Beyond the Vengeance
51 Mesa para Dois
Notas iniciais
Ryan se contorceu na cadeira do restaurante chinês. Embora fosse um de seus lugares preferidos em Nova Iorque, também lhe trazia alguns pensamentos amargos. Sobretudo em companhia da mulher a sua frente.
Lan Halie olhou preguiçosamente o cardápio, como se estivesse procurando algo que a tirasse do tédio. Seu único olho bom correndo de um lado pro outro como se nem ao menos estivesse lendo o que estava escrito.
Mesmo depois de tanto tempo, Ryan ainda não havia se acostumado com aquele tapa-olho. Magra, baixa e com o cabelo quase raspado, Lan sempre dera a impressão errada de que era uma pessoa frágil, principalmente agora com apenas um olho enxergando. Ao menos essa era sua aparência de longe. Ninguém que chegasse perto o suficiente para ter uma boa visão de seu olhar penetrante, sua voz firme ou sua atitude imperativa a classificaria como frágil. E, Ryan tinha certeza, se não fosse por sua escolha formal de vestuário, que deixava pouco mais que a pele de seu rosto a mostra, as pessoas ao redor com certeza pensariam duas vezes antes de julgá-la diante de sua condição física impecável.
— O de sempre. — Ela falou deixando o cardápio de lado.
A garçonete acenou timidamente e olhou interrogativamente para Ryan, que por sua vez continuou encarando a mulher de tapa-olho.
— A bebida com o maior teor alcoólico que vocês tiverem.
— Ele vai querer o mesmo que eu. — Lan interveio com firmeza.
A garçonete acenou novamente e se afastou. Ryan tinha certeza que seu pedido havia sido ignorado.
Ryan continuava encarando Lan, que por sua vez também começou a encará-lo. Ambos faziam muito isso quando chegavam à algum tipo de impasse, o que acontecia muito. Antigamente podia passar vários minutos daquele jeito, mas de alguma forma olhar para um único olho de Lan era surpreendentemente mais incômodo do que encarar os dois ao mesmo tempo.
Ryan desviou o olhar com um suspiro.
— Você poderia ter mandado uma mensagem de Íris dessa vez. Sua voz me dá dor de cabeça.
— Se eu tivesse tempo o suficiente para uma mensagem de Íris não precisaríamos ter essa conversa pessoalmente pra começar.
Ryan tentou ignorar sua irritação crescente com as respostas de Lan. Por mais que o tempo passasse isso nunca mudava.
— Então, já que está tão sem tempo pode me falar logo por que estava xeretando minha mente?
— Era você que estava pensando em mim, não o contrário. Só aconteceu de eu ouvir seu pensamento e resolver aproveitar a chance.
— Não se faça de desentendida! É óbvio que você estava procurando ouvir algo, se não nunca teria ouvido.
— Ryan. — Pela primeira vez em muito tempo ela disse seu nome, seu tom era sério — Não me subestime.
Ryan não conseguiu evitar engolir em seco. Até onde sabia, nem mesmo os próprios mentalistas conheciam os limites dos poderes de Lan Halie.
— Mas dessa vez você está certo sobre algo. — Ela continuou. — De fato, eu estava tentando ouvir algo. E isso é parte da razão de eu ter te chamado aqui, mas por enquanto me interesso mais pelo que o perturbou tanto a ponto de cogitar falar comigo. Da última vez que isso aconteceu você quase morreu.
Essa era a característica de Lan que Ryan menos gostava. Não importava o que lhe passava pela cabeça, se ela tinha vontade de falar ela simplesmente falava, não importa o quão duro isso podia ser para o ouvinte.
— Por que você insiste em tocar nesse assunto depois de tanto tempo?
— Porque você ainda é tão mole quanto naquela época e alguma parte irracional minha espera que você uma hora aprenda a lição, mas você também é quase tão idiota quanto naquela época, então é um esforço inútil.
— E o que faz você pensar isso? Não nos encontramos há meses e mal conversamos há mais de um ano.
