Beyond the Vengeance
9 Ajuda ao Mentalista - O Templo Secreto de Psique
Notas iniciais
— N° 1025… Manhattan… Quinta… 362… SOCORRO! — Não sei se tem diferença numa comunicação mental, mas a voz parecia alta e desesperada, mas a última palavra eu tinha certeza, ela havia sido gritada na minha cabeça. Abri os olhos e encontrei os dois olhando fixamente pra mim.
― O que foi? ― perguntei.
― Eu é que pergunto ― Greg começou ― Você pôs as duas mãos na cabeça, fechou os olhos e começou a tremer. E também parecia que não estava escutando a gente.
― É mesmo? — perguntei surpreso, mas logo me lembrei da urgência daquela mensagem — Alguém aí tem um papel e uma caneta?
― Caneta e papel pra quê?
Ignorei ele e arranjei um caneta com o garçom que por alguma razão tinha entregado o papel antes mesmo de eu pedir. Marquei o que tinha ouvido no verso do papel.
― Ei! É a nossa conta! ― Greg reclamou.
― É mesmo? Quanto a gente deve? Ah, não importa. Toma ― disse entregando algumas notas para o garçom. Nem me preocupei em saber o quanto tinha pagado pra ele, simplesmente saí dali, atravessei a rua e apanhei um táxi. Greg e Susan tentaram me seguir, mas ficaram enrolados com o garçom. Aparentemente eu não tinha dado dinheiro suficiente para pagar a conta, mas de qualquer jeito não foi só eu que comi pizza então eu não devia pagar tudo sozinho.
― Pra onde? ― o motorista perguntou assim que entrei.
― Para o nº 1025, na quinta avenida. O mais rápido que o senhor puder.
O carro arrancou deixando Greg e Susan para trás. Talvez fosse melhor ter contado para os dois o que aconteceu, mas pela urgência do aviso eu não teria tempo o suficiente para explicar. Aquela mensagem… eu quase podia sentir o pavor dele… ou dela. É difícil discernir isso numa mensagem que simplesmente veio na sua cabeça. Mas quem poderia ter invadido minha mente tão fácil? Provavelmente um mentalista de Psique. Eles eram muito bons nisso. Mas como ele conseguiu me contatar de tão longe? Eu não imaginava que os poderes dos mentalistas fossem tão fortes. E por que eu? Mesmo que ele precisasse de um semideus ainda havia Susan e Greg, mas nenhum deles recebeu a mensagem ou receberam? E ainda tinha aquele último número na mensagem, 362. O que 362 podia significar? Eram perguntas demais pra eu pensar em apenas uma. Antes que eu pudesse pensar em qualquer resposta o táxi parou em frente a um hotel. Rapidamente paguei o motorista e saí do carro.
O hotel era bem extenso, com vários andares e um saguão espaçoso. Já dentro descobri o que aquele último número significava, provavelmente o número de um dos quartos do hotel. Mas percebi que não seria tão fácil chegar até o quarto 362. Eu teria que passar pela recepção e provavelmente iriam me perguntar quem eu ia visitar. E eu não tinha ideia do nome do mentalista. Também não daria para passar despercebido pela segurança. Pensei em alguma maneira de entrar despercebido, mas logo descartei a ideia. De repente tive uma ideia meio ridícula, mas que poderia dar certo. Pelo menos eu esperava que desse certo.
Depois de gastar meu último centavo para colocar a ideia em prática eu me aproximei da recepcionista. Ela parecia muito concentrada no computador.
― Com licença ― comecei. A recepcionista levou um susto e levantou o rosto pra me ver. Seus óculos escorregaram e quase caíram no chão, mas ela foi rápida e o recuperou a tempo.
― Olá ― ela disse depois de ajustar os óculos ― No que posso ajudar?
― Eu tenho que entregar essa pizza no 412 — disse mostrando a pizza pra viagem.
― Ah… Vai lá ― ela disse indicando o elevador e voltando os olhos para computador.
Essa foi fácil demais, pensei. Dirigi-me até o elevador que ficava praticamente do lado da recepção. Havia um cara magro e baixo no elevador que pelo o uniforme devia trabalhar no hotel.
― Vai pra que quarto?
― 412
O elevador fechou as portas e começou a subir. Nem me preocupei em saber em que andar estava. Quando saí do elevador caminhei pra frente como se estivesse procurando o quarto 412, mas quando o elevador fechou as portas eu me voltei pra escada e desci pra encontrar o 362.
