Beyond the Vengeance
30 Patent Arms Company
Notas iniciais
— Você está bem?
— Estou — Jennifer respondeu — Foi só um corte superficial — Ela tirou a mão do ferimento. Ainda estava sangrando — Mas acho que vou precisar de alguns pontos.
Ela tentou ficar de pé, mas seu tornozelo havia torcido na confusão. Rapidamente eu ajudei a se por de pé e agarrei seu braço para que ela não caísse. Ela passou seu braço em torno do meu pescoço e se apoiou em mim. Começamos a andar. Na porta da floricultura, Mike estava retirando os cartuchos vazios de seu revólver e substituindo por balas novas. Seu cinto estava repleto de balas que contornavam sua cintura. Também havia um rústico coldre para o revólver, um cone de couro preto preso ao cinto. Se estivesse com outra roupa e um chapéu Mike poderia ser a perfeita representação de um cara do velho oeste.
— Temos que levá-la para um hospital — disse.
— Conheço um lugar mais perto — Mike disse — Sigam-me.
Jennifer e eu o seguimos devagar. Jennifer se esforçava para andar normalmente, mas o ferimento estava claramente incomodando-a, embora ela nada dissesse. De repente Mike parou, olhando para ela.
— Temos que esconder essa ferida — ele disse — Se as pessoas desconfiarem vão nos parar.
— Eu tenho uma jaqueta na mochila. Podemos esconder o ferimento com ela.
Mike abriu a mochila em minhas costas e retirou a jaqueta. Aproveitou para esconder o coldre e a arma também. Ele colocou a jaqueta sobre os ombros de Jennifer, puxando-a um pouco para cobrir o ferimento. Jennifer ficou com um dos braços para dentro da jaqueta, segurando a barriga, o outro ela usava para se apoiar em mim. Caminhamos por mais um tempo. Algumas pessoas lançaram alguns olhares desconfiados já que um braço da jaqueta andava solto, além de estar quente demais para usar uma jaqueta. Felizmente nenhuma delas nos parou. Após alguns minutos entramos numa pequena rua sem saída. Ela dava direto para um grande portão de correr. Atrás do portão havia um grande galpão e um pátio relativamente vazio ao seu lado. Quando chegamos ao portão um garoto vestido de preto veio de dentro de uma guarita. Cumprimentou Mike com um aceno de cabeça e voltou para guarita. Um segundo depois o portão deslizou para o lado, dando passagem para entrarmos. Caminhamos direto para o galpão. Havia quatro portões imensos no galpão, mas todos eles estavam fechados. Mike indicou uma porta lateral no galpão e entramos.
Estávamos em algum tipo de escritório. Havia alguns arquivos encostados em uma parede, um armário de metal perto da porta e uma mesa com computador do lado oposto. Para um escritório que estava dentro de um galpão como aquele, parecia extremamente pequeno. Uma menina estava sentada na frente do computador. Mantinha os cabelos loiros presos e estava vestida socialmente. Ela poderia se passar por uma importante empresária, se não fosse sua idade. Ela devia ser alguns anos mais nova que eu. Doze anos talvez.
— Senhor Colt — ela cumprimentou.
Mike fez uma careta.
— Sarah, pare de me chamar de senhor! Sinto como se tivesse o dobro da idade.
— Desculpe — ela disse olhando pela primeira vez em nossa direção — Esses são…
— Alguns amigos que encontrei por aí. Vou mostrar a fábrica para eles.
Dizendo isso Mike abriu uma porta que dava para dentro do galpão. Sarah se voltou novamente para computador. Seguimos Mike até a porta.
Entendi o que ele queria dizer com fábrica, mas não estava esperando algo daquele tipo. A nossa frente podia-se ver o galpão inteiro, iluminado por dezenas de lâmpadas espalhadas pelo teto. O galpão era gigantesco, mas o que mais me impressionou foi a quantidade de pessoas. Centenas delas, trabalhando em várias linhas de produção diferentes. O movimento era tanto que fiquei completamente perdido. Tive que me concentrar novamente para achar Mike. Ele estava a alguns metros à frente, atravessando a fábrica. Acompanhamos ele. Vários funcionários o cumprimentaram. Durante o percurso Mike explicou sobre a fábrica.
— Ela é basicamente dividida em dois setores — ele disse apontando — Fabricação de armas e fabricação de munições. Revólveres são a nossa especialidade. Em seguida pistolas e, recentemente, também estamos fabricando espingardas e futuramente fuzis de assalto. É claro, vai demorar um pouco já que fazemos as coisas por baixo do pano.
