Beyond the Vengeance
11 A Curandeira Ranzinza
Notas iniciais
Entrei correndo na enfermaria, ou melhor, fui carregado às pressas pra dentro de uma. Não que eu não pudesse andar (ou talvez mancar, ou rastejar), mas não me deram o direito de escolha. Mal entramos e eu já estava estirado em uma das macas vazias. Quando me botaram na maca abafei um gemido de dor. As dores ficavam mais fortes e depois aliviavam um pouco, mas nunca desapareciam. Já deitado notei que ainda sangrava. Quanto sangue eu já havia perdido? Eu nem sabia a quanto tempo eu estava naquele estado. Esperar a ajuda pareceu levar uma eternidade, mas voltar para o acampamento me pareceu tão rápido que nem me lembro de termos pegado a estrada para Long Island.
Eu estava tão cansado que poderia dormir daquele jeito, mas tinha medo de não mais acordar. Lutava pra manter os olhos abertos quando finalmente vieram me atender. Uma menina me olhou com preocupação e logo começou a me examinar. Eu estava sentindo todas minhas forças se esvaindo. Já era difícil respirar, minha visão estava cada vez mais turva e a audição havia sumido completamente. Senti algo em meu braço, mas não pude identificar do que se tratava. Vi que a menina falava algo para mim, mas eu não entendi nem uma única palavra. Por fim não consegui manter os olhos abertos e desmaiei.
Eu estava em pé diante de uma pintura rasgada. A pintura devia ter sido muito bonita antes de ter sido rasgada, mas agora parecia que tinha perdido toda graça. De repente me dei conta de aquela pintura tinha sido rasgada por mim mesmo, era o quadro de Psique.
— Muitos deuses te matariam por tal audácia — a voz da deusa invadiu minha mente — por sorte não tenho um orgulho tão grande.
Virei-me para trás procurando-a, mas não havia nada além de mim e aquele quadro.
— Mas com certeza vou sentir falta de um quadro tão bem feito — disse Psique ao meu lado.
— De onde você veio? — perguntei surpreso.
— Eu? Eu vim do mundo dos mortais, como você — não foi isso que eu quis dizer, pensei — Você conhece a minha história, não?
— Sim, Eros se apaixonou por você, mas não podia se revelar por causa de Afrodite. Suas irmãs te convenceram a tentar descobrir o rosto dele secretamente enquanto ele estava dormindo, mas ele acordou e depois você teve que realizar os quatro trabalhos para Afrodite — não era nem de longe toda a história, mas achei que estaria bom para um resumo do resumo. Não mais do que eu achei que ela merecia.
— Exato. Eu também já tive motivos para odiar os deuses, assim como você — disse a deusa.
— Aonde você quer chegar com isso?
— Eu só estou tentando dizer que assim como eu, a raiz de seu problema podem não estar nos deuses. No meu caso as raízes eram minhas próprias irmãs.
— Como você pode dizer isso depois de me obrigar a fazer uma escolha daquelas? — disparei.
— Era necessário. Para provar seu valor.
— Meu valor para quê?
— E apesar do quadro — ela prosseguiu ignorando minha pergunta — você ganhou pontos comigo — a deusa pareceu pensativa.
— Ótimo! — respondi com falso entusiasmo — Agora pode, por favor, me dizer onde eu posso encontrar…
— Está na hora de ir. Você vai acordar logo — ela me interrompeu.
— Espera! Diga-me pelo menos o…
A deusa desapareceu numa nuvem de borboletas que, assim como ela logo desapareceram. O lugar começou a tremer. O quadro veio abaixo e quase me acertou. O lugar inteiro começou a desabar…
Eu estava novamente na enfermaria. Ainda sentia as dores, mas percebi que haviam melhorado. Respirar fazia as dores piorarem. Pude sentir que a região das minhas costelas, assim como o braço direito inteiro e a cabeça estavam enfaixadas. Sentia um gosto horrível na boca, talvez algum tipo de remédio que me deram. Notei que a menina que eu vira antes de desmaiar ainda estava lá. Ela tinha cabelo escuro e curto, na altura dos ombros. Usava óculos e um jaleco branco com a camiseta do acampamento por baixo. Ao me ver ela se dirigiu a mim com um pequeno sorriso.
— Até que enfim acordou. Já ia mandar fazerem uma mortalha pra você.
— O que? — disse ainda meio fora do ar — o que aconteceu?
A menina foi até uma mesa e pegou uma prancheta.
