Beyond the Vengeance

46 Perseguição


Notas iniciais
Novamente, desculpem a demora. Estava preso entre escrever poesias pra garotas que iam me deixar depressivo ou com crises de ansiedade e usar um micro-ondas pra fazer bananas voltarem no tempo. Mas agora que minha inspiração voltou (e minha insônia também) vou voltar a postar com mais frequência, vou tentar passar de um capítulo por ano pra um por mês. Boa leitura.

Chris andava depressa por um corredor simples, mas elegante. Alguns quadros nas paredes, portas de madeira, uma ou outra mesinha com livros. Tudo ao seu redor tinha um ar clássico. Era quase impossível imaginar que um local como aquele tão calmo, mas Chris sabia que tudo aquilo era apenas uma fachada. Ao menos a maioria daquilo era.

A cada passo que dava ele se sentia mais nervoso, com medo e também com raiva. Quando as portas duplas no final do corredor cresceram em seu campo de visão ele teve vontade de desistir e dar meia volta, mas já era tarde demais para isso. Se esforçando para se manter calmo, ele fez o máximo que pôde para bloquear sua mente. Embora fosse muito bom nisso, sabia que dependendo de suas ações nos próximos cinco minutos, nada daquilo adiantaria. Contudo, tentou se convencer de que o que estava prestes a fazer não era nada demais. Após inspirar fundo duas vezes, abriu a porta.

O cômodo dava para o lado externo do edifício. Uma grande janela do lado oposto à porta exibia uma bela vista da cidade. Já era de noite, mas a iluminação da cidade lá fora era o bastante para tornar as lâmpadas da sala quase obsoletas. Chris a avistou perto da janela. Uma mulher, um pouco mais velha e mais baixa que ele. Ela olhava para a cidade, não parecia ter notado a chegada de Chris. Ele achou que ela estava esperando por ele, mas ao vê-la olhando para a cidade lá fora achou que tinha exagerado um pouco. Porém seus olhos caíram sobre sua mesa.

Era relativamente grande para apenas uma pessoa, mas estava bem ocupada. Materiais de escritório, três celulares diferentes, dois telefone fixos, uma pilha de documentos no canto, um mapa no centro e um computador ao lado do mapa. A pouca tranquilidade que Chris havia ganhando antes se esvaiu ao ver que jogado sobre o monitor havia um tapa-olho. Ele imaginou se ela o tinha tirado de propósito.

— Tenho coisa melhor pra fazer do que tentar te assustar Chris — a mulher disse calma, mas firmemente. — As coisas estão meio paradas, mas ainda prefiro ter todos atentos para caso algo aconteça, então se tem algo pra dizer, diga logo.

Chris não conseguiu evitar engolir em seco após ter sua mente lida tão facilmente. Podia jurar que estava bloqueando qualquer invasão ao máximo.

— Eu… — embora seu nervosismo tivesse aumentado, ele tentou se controlar ao falar — Soube que um de nós foi expulso.

— Foi.

— Por quê?

— Quebra das regras.

— Quais regras?

— Artigos 12, 15 e 46.

Chris não se lembrava dos artigos 12 e 15, mas sabia muito bem sobre o 46.

— Tenho certeza de que foi apenas um mal entendido.

— Chris! — Ela virou a cabeça ligeiramente, mostrando a metade direta de seu rosto. — Não importa o que você fale, eu não vou voltar atrás na minha decisão. Ela cometeu inflações sérias e foi punida por isso.

— Vocês roubaram as coisas dela! — ele gritou.

A mulher se virou para encará-lo. Chris se arrependeu de ter elevado a voz. Pela primeira vez teve uma vista completa de seu rosto, incluindo seu olho esquerdo. Ela não tinha mais que 1,60 metros de altura, porém seu olhar era penetrante como uma adaga. Seu olho esquerdo, cego pelo que diziam, era branco como um ovo e uma cicatriz nada bonita cruzava a pálpebra até a maça do rosto. As linhas duras de sua feição e o cabelo cortado baixo no estilo militar completavam a aparência de Lan Halie. Seu único ponto mais suave estava em seus olhos (o direito pelo menos) levemente puxados. Porém nada disso a impedia de intimidar qualquer um que se pusesse em sua frente. Especialmente os mentalistas, de quem ela era líder, que sabiam exatamente quão poderosa era sua mente.

— Nada sai daquele quarto até fazermos uma investigação completa. Ela aparentemente fugiu, então a não ser que apareça voluntariamente para se explicar, ela será procurada. Não pense que eu não sei sobre vocês dois. Então se sabe alguma coisa sobre isso eu aconselho que fale.

— Não sei de nada. — Ele respondeu com a voz trémula. Chris não sabia exatamente se por causa da raiva ou do medo.