— Como assim por baixo do pano? — Jennifer perguntou.
— Talvez você não saiba, mas a empresa que fabrica originalmente as armas Colt já não pertence aos Colt de verdade. Ela foi vendida. Desde então a família Colt só tem brigado pelas mais ridículas coisas. Geralmente a discussão terminava com a questão do dinheiro. Chegaram até mesmo a brigar por uma pequena estátua. Esqueceram totalmente das armas. Acho que sou o único da família inteira que ainda se importa com elas. Como já estava cheio de tantas discussões eu decidi me dedicar às armas. Achei alguns projetos antigos de Samuel Colt e fugi pra cá. Achei um bom lugar e ressuscitei a velha Patent Arms Company. Desde então tenho fabricado armas e munições. Não posso vender as armas normalmente já que os projetos são quase idênticos às armas da empresa original. Eu seria acusado de plágio, mesmo que seja descendente do inventor dos projetos. Então eu vendo as armas ilegalmente e, como não pago impostos, posso vender mais barato e lucrar bastante. Quando comecei a fábrica se resumia num escritório como aquele que estivemos agora a pouco.
Mike parou de falar quando chegamos a um elevador. Estranhei a necessidade dele ali. O teto era alto o suficiente para um segundo andar, mas não havia segundo andar. Mike vendo minha confusão explicou.
— Nós vamos descer, não subir.
As postas do elevador se abriram. Entramos nele e Mike apertou o botão com o número 1. De acordo com o painel do elevador, havia quatro andares ao todo, fora o térreo. O elevador começou a descer. Quando ele parou as portas se abriram para um longo corredor branco. Mike saiu do elevador anunciando:
— Primeiro andar: Enfermaria, arsenal, laboratórios, salas de reunião, escritórios e o mais importante — ele disse dando um tapinha em uma máquina perto do elevador — Máquina de café.
— Onde fica a enfermaria? — perguntei.
— Por aqui — ele disse indo na frente.
Atravessamos o corredor e dobramos a esquerda. Em uma placa em cima de uma porta lia-se: Enfermaria. Empurrei a porta e entramos. Havias algumas macas distribuídas pelo local, armários, prateleiras e uma pequena mesa ao fundo. Só não havia uma coisa: alguém para cuidar dos pacientes. Mais urgentemente para cuidar de Jennifer.
— Não tem ninguém? — perguntei.
— Temos linha e agulha para costurar o ferimento, mas ainda não achei alguém de confiança para ficar aqui. Pelo menos ninguém que tenha um bom conhecimento de medicina.
— O quê? — disparei — você disse para nós seguirmos você. Disse que tinha um lugar mais perto.
— E tenho um lugar mais perto, só não tenho alguém para cuidar dela. Imaginei que vocês soubessem se virar.
Abri a boca para respondê-lo, mas Jennifer falou antes:
— Tudo bem. Posso fazer isso. Sei costurar um corte. Já fiz isso uma vez. Apenas peguem as coisas pra mim.
Ajudei Jennifer a se deitar em uma das macas. Mike foi à procura da linha e da agulha. Apanhei algumas coisas para limpar a ferida. Jennifer levantou a camiseta e mostrou o ferimento na barriga. Ela deixou que eu o limpasse. A dor a atingiu, mas ela se manteve firme. Mike apareceu com a linha e a agulha. Jennifer apanhou-as e começou a costurar. Conseguiu fazer o primeiro ponto, mas sua mão estava tremendo.
— Não dá — ela disse — Terry, você vai ter que fazer.
— Eu? — perguntei assustado — Por que não o Mike, foi ele quem causou essa confusão pra começar.
— Eu tenho pavor de sangue — ele disse.
— Você nem piscou até agora, mentiroso!
— Por favor! — Jennifer pediu me entregando a agulha com a linha — eu vou ajudar.
Engoli em seco. Nunca tinha feito nada parecido, mas ele precisava de mim. Tinha que fazer. Comecei. Congelei quando a agulha penetrou na pele de Jennifer, temendo ter feito algo errado. Ela me disse para continuar. Fisguei o outro lado da pele e puxei delicadamente a agulha. A linha percorreu o pequeno buraco na pele, fechando mais um ponto. Soltei o ar dos pulmões. Nem tinha percebido que havia prendido a respiração. Comecei o terceiro ponto, totalmente concentrado para não errar. E assim foi. O décimo ponto fechou completamente a ferida. Mike e eu suspiramos aliviados.
— Não foi tão mal assim — Jennifer disse — Parece firme o bastante para aguentar até eu me recuperar.
