Beyond the Vengeance
10 Ajuda ao Mentalista - Amigo
Notas iniciais
Estava em mais uma sala branca como giz. Era igualmente e ampla e vazia. No centro havia um pedestal. Ele estava vazio, mas com certeza havia alguma coisa lá antes. Do outro lado havia a abertura para mais um corredor, mas esse era menor, dava pra ver onde ele acabava ainda no início. Mais uma sala, mas bem menor: havia apenas duas portas, uma a esquerda e outra a direita, a minha frente havia um grande quadro cheio de detalhes de Psique e Eros.
― Escolha ― uma voz falou de repente. Olhei em volta, mas não havia ninguém. A voz parecia ter vindo de todos os lugares e ao mesmo tempo próxima – ESCOLHA! – a voz repetiu, dessa vez com mais autoridade. A voz não estava vindo de algum lugar, ela estava comigo, dentro da minha cabeça. Mas não podia ser o mentalista. Essa voz era totalmente diferente, mais alta, mais intensa, muito mais poderosa.
― Psique!
― Faça uma escolha logo!
― Por quê?
― É o preço que você tem que pagar para continuar. A porta da esquerda vai te levar ao meu querido mentalista.
― Se ele é tão querido por que não ajuda ele?
― Quem você acha que permitiu que ele usasse minha borboleta? Quem você acha que te guiou por aquele labirinto? Já fiz mais do que deveria por vocês dois. Apesar de tudo isso não pense que pode me desrespeitar dessa maneira, filho de Atena. Sua mente pode ser mais poderosa que a de um semideus comum, mas pra mim ela não é mais que uma formiga. Agora, escolha!
― Eu vim pra salvar seu mentalista, não vim? Que porta você acha que eu vou escolher? ― disse já caminhando para a porta da esquerda.
― Mas na porta da direita você vai poder encontrar aquilo que você procurou insistentemente por tanto tempo sem encontrar nada mais que uma fogueira na floresta. Aquilo que te impede de ter sua vingança. Aquilo que não te deixa dormir de noite, que te impede de expulsar os pesadelos da sua mente…
Nem mesmo o olhar da medusa poderia me congelar daquela forma. Parei no meio do caminho, completamente imóvel. Aquilo não podia ser verdade. O que Psique tinha haver com aquela história? Como ela poderia saber de alguma coisa? "Aquilo que impede minha vingança". A única coisa que me impedia é que ele sempre conseguiu fugir. Ele não estaria num lugar como esse. Ele é covarde. Mesmo sem conhecê-lo isso já tinha ficado claro. Talvez seja isso. Eu não o conheço. Talvez ela me mostre sua verdadeira identidade. Só seu nome já me bastaria, mas talvez ela tenha mais…
― Escolha! Eu não vou te dar outra chance.
Meu sangue fervia de raiva. Agora que tinha o que queria bem ali ao meu alcance teria que deixar alguém morrer por isso? Ele não merecia isso, mas eu também não merecia ter que ficar sem saber de algo que estava logo ali, na minha cara. Por que eu tinha que continuar a viver aqueles pesadelos todas as noites? Por que a minha causa era inferior à dele? Por que eu não podia arriscar a vida dele? Afinal eu arrisquei a minha pra chegar aqui. Não levaria muito tempo saber quem ele é e eu poderia voltar para ajudar o mentalista.
― SOCORRO! ― uma voz vinda da porta da esquerda gritou. Era o mentalista.
― Escolha logo, você não tem muito tempo.
― Eu sei que o mentalista está na porta da esquerda, mas como vou saber se você não me enganou com a da direita?
― Então eu irei dar a você uma pequena amostra.
De repente o chão desapareceu. As paredes desapareceram, o teto, o quadro, as portas e por fim eu mesmo sumi.
Eu estava em uma clareira. Era noite, mas a floresta estava bem iluminada pela lua. Um pouco a frente havia uma menina com a camisa do acampamento. Ela estava amarrada a uma árvore e amordaçada. Seu cabelo estava caído para frente então não pude ver seu rosto até que ela se debateu, tentando se libertar. Estremeci. Era a filha de Afrodite, mas ela estava viva. Tentei correr até ela, mas não conseguia me mover. Não sentia meu corpo. Ele parecia não ter peso. De repente ouvi passos. Imediatamente a menina parou de se debater olhando fixamente para frente. Segui seu olhar até encontrar alguém. Não conseguia ver ele. Havia uma névoa bloqueando minha visão. Ele se aproximou dela e começou a falar, mas eu não o escutava realmente. Não compreendia o que falava. Olhando em volta pude ver um pequeno monte de lenha queimada. Eu não tinha dúvida, era a fogueira que eu havia encontrado! Aquela era a floresta do acampamento. De novo tentei me mover, mas foi inútil. Tudo começou a escurecer até que a floresta inteira sumiu. A última coisa que ouvi foi o grito da menina.