O andar estava vazio, exceto talvez pelos quartos, mas eu não quis conferir. O quarto 362 estava com a porta entreaberta. Entrei no quarto esperando encontrar alguém em perigo então já havia acionado o pingente da adaga. Um garoto com uma adaga na mão e uma pizza na outra não é exatamente um modelo de herói, mas o que posso fazer?
Não havia ninguém lá dentro, mas o quarto estava uma completa bagunça: moveis estavam virados, uma prateleira estava vazia, mas com vários objetos no chão a sua volta, a cama estava bagunçada, o colchão estava rasgado, uma mesa de vidro era apenas um monte de cacos e havia alguns respingos de sangue no chão. Deduzi que o quarto tinha sido palco de uma bela luta. Verifiquei o sangue no chão. Ainda estava fresco, o que queria dizer que a luta tinha sido recente. Os pingos de sangue formavam um caminho até a sacada. Comecei a seguir a trilha de sangue, mas o som de um passo me fez virar quase que instantaneamente e me colocar em posição de defesa, com a adaga levantada. Do banheiro do quarto surgiu uma menina de cabelos crespos com uma saia azul que ia até os joelhos e uma baby-look branca.
― Ah… ― ela suspirou ― eles arruinaram o quarto. Logo agora que eu tenho um visitante tão… ― ela fez uma pausa calculada ― especial.
― Eles quem? Quem é você? ― perguntei abaixando a adaga, mas continuando atento.
― Minha irmã e outro garoto que ela conheceu — a menina fez um gesto como se eles não fossem grande coisa — Ela deveria ter me avisado, mas quis tomar conta de tudo sozinha… Mas tanto faz! Pelo menos ela não está aqui para nos atrapalhar.
― Nos atrapalhar?
― É… Bom… você não se oporia a me fazer um pouco de companhia, né? Faz tanto tempo que ando sozinha ― ela se lamentou. Por um momento eu realmente quis ajudá-la, mas eu não pude deixar de notar que algo estava errado com ela.
― Desculpe, mas eu estou meio ocupado agora.
― Ah, não vou tomar muito do seu tempo ― ela disse se aproximando devagar. Sua voz baixou até se transformar num sussurro conforme ela se aproximava ― antes que você perceba já vai ter acabado…
Ela estava tão próxima que podia sentir sua respiração. Sua mão tocou de leve a minha. A mesma que segurava a adaga. Um alerta deveria ter soado em minha mente, mas falhou. Era apenas uma menina. Uma menina bonita até. Seu toque era delicado. Sua mão era macia. Era… fria. Todos os alertas dentro da minha cabeça ressoaram ao mesmo tempo. Meu corpo ficou tenso, pronto para agir, pronto para me afastar dela, mas fui lento demais. Antes que eu pudesse me afastar ou levantar a adaga ela cravou os dentes em meu braço. Mas não eram os mesmos dentes que eu havia visto. Eram maiores, muito maiores. Eles se cravaram fundo na minha pele. Dei um grito de dor seguido por um soco. O soco a afastou e ela parou de me morder, mas o estrago já estava feito. Eu tinha certeza de que por trás do sangue que saía sem parar havia dois buracos bem profundos em meu braço direito.
― Odeio quando isso acontece ― ela disse. De repente sua pele ficou branca como leite, os olhos se tornaram vermelhos e seus cabelos começaram a pegar fogo até se transformarem em chamas.
― Maldita névoa! ― praguejei.
Ela lambeu os lábios superiores, agora vermelhos pelo meu sangue, e mostrou os dentes… ou melhor, as presas. Abaixo da saia agora havia uma perna peluda com um casco no lugar do pé e outra feita de bronze. Uma Empousa. Por que não percebi antes? Até parece que uma menina comum ia ficar calma ao se deparar com um desconhecido portando uma adaga (e uma pizza). No que eu estava pensando?
Ela se lançou contra mim. Joguei a pizza em sua direção para ganhar tempo. Dei um passo para o lado e usei a adaga para provocar um corte no seu braço. Soltei um gemido quando a dor no meu braço piorou por causa do movimento. O corte não surtiu muito efeito e ela continuou avançando. Recuei um pouco, mas percebi que já estava na sacada com vista para a cidade. Não havia grades, apenas uma mureta. Se eu não tomasse cuidado poderia acabar caindo do prédio.
