dele? A garganta ardia.
Suas mãos estavam sujas. Terra? Sujeira?
Sangue.
De quem era? Ele sabia, mas se recusava a admitir.
Descontrole.
Humilhado.
Chocado.
Ah, se pudesse colocar suas mãos no desgraçado que fez aquilo consigo! Mas algo lhe impedia, algo mais forte que seu ódio desvairado. Eram Robotnik, o mesmo sangue que correra uma vez pelas veias de Maria, que impregnou toda a sala quando o tiro lhe causara uma ferida que lhe tirara seu sangue puro e o espalhava, maculando-o com as impurezas na quais ela não podia ter contato.
Balançou a cabeça enfurecido, não podia corromper as poucas memórias do seu passado com seu presente deturpado. Queria gritar, desesperadamente.
Nenhuma palavra saía de sua garganta fechada.
Ele quase o matou. Quase.
Não, ele quase os matou. Eles. Desconhecidos que não sabiam de suas existências. Um erro... Descontrole.
As imagens eram confusas, embaralhadas, quem venceu? Isso foi uma vitória? Uma vitória? Que piada. Ninguém venceu, todos os lados perderam. Todos falharam.
Ele falhou.
O vômito subiu por sua garganta, parou em algum lugar, não prestou atenção. Jorrou o ácido que bloqueava em um piso de ladrilhos irregulares, nojo por si mesmo. Desespero por arruinar outras vidas. Outras vidas.
Em risco.
A causa do risco.
Era um beco, fétido. Estreito. Lúgubre. Como sua alma.
Ele não merecia aqueles presentes.
Não merecia uma segunda chance.
Porque as estragou muito antes que saber sobre sua sorte.
Família...
Ele pode ter destruído tudo. Perdido tudo outra vez.
Tinha escolha? Voltar no passado? No que mudaria?
Estava vulnerável. Sem controle. Os inibidores, tilintando no chão destruído que alguma vez fora uma estrada pavimentada. A certeza do golpe final.
Outro inimigo. Uma armadilha. O poder de repente fluindo por seu corpo, o chamado de algo mais poderoso lhe impedindo e depois mais nada.
Quando abriu os olhos, só via sangue. Sangue. Muito sangue.
Num corpo inconsciente. Dois corpos ensanguentados.
Sirenes. Uma emergência. Ambulância.
O corpo dolorido estava entorpecido. Ômega jazia em algum lugar, desativado? Avariado? Fora por sua causa?
O sangue manchava suas luvas, imundas, rasgadas.
Cortes? Hematomas? Buracos de balas? Nada disso importava.
Fora realmente detido? Dois corpos no chão.
Tocou seu pescoço, a coleira dourada reagiu ao toque, lançando descargas elétricas em seus dedos. Rastreador.
Ele estava sendo monitorado. Com razão.
Merecia ser punido. As torturas sofridas como uma cobaia não eram nada. Ele as aceitaria com agrado se isso removesse o sentimento de amargura que preenchia seu peito. Tanta dor.
Muita dor.
Gritou para a parede, como se tivesse culpa, mas não a socou. Quebraria as estruturas. Poderia matar outros.
Socou sua própria mandíbula, seu maxilar estalou alto. Dor física.
Mas que logo passaria.
Cura anormal. Resistência física.
Nem a morte era páreo.
Sua cabeça doía.
Ele não merecia. NÃO MERECIA!
Por quê?!
Saiu para as ruas vazias. Lhe evitavam como se fossem a morte. Se escondiam como ratos em suas tocas. Assustados. Aterrorizados.
Via os olhares. Ódio. Asco. Medo.
Conhecia-os, mas estavam intensificados, seu estado estava tão deplorável?
Não encarou nenhuma das vitrines por que passou, não olhava para ninguém em particular. Não via os rostos, apenas um.
Injuriado, maltratado, ferido. A expressão de dor mesmo inconsciente.
Era culpa sua.
“A culpa é sua. Você os matou.”
O sangue em suas mãos era prova. A dor da tentativa de defesa, a carne dilacerada latejando. Se recusando limpar os ferimentos. Que infeccionem. Que cicatrizem mal. Deixem marcas para lhe lembrar dos seus fracassos. Ela está morrendo.
Ele feriu mortalmente aquela que estava se sacrificando por ele.
Ela morreria.
A culpa seria sua.
A morcega iria morrer. Ele a matou.
Sem perdão.
Mas honrada como uma heroína. Lembrada como aquela que protegeu o herói, sacrificou sua vida por ele.
E ele? O assassino cruel. Criminoso odiado.
Culpado. Julgado. Sem defesas, justificativas.
A noite caía.
Vagando sem rumo, desesperado. Agoniado.
— Encontrei você. — a voz era vagamente familiar. Mas não se lembrava de onde, seria um sonho?
Olhou para cima, o brilho era claro, estranho, quase cegavam seus olhos.
Encarou. As palavras lhe fugiam. Uma lagrima escorria de seus olhos.
Ele destruiu as chances de ter uma família. Os médicos não estavam esperançosos.
Filhos. Filhos dele. Como? Era realmente possível?
Confusão.
— Você é difícil de encontrar. — a voz continuou, nenhum pouco familiar. Um estranho. Pelagem no peito amarronzada, olhos de um ciano brilhante e puro. Seus olhos não conseguiam apreender os detalhes, não lhe importavam.
Detalhes. Apenas detalhes.
Apático.
— Eu preciso que você me ajude. Você é o Ultimate Lifeform, certo? — continuou, um garoto. Era o timbre de um garoto.
Não respondeu. Se sentia a pior forma de vida criada pelo homem. Um protótipo com problemas. Criado para curas, mas agindo para matar.
— Só você pode fazer isso. — insistiu, mesmo depois de todas as perguntas ignoradas.
— Não. — respondeu curto e grosso.
Não se importava.
— O futuro depende de você, Shadow. Você é uma peça importante do destino. Todos irão cair. — o garoto se aproximava dele, a luz ofuscante amenizando. Sua forma se revelando.
— O que quer de mim? — Perguntou sem pensar. O que poderia oferecer? Estava destruído.
Sozinho.
Ferido.
— Que não abandone-o. Ele precisa de você.
— Eu o destruí. — cuspiu as palavras entredentes.
— Não. Mas irá.
— Não entendo...
— Eu sei apenas do que aprendi, ouvi ou vivenciei.
— Por que está me dizendo essas coisas?
— O herói de Móbius e o Ultimate Lifeform são minhas únicas esperanças. Eu falhei na primeira vez.
— Quem é você? Por que está aqui? Como... Sabe...?
— Eu sou apenas uma incógnita. Um amigo, conselheiro. Não vim para interferir diretamente, não posso mais. Meus erros nos levaram a isso.
O brilho intensificou. E depois desapareceu sem rastros.
Mas viu um vislumbre de prata.
A rua ainda se estendia muito a sua frente.
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