— Ótimo. Mas enquanto ela não aparecer ou for capturada, nada entra ou saí daquele quarto sem minha autorização. Fui clara?

Por mais que fosse arriscado, Chris não respondeu. Simplesmente deu as costas e saiu daquela sala. Teve vontade de socar a parede, mas não queria que nada se quebrasse. Se acontecesse ele teria outro problema e já estava cheio deles.

Parecia que tudo estava dando errado. Primeiro brigara com Terry e nem sabia se ele havia viajado ou não. De certa forma nem queria saber. Depois tinha a pista falsa que ele tinha seguido durante uma semana inteira e agora aquilo. Tinha perdido contato com Michelle, pois o único papel com o número dela estava agora no quarto onde ninguém podia entrar. Chris se xingou por não ter feito uma cópia do número. Agora parecia um erro idiota, mas ele nunca esperou que algo daquilo acontecesse.

Ele andou rápido pelos corredores do prédio, sem nenhum destino certo. Simplesmente precisava pensar e fazia isso melhor em movimento. O que diabos tinha acontecido naquele último mês?

— Ei, Chris! Aonde vai?

Sem perceber, Chris estava indo justamente para a área proibida. Se a garota loira não o tivesse impedido talvez ele realmente tivesse entrado.

— Ninguém pode entrar no quarto, ordens do “Fury”. — Ela anunciou.

— Desculpe, Milla. Estava meio distraído.

Em resposta a garota deu um peteleco em sua testa.

— Aí! Por que isso? — Chris perguntou massageando a testa.

— Porque você estava com guarda baixa.

Chris suspirou. Milla era alguns anos mais nova, mas era uma mentalista quase tão boa quanto ele. Talvez até mesmo o superasse se não fosse sua tendência infantil de brincar em serviço. De algum modo ele havia conseguido domar a impaciência e a hiperatividade de Milla quando estavam trabalhando juntos, mas em troca ganhou a afeição da garota e ela o procurava sempre que estava entediada ou sem nada pra fazer. O que nem sempre era do agrado de Chris.

— Não enche. Estou com problemas o suficiente.

Ele se arrependeu de ter dito aquilo. Tinha quase certeza que só colocaria mais lenha na fogueira se continuasse falando, mas para sua surpresa Milla se manteve quieta e lançou um olhar para a porta em suas costas. Chris não precisava ser mentalista para saber o que ela estava pensando.

— Desculpe, não parei pra pensar em como as coisas tem sido difíceis pra você.

— Não precisa pedir desculpa. Eu só queria entender o que está acontecendo.

— Eu acho que sei tanto quanto você. Numa hora está tudo bem e na outra ela foi expulsa. Parece que ninguém sabe muito sobre o assunto ou se sabe o Fury já deve ter dado uma ordem pra manter todos de bico calado. Eu fiquei com medo de que você também tivesse sido expulso porque… bom, você sabe.

Chris se sentiu mal por ter envolvido Milla naquilo. Embora tivesse sido um acidente, ele pediu para que ela guardasse segredo e ela o fez. Sabia que mesmo que apenas guardasse aquela informação, ela podia sofrer algum tipo de punição. Era mais do que ele podia esperar dela. Milla tinha muitos defeitos, mas infidelidade não era um deles.

— Também achei que seria expulso ou penalizado de alguma forma, mas só ela foi. Não foi nada relacionado a nós. Alguma coisa aconteceu… por falar nisso, você se lembra de quais são os artigos 12 e 15?

— Hum… do artigo 12 eu me lembro. Recebi uma advertência por isso semana passada. É sobre indisciplina e/ou insubordinação. Mas o artigo 15 eu não sei. Algo sobre proteção de informações talvez. Lembro que ficava perto do artigo 12.

— Hum, mas não acho que isso causaria uma expulsão. Principalmente se tratando dela.

— Então é disso que a estão acusando?

— Sim.

Milla fechou os olhos e coçou a cabeça com ambas as mãos.

— Isso não faz sentido! Ela não faria uma coisa dessas.

— Tirou as palavras da minha boca. Acho que seria bom tentar descobrir o que aconteceu perguntando aos outros. — Chris estava pronto para sair quando Milla o segurou pela manga da camiseta.

— Eu não posso sair daqui. Estou de vigia. Acho que é meu castigo pela semana passada.

— Eu estou indo sozinho. — Chris esclareceu, sem um pingo de compaixão.

— Mas está chato aqui. — Milla choramingou.

— Isso é para você aprender a se comportar. — Chris piscou — Aliás, o que você fez?

— …chamei ela de Fury. — Ela respondeu baixinho.

Chris suspirou.

— Se mate sozinha. — Chris respondeu dando um peteleco na testa de Milla e saindo dali antes que ela pudesse revidar.

— Quando você precisar da minha ajuda vai receber um de volta! — ela gritou.

