Beyond the Vengeance
28 Preso na Floresta - Um dia da caça, outro da caçadora
Notas iniciais
Ártemis me olhava com severidade. Parecia estar diante de um criminoso que estivesse prestes a receber sua sentença de morte.
— Prendam-no!
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, as caçadoras me arrastaram até uma árvore. Fui amarrado com uma grande corda, dando várias voltas envolvendo a mim e a árvore. Tentei protestar, mas fui amordaçado, impedido de falar.
Jennifer não havia sido presa, mas algumas caçadoras ainda apontavam seus arcos para ela. Ártemis acenou para que elas abaixassem os arcos. A deusa se aproximou de Jennifer.
— Temos que conversar — ela disse — Para o seu bem sugiro que responda as perguntas com sinceridade.
— Sim, senhora — Jennifer concordou várias vezes com a cabeça, claramente nervosa. Não a culpava.
— O que os trouxe até aqui?
Jennifer engoliu em seco antes de responder.
— Estamos procurando uma pessoa… Quero dizer, cada um de nós procura uma pessoa diferente. Nos encontramos por acaso.
— E quem são essas pessoas?
— Minha irmã e… — Jennifer olhou para mim — Uma menina chamada Liza.
Ártemis a encarou como se estivesse decidindo se dizia a verdade. Por fim falou:
— Também estamos procurando uma pessoa. Uma de minhas caçadoras. Ela fica no comando quando tenho que me ausentar, porém ela desapareceu. Sabe alguma coisa a respeito?
Jennifer hesitou antes de falar.
— Eu… acho que nós a encontramos…
Jennifer contou sobre o nosso encontro com a filha de Zeus, descrevendo cada detalhe. Estava preocupado que Ártemis pudesse entender as coisas erradas e achar que simplesmente atacamos sua caçadora. Porém Jennifer contou cuidadosamente essa parte. A deusa ouviu todo o relato em silêncio. Ao fim da história ela franziu profundamente o cenho.
— Isso é estranho. Ela não agiria dessa forma… — Ártemis deixou a frase morrer no ar. Uma caçadora se aproximou respeitosamente da deusa.
— Minha senhora — ela começou — A senhora não está acreditando nessa história, está? Thalia nunca atacaria alguém dessa forma. Muito menos usaria seus poderes precipitadamente.
— Realmente — a deusa concordou, virando-se para o rio — Mas houve uma forte chuva agora a pouco. Não foi uma chuva natural.
Tentei avisá-las do que realmente havia acontecido, mas só consegui emitir alguns ruídos abafados. Ninguém me deu atenção. Comecei a balançar a cabeça histericamente, movendo a boca de toda a forma para me livrar da mordaça. Senti que o nó começou a se enfraquecer. Continuei me movendo.
— Ei, fique quieto! — a caçadora mais próxima disse.
Ela se aproximou, provavelmente para apertar os nós que me prendiam, mas antes que pudesse fazê-lo eu cuspi a mordaça para fora de minha boca.
— Ela está enfeitiçada! — gritei.
Todas olharam para mim. Até Jennifer não havia entendido direito. Ela havia ocultado a parte do brilho nos olhos da filha de Zeus ou simplesmente não os vira, mas eu teria que contar. Precisava conquistar a confiança da deusa pelo menos para ser libertado.
— O que quer dizer com isso? — Ártemis perguntou.
Contei tudo que sabia. Falei como já havia visto aquele tipo de feitiço antes e que ele se encaixava perfeitamente naquele caso. Falei sobre a Ordem e como Liza havia sido sequestrada por eles.
— Muito provavelmente ele a enfeitiçou para impedir que eu continuasse perseguindo-o — concluí.
Ártemis me fuzilava com o olhar. Não sei se estava furiosa por sua caçadora ter sido enfeitiçada ou se achava que eu havia mentido.
— Como quebramos o feitiço?
—Me solte primeiro — arrisquei.
— O que?! — A deusa gritou.
Engoli em seco, mas não podia dar para trás agora. Ártemis precisava de mim para acabar com o feitiço. E eu precisava ir atrás de Liza.
— Não vou falar mais nada até ser desamarrado — disse, mas me arrependi automaticamente.