Vendo-me encurralado a Empousa se lançou contra mim, me derrubando no chão. A adaga caiu ao meu lado. Consegui levantar uma perna pra segurá-la o mais longe possível, mas sua perna de bronze bateu com força na outra. Abafei um grito de dor. Eu lutava com ela tentando afastá-la, mas suas presas estavam perigosamente perto do meu rosto e se aproximando. Ela era pesada, talvez por causa da perna de bronze. Meu pé direito estava em sua barriga, o que devia estar incomodando, mas ela estava concentrada demais tentando fincar as presas em mim. Juntando toda força que consegui, eu a empurrei para trás com o pé direito. Ela caiu de costas. Rapidamente agarrei minha adaga, mas ela foi tão rápida quanto eu. Antes mesmo que eu pudesse levantar ela se lançou em mim novamente. Dessa vez a única coisa que a impediu de morder foi minha mão que a segurou na cabeça. Eu sabia que logo ela iria se livrar da minha mão e eu estaria perdido, mas ela nem mesmo pareceu se incomodar. Seus olhos pareciam petrificados. De repente senti algo em minha mão, não a que estava segurando a Empousa, a outra. Aquilo me assustou, mais do que o normal. Então me dei conta do por quê. Meu corpo inteiro estremeceu. Rapidamente a empurrei de cima de mim e retirei a adaga de sua barriga. Olhei petrificado para a adaga vermelha de sangue.
— Do mesmo jeito… — sussurrei baixinho, quase em transe — Do mesmo jeito…
Um momento de terror passou por mim quando lembrei da filha de Afrodite. Atirei a adaga longe e ela se fincou na porta do banheiro de onde a Empousa tinha saído, como se recusasse a cair no chão. De repente notei um movimento com o canto do olho. A Empousa estava se levantando com uma mão sobre o ferimento e a outra apoiada no chão, tentando se levantar. Ela me fuzilou com olhar e por um momento me pareceu o mesmo olhar da filha de Afrodite quando estava possuída. A raiva tomou conta de mim. Não me importava de estar desarmado, eu simplesmente corri na direção dela e lhe dei um soco tão forte que a lançou para trás, além da mureta. Ela deu um grito horrível de pavor. Ouvi seu grito diminuindo até parar por completo.
Despenquei no chão encolhido. Era como se tudo estivesse acontecendo de novo. Era como se eu a tivesse matado de novo. Segurei a cabeça com as mãos tentando me acalmar. Lágrimas vieram aos meus olhos, mas rapidamente os fechei e tentei controlar a respiração. Estava ofegante, mas não pela batalha. Viver aquilo de novo era apavorante demais. Não era ela, disse pra mim mesmo, era apenas um monstro idiota que tinha mexido um pouco com sua cabeça, só isso. Rasguei um pedaço da minha camisa para usar como faixa, enrolando ela bem firme sobre os dois buracos no meu braço. Pelo menos ter algo para fazer ocupou minha mente.
Quando finalmente me acalmei olhei para baixo, por cima da mureta. Nada. Não dava para saber o que tinha acontecido com a Empousa, mas eu esperava que ela tivesse voltado para o mundo inferior e que ficasse um bom tempo lá. Percebi que uma corda caía sobre a mureta. Segui a corda até encontrar sua ponta muito bem amarrada num gancho na parede. Não sei como não a tinha notado antes. A outra ponta que caía sobre a mureta não parecia muito grande, daria apenas para descer até o andar de baixo, na sacada de outro quarto.
— Desça — o mentalista invadiu minha mente novamente.
― O quê? ― respondi em voz alta.
—Rápido.
— É melhor que essa corda esteja bem presa — respondi mentalmente.
Agarrei-me com força na corda e pulei a mureta. Por um terrível segundo achei que fosse escorregar para morte quando me braço estremeceu por causa da dor, mas consegui me firmar e aos poucos consegui chegar à sacada debaixo. Entendi a necessidade da corda. A maioria dos móveis estava bloqueando a porta e não daria para entrar a menos que alguém ajudasse do lado de dentro, mas não havia ninguém além de mim no quarto. Havia também um buraco na parede. Examinando o buraco percebi que ele era como uma passagem secreta dentro da parede, mas não para os lados. Havia apenas outra corda presa em algum lugar acima.
— Desça — mais uma vez ele estava me indicando o caminho, mas eu não estava gostando nada daquilo.
Apesar de ter problemas para entrar no buraco quando já estava lá dentro foi bem mais fácil: além da corda eu podia apoiar os pés na parede e as costas do outro lado, mas como o espaço não era muito tive que ficar meio encolhido. Em compensação eu tinha mais segurança para descer e, se não fosse aquilo eu provavelmente não conseguiria descer graças ao braço machucado.
