Beyond the Vengeance

45 A Flor Carmesim


Notas iniciais
Demorei um pouco mais do que queria, mas é um capítulo importante, então mesmo que já tivesse 90% pronto quando eu postei pela última vez, adiei ele o máximo para fazer umas pequenas mudanças (tipo reescrever ele inteiro umas 3 vezes). Boa leitura.

— Consegue mover o braço?

Terry acenou positivamente com a cabeça, mas não disse nada. Estava sentado sobre um futon, dentro de um dos alojamentos perto do santuário.

— Parece que você deslocou o ombro. — Kin se posicionou atrás dele, segurando seu ombro com firmeza. — Isso vai doer.

Ele se conteve para não gritar de dor ao ter o ombro recolocado no lugar, mas não pode evitar um gemido de dor. Alguns segundos depois a dor começou a aliviar.

— Acho bom você ir num médico depois, só pra ter certeza de que não tem mais nada de errado com seu braço. Mas por enquanto deve ficar bem.

— Obrigado.

— Tente descansar um pouco.

Terry a olhou de cima a baixo. Os arranhões em seus braços pareciam ter sido lavados. O pequeno corte no canto da boca agora estava quase imperceptível, mas ele sabia que ainda devia estar incomodando. E embora ela já estivesse de pé novamente, os ombros caídos e o olhar levemente abatido deixavam claro que ela também estava cansada.

— Você também deveria descansar.

— Vou fazer isso.

Ela se afastou dele. O cérebro de Terry ordenou que ele se deitasse, mas ele continuou sentado, com o olhar perdido, mirando o nada a sua frente.

— Kin. — Ele chamou quando ela estava prestes a sair pela porta.

Quando ela se virou, ele se perguntou por que a havia chamado. Então a pergunta escapou de seus lábios como se desde o começo quisesse dizê-la:

— Por que voltou para me salvar? — Kin pareceu surpresa com a pergunta. — Um pouco antes de tudo aquilo você quase me matou, então por que voltou?

Ela deu um riso fraco.

— Posso dizer praticamente o mesmo de você. — Ela desviou o olhar, parecendo pensativa por um momento. — Sei lá… eu não pensei muito no que estava fazendo. Acho… acho que é porque você se parece comigo.

Foi a vez de Terry ficar surpreso.

— Como assim?

Kin olhou para a porta semiaberta e a fechou. Voltou para perto do futon e se sentou no chão de madeira. Por um momento seu olhar pareceu mirar para o nada. Desde que a vira pela primeira vez, Terry sempre sentiu uma aura de confiança vindo dela, como se nada pudesse pará-la (o que de certo modo chegava a irritá-lo), mas naquele momento toda aquela confiança tinha indo embora. Vê-la mudar tão drasticamente o assustou um pouco.

— Gokudou…

— Gokudou?

— São criminosos… você já deve ter ouvido falar deles, mas por outro nome: Yakuza. — Kin observou a reação de Terry antes de continuar. — Quando eu era pequena, minha mãe ficou doente. Descobrimos que ela tinha câncer, mas já estava num estágio muito avançado. Ela tinha que operar logo ou então já seria tarde demais, mas nós éramos pobres, mal tínhamos dinheiro pra pagar os exames, quanto mais uma operação. Meu pai ficou desesperado. Ele não conseguiu um empréstimo no banco, então procurou em outros lugares. Eu não sei como, mas ele conseguiu que alguém emprestasse o dinheiro pra ele, dinheiro de origem ilegal. Conseguimos pagar a operação. Minha mãe ficou melhor. No entanto o tratamento ainda não havia acabado…

Terry começou a compreender aonde aquela história iria terminar.

— Mas o dinheiro acabou. — Ele supôs.