A expressão de Ártemis era de pura fúria. A deusa tirou o arco dos ombros e com uma velocidade incrível encaixou uma flecha, pronta para atirar. Jennifer viu o que ia acontecer e tentou impedir. Ela estava a poucos passos da deusa, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa três flechas estavam voando em minha direção. Amarrado, tudo o que pude fazer foi fechar os olhos, esperando ser atingido. A três flechas acertaram o alvo em sequência. As cordas a minha volta caíram. Abri os olhos. Três flechas estavam cravadas na árvore, perigosamente perto de mim.
— Da próxima vez — a deusa falou entredentes — as flechas vão acertar você.
Eu estava completamente cercado. Apesar de ter sido liberto das cordas havia duas caçadoras atrás de mim, uma de cada lado e o resto do grupo ia à frente. Jennifer andava próxima a Ártemis. Ela também estava sendo vigiada, mas não tão ofensivamente quanto a mim. Seguimos o caminho, subindo o rio. Quando nos aproximamos do lugar onde a filha de Zeus estava, as caçadoras sumiram atrás das árvores, andando furtivamente. Tentei acompanhar uma delas, mas não durou um minuto e ela já havia desaparecido em meio à floresta. Ártemis sinalizou para que eu a seguisse. Estávamos do outro lado do rio, mas havíamos chegado. A menina estava lá, parada como uma estátua, olhando fixamente para o rio. Diferente de onde ela estava, o nosso lado do rio tinha muito mais árvores para nos escondermos.
— Se o que disse é verdade — Ártemis sussurrou — então está na hora de me contar como quebrar o feitiço.
— Vai sei complicado — sussurrei de volta — Temos que encontrar o objeto que está enfeitiçado. É ele que a deixa desse jeito. Não sei como funciona, mas se destruímos esse objeto o feitiço deve se quebrar. Vê alguma coisa estranha? Que não seja dela? — perguntei.
— Aquele colar — a deusa respondeu, apontando para um colar com uma pedra estranha azulada na ponta — nunca a vi com ele.
— Ótimo! Me dê cobertura.
Dizendo isso eu saí correndo. Ártemis com certeza desaprovou minha atitude, mas eu já havia saído de trás da árvore. Aproveitei a parte estreita do rio e saltei. Só então a menina deu sinal de ter me notado. Ela sacou o arco e encaixou uma flecha na corda, porém antes que pudesse atirar em mim uma flecha atingiu o chão entre seus pés. Ela recuou dando tempo para que eu me aproximasse sacando a espada. Ela levantou o arco bloqueando meu golpe com a espada e me chutou para trás. A filha de Zeus largou o arco e sacou suas facas. Avancei com a espada e ela defendeu entrecruzando as facas. Acionei o escudo a tempo de afastá-la com um empurrão.
Vi uma caçadora se aproximar pela direita. Ela estava fora de vista da filha de Zeus, mas antes que pudesse atacar ela foi chutada bruscamente. Os olhos da enfeitiçada brilharam em um azul fantasmagórico. Ela avançou sobre mim. A primeira faca veio da esquerda e eu a bloqueie com o escudo. A segunda faca veio pelo outro lado. Posicionei a espada para apará-lo, mas a menina mudou bruscamente o alvo de seu ataque. Minha espada, maior e mais pesada, não foi capaz de seguir o movimento. Sua faca se cravou em meu braço esquerdo. Larguei o escudo dando um grito de dor. Novamente fui chutado e caí. Rapidamente levantei a espada para me defender, mas recebi um chute na mão, lançando a espada longe. Ela levantou a outra faca, pronta para me matar. Não havia como me defender daquilo. Esperei o golpe, mas antes que a filha de Zeus me apunhalasse uma flecha a atingiu. Foi muito rápido para que eu pudesse registrar. Num momento ela estava prestes a me atacar e no outro soltou um grito, segurando a mão em que a faca estava antes. Sua mão sangrava um pouco, a faca havia caído em algum lugar. Ela olhava furiosa para o outro lado do rio. Segui seu olhar. Jennifer mirava mais uma flecha nela.