Eu estava de volta à sala. Estava no chão, meu coração batia forte e eu estava com uma pequena dor de cabeça. As portas ainda estavam lá. Esquerda eu teria que arriscar minha vida para salvar outra e não teria o que eu realmente queria. Direita eu teria a informação que tanto procurei, mas isso iria custar a vida do mentalista. Levantei-me do chão. Estava queimando de raiva. Psique não tinha o direito de fazer isso comigo. Antes que ela me pressionasse mais por uma escolha eu disparei, saquei minha espada e a finquei na cabeça da Psique do quadro com toda a minha força.
― Você me deve uma ― disse retirando a espada do quadro e correndo para a porta da esquerda.
Os gritos me guiaram pelos corredores até que cheguei a uma porta de ferro ainda maior que a outra que havia encontrado. Os gritos viam dela e pareciam que estavam se aproximando. Abri a porta e dei de cara com um menino um pouco menor que eu. Nós dois caímos no chão, estatelados. Minha costela reclamou mais uma vez, mas a visão que tive depois foi um bom incentivo para ignorar a dor e levantar. Vindo correndo em nossa direção estava o maior cara que já tinha visto na vida. Tinha mais de dois metros de altura e tinha tantos músculos que fariam qualquer fisiculturista se sentir um magricela. Na parte de cima ele tinha uma cabeça de touro com chifres pontiagudos com as pontas bronzeadas e no focinho uma argola de bronze. Por sorte não era tão rápido do contrário teria nos pegado enquanto ainda estávamos caídos. Começamos a correr feitos loucos.
― O que o Minotauro está fazendo aqui? ― perguntei.
― Eu não sei.
― Foi você que me chamou?
― Foi.
― Quando a gente sair dessa eu vou te matar.
Corremos pelos corredores como loucos e dobramos em uma bifurcação. Estávamos num corredor bem diferente dos outros. Ele estava caindo aos pedaços. Havias várias rachaduras enormes nas paredes uma delas era tão grande que poderíamos entrar nela facilmente. Ainda observando a rachadura percebi que ela dava em outro corredor, como se fosse uma passagem.
— Aqui! — gritei apontando a rachadura e puxando o mentalista.
O Minotauro rugiu furioso e bateu várias vezes na parede tentando aumentar a rachadura para que ele pudesse passar. Mesmo com tamanha força a parede que separava os corredores apenas estremeceu. Depois de correr mais um pouco paramos para descansar. Só então reparei que ele estava ferido no braço e o resto do corpo estava cheio de arranhões. Ele tinha algo nas mãos, mas não pude ver o que era.
― Obrigado por vir ― ele disse ainda ofegante.
― De… — abafei um grito de dor. Minha costela estava piorando — De nada. Agora quer me explicar o que diabos está acontecendo?
― Recebi uma missão para recuperar isto ― ele disse me mostrando o que tinha em mãos. Era uma borboleta, mas não uma de verdade. Ela era feita de ouro, suas asas pareciam ser finas camadas de diamante com os detalhes feitos com fio ainda mais fino de ouro. O trabalho era tão bem feito e detalhado que parecia que a qualquer momento ela iria bater asas e voar.
― A borboleta!
― Você já sabia sobre ela? — ele perguntou um tanto surpreso.
― Psique me falou algo sobre ela…
― Psique! Você a encontrou? Aqui? — ele parecia ainda mais surpreso.
― Não exatamente, nós só tivemos uma conversa… um papo cabeça. Do mesmo jeito que você fez comigo.
― E o que ela disse sobre a borboleta?
― Que tinha dado permissão para você usar… alguma coisa assim… espera aí, eu faço as perguntas. Primeiro: como você usa a borboleta?
― Bom, ela aumentou meus poderes. Foi assim que eu consegui invadir sua mente mesmo de tão longe.
― Mas se seus poderes estão tão fortes você não poderia usá-los para sair daqui?
― Não é assim tão simples. Meus poderes podem estar mais fortes, mas também me desgastam mais rápido. Se eu usá-los de novo posso acabar desmaiando ou pior.
― E como saímos daqui?
― Eu cheguei bem perto da saída, mas o Minotauro apareceu e eu tive que fugir.