— Sim. — ela confirmou. — Podíamos tentar pagar o tratamento ou pagar o empréstimo aos poucos, mas os dois ao mesmo tempo… era impossível. Meu pai obviamente escolheu pagar o tratamento. Não demorou muito para que eles começassem a cobrar a dívida. No começo conseguimos ganhar algum tempo, vendemos tudo que tínhamos de valor, mas a dívida era grande demais, mesmo vendendo tudo não daria pra pagar nem metade. Então quando não conseguimos pagar mais nada eles começaram a vir toda semana. Nas primeiras semanas eles só gritaram e o ameaçaram, mas depois começaram a agredir meu pai. Ele sempre me trancava no quarto quando eles vinham, me mandava ficar quieta, falava que tudo ia ficar bem. Eu ficava os ouvindo gritarem e até baterem nele, mas no final, quando o barulho parava, ele abria a porta do meu quarto e sempre parecia bem, mesmo machucado. Até que um dia eles vieram e fizeram a maior confusão que já haviam feito. Quando o barulho parou eu fiquei esperando meu pai abrir a porta, mas isso nunca aconteceu…

Kin parou de falar. Terry queria dizer alguma coisa, mas sabia mais do que ninguém que em assuntos assim palavras não faziam diferença alguma. Ele esperou quieto até que ela voltasse a falar.

— Depois de um tempo eu mesma abri a porta. Minha casa estava uma bagunça, mas não havia ninguém lá. Foi então que Katsuo-sensei apareceu. Ele era um amigo do meu pai, embora na época eu tenha confundido ele com um dos bandidos e quase o atacado. Demorou um pouco, mas ele conseguiu me convencer de que ele era quem dizia ser. Ele me trouxe até aqui e me contou o que aconteceu. Com medo do que os bandidos podiam fazer se me encontrassem lá, meu pai deu um jeito de fugir e ligou para Katsuo-sensei, mas os bandidos o pegaram logo depois e o mataram… Minha mãe morreu um pouco depois, mesmo antes de o tratamento parar por falta de pagamento, como se a morte de um tivesse desencadeado a morte do outro. Eu tinha uma tia que morava na cidade vizinha, ela era o parente mais próximo que eu tinha. Depois que tudo aquilo, ela era a única pessoa com que achei que podia contar. Então assim que pude telefonei pra ela pedindo ajuda.

Terry percebeu os punhos de Kin se fechando com força, seus olhos ainda refletiam a tristeza dos acontecimentos, mas por traz deles também havia raiva.

— Até metade da história ela ainda era a tia que eu conhecia. Porém quando eu mencionei como meu pai morreu… quem tinha o matado… ela desligou. Eu não entendi na hora e voltei a ligar. De novo e de novo. Até que eventualmente ela pediu que eu parasse de ligar, disse que não podia assumir a dívida, nem queria arrumar briga com eles.

“Tudo foi rápido demais pra mim. Num momento eu era uma criança como qualquer outra, com uma família, uma casa… e depois eu era uma criança sem casa, sem família e sem dinheiro. Eu estava arrasada demais até mesmo pra chorar. Até mesmo no enterro dos meus pais… eu estava com tanta raiva, de tudo e de todos. Num momento eu tinha tudo que queria e no outro tomaram tudo de mim. Eu não queria chorar, eu queria que alguém pagasse por aquilo. Então entrei para o Doujou e Katsuo-sensei me deixou morar nele definitivamente. Durante um ano inteiro eu treinei sem parar, dei tudo de mim. Era a única coisa que podia fazer e me dedicava totalmente a isso.

“Então, depois de um ano e meio, eu me deparei com uma chance de me vingar. Vi os mesmo bandidos que vinham cobrar a dívida entrando em um carro quando fui à cidade comprar algumas coisas. Depois de saber que eles estavam na cidade fiz de tudo para acha-los novamente. Depois de um tempo encontrei o hotel onde eles estavam dormindo. É claro, eu não podia ir armada até lá de dia, não é permitido andar por aí carregando uma espada desde a era Meiji. Então dei um jeito de levar a espada para a cidade desmontada e embrulhada e à noite a montei novamente. Achei um lugar próximo para me esconder e esperei que eles aparecessem. De madrugada eles finalmente deram as caras e eu os ataquei. Mas dessa vez eles estavam acompanhados. Havia outro carro por perto que provavelmente estava esperando por eles, e o carro estava cheio de outros membros da Yakuza. Quando eu ataquei, todos que estavam dentro do carro saíram e eu logo fui cercada. Mesmo com a espada, eles me renderam. Depois que conseguiram me desarmar, eles começaram a me espancar. Tive sorte de alguns policiais apareceram pouco depois de eu desmaiar, ou ao menos foi isso que me contaram. Ninguém foi preso, e os policiais disseram que me encontraram sozinha, mas acho que eles simplesmente ficaram com medo de lidar diretamente com a Yakuza e simplesmente pararam o espancamento.