Sem perder tempo eu a chutei para trás, ficando de pé em seguida. Ela cambaleou para trás. Cerrando os dentes eu puxei a faca fincada em meu braço e me atirei contra ela, acertando sua têmpora com o cabo da faca. O impacto do golpe fez sua cabeça ser jogada para o lado. A menina caiu no chão, imóvel. Rapidamente agarrei o colar e o cortei para que saísse do pescoço dela. Joguei o no chão, pisei com toda minha força, golpeei com a faca, mas nada o fez quebrar. Busquei a espada caída no chão, mas também não obtive resultado.
— Terry! — Jennifer gritou.
Olhei para ela confuso. Antes que pudesse perceber o motivo do grito fui agarrado por trás. A filha de Zeus se agarrou ao meu pescoço, me enforcando. Tentei tirá-la de cima de mim, mas ela se agarrou com força. Não consegui nem mesmo tirar os braços dela em volta do meu pescoço. Girei para os lados tentando derrubá-la, mas foi inútil. Imaginei se a magia a deixava mais forte do que comum ou se aquela seria sua força habitual. Provavelmente a segunda opção. Novamente pisei na pedra, mas ela continuou intacta. Nada parecia ser eficaz contra aquela magia. A solução veio até mim como um estalo em minha cabeça. Xinguei-me mentalmente por não ter percebido antes. Meus pulmões queimavam pela falta de ar, mas ainda podia fazer uma última coisa. Tive que me esforçar o dobro devido ao peso extra que a filha de Zeus me impunha, mas consegui fazer a tatuagem me obedecer a tempo. A corrente deslizou de meu braço. Agarrei firmemente sua ponta e, com toda a força que pude juntar, a girei, fazendo sua outra ponta atingir a pedra com força. A menina gritou ainda agarrada a mim (o que foi desconfortável para meus ouvidos). A pedra se desfez, virando um pó azul que foi rapidamente levado pelo vento. Por fim a menina me largou, caindo no chão, desmaiada.
Estava de volta a parte da floresta onde tinha sido preso pelas caçadoras. Em questão de minutos elas montaram um acampamento completo. As barracas se alinhavam em volta do amontoado de madeira que seria a fogueira para a noite. Numa das barracas estava Ártemis, tendo uma conversa particular com Jennifer. Já eu havia sido deixado com uma caçadora mal humorada. Ela havia recebido a tarefa de cuidar dos meus ferimentos, mas aparentemente não estava contente com a tarefa. Ela amarrou o curativo em volta do meu braço, apertando o nó bruscamente.
— Aí! — reclamei.
Como resposta ela apenas fez cara feia.
— Não seja tão dura com ele Ifigénia — ouvi uma voz dizer.
Quando olhei para o lado avistei a menina de antes. Ela parecia ter acabado de acordar do desmaio. Havia uma macha roxa em sua têmpora.
— Humpf! — a caçadora ao me lado virou a cabeça, como se quisesse ignorar aquela frase.
Dizendo isso ela se levantou e foi em direção a um grupo de caçadoras que se sentavam ao redor da fogueira ainda apagada.
— Foi um prazer também — disse sarcasticamente.
A filha de Zeus me deu um soco na cabeça, como se estivesse repreendendo seu irmão caçula.
— Só porque Ifigénia não foi muito educada não quer dizer que você tem que agir como um idiota.
Ia protestar, mas meus pensamentos mudaram drasticamente ao ouvir o nome.
— Ifigénia? Aquela Ifigénia?
— Sim, aquela Ifigénia — ela respondeu com impaciência, sentando-se a minha frente.
— Thalia, não é?
— Sim, Thalia Grace. E você é…?
— Terry Rivers.
— Bom, Terry… — ela começou aparentemente desconfortável — adoraria poder fazer alguma coisa por você, mas tudo que posso fazer é te agradecer por ter me salvado.
— Não foi nada — respondi — mas… na verdade tem uma coisa que você pode fazer pra mim. Pode me contar do que lembra? Estou procurando a pessoa que fez isso com você faz um tempo. Se lembrar de alguma coisa vai ser muito útil.
— Desculpe, mas tudo que me lembro é estar caçando e de repente apagar. A última coisa que me lembro é ter avistado alguma coisa no chão, mas provavelmente era apenas aquele colar enfeitiçado.
— Ah… — toda a minha esperança havia ido por água abaixo. Eu havia perdido muito tempo naquilo e Liza já deveria estar longe. Não sabia se conseguiria achar o rastro dela depois de tudo aquilo.
