Beyond the Vengeance
29 Armas e Rosas
Notas iniciais
— Você mora… nisso? — Jennifer perguntou.
— Não é tão ruim quanto parece.
Estávamos de volta ao meu velho prédio abandonado. Se aquele papel indicasse o caminho pelo qual Liza estava seguindo, seria necessário que eu pegasse algumas coisas. Além do que não tinha que fazer um grande desvio para chegar até ali. Jennifer e eu entramos. Ela ficou um pouco mais tranquila ao ver o quarto onde eu ficava. Não havia muita coisa, mas diferente do resto do prédio, não parecia que iria desmoronar a qualquer momento.
— Não é exatamente um cinco estrelas, mas é o suficiente pra mim — brinquei.
Jennifer riu.
— Eu sei como é — olhei para ela curioso — Desde que eu fugi do orfanato eu também tive que me virar em lugares assim — ela explicou — Acho que esse é até melhor do que costumo arranjar.
— Cortesia dos meus amigos — disse — Nós temos água a vontade caso você queira se limpar, mas somente água fria.
— Não importa. Estou acostumada — ela entrou no banheiro — Saio em alguns minutos.
Olhei para a cama quase que imediatamente. Estava cansado. Muito cansado. Me permiti sentar na cama, mas não deitei. Olhei para mochila encostada na parede. Todas as minhas coisas estavam lá. Apanhei a faca de dentro dela. Adam havia me jogado aquela faca, antes mesmo de saber que era um semideus. Fazia tempo, pareciam décadas atrás. Ouvi o barulho do chuveiro ligado. Por um momento me passou pela cabeça que duas garotas já haviam estado naquele lugar comigo e Liza não. Quase todas com quem eu havia criado algum vínculo já tinham estado ali, menos a que mais importava. Por fim me deitei. A velha cama rangeu sob meu peso. Não fechei os olhos. Não conseguia parar de pensar em Liza. Tinha que encontrá-la antes que algo acontecesse. Esperava que ela estivesse bem. Pensamentos iam e viam dentro da minha cabeça. Em algum momento não consegui resistir e meus olhos se fecharam.
Havia cochilado pouco. Quando acordei, alguém me chamava.
— Terry.
Abri os olhos, mas tive que piscar várias vezes antes de conseguir enxergar. Liza estava ali. Sentada na cama, ao meu lado. Não sabia como ela tinha chegado, mas pouco me importava. Estava cansado, sonolento. Queria que ela se deitasse comigo. Queria poder beijá-la e sentir o perfume de seus cabelos novamente. Pousei minha a mão sobre a dela, tentando me levantar. Ainda estava meio fora do ar por causa do sono. Aproximei-me um pouco. Queria mais do que nunca beijá-la. Pisquei mais algumas vezes. Perguntei-me por que Liza estava usando uma toalha na cabeça. Então percebi. Rapidamente me afastei de Jennifer, ficando de pé em um segundo.
— O que foi? — ela perguntou assustada. Por sorte não havia percebido o que eu estava prestes a fazer.
— Nada! — respondi depressa.
— Eu só queria te avisar que já acabei. Você pode tomar banho agora.
Sem dizer uma palavra apanhei tudo que precisava e fui para o banheiro, fechando a porta. Tirei a roupa e entrei debaixo do chuveiro. Deixei a água fria cair por vários minutos em minha cabeça, me despertando por completo. No que eu estava pensando? Mesmo que Liza arranjasse alguma forma de escapar e milagrosamente adivinhar o lugar onde eu estava, ela mesma me beijaria, antes mesmo que eu acordasse. Eu não sabia se ela ainda se ressentia por tê-la deixado, mas para me deixar aquela pista ela com certeza sabia que eu estava atrás dela. E tinha certeza de que nossa briga se encerraria quando nos encontrássemos novamente.
Quando saí do banheiro percebi que Jennifer também estava cochilando. Ela estava deitada de lado. A posição me fez lembrar da última noite que havia visto Liza, dormindo daquele jeito. Droga, por que tudo nela me fazia lembrar de Liza?
— Jennifer! — chamei.
Ela abriu os olhos, sonolenta. Precisou de um minuto para se levantar. Só então notei que ela havia dormido de mochila, já pronta para sair. Ela havia trocado de roupa e agora vestia calças Jeans e uma camiseta verde. Apanhei minha própria mochila ao seu lado e saímos do prédio, começando a andar.