“Eu fiquei um bom tempo no hospital, quase morri. E depois que sai de lá ainda fiquei a maior parte do tempo descansando no Doujou, sem poder fazer praticamente nada. Katsuo-sensei cuidou de mim enquanto eu estava mal, e durante todo esse tempo ele não disse uma palavra sequer pra mim. Quando finalmente fiquei boa pra cuidar de mim mesma, ele parou de ir me ver, então fui até ele. Imaginei que ele estava bravo comigo por ter me metido em confusão, mas na verdade não era bem por isso. O motivo de ele estar bravo comigo não era por eu ter enfrentado os bandidos, ou por ter feito tudo isso pelas costas dele. O real motivo era porque eu tinha me esquecido do mais importante.”

— Como assim?

Kin olhou para o lado como se estivesse esperando que Katsuo aparecesse ali para responder a pergunta. Ele não apareceu, mas Terry teve certeza que eram as palavras dele que saíram da boca de Kin.

— Lutar pelo bem das pessoas que morreram, mas também pelo bem das que estão vivas. A vingança tende a jogar as pessoas numa luta sem sentido, mas é escolha sua continuar nesse caminho ou não. Sei que sou a pior pessoa para dizer para você desistir da ideia de vingança, e na verdade nem quero isso. Porém, só porque um caminho se tornou sem sentido, não quer dizer que você não possa dar sentido a ele.

Terry se deu conta que nunca havia pensando muito sobre o que a vingança significava para ele. Embora fosse filho de Atena e bolar planos fosse um costume em situações de batalha ou algo parecido, ele percebeu que nunca realmente fazia planos para ele. Pensara sempre no que deveria fazer, mas pouco no queria fazer. Naquele momento, ele percebeu que a vingança para ele era quase que um dever, algo que alguém tinha que fazer, algo que ele tinha que fazer. Tinha a impressão de quanto mais deseja se vingar, mais sua vingança se tornava destrutiva, algo necessariamente ruim. Sendo sincero consigo mesmo, desde que Liza havia se envolvido com a Ordem ele sentia que estava no caminho errado, mas a morte dela não o permitiu que ele parasse e desde então tinha evitado pensar no assunto, com medo de fraquejar, de desistir.

— Então… — Terry novamente teve a sensação de que as palavras escapavam por vontade própria de sua boca — você podia ter tornado sua vingança algo bom?

— Acredito que sim, mas não do jeito que fiz. Depois de muito tempo eu pensei: mesmo que não tivesse concretizado minha vingança, se meu ataque tivesse evitado um crime sequer que eles tivessem intenção de cometer, não seria uma coisa boa? Como Katsuo-sensei me disse uma vez, mesmo algo nascido de um sentimento ruim pode ser belo. Se não me engano ele fez um comparação. — Kin pensou um pouco, tentando relembrar o que Katuso tinha dito a ela — “…kurenai no hana no you ni mi wo kogashi kuruisaku”.

— Você realmente tem que parar com isso.

Kin deu uma risada antes de continuar.

