Bigger Than Us
2 CAPÍTULO 1º
#1 PDV – Charlotte
Fazia quase uma semana que estava ali, naquele motel imundo. Chicago, às vezes, me irritava. Porque, com seu ar poluído, com seus habitantes mal educados, com seus prédios intimidadores, não era exatamente o que eu procurava. Mas a palavra procurarpossui, no meu dicionário, uma infinidade de significados. E todos eles me levavam a entrar numa fria. Sentia falta da vida fácil que tinha, simples, mas confortável. Deitei-me na cama, e fechei os olhos, tentando me lembrar quem eu era.
Lembrei-me que vivíamos em paz, meu pai e eu, numa casinha na periferia de Nova York, então pode se dizer que já estava acostumada com a sujeira e a poluição desde criança. Nunca falávamos em mamãe. Para mim, ele sempre fora o único que existiu e, em épocas estúpidas de infantilidade, achei até que havia saído dele. Mas assim como a idade, a curiosidade foi aumentando e, quando completei doze anos, e ele me fez uma torta de amoras, resolvi perguntar. Dias depois, tentei acordar meu pai a fim de que fôssemos à biblioteca, pegar alguns livros. Pulei na cama alegre e senti o colchão mole balançar ao meu peso. Esperei pelo seu sorriso carinhoso, com os olhos ainda cansados, que sempre me encaravam de tal maneira quando estava de folga dos trabalhos na oficina. Esperei por quase uma hora ao seu lado, mas ele não acordou.
Dias depois, já estava em um internato qualquer, com uma grande mochila, carregada das poucas roupas que tinha, e dos livros que meu pai lia comigo. Passei seis anos da minha vida ali, aprendendo tudo o que podia sobre socos, chutes, bebidas, drogas, armas, fugas e qualquer outra porcaria útil. Era tudo que nós sabíamos fazer. Mas eu sabia fazer uma coisa a mais. Na verdade, eu podiafazer essa coisa a mais. Descobri que podia ver e falar com espíritos num dia qualquer de sol naquele orfanato imundo. Havia entrado no banheiro para lavar o rosto vermelho e soado por causa do calor. Sorte minha estar em tal lugar na hora em que uma gentil mulher vestida de branco se apresentou como minha mãe.
– Mas você, então, não deveria estar morta? – perguntei confusa, quase sussurrando.
– Estou. Vim apenas te visitar. – ela me sorriu tristemente, passando a mão pelos meus cabelos, como se algo muito ruim me esperasse, mas eu não esperei por nada. Em vez disso, pensei novamente na minha sorte em estar no banheiro naquela hora porque, depois de encaixar as peças do quebra-cabeça e entender que havia conversado com uma morta, percebi que estava toda molhada. Mas isso é um segredo, afinal, nunca havia mijado nas calças antes.
E como se fosse pouco, lembrei-me, sempre acordava agitada, com a ponta dos dedos dormentes e gélidos. Sorri involuntariamente ao me lembrar de quando desejei que a luz fosse apagada e esta, sem mais nem menos, apagou-se. Ou melhor, a lâmpada explodiu. Lembrei-me da sensação de meus olhos, abrindo-se mais do que deviam, do choque, ao perceber que podia saber o conteúdo de um livro, apenas ao tocar nele. Eu me sentia tão perdida e desprotegida; como estou me sentindo agora.
Ainda sinto o choque quando acordo de meus pesadelos e estou flutuando, próxima ao teto, e não deitada na cama, como deveria. Ainda sinto choque em meus olhos quando os vejo mudarem de cor em frente ao espelho, do castanho para o caramelo. Ainda me sinto confusa por lidar com espíritos, tentar ajudá-los a mandar recados, ou a voltar para o inferno. E é por isso que estava numa fria.
Estava numa fria porque, primeiramente, eu estava procurando. Procurando algo que ninguém podia ver, apenas eu. E ainda estava mais encrencada porque, simplesmente, teria de lidar com todas as habilidades que eu tinha, sem saber de onde vieram, ou porque estavam encravadas em mim. Me sentia, tipo, uma ‘X-Man’.
Um peso na cama do motel fez-me abrir os olhos, sonolenta.