— Duas costelas quebradas, várias perfurações no braço direito que imagino terem sido provocadas por dentes afiados, de dois tipos pelo menos, traumatismo craniano, uma hemorragia interna que se fosse um pouco mais séria teria te matado antes mesmo de chegar aqui, além de várias contusões por todo o corpo. Tem sorte de ainda estar vivo.
— Isso tudo aconteceu comigo? — minha mente ainda parecia estar meio fora do ar. Não conseguia me lembrar direito das coisas e falar ao mesmo tempo.
— É claro. Ou talvez eu deva acrescentar amnésia ao seu prontuário. E a propósito — ela disse dando um pequeno tapinha no meu pé.
— Ai! — reclamei.
— Também torceu o tornozelo — notei que meu pé estava imobilizado.
— Muito cuidadosa você — disse com evidente sarcasmo, mas ela não esboçou qualquer reação.
— Sorte sua que te trouxeram para cá. Se o tivessem levado á um hospital você teria que pagar uma fortuna.
— Quanto tempo eu vou ter que ficar assim?
— Uma ou duas semanas.
— O quê? — perguntei indignado. Eu não tinha todo aquele tempo. Em alguns dias eu estaria fugindo do acampamento. Não poderia ficar naquela enfermaria.
Ela levantou a sobrancelha direita como se aquilo fosse uma coisa tão impensável que ela nem mesmo cogitaria.
— Eu ouvi alguma coisa? Você acha que duas semanas não são o bastante? Talvez eu deva te dar um mês. Pode ter certeza de que vou achar algo para tratar em você. Na verdade se não tiver nada eu posso causar alguma coisa. O que acha?
Droga, pensei. Eu só poderia estar na enfermaria central. A curandeira ali não era só famosa por cuidar dos piores casos, ela era famosa por ser um osso duro de roer. Ninguém se consultava com ela a não ser que estivesse muito mal. E, embora ela fosse brilhante, sempre estava de mal humor. O tapinha no meu pé machucado devia ser o máximo de humor que ela devia ter. E eu teria que passar duas semanas com ela.
— Duas semanas está bom pra mim.
— Ótimo! Eu sabia que entraríamos em um acordo. Isso me lembra: quando estiver melhor pode falar para sua amiga arranjar uma cadeira para ela mesma. Já estou sentindo falta da minha — ela disse apontando para minha esquerda.
Só então percebi a figura ao meu lado. Ela estava sentada em uma cadeira acolchoada e reclinável. Dormia tranquilamente numa posição um pouco torta e desconfortável, como se tivesse pegado no sono por acidente. Seus cabelos castanho-avermelhados estavam despenteados, mas isso não a deixava menos bonita.
— Sua namorada passou a noite inteira do seu lado. Se não fosse uma colega de trabalho eu não deixaria. Sorte sua.
— Ela não é… — comecei.
— Ah, me poupe — ela interrompeu — Depois de passar as últimas oito horas dizendo a ela que você ia ficar bem e depois de ver o jeito que você olha pra ela… Vocês não enganam ninguém.
Eu não tinha argumento contra aquilo. Embora ainda estivesse um pouco em dúvida sobre como me sentia, a verdade era que seria muito difícil dizer que eu gostava de Liza apenas como amiga. Assim como seria difícil admitir o contrário. Ficamos em silêncio por um tempo. A curandeira estava escrevendo na prancheta quase que o tempo todo. Por várias vezes ela virava as páginas e escrevia alguma coisa. Depois virava mais páginas para checar outra coisa. Outras vezes verificava a estante com os remédios, curativos e ferramentas que não quis perguntar para quê serviam. Por fim quebrei o silêncio.
— Obrigado — eu disse.
Ela apenas se virou e ergueu novamente a sobrancelha.
— Obrigado — repeti , achando que ela não tivesse entendido.
— Eu ouvi — ela disse — Mas você não precisa agradecer. É meu trabalho.
Balancei a cabeça, mas a dor me fez parar.
— Não é por isso — sua sobrancelha subiu ainda mais, então olhei para Liza — É por ela. Por tê-la deixado ficar.
Se eu não estivesse meio zonzo poderia jurar que pude ver um sorriso se formando nos lábios dela.
— Não há de quê — ela disse simplesmente — e já que vamos ficar duas semanas juntos já vou logo avisando para me chamar pelo nome e só se realmente precisar de mim.
— Ok, qual seu nome então?
— Gina e o sobrenome você não precisa saber.