— A vingança é “como uma flor carmesim que queima o corpo e desabrocha descontroladamente”. Você só tem duas opções: colher a flor ou deixá-la murchar. Se não colher ela continuará te queimando até que murche por completo, mas se você colher se machucará com os espinhos e de um jeito ou de outro vai expor espinhos a todos a sua volta. E uma vez que colher a flor, tem que conseguir segurá-la até o fim. No meu caso eu escolhi colher a flor deliberadamente, sem me preocupar com os espinhos, e no final fui fraca demais para segurá-la. Por fim eu a deixei murchar. Quando quis me vingar não pensei em nenhum momento que algo podia acontecer com Katsuo-sensei ou a todos do Doujou, não pensei que mesmo se só eu fosse atacada ainda assim afetaria outras pessoas a minha volta e, acima de tudo, não pensei que me arriscar daquela maneira seria jogar fora todo o esforço que meu pai tinha feito para me salvar. Acho que acabei ignorando tudo isso de propósito para que não desistisse, por que, no fundo, sabia que era fraca demais para colher a flor.

Um silêncio caiu sobre eles como uma pedra. Terry ficou sem palavras. Queria poder dizer algo, mas sua mente parecia ter levado um choque e estava difícil fazê-la funcionar novamente. Todos os momentos difíceis e decisivos de sua vida passavam rápidos como um raio por sua cabeça. A grande quantidade de pensamentos o deixou apenas meio consciente do julgamento que fazia sobre todas suas decisões até aquele momento. Antes daquela conversa ele se perguntava o que faria a seguir, mas depois de tudo aquilo sua preocupação era se devia fazer algo. Pelo que ele estava lutando? Estava mesmo no caminho certo? E a questão que mais o preocupou: quem mais poderia se machucar se ele continuasse? Depois de tanto tempo ignorando essas questões, Terry percebeu o quanto difíceis elas eram. Poderia passar dias pensando sobre aquilo e não tinha certeza se chegaria a uma conclusão, porém Kin interrompeu seus pensamentos.

— Ok. Eu contei boa parte da minha vida pra você. É sua vez agora. Eu ainda não entendi o que foi tudo aquilo lá atrás. Nem mesmo sei quem você é realmente.

Terry ficou grato por poder se concentrar em explicar para ela sobre sua vida. Quando decidiu contar a ela sobre ser um semideus, estava pensando em dar uma explicação geral, sem entrar em detalhes de sua vida ou o que tinha acontecido com ele. Porém, depois de ouvir a história de Kin, resolveu contar tudo também, não viu motivos para esconder quem ele realmente era.

Os dois passaram horas conversando. Era difícil explicar a vida de um semideus para um mortal, especialmente quando a névoa podia tê-la feito ver algo completamente diferente da realidade. Por mais de uma vez Terry esperou que Kin o chamasse de louco ou verificasse se ele não estava alucinando, mas ela apenas ouviu. Quando finalmente acabou de falar, Kin estava com a boca semiaberta, com os olhos ainda grudados nele, embora sua história já tivesse acabado.

— Eu sei que é difícil acreditar, mas tudo que falei é verdade. — Concluiu.

— Realmente… é difícil de acreditar, mas acredito em você.

— Hã? — Terry piscou, confuso. Nunca imaginou que ela acreditaria tão facilmente. — Você… acredita?

— Sim.

Terry imaginou se ele não havia deitado no futon como pensara em fazer horas atrás e tudo aquilo não fosse um sonho.

— Eu não entendi… Por que agora confiou tão fácil em mim? Pensei que eu ainda fosse meio suspeito pra você.

— Admito que tinha muitas suspeitas de você, mas… o modo como falou dela… Ri… Ri… Riza…

Não havia o som da letra “L” na língua japonesa, então era normal que Kin tivesse dificuldades em dizer o nome dela. Terry fez um gesto indicando que entendeu o que ela queria dizer.

— Bom, o modo como falou dela… sei que não estava mentido nessa parte. E não acredito que tenha mentido sobre o resto também. E depois de tudo que vi hoje, não chega a ser tão inacreditável assim. Então acho que posso dizer que acredito em você.

Terry abriu a boca para falar, mas nesse momento alguém bateu na porta. O homem que havia sido atacado por Richard, Tsukino, abriu a porta, apenas o bastante para que sua cabeça aparecesse. Ele disse algo em japonês, obviamente falando com Kin, embora tivesse lançado um olhar para Terry antes de falar. Kin assentiu e ele fechou novamente a porta.