– Olá, Beagle. – passei a mão nos pêlos negros de meu gato. – Me seguiu até aqui, não é?!
Voltei para meu notebook, apostando que receberia uma resposta muito mais clara dele do que de meu bichano. E lá estava! Naperville, cidade ao lado de Chicago. Entre tantas notícias, é claro que uma morte em plena cidade pequena seria motivo de sobressalto. E pensando em salto, dei um e fingi ser o Elvis por um instante, um ânimo inesperado surgindo dentro de mim. Arrumei minhas coisas, colocando tudo o que tinha na minha única mala, e saí quarto a fora, não me preocupando em procurar Beagles. No fim, ele me encontraria. No momento, eu apenas sentia minha felicidade reprimindo a dor de cabeça que sentia.
– Obrigada, Charlotte. – disse Mary, a recepcionista que havia cismado com a minha cara desde que eu havia entrado naquela espelunca. Ela me olhava maravilhada, e eu já estava ficando com medo. – Venha sempre.
– Aham, claro. – fiz uma careta enquanto saía, e peguei o ônibus que dizia ‘Estrada de Naperville’.
Sempre achei superstições coisas tolas. Mas, afinal de contas, eu lidava com criaturas e lendas que as pessoas ignoravam, achavam ridículas, então, por que não acreditar que entrar num lugar com pé direito dava boa sorte?! Mas só lembrei-me disso depois que entrei com o pé esquerdo na cidade, passando pela placa de boas vindas. Tentei voltar e começar a caminhada de novo, mas eu estava tãocansada... Como uma foragida, andei pelas ruas, com uma calma fingida, olhando sempre com atenção para as árvores enormes que cercavam a área. Andei até achar que minhas pernas estavam podres, pisando nas folhas secas e amareladas. E, como um milagre, como se eu ouvisse sinos ao fundo, meus olhos alcançaram a casa que procurava. Eu soube na hora, pois na caixa de correio estava estampado o nome da vítima: Daves Green. Ou apenas, Sr. Green. Fácil, rápido, mas nada divertido.
Sua porta estava trancada, e haviam faixas amarelas impedindo que as pessoas se aproximassem; eu as arranquei. Olhei para os lados, tentando achar qualquer cidadão que pudesse me delatar. Fechei os olhos, e tentei sentir a presença de alguém, ou de algo maligno. Nada que pudesse estragar meus planos. Com a ajuda de um canivete, consegui abrir a porta, e entrar na cena do crime. Me concentrei na maçaneta, franzindo o cenho e cerrando os olhos. Tentei abrir a porta por dentro, estava trancada; sorri, eu estava ficando boa naquilo. Tirei a pistola do coldre em meu tornozelo. Estava claro que tal casa não poderia ser invadida, mas, eu a invadi. O que garantiria que algum maluco não fizesse o mesmo? Andei pelos cômodos, sentindo os pelos de meus braços se arrepiarem ao passar pela cozinha, onde a vítima havia sido encontrada, totalmente carbonizada. Terminada a revista da casa, concluí que não havia ninguém além de mim, e que para o meu próprio bem, seria ótimo terminar aquilo de uma só vez.
De dentro da mala que eu levava de um lado para outro, saquei o giz branco, e risquei a armadilha no meio da sala. Acendi as velas, deixando-as, uma em cada ponta do pentagrama que havia desenhado, enquanto me concentrava para evocar o espírito, e mandá-lo direto para o inferno. Estava tão concentrada que, quando fui interrompida, pulei de susto.
~•~
PDV Sam
O Chevy Impala de meu irmão rondava as ruas de Naperville, sem saber onde parar, ou quando iria parar. Eis umas das coisas que eu odiava em minhas visões – que haviam voltado, por motivos que eu não entendia. Nunca sabíamos mais do que o fato, e o fato, propriamente dito, não poderia nos mostrar localização, ou qualquer outra informação necessária, e por isso, estávamos perdidos. Mas eu não estava afim de um gole de sangue de demônio pra saber o que estávamos fazendo, porque já estava acostumado a atirar no escuro. Passamos por uma rua larga, com árvores por todos os lados, suas folhas secas e grandes caindo suavemente no capô do carro negro. Aquela visão poderia até nos causar algum conforto. Mas a verdade é que estávamos de volta à ativa, lutando mais do que nunca contra as forças do mal. E mesmo parecendo clichê, era a pura verdade.