― Você está querendo dizer que pra gente sair, antes vamos ter que passar pelo Minotauro?
― É o único jeito.
Suspirei, tentando bolar um plano. Nenhum me veio à mente.
― Tudo bem. Vamos lá então.
― Você não vai enfrentar aquilo, vai?
― Alguma ideia melhor?
― Não.
― Então vamos logo. Se você não quiser lutar então pelo menos me dê uma ajuda. Você tem uma espada ou algo parecido?
― Minha espada caiu da minha mão e o como o Minotauro estava me perseguindo eu não voltei pra pegar.
― Você só pode estar brincando! — disparei — Então eu estou sozinho?
― Olha, eu queria ajudar, mas não posso. O que você quer que eu faça?
Suspirei.
― Apenas fique por perto. Se as coisas derem errado você improvisa. Agora, vamos.
No caminho ia pensando em um jeito de matar aquilo. Não ia ser fácil. Já tinha lutado o bastante para um dia. Talvez fosse inteligente mantê-lo à distância com a lança e assim que houvesse uma brecha usaria um ataque rápido com a espada. Pensar em ser agarrado por aquelas mãos monstruosas me dava arrepio. De qualquer jeito tinha que planejar muito bem. O ideal seria que eu o matasse rápido. Uma batalha muito longa iria me esgotar por completo e eu não teria nenhuma chance. Eu quase ri com aquilo. Que chances eu tinha agora?
— É ali, à direita — o mentalista disse apontando o corredor. Segundo ele ali era a saída. Por um momento tive esperanças que tivéssemos despistado o Minotauro, mas não foi bem assim.
Dobramos o corredor e vimos o Minotauro a cerca de cem metros. É agora, pensei. Comecei a correr em sua direção. Ele estava de costas, mas percebeu minha presença antes que eu pudesse pensar em atacá-lo pelas costas. Saquei a lança e apontei para ele. Fingi tentar um golpe para que ele me desse uma brecha, mas ele tentou agarrar a lança para me puxar. Consegui afastá-la antes que ele agarrasse e recuei. Não seria tão fácil conseguir uma brecha, afinal.
Ele começou a avançar. Segurei a lança por cima do ombro e a lancei com toda força que consegui. A lança se fincou no braço direito do monstro que rugiu mais de raiva do que de dor. Aproveitei enquanto ele tentava se livrar da lança que estava em seu braço e corri em sua direção, sacando a adaga. Quando já estava perto ele consegui arrancar a lança de seu braço e a jogou contra mim, mas desviei com facilidade. Ele tentou me agarrar, mas fiz uma finta e enfiei a adaga bem fundo em sua coxa esquerda enquanto passava por baixo de suas pernas. Mais uma vez ele rugiu. Rapidamente fiquei em pé e, sacando a espada, preparei meu último golpe em suas costas, mas senti uma forte dor na minha costela. Por um momento eu havia esquecido que a tinha quebrado antes. A dor não me fez parar mais do que um segundo, mas foi o suficiente para o Minotauro se virar e me atingir forte com seu braço. O impacto me lançou com força contra a parede. Minhas costas receberam a maior parte da pancada, mas isso também fez com que minha cabeça batesse na parede num efeito chicote. Eu caí no chão com todo o meu peso, inerte. Minha visão tinha desaparecido quase que completamente, tudo estava anormalmente escuro. Meu corpo todo doía. De alguma maneira ainda tinha a espada em minha mão. Eu poderia acertá-lo, mas não conseguia me mexer, mal conseguia respirar.
Senti meu corpo ser erguido até abandonar o chão por completo. Não tive dúvida de que era o Minotauro. Ouvi seu rugido. Pensei que ia ser arremessado mais uma vez. Aterrorizantes segundos se passaram sem que eu percebesse exatamente o que ocorria, tudo que eu podia esperar era morte, mas de repente eu fui simplesmente largado. Novamente caí no chão sem forças. Depois de algum tempo senti meu corpo ser virado para cima. Era o mentalista pelo que pude perceber, minha visão ainda estava turva e tudo estava girando. Ele matou o Minotauro enquanto o mesmo tentava me matar? Foi isso que aconteceu? O mentalista me ajudou a sentar com as costas apoiadas na parede. Ele desapareceu e quando voltou estava com minha adaga e a lança, a espada continuava em minha mão. Ele tentou falar comigo, mas no começo eu só ouvia um zumbido. O zumbido foi diminuindo até que eu consegui ouvir ele.