— Eu tenho que ir. Tente descansar, logo vamos ter que voltar ao Doujou e explicar tudo isso para Katsuo-sensei. — Ela fez uma pausa. — Mas acho melhor deixarmos de lado toda essa história de deuses e semideuses.

Terry sorriu.

— Guarde o meu segredo e eu guardo o seu.

— Combinado. Essa conversa nunca aconteceu. De qualquer forma, se contasse pra alguém sobre o que eu te contei ia me certificar que fossem suas últimas palavras.

Ele não respondeu. Simplesmente se deitou finalmente relaxando após tudo o que havia acontecido. E ao ouvir a porta se fechar, também fechou ou olhos e mergulhou num sono quase instantâneo, completamente vazio e sem sonhos.



Terry estava correndo para a floresta aonde havia caído quando fora atacado. Carregava duas shinai nas mãos. Seu braço esquerdo ainda doía, mas ele tinha certeza de que a ambrosia que tinha pegado de sua mochila daria conta do recado.

Ele havia acabado de sair do Doujou, depois de uma longa conversa com Katsuo. Havia sido mais tranquila do que imaginara. Kin já havia cuidado de boa parte da história, contando-a a Tsukino. Terry só precisou adicionar sua versão. Tecnicamente não disseram nenhuma mentira, mas ocultaram partes estratégicas para que Terry não tivesse que se explicar novamente ou, na pior das hipóteses ser expulso de lá como um louco.

Agora Terry estava à procura de Kin, que havia ido até a floresta por algum motivo. Ele logo encontrou a trilha que tinha pegado da outra vez e começou a adentrar a mata. Passou pelo lugar exato onde ele havia caído, os galhos quebrados ainda denunciavam sua péssima aterrisagem. Ele continuou andando, dessa vez na direção contrária que tinha tomado, para dentro da mata.

Um som estranho na floresta chegou aos seus ouvidos. Conforme se aproximava, Terry foi reconhecendo uma melodia se formando, suave e calma. Aproximou-se devagar, fazendo o mínimo de barulho. A trilha o levou até uma pequena clareira. De frente para ela, um lago cristalino refletia toda a floresta como um espelho gigantesco. Sentada sobre a margem, com os pés mergulhados na água, Kin tocava calmamente uma flauta de bambu. Ela pareceu não notar a chegada de Terry. Ele tão pouco quis interromper a música. Continuou quieto, ouvindo Kin tocar calmamente uma nota após a outra, até que ela parece de tocar. Então, como se soubesse o tempo todo de sua presença, ela se virou e olhou diretamente pra ele.

— Há quanto tempo está aí? — Ele esperava que ela estivesse ao menos um pouco irritada por ele ter chegado sorrateiramente, mas sua expressão estava calma.

— Cheguei na metade da música, não quis interromper. Você toca muito bem.

— Obrigada. — ela voltou a olhar para o lago. — Venho aqui de vez em quando para me acalmar.

— Achei que sua ideia de relaxar estava mais pra bater em alguém por diversão do que tocar músicas japonesas.

Terry acabou soltando a provocação naturalmente, quase se arrependeu por isso, mas, supreendentemente, Kin riu.

— Na verdade não é nenhum dos dois. — Ela voltou a olhar para ele, parecendo se divertir por deixá-lo confuso. — Esqueci de mencionar isso, mas meu pai não era japonês. Ele era estrangeiro, e assim como você acabou confundindo China com Japão. Tanto a flauta quanto a música são chinesas, mas ele achou que estava me dando um presente japonês.

Kin olhou com carinho para a flauta, segurando-a como se fosse um objeto sagrado, que devia ser manuseado com o máximo de cuidado.

— Apesar de ter me dado isso por engano, foi uma das poucas coisas que me sobrou dele depois que vendemos quase tudo que tínhamos.

Terry inconscientemente colocou a mão sobre a marca em seu braço esquerdo. A imagem do diário de Liza apareceu em sua cabeça, tudo que Liza havia deixado para ele.