— Bom… — Thalia começou — Tem uma coisa na verdade, mas não sei se faz muito sentido — ela tirou um papel do bolso e me entregou — Achei isso quando acordei. Não é meu.
Observei o papel. Ele parecia um pedaço de uma folha de caderno, mas não um caderno comum, era pequeno demais. Um diário talvez? Nunca havia me perguntado se Liza tinha um diário, mas se fosse isso, aquilo com certeza tinha sido uma pista que ela deixara. No papel estava rabiscado: Patent Arms Company.
— Obrigado — agradeci.
Notei um movimento vindo das barracas. Jennifer saiu primeiro e logo depois Ártemis fez o mesmo. Jennifer lançou um olhar estranho para mim, logo depois se virando para a deusa.
— É realmente uma pena! — ela exclamou — Mas a escolha é sua. Pode ficar conosco o quanto quiser antes de partir.
A deusa se afastou para perto da fogueira, junto às caçadoras. Thalia a acompanhou. Jennifer veio se sentar ao meu lado.
— O que vai fazer agora?
Olhei para o céu. O sol já estava se pondo, dentro de pouco tempo a noite iria cair. Por mais que o horário não fosse um dos melhores eu não podia perder tempo.
— Vou procurar Liza, ela deve estar cada vez mais distante.
Jennifer assentiu com a cabeça. Levantamos do chão, prontos para partir. Ártemis veio se despedir.
— Tem certeza de que não quer ficar e partir de manhã? — ela perguntou.
— Não, não posso perder tempo e…
— Não estava falando com você — a deusa me cortou. Resolvi ficar quieto.
— Realmente não podemos perder tempo — Jennifer respondeu um tanto desconcertada com a resposta da deusa — Mas agradecemos a oferta.
Achei um ato corajoso ela me incluir na frase. Ártemis olhou para mim, enigmática. Seu olhar caiu sobre meu braço.
— É realmente incomum que eu faça isso, mas por ter mostrado respeito a mim com aquele urso e por ter ajuda minhas caçadoras, acho que posso abrir uma exceção — ela se aproximou de mim — parece que está faltando um pingente nessa sua pulseira.
Ela colocou a mão sobre meu pulso. Quando abriu novamente um pingente prateado se sobressaiu sobre os outros. No lugar onde antes ficava a adaga, agora havia um pingente diferente. Era prateado como os outros, mas tinha um brilho mais intenso. Quando o puxei, uma faca se materializou em minha mão. Uma faca de caça. O cabo era de madeira, revestido com couro e a lâmina prateada. Era idêntica a faca de Thalia e igualmente afiada.
— Obrigado, senhora Ártemis — agradeci respeitosamente.
Jennifer e eu partimos pouco antes do sol se pôr completamente. Caminhamos em silêncio, seguindo em direção ao fim da floresta. Ainda havia um bom percurso até que pudéssemos cruzá-la por completo.
— Por que não ficou? — perguntei — Você ainda tem que achar a sua irmã e as caçadoras poderiam te ajudar.
Jennifer balançou tristemente a cabeça.
— Ártemis me disse que ela já foi resgatada. Uma das caçadoras a viu com um grupo de resgate.
Não sabia o que falar sobre aquilo. Por um lado era uma boa notícia já que sua irmã realmente estava viva e segura. Porém também significava que elas iriam ficar separadas por mais tempo. Por fim foi Jennifer quem quebrou o silêncio.
— E você? Alguma pista de onde vai procurar essa Liza?
— Na verdade sim — disse tirando o papel do bolso e mostrando para ela — Mas não faz sentido.
Jennifer examinou o papel.
— Parece o nome de uma empresa. Não quero ser chata, mas não é a coisa mais difícil do mundo. Eu não entendo o que não faz sentido.
— Essa empresa faliu em 1842. Isso que não faz sentido. Ela não existe mais.
— Você a conhece?
— Não sei muito sobre ela, mas sei sobre seu dono. “O homem que tornou todos iguais” — Jennifer olhou para mim, sem entender — O que? Vai me dizer que você não conhece o slogan?
— Que slogan? — ela perguntou ainda mais confusa.
— “Abraham Lincoln tornou todos os homens livres, mas Samuel Colt os tornou iguais”.
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