― Ei, diga alguma coisa ― ele disse. Com muito esforço consegui levantar minha espada.
― É assim que se segura uma espada, seu idiota ― balbuciei. Acho que ele sorriu aliviado. Minha visão ainda não era das melhores.
― Temos que sair logo daqui, a saída não está muito longe. Consegue andar?
―Acho que sim, se eu conseguir me levantar.
Depois de guardar todas as minhas armas de volta na pulseira eu tentei me levantar. A primeira vez eu não consegui, mas o mentalista me ajudou e por fim eu estava em pé. Quase fui para o chão de novo, mas ele me segurou. Só então me dei conta de quanta dor estava sentindo. Meu corpo todo doía, uma dura coleção de dores em todos os lugares.
Começamos a caminhar, embora ele estivesse mais me carregando do que eu andando. Não consegui parar de gemer. Agora que a dor tinha se instalado no meu corpo parecia que estava piorando. No caminho percebi que meu curativo improvisado tinha saído do meu braço e agora ele sangrava de novo. Também encontramos a espada dele (um pouco tarde demais), mas finalmente conseguimos sair. A saída dava para outro prédio, esse estava aparentemente vazio. Saímos no porão do prédio e tivemos que subir. O que pra mim foi uma tortura interminável, já que não pudemos usar o elevador.
― E agora que estamos fora?
― Temos que chamar meus amigos, eles vão nos ajudar ― disse com dificuldade.
― Greg e Susan?
― Como você…
― Eu estive dentro da sua mente e na hora você estava com eles então…
― Já entendi. Já que você os conhece chame-os logo eles.
Ele fechou os olhos por um momento e se concentrou. A borboleta ainda estava em suas mãos. Tive a impressão que ela brilhou um pouco.
― Pronto. Eles já estão vindo – ele disse depois de um minuto.
― Agora é só esperar.
― Valeu por ter me salvado lá atrás. A propósito qual é seu nome?
― Terry e o seu?
― Chris. Valeu mesmo ter aparecido. Achei que ia morrer lá. Te devo uma.
Chris me ajudou a sentar no chão com as costas apoiada na parede externa do prédio. Tive uma sensação estranha, não exatamente uma dor, mas próximo a isso. Imaginei se tinha prejudicado algum órgão interno.
― É… deve mesmo — balbuciei resistindo ao impulso de voltar a gemer.
― Se algum dia você precisar de alguma coisa pode contar comigo.
― Na verdade tem uma coisa sim.
― O quê? — Chris perguntou aparentemente interessado.
Senti que ele realmente queria ajudar. Talvez até fosse o começo de uma amizade. Me esforcei para pronunciar as palavras:
― Eu estou procurando uma pessoa… — uma dor me incomodou — um assassino na verdade. Quero que me ajude a encontrá-lo.
― Tudo bem, eu acho — Chris disse com incerteza — Mas qual é o nome dele.
― Eu não sei. Tudo que sei é que ele estava na floresta do acampamento numa certa noite e que provavelmente é filho de Hécate ou feiticeiro de Circe.
― E como sabe dessas coisas?
Com certa dificuldade contei a ele sobre a filha de Afrodite e como ela foi possuída e que, no final, acabou morrendo. Ocultei a parte de que eu a matei, mesmo que por acidente. Contei também sobre a visão que Psique me mostrou e como ela não me deixou ver o rosto dele. Ele escutou atentamente, até a última palavra.
― Então esse cara a sequestrou à noite e a enfeitiçou — Ele concluiu.
― É — então percebi algo que não tinha passado pela minha cabeça antes — Espera aí. O que você disse?
― Que ele a enfeitiçou?
― Não, "à noite". É isso! Na visão já estava bem de noite, mas no fim da tarde ela já estava possuída.
― Quer dizer que ela foi possuída na noite anterior? — Chris perguntou meio incerto sobre sua conclusão.
― Talvez seja um que permita que ele a controlasse, mesmo que de longe.
― Mas se é isso por que ele a enfeitiçou na noite anterior?
― Eu não sei, mas acho que ele queria alguma coisa no acampamento e a fez buscar, depois causou aquela confusão para que ninguém suspeitasse — aquilo simplesmente veio a minha mente junto com outras milhares de possibilidades.
― Que… canalha! — Chris disse, mas pelo seu tom tive quase certeza que ele estava pensando em uma palavra pior.
― Por isso eu quero sua ajuda. Vou fazer ele pagar por tudo que ele fez. Vou encontrá-lo nem que seja a última coisa que eu faça. E quando encontrar ele, eu vou matá-lo!
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