— A propósito, — ela disse se levantando — o que você está fazendo aqui? Pensei que ia embora depois de tudo. Katsuo-sensei te contou que acharam o amuleto nos escombros do santuário, não contou?

— Sim. Mas, mesmo que o amuleto tenha sido recuperado, eu decidi ficar.

— O quê?!

— O que foi? — Terry se sentiu um pouco incomodado pela surpresa dela com sua decisão. — Mesmo não tendo sido totalmente por minha culpa, eu ainda me senti responsável pelo que aconteceu no santuário, então vou ajudar na reconstrução dele. Antes de lutar contra você, Katsuo disse que eu poderia ficar no Doujou se passasse no teste dele. E ele achou que minha luta com você foi o bastante. Além disso… — Ele hesitou um pouco antes de dizer. — Além disso, não tenho muito para onde ir. Minha “casa” lá, não é realmente uma casa, é basicamente um lugar com uma cama, um banheiro e uma goteira. E eu só tenho causado problemas para as pessoas lá. Pelo menos por enquanto, acho que seria melhor para elas se eu ficasse longe.

Kin pareceu refletir por um momento.

— Então, quer dizer que você vai ser um aluno de Katsuo-sensei? Mesmo depois de toda aquela conversa sobre já saber esgrima?

— Bom… sim, não é como se eu não tivesse o quê aprender, mesmo já sabendo alguma coisa…

Terry parou de falar quando notou o sorriso de Kin. Não era um sorriso muito amigável, na verdade estava mais pra ameaçador.

— Então… — ela começou, se aproximando — a partir de agora parece que eu sou sua senpai, é melhor me tratar com respeito.

— Ei, ei… não estou interessando nesse negócio de senpai e kouhai…

— Hum, acho que não tem jeito, como sua senpai acho que é minha responsabilidade te colocar nos eixos…

— Ei, está me ouvindo?

— …acho que vai precisar de um nome novo, nem todo mundo vai conseguir pronunciar seu nome certo… já sei, a partir de agora vou te chamar de Tatemae-kun. E pra você agora eu sou Miyamoto-senpai.

— Você não pode sair mudando o nome das pessoas assim. — Terry sabia que só estava sendo provocado, ele mesmo não estava nem um pouco irritado, mas resolveu entrar no jogo — De qualquer jeito eu não vim aqui pra conversar.

Dizendo isso ele atirou uma das shinai na direção de Kin. Ela a apanhou e, deixando sua flauta cuidadosamente encostada em uma árvore, colocou-se em posição.

— Então vamos fazer um trato, se conseguir acertar um golpe em mim pode escolher como quer ser chamado, mas se não conseguir vou continuar te chamando de Tatamae-kun. É um nome perfeito pra você.

Terry teve que admitir que sugerir que o máximo que ele conseguiria seria um único golpe conseguiu irritá-lo.

— Então, quando eu te derrotar também vou chamá-la do que quiser e você não poderá reclamar.

— Feito! Mas dessa vez não vou pegar tão leve com você.

— É isso que vamos ver!

Assim, enquanto as espadas de bambu perturbavam a calmaria da floresta, pela primeira vez em meses, Terry sentia que tinha tomado uma decisão certa. Após tanto tempo perdido, ele tinha que recomeçar por algum lugar. E se o processo fosse tão difícil quanto acreditava que seria, ele preferia estar ali, longe de todos que podia machucar ou atrapalhar. Não se arrependeu das horas que passou refletindo sobre as palavras de Kin, nem de ter pedido perdão a Katsuo antes de pedir para ficar no Doujou. E mesmo quando saísse com um olho roxo daquela luta, ainda assim não se arrependeria.

Notas finais
Acredito que já mencionei, mas só para deixar claro: é quase certo que vou demorar para postar novamente. Esse capítulo encerra um arco, e só irie voltar a postar quando tiver o próximo arco pronto ou (dependendo do tamanho) 70% pronto. Obrigado por lerem e até a próxima o/