Demorou muito mais do que eu esperava. Eu não podia ter certeza, mas parecia que eu tinha decido mais andares do que tinha subido e o hotel não tinha subsolo pelo que eu percebi no elevador. Depois de um tempo tive certeza que tinha descido demais, as paredes em que eu estava apoiando acabaram e só sobrou a corda pra eu descer. Estava escuro e eu não enxergava nada, nem mesmo com a minha habilidade de "ver no escuro". Desci mais um pouco até que a corda acabou, mas eu percebi isso tarde demais porque acabei caindo. O pânico quase me atingiu antes que eu atingisse o chão. Eu estava no chão, sem nenhum machucado além do braço. Levantei meio desajeitado. Minha canela doía por causa da perna de bronze da Empousa. Eu estava em um corredor, mas era tudo que eu podia perceber. A escuridão não facilitava. Um arrepio percorreu minha espinha.
— Seu maldito! — pensei na esperança que o mentalista ouvisse… lesse na minha mente… tanto faz! — se você me tiver trazido pro labirinto de Dédalo não importa se você já estiver morrendo, eu acabo de te matar!
Nenhuma resposta. Talvez ele não estivesse mais em minha mente ou talvez não quisesse responder. Me aproximei da parede. Se aquilo realmente fosse o labirinto talvez tivesse algum forma para sair ou talvez para alcançar a corda. Tateei a parede e encontrei um interruptor. Não era o que eu esperava, mas de qualquer forma eu o apertei. Várias luzes se acenderam ao mesmo tempo. As lâmpadas no teto não eram tão fortes, na verdade algumas estavam mais apagadas do que acesas, o que deixava o lugar um tanto sombrio, mas mesmo assim tive que piscar algumas vezes para me acostumar com a claridade repentina. Agora com o corredor iluminado pude ver que à minha frente havia uma bifurcação, ambas de 90 graus. Atrás de mim o corredor era fechado, mas havia algo no chão. Um cantil. Ele era de metal, mas era revestido de couro. Por um momento achei que estava vazio, mas ao balançá-lo vi que ainda havia um pouco de líquido lá dentro. Para minha sorte era néctar. Tomei um gole, mas não mais que isso já que era perigoso. Imediatamente senti um alívio no braço, mas ele ainda doía. A ferida devia ser muito profunda. Mas por outro lado minha perna parecia nova em folha. Fechei o cantil e caminhei até a bifurcação.
― Ótimo! Pra que lado eu vou agora?
Olhei para os dois lados que pareciam exatamente iguais, ambos com outras bifurcações mais adiante. De repente ouvi um rosnar baixo como o de um cachorro advertindo para não se aproximar. Do meu lado esquerdo um cachorro gigante veio da curva da direita. Seus pelos negros estavam salpicados com o que parecia ser sangue e sua boca estava vermelha assim como seus olhos. Ele rosnou mais alto pra mim mostrando suas presas muito bem afiadas. Dessa vez não tive dúvida em que lado seguir, me virei e corri pelo corredor virando para a direita.
Eu achei que tinha aprendido algo quando tinha enfrentado um cão infernal na floresta do acampamento, mas me enganei. O cão infernal corria muito mais rápido do que eu imaginava ser possível para seu tamanho.
Aquilo não era o labirinto de Dédalo, mas ainda assim era um labirinto. Os corredores por várias vezes viravam para os lados ou ainda te davam duas ou três opções de caminhos diferentes e aparentemente sem nexo nenhum. Depois de um tempo desisti de tentar raciocinar e simplesmente escolhia um lado aleatoriamente. Não importava pra onde eu virava o cão raivoso ia atrás correndo numa velocidade incrível para um cão do tamanho de uma picape. Ele ocupava quase toda a largura do corredor, mas mesmo assim ainda tinha facilidade quando o assunto era perseguir sua próxima refeição. E de jeito nenhum eu ia virar ração de cachorro. É claro, eu poderia parar e lutar contra ele, mas se parasse ele simplesmente se atiraria em cima de mim e eu não ia poder fazer nada. Além disso, duvido que consiga manter uma luta por muito tempo. Depois de descer por aquela corda meus braços pareciam chumbo. O esquerdo tinha suportado a maior parte do peso graças ao ferimento no outro. O direito não estava tão cansado, mas ainda doía o bastante para eu pensar duas vezes antes de parar para lutar.
