Beyond the Vengeance

50 Um Convite Peculiar


Notas iniciais
Com muito alívio venho dizer que o capítulo atrasou apenas uma hora dessa vez e não um mês (culpa da minha internet). Boa leitura.

Ryan voava através da escuridão. Os ventos fortes o puxavam para trás, fazendo parecer que ele não estava saindo do lugar. A chuva açoitava sua pele com força. Ele ouviu um grito, porém um raio o cegou por um segundo e o som do trovão pareceu explodir bem ao seu lado. Sem saber sequer da onde tinha vindo o grito, Ryan esquadrilhou o céu a sua volta. Era quase impossível enxergar qualquer coisa no meio daquela tempestade. Mas então ele a viu. Sua inconfundível silhueta pairando vários metros abaixo. A espada em mãos.

Retraindo as asas, Ryan mergulhou até chegar ao nível de sua companheira. Emparelhou-se com ela e estava prestes a perguntar o que tinha gritado segundos antes quando ela moveu a espada em sua direção. A lâmina passou há vários centímetros de sua pele, mas quase instantaneamente depois uma rajada de ar o jogou violentamente para o lado.

Um clarão iluminou o céu. Ryan pode ouvir uma explosão em algum lugar embaixo. Batendo as asas com rapidez, ele se equilibrou no ar novamente e voou em direção a Anne.

— Devíamos recuar! — Gritou para ser ouvido acima dos trovões. — É muito perigoso voar nessa tempestade às cegas!

— É nossa única chance! Não podemos deixar ele escapar!

Ryan abriu a boca para argumentar, mas em vez disso um grito de aviso saiu dela. Algo passou zunindo por ele no momento em que mudava o curso de seu voo. Sem conseguir enxergar direito na escuridão, Ryan quase bateu em um prédio que pareceu surgir do nada. Se não fosse as luzes de emergência em alguns apartamentos, ele teria acertado o prédio em cheio. O vingador foi obrigado a descer ainda mais para evitar um outdoor montado entre dois prédios. Foi quando algo o atingiu.

O mundo girou, repleto em escuridão. Raios cruzavam o céu furiosamente. Ryan não teve sequer tempo de sentir dor. Seu braço bateu em algo durante a queda, fazendo das cambalhotas no ar, suas asas inúteis em frear a queda. Seu corpo colidiu com o concreto e lá ficou.

Um raio entre as nuvens mostrou a Ryan que ele ainda estava consciente. Tinha caído no terraço de um prédio e não no chão como temia. Quando tentou se mexer sua coxa direita explodiu de dor, porém ele não teve forças pra gritar. Tentou levantar o pescoço para ver o que tinha em sua coxa, mas o mero movimento fez com que náuseas o atingissem e o mundo voltou a girar. Ryan começou a tremer. A água fria cobria metade de seu corpo, caído sobre uma poça.

Tentando recobrar os sentidos, Ryan deixou a cabeça cair de lado. Foi então que o viu. Agachado sobre o suporte do outdoor, uma figura coberta por uma capa escura o observava. Ryan conseguiu distinguir um arco em sua mão. Imaginou que iria morrer ali. Ele ia atirar. Porém tão logo ele levantou o arco, já o abaixou. Sem entender, Ryan ouviu os passos ao seu lado.

Anne estava lá. Os olhos vidrados olhando para o arqueiro. O tempo pareceu ficar em câmera lenta. O arqueiro se virou para correr. Anne deu um passo em sua direção. Olhou para Ryan uma vez, as asas já abertas para alçar voo. Ele tentou falar algo, mas as palavras não saíram. Anne desviou o olhar e se lançou do prédio. Ryan viu uma forma escura ganhar altitude logo depois.

Nenhuma palavra saiu de sua boca. Por um minuto ele mal pode respirar, em choque. No entanto um calafrio violento passou por todo seu corpo. Com o rosto de lado, Ryan viu com a luz de um raio no céu que a poça onde tinha caído agora estava se tornando vermelha. Tentou se levantar, mas seu corpo o traiu no meio do movimento e ele voltou a cair. Um novo raio cortou o céu, porém dessa vez Ryan não o viu. Sua visão estava escura. Seus sentidos se esvaindo. Estava morrendo.

Ryan acordou assustado. Não tinha cochilado mais que alguns minutos, mas o sonho parecia ter durado horas. Ele esfregou os olhou. Há quanto tempo não dormia? Verificando a hora mais uma vez, ele se perguntou onde Trish estava. Já devia ter retornado. Sean também.

Torceu para que chegassem logo. Não tinha muita preocupação quanto à segurança deles. Ryan mais do que ninguém sabia quão fortes eles eram e estava satisfeito quanto a isso. Porém o atraso de ambos era algo com que ele não estava nem um pouco satisfeito. Estava há poucas horas em Nova Iorque e já tinha tido um pesadelo. Precisava de respostas, não de devaneios de sua mente sonolenta.

As horas se arrastavam. Ryan caminhava de um lado pro outro, tentando se manter acordado, sempre em movimento. As primeiras horas da madrugada chegaram. Mesmo sua confiança em Trish e Sean já estava enfrentando problemas. Foi então que Ryan ouviu o bater de asas vindo do alto. Um vulto foi se aproximando numa velocidade controlada e se tornando mais nítido até revelar a silhueta de Sean.

O garoto pousou com facilidade. Depois de Terry, Sean era o membro mais novo dos vingadores. Ryan ficava contente em ver o quanto tinha evoluído.