— Isso foi porque você estava com a guarda baixa! — Chris gritou de volta.

Chris passou o resto do dia fazendo perguntas a outros mentalistas, mas não pode descobrir nada mais do que já sabia. A teoria de Milla sobre existirem ordens para que ninguém falasse parecia cada vez mais realista. Não era possível que ninguém soubesse de mais nada.

Cansado, Chris se encostou na parede mais próxima, pensando sobre seu próximo passo. Tinha falado com todos os mentalistas que estavam no prédio. Pelas contas dele não havia muitos fora e quando eles iriam voltar era outro mistério. Havia uma única mentalista que talvez soubesse de algo, mas com seu único número de contato preso dentro daquele quarto ele nada poderia fazer.

Não pretendia falar com Michelle tão cedo, mas devido às circunstâncias, se houvesse outra pessoa além dele para qual ela correria em uma situação como aquela essa pessoa era Michelle. Chris se lembrou de quando havia conhecido Michelle, imaginou se ela havia mudado muito depois de tanto tempo no Japão. Embora não fosse sua vontade, Chris também se lembrou de outra coisa que ocorrera no mesmo dia em que conhecera Michelle… a promessa que fizera.

— Que se dane! Isso é uma emergência. — Falou para si mesmo, sabendo que era uma justificativa sem valor algum para o que estava prestes a fazer.

Evitando pensar sobre aquilo, ele se dirigiu de volta onde Milla estava. Pelo caminho não encontrou mais ninguém. Estava torcendo para que ninguém tivesse trocado de posto com Milla ou pior se juntado a ela em seu serviço de vigia. Chris sabia que podia lidar com Milla sozinha, mas se outra pessoa estivesse guardando as portas do quarto poderia ser problemático.

Para sua surpresa, não encontrou ninguém guardando a porta. E mesmo que fosse um golpe de sorte, sua experiência fez um alarme soar em sua mente. Com o máximo de cuidado e redobrando a atenção, Chris entrou furtivamente no quarto.

Era um cômodo simples e pequeno, com espaço suficiente para apenas duas pessoas, mas Chris sabia que só uma pessoa dormia ali. As duas camas estavam perfeitamente arrumadas, como se não tivessem sido usadas por algum tempo. Havia um grande guarda-roupas numa das paredes, um criado mudo ao lado de cada cama e uma porta que levava ao banheiro. Se ninguém tivesse mexido no quarto, o número de Michelle estaria na gaveta do criado mudo ao lado da cama à direita.

Chris se moveu com cuidado pelo quarto, como se andasse em um campo minado. Sabia que não podia fazer barulho e que tinha tomar o máximo de cuidado. Não acreditava que a falta de segurança fosse um mero descuido, mesmo se tratando de uma segurança tão duvidosa quanto a de Milla.

O mentalista abriu a gaveta e soltou um suspiro de alívio ao ver que o papel com o número de Michelle ainda estava lá. Sem perder tempo, ele enfiou o papel no bolso e ia fechar a gaveta quando notou outro papel que não deveria estar lá. Parecia ser uma folha de um bloco de notas. Nele havia vários dados anotados à mão, pareciam ter sido rabiscados às pressas, mas Chris reconheceu de quem era àquela letra assim que o viu. Na iminente possibilidade de ter achado uma pista, ele apanhou o papel rapidamente, porém, assim que seus dedos tocaram o papel, um estrondo quebrou o silêncio do quarto como uma marreta quebrando um espelho. E assim como quebrar um espelho, Chris sentiu que aquilo traria muito azar.

O som havia vindo exatamente de cima dele. Olhando pra cima, o mentalista pode ver uma pequena nuvem de poeira cair do teto. Sem perder mais tempo, Chris saiu como raio do quarto e se dirigiu para as escadas. Pretendia subir e verificar o que havia acontecido no andar de cima, mas quando estava prestes a subir outro estrondo tão forte quanto o anterior chegou a seus ouvidos. Um segundo depois um alarme começou a tocar e por todo o prédio uma voz fazia uma anuncio de emergência. Chris nunca imaginou que Lan Hallie pelo alto-falante poderia ser ainda mais assustadora do que pessoalmente.

— Código Vermellho! Todos os mentalistas disponíveis assumam posição! Capturem Chris Lewth e qualquer um que estiver com ele. Isso não é um treinamento. Impeçam que ele deixe o prédio a qualquer custo!

Notas finais
Eu disse que ia voltar a postar quando estivesse com pelo menos um arco pronto... o que não é o caso, mas me cansei de revisar tantos capítulos prontos pra serem postados e ficar segurando eles porque não tenho uma conclusão para o arco ainda. Então fiquem tranquilos porque ainda tenho alguns capítulos pra postar. Juro pela minha internet que não vou demorar um ano pra postar dessa vez. Pelo menos não por alguns meses... Até a próxima!