— E o meu é Terry e o sobrenome você não precisa saber — disse imitando sua voz.
— É Rivers.
— Como você…
— Primeiro: — ela disse me interrompendo, coisa que parecia adorar — seu prontuário precisa de um nome completo. Segundo: — ela apontou para Liza — Essa aí ficou repetindo seu nome a noite inteira. Só de lembrar volto a ter dor de cabeça.
— Talvez devesse descansar e deixar outra pessoa cuidando de mim — sugeri.
— Rá! Bela tentativa. Não vai se livrar de mim tão fácil.
Depois disso desisti de conversar com Gina. Eu queria falar com Liza, mas não queria acordá-la. Não parecia justo negar o tão merecido sono depois de ela ter ficado a noite inteira comigo. Simplesmente esperaria ela acordar.
Depois de algumas horas eu tive outro problema: manter-me acordado. Gina tinha me dado alguns remédios para acelerar minha recuperação e aliviar a dor, mas eles me deixavam sonolento. Eu não queria dormir antes de falar com Liza, mas a vontade era quase insuportável. Estava cochilando quando um barulho me despertou. Liza bocejou ao acordar e acabou me despertando também. Depois de se espreguiçar por um segundo ela olhou pra mim ainda parecendo sonolenta. Mas então seus olhos se abriram por completo quando percebeu que eu estava acordado. Pude ver seus lindos olhos verdes brilhando antes de fazer o que eu já tinha imaginado que faria. Tive esperança de não sentir dor, mas tudo foi por água a baixo quando ela me abraçou.
— Terry… — ela disse. Quase não reconheci sua voz. Estava fraca, quase inaudível.
— Liza… — respondi tentando não demonstrar que estava com dor, mas fui vencido — Dor…
Liza se afastou rapidamente envergonhada, mas consegui sorrir para ela, tranquilizando-a. Ela soltou um suspiro de alívio. Segurei sua mão com a minha mão boa, mostrando que eu estava bem. Liza a apertou de leve.
— Você me deixou preocupada — ela começou.
— Eu vou ficar bem — respondi — Afinal eu não posso deixar você sozinha, não é?
Nós dois sorrimos e ficamos daquele jeito por um tempo, apenas olhando um para o outro. Eu quis mais do que nunca poder estar bem. O bastante apenas para poder acompanhar Liza até a árvore perto do lago para podermos assistir o pôr-do-sol como naquele dia. Eu não me importaria mais se acordássemos de mãos dadas. Não me importaria de receber risinhos das ninfas ao nos ver. Eu só queria estar com ela.
Liza começou a se aproximar um pouco hesitante. Quase que inconscientemente eu apertei sua mão um pouco mais. Não conseguia parar de olhar para aqueles olhos. Poderia passar o resto da vida olhando-os. Eram lindos, de um verde intenso e brilhante, desenhados. Também comecei a me aproximar dela, embora não pudesse me mover muito. Nos aproximávamos cada vez mais, tão próximos que podíamos sentir a respiração um do outro. Eu podia sentir o perfume de seus cabelos. Tinha o cheiro de flores. Alguma que me escapava o nome. Não importava. Era um perfume delicioso e eu queria estar mais perto. Estávamos tão perto que os nossos narizes quase estavam se tocando. Podia sentir seu perfume mais do que nunca. Então nossos narizes se tocaram levemente, cada um indo para um lado dando espaço para os lábios também se tocarem. E então aconteceu:
— Se ficarem se pegando aqui dentro vou expulsar os dois numa cadeira de rodas.
Em qualquer outro momento aquilo poderia ter nos incomodado, mas não naquele. Sentir os lábios de Liza nos meus era tudo que minha atenção podia registrar. O beijo foi o mais incrível que eu poderia imaginar. Fez meu coração acelerar, ao mesmo tempo em que me dava calma. Fazia-me esquecer dos problemas. Podíamos passar o resto da vida naquele beijo e nada de ruim iria acontecer. Seus lábios eram macios, suaves, doces. Pareciam estar em uma conexão perfeita com os meus. E eu não conseguia deixar de beijá-la.
— Ei! Vocês estão pelo menos me ouvindo?
Mais uma vez a ignoramos. Por que eu deveria me preocupar em responder? Eu poderia continuar beijando-a que era muito melhor. Tudo que eu queria era continuar sentindo seus lábios nos meus. O resto que se dane. Pude ouvir o som de papéis sendo jogados no ar, como se Gina tivesse desistido de nos impedir. Melhor assim.
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