É isso que dava ser um Winchester.
Era apenas mais um caso. Depois de matar tantos demônios, estávamos crentes que tal missão não seria lá muito difícil, afinal, era apenas alguma coisa assombrando a cidade e que havia feito apenas uma vítima, eu pensava. Mas nem por isso, deixamos de dar atenção ao caso. O que nos acarretou a rodarmos pelas estradas, dormirmos em motéis sujos, e principalmente, estarmos perdidos.
– Dean. – chamei meu irmão mais uma vez. Ele me olhou de loslaio, já sabendo exatamente o que eu queria dizer. Vi seu cenho franzir e suas mãos mexerem inquietas no volante. Eu sabia que, de certa forma, estava o estressando. Já há um bom tempo pedia para que parasse, e pedisse informações, para comermos algo. Poxa! Eu estava faminto! Mas ele não dava o braço a torcer: dizia que sua intuição era infalível. – Quem tem intuição é mulher.
– Vamos parar naquele bar. – respondeu contra sua vontade, torcendo os lábios de frustração, enquanto eu sorria.
O carro parou no meio fio, e logo já estávamos entrando no bar. Não, não era daqueles lugares sujos, com caras bêbados, balcão vomitado, ou qualquer outra coisa nojenta assim. Era uma lanchonete, apesar de a placa dizer “Nicks Bar”. Sentamos numa das mesas encostadas ao vidro, e esperamos até sermos atendidos. Enquanto isso, eu procurava qualquer coisa que fosse útil em meu notebook, e Dean tamborilava os dedos na mesa, impaciente. Às vezes, ele me irritava sem dizer um ‘a’ sequer.
– Olá rapazes. – a garçonete sorriu, e Dean, como o bom cavalheiro que era, lhe contribuiu o sorriso. Revirei os olhos.
– Olá. – respondeu ele, piscando. Ela era baixa, com os cabelos claros presos num rabo de cavalo, com um avental aparentemente normal. Mas Dean conseguia ver malícia, mesmo assim. Ele dizia que se sentia atraído por mulheres, não importando como estivessem vestidas. Era um verdadeiro canalha, e admitia isso, sorrindo e piscando, como sempre. Mas, principalmente, depois de Lisa e Ben...
– Cervejas? – a garçonete sugeriu, agora olhando para mim. Concordei incerto e sem graça pelas artimanhas de meu irmão mais velho.
– E alguns petisquinhos, sim?! – pediu Dean, de ultima hora, levantando um pouco a voz para que a mulher pudesse ouvir. Esta acenou e sumiu entre as bebidas e a cozinha do restaurante.
– Parece que teremos que buscar informações nas casas. – sorri para Dean. – Do que nos vestiremos dessa vez?
– Sou a favor de fingirmos vender biscoitos, com roupa de escoteiros. – disse, com sarcasmo e fungou. Bom, eu havia mesmovisto uma casa, com tais roupas no varal. O fato é: as roupas entrariam?
– As bebidas. – anunciou a garçonete, colocando os pedidos na mesa. Ela sorriu para Dean, e se retirou rebolando; revirei os olhos mais uma vez.
– Hã, — chamei sua atenção antes que se distanciasse demais. Ela voltou à mesa, feliz em poder estar conosco de novo. – pode nos dizer o que anda acontecendo por aqui? Ouvimos dizer que as pessoas andam meio assustadas. E que houve uma morte.
– Ah! – a mulher olhou em volta, como se procurasse algo. Dean a acompanhou, não entendendo muita coisa, e voltou a ouvi-la quando esta se pronunciou novamente. Segurei o riso. – Parece que um morador da cidade, ali na rua de trás! – apontou ela, de forma engraçada. – parece que ele morreu.
– E como ele morreu? – perguntou Dean.
– O corpo dele foi encontrado carbonizado. Quando a polícia chegou, encontraram o fogão aceso. É o que eu soube. – ela deu de ombros, e me perguntei se ela teria outro tique engraçado.
– Então, Dean. – disse impaciente. – Acabou?