— Tem certeza de que não quer ficar? — perguntei — Vamos andar um bocado e estamos cansados, mas só eu preciso continuar.
— Não vai se livrar assim de mim tão fácil — ela brincou — além do mais, se eu te ajudar a achar essa Liza você vai ajudar a achar minha irmã.
— Feito — concordei — Já que vai, você não tem nenhuma arma além do arco, tem?
— Não. Somente o arco.
— Aqui — disse tirando a faca da mochila — É melhor ter uma arma de curta distância também. Só para garantir.
— Obrigada.
— Essa foi minha primeira faca, cuide bem dela.
Jennifer sorriu, concordando.
— A propósito, aonde vamos?
—Paterson, Nova Jersey.
Não tivemos problemas para chegar à Paterson. Não me orgulhava daquilo, mas tínhamos usado o dinheiro do assassino de Marie para chegar até ali. Não era um feito honroso tirar dinheiro dos mortos, mas precisava do dinheiro mais do que ele. Por sorte estava muito bem guardado na mochila. Paterson parecia ser uma cidade tranquila, diferente de Nova Iorque não havia carros para todos os lados e você não tinha que se inclinar para trás para ver o topo dos prédios. De alguma maneira aquela cidade me transmitia calma.
O problema imediato após chegarmos foi saber para onde ir. Não sabia onde ficava a Patent Arms Company antes de falir, supondo que era pra lá que deveria ir pra começo de conversa.
— Não tem alguma forma de acharmos o endereço? — Jennifer perguntou.
Pensei por um instante.
— Talvez haja alguma coisa em uma biblioteca ou talvez em um museu. Eu não sei, mas podemos começar por aí.
— E onde vamos achar um lugar assim?
— Vamos perguntar — disse apontando para uma floricultura ali perto, um dos poucos estabelecimentos naquela rua.
Minhas narinas se encheram com o perfume de rosas quando entramos na floricultura. Havia flores dos mais variados tipos, mas as rosas estavam em um número muito maior. Alguns buquês estavam prontos para entrega em uma caixa em cima do balcão principal. Num canto perto do balcão havia vários baldes lotados de rosas. Elas estavam de frente a uma porta que deveria dar na área de serviço, onde as os espinhos e pétalas murchas eram retiradas.
— Estranho — Jennifer comentou — Não há ninguém.
Realmente não havia ninguém. A floricultura parecia abandonada, mas as portas estavam abertas. Devia haver alguém ali. Aproximei-me do balcão e toquei a campainha de mesa. Nada. Olhei para Jennifer que estava tão confusa quanto eu. Toquei a campainha novamente. Dessa vez uma porta atrás do balcão se abriu, mas o que saiu de lá não era o que eu estava esperando. Era uma mulher, mas estava vestida com um peitoral de bronze e trazia uma lança e um escudo nas mãos. Como se isso já não fosse assustador, suas pernas eram duas caudas de serpente. A pele escamosa desaparecia por debaixo do peitoral, mas a pele acima da cintura parecia de uma pessoa normal. Pupilas verticais se fixaram em mim. Atrás dela uma mulher idêntica brandia uma espada. Também usava escudo. Dracaenae.
Estava preparado para um possível ataque, mas ele veio de onde eu menos esperava.
— Cuidado! — Jennifer gritou.
A minha esquerda, vindas da porta no canto da floricultura, duas Dracaenas avançavam rápidas. Elas tiraram os baldes com rosas bruscamente de seus caminhos, lançando uma chuva de pétalas e água em nós dois. Elas atacaram. Não estava enxergando direito por causa da chuva de pétalas, mas consegui bloquear a espada de uma acionando o meu escudo a tempo. Porém a outra estava vindo para acabar o serviço. Uma faca se fincou em seu peito antes que pudesse fazê-lo, transformando-a em pó. Saquei a espada rapidamente e após trocar alguns golpes consegui matar a Dracaena que me atacava. As duas atrás do balcão avançaram, tentando pulá-lo (não me pergunte como conseguiam com aquelas “pernas”). Usei o escudo para evitar a lança de uma e a chutei para trás do balcão novamente, fazendo-a cair por cima da outra.