Eu me sentia me movendo em câmera lenta. O cão infernal já estava a uma distância perigosa. Eu já estava sem fôlego, correndo unicamente pela vontade de sobreviver. Virei para direita no corredor e me deparei com uma parte diferente do labirinto. O corredor era exatamente igual aos outros, porém havia ossos e sangue por todo o chão. No fim do corredor ao invés de mais uma bifurcação havia uma porta grande de ferro e aparentemente pesada. Eu teria ficado com medo daquele lugar se não estivesse correndo para não ser devorado. Não havia outra saída se não a porta, mas mesmo que não estivesse trancada eu não conseguiria abri-la antes do cão infernal me pegar. Estava cansado e também não conseguiria lutar contra ele.
Decidido a não morrer, puxei todo ar que eu conseguia pra dentro dos meus pulmões e forcei as minhas pernas a correrem mais rápido e meus braços a acompanharem o movimento. Mergulhei pra frente agarrando algo que antes deveria ser uma perna e dei uma cambalhota, me deixando de pé novamente. O cachorro estava pronto para saltar em cima de mim, mas atirei o osso meio branco e meio vermelho de sangue, acertando sua cabeça, e novamente comecei a correr. Quando olhei para trás vi o cão infernal cheirando o osso e mordendo-o como se ainda houvesse carne nele. Carne humana, pensei sombriamente. Rapidamente cheguei à porta que por sorte não estava trancada. Antes de fechar por completo a porta pude ver o cachorro abocanhando o osso e quebrando ele em três partes, a do meio ficou em sua boca e as outras duas pontas caíram no chão.
A porta de ferro era bem equipada com várias trancas de tipos que eu nunca tinha visto antes e o que podia se comparar com a cancela de um pedágio, mas feita igualmente de ferro. Após ter certeza de ter usado todas as trancas da porta eu me recostei nela, tentando recuperar o fôlego. Meu coração estava disparado como nunca e meus pulmões queimavam como se houvesse fogo dentro deles. Enquanto me acalmava senti a porta estremecer uma vez, e de novo, dessa vez o impacto me fez cair para frente, de joelhos. Aquela porta não iria durar para sempre contra aquele cão infernal. Me recuperei e só então dei uma olhada no lugar. Não havia nada de especial: uma sala vazia e grande, um pouco menor que a arena do acampamento. As paredes eram brancas como se fossem de gesso. No outro extremo, a minha frente havia uma porta. Ou pelo menos parecia uma porta, mas quando me aproximei vi que a porta parecia ter sido entalhada na parede. E embora parecesse gesso ou até mais branco que o gesso, a parede parecia muito resistente como se fosse puro concreto. Pensei que tudo aquilo poderia ter sido pintado, mas quando resolvi testar e tentar retirar a tinta com minha espada, além de ter que me esforçar muito mais do que imaginava ser preciso, tudo que consegui foi tirar uma pequena lasca da parede. Para minha surpresa dentro da lasca estava tudo igualmente branco. Tudo era feito de um só material. Tentei imaginar que tipo de material era aquele, mas fui interrompido por mais uma pancada na porta de ferro. Estava cada vez mais forte. Dei outra olhada na porta entalhada na parede. Ela própria estava entalhada com imagens cheias de detalhes, todas referentes a uma deusa: Psique. Do lado da porta havia um quadro entalhado da mesma forma na parede e dentro dele estava entalhada uma escritura toda em grego antigo. Tentei decifrar as letras, já que era meio difícil ler branco no branco.
― O corpo não sobrevive sem a mente assim como a mente não funciona sem um corpo. Para abrir as portas secretas da mente é preciso oferecer o corpo e o que flui dele… ― um pouco abaixo havia algumas letras gregas douradas que consegui decifrar mais facilmente: Ψυχή ― Psique.
Mais um estrondo vindo da porta de ferro. Comecei a pensar. “Portas secretas”. “Oferecer o corpo e o que flui dele…”.Nunca imaginei Psique como uma deusa sanguinária, mas se tratando dos deuses eu poderia esperar tudo.
― Só espero que sangue de cachorro sirva.
Saquei novamente minha espada da pulseira e caminhei até a porta de ferro. Uma hora ou outra eu teria que enfrentar aquele cão infernal e teria que ser ali. Não estava nas minhas melhores condições, mas tinha que tentar. Enquanto caminhava ensaiei alguns golpes com a espada para ver se meu braço já estava melhor. Não muito, mas seria o bastante pra usar a espada, aquele cachorro não poderia dar tanto trabalho.