Jennifer deixou-se deitar na maca. Fui até outra maca e peguei um travesseiro. Posicionei-o sob o tornozelo torcido dela. Tirei seus tênis e deu uma olhada. Estava inchado, mas não parecia muito ruim.
— Está doendo? — perguntei.
— Um pouco.
— Vamos arranjar uma bolsa de gelo pra diminuir o inchaço. Depois vou tentar entrar em contato com uma amiga. Ela vai saber o que fazer.
Estava prestes a perguntar a Mike aonde poderia encontrar gelo quando a porta da enfermaria se abriu. Um cara com um avental preto e óculos de proteção entrou. Ele era um pouco maior do que eu e um ou dois anos mais velho.
— Mike onde… — ele parou abruptamente ao nos ver — Quem são eles?
— Encontrei com eles por acaso quando estava voltando — Mike não parecia muito contente com a presença dele — Estavam precisando de ajuda. O que faz aqui?
— Só vim pegar um curativo. Parece que algum idiota se machucou na linha de produção — ele olhou pra mim com a testa franzida — Já deixou esse aí atirar, Mike? Ele nem sabe manejar uma arma, até deixou ser beliscado.
Olhei para minha mão. Na pele entre o polegar e o indicador havia uma linha avermelhada. Eu já havia deduzido que fora a arma que tinha feito àquilo comigo, mas até aquele momento não tinha dado atenção ao fato.
— Os deixando usarem nossas armas desse jeito vai acabar matando alguém. Não é a toa que a menina foi ferida.
— Como é que é? — perguntei dando um passo a frente. Mike lançou um olhar de advertência. Jennifer fazia algo parecido. Fingi não ter notado nenhum dos dois.
— O que foi? Disse apenas a verdade. Quando idiotas como você colocam as mãos em armas como as nossas, acidentes acontecem. Não ficaria surpreso se você mesmo não tivesse ferido ela — ele disse apontando para a maca onde Jennifer estava.
— E o que você sabe sobre mim, quatro olhos?!
— Sei que é um incompetente com armas — ele disse cutucando o machucado em minha mão.
Agarrei-o pela gola da camiseta com força. Seus óculos saíram um pouco do lugar.
— Quer resolver isso lá fora?
Ele deu um tapa em minha mão livrando sua gola do meu aperto.
— Se quero resolver isso? — ele riu ajeitando os óculos — Tudo bem, mas nós aqui temos um jeito especial de resolver as diferenças.
— Vou acabar com você de qualquer maneira!
— Então eu te desafio para um duelo. Aceita?
— É claro que aceito!
— Já chega Alex! — Mike interviu — O que você está pensando propondo esse duelo?
— Você o ouviu. Ele aceitou o duelo. Não pode mais voltar atrás. Essa é sua própria regra, Mike. Nem você pode mudá-la.
Vi que Mike cerrou os punhos. Ele o fuzilava com o olhar, mas manteve-se calado. Por fim se virou na minha direção.
— Venha — disse seco.
Saímos da enfermaria de volta para os corredores. Apenas Jennifer ficou para trás, impossibilitada de andar. Atravessamos novamente o corredor e viramos para outro lado dessa vez. A porta aonde Mike parou estava escrita: Arsenal. Era uma sala com várias mesas de madeira e tampa de vidro. Dentro do vidro estavam as armas, cada um de um tipo. O lugar parecia um museu. Não só pela forma como as armas estavam expostas, mas também por haver uma grande variedade de armas antigas.
— Segundo as regras do duelo — Mike começou, claramente contrariado — Você deve escolher uma arma de sua preferência. Depois não vai poder trocar.
Andei pelas mesas observando as armas. Eram tantas que era difícil escolher uma. Principalmente porque eu pouco sabia sobre elas. Se fosse para colecionar eu bem que poderia escolher várias das antigas, mas como era um duelo tinha que escolher algo mais moderno.
— Do jeito que ele é ruim com armas é melhor pegar uma Snub Nose.
Novamente deixei que meu orgulho ficasse no comando. Abri a tampa de vidro e pequei o maior revólver que encontrei. O aço inox estava reluzindo como se tivesse sido polido recentemente. Ele tinha um cano longo e havia uma inscrição nele: Raging Bull.
— Então está decidido — Alex disse — Amanhã no fim da tarde vamos duelar.
Dizendo isso ele saiu. Mike o fuzilou com o olhar, depois se voltou para mim, me dando um soco no braço.
— Aí! O que eu fiz?
— Caiu no jogo dele. Foi isso que você fez. Ficou com raiva por ele ter falado da Snub Nose e pegou a pior arma que poderia ter escolhido.
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