Tentamos correr para fora da floricultura, mas mais duas Dracaenae apareceram na porta. As duas que eu havia derrubado já haviam se recuperado e pulado o balcão. Pensei em sair pela porta do lado, mas novamente duas Dracaenas apareceram e ficamos cercados. Seis contra dois.
Jennifer e eu ficamos com as costas coladas um no outro, esperando que alguma delas viesse atacar. Girei um pouco. Jennifer entendeu rapidamente e saiu do caminho, dando espaço para que eu lançasse o escudo nas Dracaenae que estavam bloqueando a saída. Infelizmente apenas uma foi atingida pelo escudo. Ele se fincou em seu pescoço e ela caiu. A outra avançou na minha direção, fechando com força a porta da loja. Consegui me defender do golpe dela, mas outra Dracaena vinha pela minha direita. Tive que rolar para evitar ser atacado. Jennifer enfrentava duas Dracaenas também, praticamente dançando para evitar os golpes das duas.
Estava concentrado nas duas a minha frente e quase não reparei na que vinha por trás de mim. Ela ergueu a espada, pronta para rachar minha cabeça em dois. Num reflexo rápido segurei seu punho a tempo enquanto enfiava a espada em sua barriga. Novamente rolei para não ser atingido. Jennifer estava com problemas, as Dracaenae a forçavam para trás e ela estava encurralada. Rapidamente saquei a faca que Artêmis me dera e joguei em uma das mulheres-monstro. Ela se fincou em suas costas, fazendo-a cair. Uma Dracaena me atacou com espada. Dessa vez fui lento demais em me esquivar e ela fez um corte na minha bochecha direita. Sem ter outra opção, saquei a lança. Usei-a como um bastão para derrubar a Dracaena mais próxima, mas não iria adiantar por muito tempo. Estava em um canto, totalmente sem espaço para usar a lança. Jennifer tinha conseguido se livrar de uma Dracaena, mas a outra não estava tão fácil. E Jennifer também estava segurando a barriga com uma das mãos, uma pequena mancha vermelha denunciava o ferimento. Não iríamos conseguir.
A porta da floricultura se escancarou com baque forte. Uma bota Doc. Martens havia deixado uma marca perfeita na porta. Houve um barulho forte, como o de uma pequena explosão e uma Dracaena a minha frente virou pó.
— Pense rápido! — alguém gritou. Antes que pudesse ver quem era, um objeto veio voando em minha direção. Apanhei-o antes que me acetasse, só então percebi o que era. Era uma arma! Não uma arma que eu estava acostumado como facas ou espadas, era uma arma de fogo. Uma Colt M1911. Antes que eu tivesse tempo de pensar em qualquer coisa a Dracaena me atacou. Saltei para longe do golpe, caindo de lado. Avistei Jennifer recuando, estava prestes a ser atacada. Apertei o gatinho. Três vezes. Dois tiros acertaram o peito da Dracaena, transformando-a em pó. O terceiro acertou um vaso de flor que explodiu, lançando cacos de cerâmica, pétalas e terra para os lados.
— Ai! — gritei ao sentir uma dor da mão, largando a arma.
Um fino fio de sangue tinha aparecido na pele entre o polegar e o dedo indicador. Tarde demais para apanhar a arma novamente, percebi que estava sendo atacado. A Dracaena estava prestes a me matar quando ouvi mais dois tiros e ela se desfez em pó.
Pela primeira vez olhei para quem havia nos salvado. Além das botas Doc. Martens, ele usava uma calça jeans escura e uma camiseta do Motörhead com um crânio medonho na frente. Estava segurando um revolver que girou algumas vezes antes de guardar no coldre preso ao cinto, como se estivesse em um filme de faroeste. Tinha uma pele bronzeada e um cabelo castanho cortado rente a cabeça. Para completar o figurino usava óculos escuros, estilo exterminador do futuro. Ele sorriu pra mim, apontando o polegar para cima, como se estivesse numa pose do the nice guy.
— Bom trabalho! — ele exclamou.
Olhei para ele novamente, sem saber o que responder. Vi que seus braços eram tatuados. Entre as tatuagens pude perceber dois revólveres cruzados, mas foi outra tatuagem que me chamou atenção: a de um cavalo boleando sobre lanças. Marca característica dos revólveres Colt.
— Quem é você? — perguntei.
— Meu nome é Michael, mas pode me chamar de Mike. Mike Colt.
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