Quando já estava mais próximo da porta ouvi mais uma pancada, mas dessa vez a porta não resistiu e cedeu. A força foi tão grande que a porta foi arremessada contra mim. Rolei para o lado para não ser atingido pela porta. O cão infernal apareceu, ainda mais bravo do que antes. Assim que me localizou com aqueles olhos vermelhos correu em minha direção. Comecei a correr também e quando ele tentou se atirar em cima de mim rolei para o lado. Preparei um golpe com a espada, mas quando ataquei ele consegui virar a tempo e prendeu minha espada em seus dentes afiados. Lutei para livrar a espada dos dentes dele, mas recebi uma patada que me atirou no chão onde a porta de ferro estava. Soltei um grito quando bati a costela com força em uma das trancas da porta. O cão forçou a mandíbula, mas não conseguiu quebrar a espada. Tentei me levantar, mas senti uma dor aguda que me fez cair de novo. Por favor, não esteja quebrada, pensei.
Vendo que era inútil tentar quebrar a espada ele balançou a cabeça e lançou minha espada longe. O cão se virou pra mim e começou a vir em minha direção. A porta de ferro rangeu quando ele pôs a pata em cima. Eu já tinha conseguido me levantar, mas ainda tinha medo que a dor atacasse novamente. Instintivamente levei a mão à pulseira para buscar mais uma arma, eu não conseguiria alcançar a espada. Puxei o pingente esperando tirar a lança, mas em vez disso veio a adaga. Um súbito pavor tomou conta de mim. Eu a havia deixado fincada na porta daquele do quarto. Eu tinha certeza disso, mas ela estava ali, bem na minha mão. Fiquei chocado demais para atacar e o cão infernal investiu contra mim, abocanhando minha mão e cravando os dentes um pouco acima do pulso. Pensei que seus dentes iam arrancar meu braço, mas eles apenas abriram algumas feridas que marcaram exatamente onde cada dente penetrou. Ao invés de continuar a morder ele abriu a boca quase tão rápido quanto a fechou. Então percebi o que tinha ocorrido. Do mesmo jeito que ele me mordeu também mordeu a adaga. Ele ganiu e o sangue começou a sair de sua boca. No exato momento em que o sangue tocou o chão a porta que parecia ter sido entalhada na parede começou a se mover, deslizando para as laterais como se estivesse sendo engolida pelas paredes aos lados. Aproveitei o momento e atirei a adaga no cão, fincando-a em sua pata. Novamente ele ganiu. Dessa vez saquei a lança e antes que ele pudesse reagir a impulsionei para frente no exato momento em que ele rugia de raiva. A lança passou por sua boca aberta e perfurou profundamente a garganta. Quando a retirei uma cachoeira vermelha saiu da boca do cão, mas ele ainda não estava morto. Por final repeti o movimento que tinha me dado a vitória sobre o outro cão infernal que enfrentei. Saltei por cima dele cravando a lança em suas costas. Quando o movimento acabou eu senti a dor aguda na costela de novo. Num piscar de olhos tudo que restava do monstro era pó e a minha adaga caída no chão. Recolhi minhas armas e as guardei novamente na pulseira.
Por algum tempo eu fiquei olhando para o pingente da adaga. Ela era uma desgraça. Mas uma desgraça que salvara minha vida várias vezes. Eu poderia ter deixado ela para trás, mas sabia que ela voltaria de um jeito ou de outro.
Depois da porta havia mais um corredor, igual aos anteriores, mas diferente dos outros não fazia parte de um labirinto, apenas seguia em frente. Parecia que não ia acabar nunca. Dei uma olhada em mim mesmo: uma noite mal dormida, eu estava cansado, o braço já tinha levado duas mordidas e era provável que estivesse com uma costela quebrada. Eu precisava estancar o ferimento, o sangue já estava escorrendo até minha mão e pingando pelo caminho. Mesmo assim tinha sido um milagre os dentes do cão não terem causado um estrago maior. Rasguei um bom pedaço da minha camisa que, naquele momento, estava sem mangas nenhuma embora elas ainda cobrissem meu braço. Por fim cheguei em frente à porta com o nome de Psique gravado em letras douradas e a imagem de uma borboleta ao fundo levemente bronzeada. Tinha que ser esse o lugar. Finalmente eu havia chegado. O mentalista devia estar por perto. Sem saber o que esperar eu abri a porta.
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