– Sim, sim. – ele sorriu para a garçonete. Saímos do bar depois de pagar, sentido à ‘rua de trás’, como havia dito a mulher.
Dean estava decepcionado, e não cansava de bufar em perceber que já havíamos achado a casa do Sr. Green. Bastou apenas eu ler o nome do homem numa notícia em meu notebook, analisar as caixas de correios, e lá estávamos. Eu apenas pensei que esse era o caminho mais fácil, o que era bom. Mas Dean, ah! Dean gostava de um drama. E depois reclamava, trazendo de volta á tona aquela história de ‘negócio da família’, ‘inferno’ e blá blá blá . Paramos o carro e atravessamos a rua. Deus... correr com aqueles shorts apertados era horrível! Mas como meu irmão mais velho queria, estávamos lindos, Dean e a mim, vestidos de escoteiros, com caixas vazias de biscoitos que arranjamos com os verdadeirosescoteiros, por dez dólares. A campanhia foi tocada.
– Pois não? – uma garota apareceu, franzindo o cenho ao nos ver: vestidos de escoteiros, com as bermudas curtas e apertadas. Eu a observei, e esperei com um sorriso. Ela correspondeu, incerta. – Olha, talvez vocês precisem de bermudas maiores pra vender biscoitos. A não ser que sejam Go Go Boys.
– Ah, não, não somos. – Dean a impediu que fechasse a porta, dando-lhe um sorriso sem graça, enquanto eu forçava o meu, para parecer verdadeiro. – E que tal um biscoitinho aí, hein?!
– Não. Obrigada. – a garota tentou fechar a porta mais uma vez; senti que começava a me desesperar, e ela, a se estressar. Analisei sua feição e concluí que não parecia ser tão paciente quanto seu sorriso falso aparentava.
– Vamos lá! Olha só, — chamou a atenção da garota, puxando-a para mais perto. Mas a menina não era tão flexível assim, soltou-se facilmente do aperto de Dean e nos olhou séria, esperando que ele terminasse. – precisamos mesmo desse dinheiro. Podemos entrar, conversar sobre os preços...
– Fazer o orçamento...! – comentei, dando de ombros, e incentivando-a. Sempre convencíamos as pessoas. Ela não parecia ser tão fácil assim de se convencer.
– Mas será que não é possível?! – fudeu, a garota se estressou de vez, pensei. – Um homem morreu aqui anteontem, e ainda querem me vender biscoitos?!
– Mas... – tentei intervir, porém, a menina já havia fechado a porta em nossas caras. Dean estralou a língua, pouco preocupado. Eu o estava odiando agora, não sabia o porquê, apenas que tinha que culpá-lo por isso.
– Isso é tesão embutido. – afirmou. – Se eu pegar ela...
– Dean! – o repreendi. E voltamos para o carro, para nos trocarmos.
Os Winchester sempre foram teimosos em demasiado. Nunca pude admitir isso em público, mas eu sabia, e dizer se isso era ruim ou bom não cabia à minha inteligência. E por esse motivo, estávamos lá, outra vez, fazendo a varredura noturna em volta da casa. Já eram quase onze horas da noite, e as luzes da casa do Sr. Green ainda iluminavam o hall principal. Resolvemos parar mais uma vez.
– Mas Dean, a garota vai nos reconhecer. – tentei impedir o irmão, com a conclusão mais óbvia possível. Afinal, o que dois padres estariam fazendo àquela hora da noite, numa casa em que o morto já havia sido enterrado há dois dias?
– Sammy, confie em mim. – atravessou a rua às pressas, comigo, andando de lado, quase caindo em minha tentativa de mantê-lo parado. – O seu ‘fazer o orçamento’ que estragou tudo daquela vez.
Já encarávamos a porta branca da casa do falecido. Dean, com sua famosa cara de bom samaritano; fingido, claro! E eu, ainda o olhando, com expressão perplexa. Eu havia estragado o plano?! Eu havia até roubado as roupas num varal de uma das casas! Meusdez dólares haviam sidos investidos nos biscoitos! Antes que pudéssemos tocar a companhia, ou discutirmos mais uma vez, fomos atendidos. Com uma espingarda apontada em nossas caras.
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