— Você ainda se preocupa demais com seus subordinados, confia demais em qualquer um e ainda tem reações infantis quando se trata de sua responsabilidade, posso dizer isso simplesmente de ter ouvido seu pequeno dilema entre conversar comigo ou não. Como eu disse: você não mudou nada. Tenho certeza de que ainda deve deixar os novatos ganharem de você numa luta pra ficarem mais confiantes.
— Se eu quisesse ouvir sermões por ser uma boa pessoa ainda moraria com meu pai.
— Pessoas boas morrem. — Lan declarou. A voz fria e cortante como uma adaga. — Principalmente quando não fazemos nosso serviço direito.
Ryan estava prestes a começar uma briga quando a garçonete chegou com os pedidos, o salvando de uma briga que ele provavelmente perderia. Como tinha suspeitado, seu pedido tinha sido ignorado. No lugar da bebida que pediu veio uma porção de Yakisoba para cada um.
— Então, vai contar o que aconteceu ou não? — Lan voltou a perguntar. Ela prontamente apanhou um par de hashi descartável, desembalou e começou a comer imediatamente.
Recobrando um pouco da calma, Ryan fez o mesmo, esperando que a garçonete se afastasse o suficiente para não ouvir a conversa.
— Tenho quase certeza de que um dos seus mentalistas tentou ler a mente de uma vingadora. — Começou.
— E?
— E ele não devia fazer isso!
— Até onde eu saiba quem lidera os mentalistas sou eu e não você.
Ryan se esforçou para não cair na provocação.
— Não é o que eu quero dizer. Apesar de você me tratar como idiota eu ainda consigo saber o bastante sobre os limites dos poderes dos mentalistas. — Quase de todos, Ryan se corrigiu mentalmente observando a mulher à sua frente. — As ações dele não fazem sentindo algum. Seja quem for nenhum vingador teria a mente lida tão facilmente. E tenho certeza de que ele sabia disso também. Mas mesmo assim ele tentou ler a mente de Trish em busca de uma informação que ela sequer tinha. Não importa o quanto eu pense sobre isso, não posso deixar de achar isso estranho. Se ele fez algo assim tinha uma razão muito específica. — Ryan fez uma pausa olhando diretamente para Halie.
— Algo como uma ordem, por exemplo.
— Mesmo que fosse verdade eu também teria razões bem específicas para dar tal ordem. E, acredite, elas não estão em falta. Mas tem uma coisa que você ainda não disse. Como sabe que meu mentalista tentou ler a mente dessa tal de Trish? Se você disse que ele tentou, obviamente não conseguiu. Então como você saberia disso?
— Essa é outra coisa estranha. Quando ele estava tentando ler a mente de Trish acabou ouvindo alguém que não deveria estar lá. Parece que tinha alguém espionando o apartamento de Terry, mas seja quem for conseguiu fugir de alguma…
Ryan parou quando notou uma pequena reação de Lan. Ela olhou por um instante para o nada e logo depois fechou o olho de modo pensativo. Com um leve suspiro ela colocou o hashi de lado.
— Ryan. — Ela disse calmamente. — Onde está esse mentalista agora?
Ele estranhou a reação de Halie, mas respondeu assim mesmo.
— O mentalista parece que saiu com uma garota chamada Jennifer, mas não sei pra onde foram. Ele estava ferido então deve ter ido para algum lugar onde possa descansar e tratar das feridas.
— É melhor que ele trate de se esconder bem. — Ryan se assustou com o tom subitamente ameaçador de Halie. — Mais uma coisa. — Ela disse abrandando o tom. — Quero que me leve até esse apartamento.
— Hã? Espera aí, eu perdi alguma coisa? Até agora a pouco você nem parecia interessada no assunto e agora está agindo tão sério assim... Lan, o que está acontecendo?
Ryan estranhou a como o nome dela soava nem sua boca. Era algo que não dizia há muito tempo.
— Lamento vingador. Não é algo que você deveria saber. Apenas me leve até o apartamento e continue com suas buscas normalmente.