— Está atrasado. — Ele disse tentando parecer irritado, embora estivesse aliviado por ter alguém para distraí-lo até que Trish chegasse.

— Foi mal, acabei me perdendo algumas vezes no caminho. — Sean deu uma risada sem graça — Mas consegui entregar a mensagem para todos. Amanhã à noite todos já devem estar procurando nas áreas específicas e reunindo informações.

— Você quer dizer hoje, não? Já passou da meia-noite há muito tempo.

— …Isso. — Sean parecia bem, mas Ryan reconheceu que o vingador também estava cansado. O garoto normalmente era bem mais enérgico que aquilo.

— Só temos que esperar a Trish voltar agora. Quando tudo estiver preparado poderemos descansar um pouco antes da… — Ryan parou de falar por um instante. Pensou ter ouvido algo.

Olhando ao redor, não conseguiu ver nada que pudesse ter despertado sua atenção. Contudo, quando estava prestes a achar que sua mente sonolenta estava pregando peças nele, uma voz familiar anunciou sua chegada.

— Espero que não tenham ficado vadiando enquanto estava fora.

Ryan se virou para olhar Trish. Bem mais experiente que Sean, a garota já quase não fazia barulho ao pousar. Os dias em que Ryan era considerado o voador mais habilidoso dos vingadores podiam estar com os dias contados.

Apesar da fala bem humorada de Trish ele viu certa preocupação em seu rosto. Sua mente o levou para anos atrás, quando vira a mesma expressão ao ter acordado dias depois do incidente.

— Odeio ficar repetindo frases, mas você também está atrasada. O que aconteceu?

A expressão de Trish ficou mais séria.

— Ele não estava lá como suspeitamos, mas aparentemente está bem. Só “fora de alcance”.

— Fora de alcance?

Trish explicou rapidamente seu estranho encontro com um mentalista à beira da morte. Segundo ele, Terry estava no Japão, em uma espécie de missão investigativa. Ela também contou como alguém estava ouvindo a conversa deles, mas pareceu simplesmente desaparecer quando foi descoberto.

Ryan ouviu tudo atentamente. O fato de a pessoa que Trish perseguiu simplesmente ter sumido daquele jeito realmente foi estranho, mas ele não pode deixar de achar o próprio mentalista estranho também.

— Repita pra mim: como esse mentalista percebeu que havia alguém além de vocês três naquele apartamento?

— Hum? Ele disse que ouviu a mente do invasor ou algo assim.
Ryan sabia o suficiente sobre os mentalistas pra saber que eles não ouviam mentes alheias dessa forma. Se o mentalista realmente ouviu a mente do invasor era porque estava tentando ouvir algo. Provavelmente a mente de uma das duas garotas.

— Trish, você revelou detalhes da missão pra ele?

— Hã? Quê detalhes? Por acaso qualquer um de nós sabe de algum detalhe?

Ryan se arrependeu um pouco da pergunta, mas teve uma ideia do que tinha acontecido. Como não havia detalhes, provavelmente o mentalista pensou que Trish estava escondendo algo e resolveu usar seus poderes quando percebeu uma presença a mais no lugar. Porém algo não se encaixava… porque um mentalista chegaria ao ponto de tentar ler a mente de Trish? Já era questionável sua decisão de ler a mente de alguém que acabara de salvar sua vida, quanto mais tentar fazer isso com uma vingadora de Nêmesis, que supostamente devia ser considerada uma aliada. Ryan também tinha certeza de que ele sabia que não seria uma tarefa simples invadir a mente de um vingador. Fazer tanto esforço assim sem propósito nenhum era muito estranho.

— Então… o que aconteceu depois?

— Ele disse que deveríamos sair dali. Que não era seguro. Eu mesma já estava pra sugerir algo assim.

— E pra onde ele foi?

— Não sei… Eu ia vir voando de qualquer forma então assim que peguei minhas coisas voltei para o terraço e alcei voo. Os dois desceram as escadas. Não perguntei pra onde iam, mas a garota… Jennifer disse que ia levar ele pra um lugar onde pudesse cuidar dos ferimentos e descansar.

— Ele disse o nome pelo menos?

— Chris, mas não falou do sobrenome.

Coçando a cabeça, Ryan ponderou sobre o que deveria fazer. Tudo aquilo não tinha sido uma situação normal e todo o cuidado era pouco, sobretudo com a missão de que estavam prestes a dar início. Ele estava dividido entre o que fazer. Sabia o que seria o mais correto e seguro, mas realmente queria ter um tempo para descansar e, sobretudo não queria falar com ela.

Já que estou em Nova Iorque seria fácil encontra-la, mas realmente não quero fazer isso.

— Isso é bem a sua cara.

— Hã? — Ryan perguntou confuso.

— Algum problema, Ryan? — Sean perguntou.

Ryan olhou por um segundo ao redor antes de entender. E com o sangue já começando a ferver ele escutou a voz dentro de sua cabeça.

— Precisamos conversar. Estou no lugar de sempre.

— Deixe minha cabeça em paz, sua maldita! — Ryan gritou.

— Ryan… — dessa vez foi Trish que interveio. — Você está bem?

Ryan se forçou a manter a calma.

— Estou. Vão descansar e se preparem para amanhã. Vejo você depois.

— Espera. Você não vai voltar com a gente?

— Não. — Ryan respondeu com um suspiro — Infelizmente tenho que me encontrar com antiga companheira.

— Companheira?

— Infelizmente?

Notas finais
Obrigado por lerem e até a próxima!