Lá estava novamente. A barreira que os separava há anos. Por um momento Ryan achou que aquela conversa estava trazendo algo do que restara de sua antiga amizade. Porém novamente, não eram mais ele e Halie conversando, mas sim o líder dos Vingadores trocando informações com a líder dos Mentalistas.
— Então você já sabe sobre isso também?
— Claro. Afinal é uma prioridade, não? É melhor assim. Você cuida dos problemas mais urgentes. E eu cuido para que os problemas futuros não sejam urgentes demais.
— Quase estou me sentindo na equipe de novo. Não sei se fico nostálgico ou depressivo.
— Fique como quiser, mas nossa equipe nunca vai ser como era antes. — pela primeira vez Ryan viu o esboço de um sorriso cansado naquele rosto. Considerou o dia ganho com aquilo.
— Tudo bem então, vou te mostrar onde fica o apartamento, depois vou desmaiar por 30 minutos e voltar a procurar essa pessoa misteriosa.
— Bom. — Lan se levantou já pronta para sair, mas parou por um momento. — Mais uma coisa. Quando Terry Rivers voltar do Japão, traga-o direto para mim.
Ryan também se levantou. De repente, se deu conta de que nunca mencionara que Terry estava no Japão. Teve vontade de xingá-la, mas simplesmente se conteve.
— Por mais que seja sigiloso espero ouvir uma boa razão para um dos meus vingadores ser intimado dessa forma.
Halie pensou por um segundo.
— Se não fazer perguntas, lhe direi o motivo.
— Estou ouvindo.
— Depois do líder da Ordem, ele é nossa ameaça mais imediata.
Ryan estava chocado demais para pensar em qualquer resposta. Assim que conseguiu abrir boca a garçonete que os tinha atendido apareceu do lado deles.
— Já estão indo? — Ela perguntou. — Precisam de alguma provisão?
Ryan estava prestes a perguntar do que a garçonete estava falando quando Halie se adiantou.
— Por enquanto nada, Amy. Mantenha-se atenta a qualquer movimentação dos números 5 e 6. Atualize com as sentinelas a cada 15 minutos e me avise de qualquer mudança. Avise a todos que nossos alvos provavelmente estão feridos e separados. Use isso a seu favor e feche o cerco.
— Entendido.
Prontamente Amy, a garçonete, se afastou e começou a limpar outras mesas como se fosse apenas mais um dia normal de trabalho. Ryan levou um segundo pra alcançar Halie, que já estava se dirigindo à saída.
— Você só pode estar brincando sobre o que disse sobre Terry. — Ryan finalmente conseguiu falar.
— Não brinco em serviço.
— Mesmo assim… Não pode ser possível.
— Tem muita coisa que você não sabe sobre ele. Mas não se culpe por isso. Não é uma informação fácil de conseguir.
Ryan pensou em começar a fazer perguntas, mas sabia que não ia ser respondido. Em vez disso ele lançou um último olhar para o restaurante. Procurou Amy, mas não a viu por perto.
— Eu tinha esquecido esse seu lado. — Comentou.
— Que lado?
— Seu lado possessivo. Não acredito que infiltrou uma das suas aqui! Você sempre tenta tomar conta de tudo ao seu redor.
— Você chama de possessão. Eu chamo de precaução. Com Amy aqui posso ter um local relativamente seguro, quase sempre vigiado, em que posso ter encontros de emergência assim sem levantar suspeitas. Além de que posso continuar a comandar mesmo operações mais complexas daqui. O mesmo vale pra qualquer coisa ao meu redor. — Ela fez uma pausa, enquanto abria a porta da saída dos fundos e virava para olhar Ryan nos olhos. — Afinal… tudo que está fora de controle é um perigo em potencial.
— “É por isso que vocês todos são um perigo em potencial” — Ryan completou. — Você realmente levou isso ao pé da letra. Mas ironicamente nunca conseguiu controlar a gente, as pessoas pra quem você mais falava isso.
— Talvez seja por isso que não exista mais “a gente”.
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